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A RECEITA DA FELICIDADE – Edmir Saint-Clair

Todos os dias pipocam dúzias de  textos sobre o tema Felicidade. Livros são lançados, artigos escritos, vídeos e todo tipo de arquivos são produzidos e vem se juntar a uma incontável biblioteca sobre o assunto. 

Ao refletirmos sobre isso, vemos que existem milhares de rótulos cujo cerne é a felicidade: psicologia, filosofia, autoajuda, meditação, sexoterapias, práticas tântricas,  yogas e outras centenas de "cadeiras" da matéria. 

"Felicidade não existe, 
o que existe são momentos felizes".
Peninha

Por mais óbvia e simplória que essa frase pareça, a princípio, trás uma verdade incômoda e nem um pouco romântica. Em seu enunciado, já determina sua finitude inexorável. 

Que tipo de felicidade transcendental é essa que a humanidade tanto busca? Uma felicidade perene e inalterável, onde cessa a tristeza e a contrariedade.
Um "foram felizes para sempre..."

Assim colocado, fica fácil vermos que, sob esse ângulo, a felicidade é uma utopia absoluta. 

Mas, se a pensarmos como um momento de pleno gozo da existência, a filosofia "Peninha" é absolutamente verdadeira. 

A maioria de nós, que já passou de certa idade, tem plena certeza de que existem muitos momentos onde nos sentimos plenos, felizes. Pelos mais variados motivos. 

Saber perceber esses momentos, enquanto estão acontecendo, é fundamental no processo de ser feliz.

Esse processo é desenvolvido intuitivamente durante a vida, e a forma como esse aprendizado se consolida em cada um é o que determina a capacidade ou a incapacidade de alcançar esses  momentos. Se desenvolveremos ou não a capacidade ser feliz. 

Ser feliz é um mérito pessoal. Uma conquista.

 Essa consciência do agora, esse momento no qual nos damos conta de que, naquele segundo, estamos sendo felizes, a felicidade se completa e explode como um gozo total do ser, pleno. Isso é o resultado de um processo, é a consciência do momento e requer aprendizado. 

É por ele que a humanidade vive. Para sermos palco, em nosso interior,  de uma explosão espetacular de sentimentos e sensações que são absurdamente compensadoras. 

Ás vezes, sua exteriorização não passa de um leve sorriso. Outras, é, literalmente, um gol do seu time num estádio lotado só com torcida a favor. Um espetáculo!

Para que esses momentos ocorram, é preciso que aconteça uma evolução sincronizada dos acontecimentos provocadores, únicos em cada ser.

Esse conjunto de fatores, muito pessoais e individualizados, se juntam e fazem nosso sistema orgânico produzir uma série de hormônios, em quantidades e proporções únicas, de tal forma que o resultado é a descarga daquelas sinapses únicas que provocam a sensação de Felicidade.

Esse processo é extremamente individual e único. Sequer no mesmo indivíduo acontece exatamente da mesma forma duas vezes. O simples fato de já ter ou de nunca ter acontecido já determina essa originalidade. 

Pensando assim, na felicidade como um conjunto de fatores que nos faz sentir bem por um período  de tempo, podemos sim encontrar esses ingredientes em atitudes diárias que nos proporcionem mais prazer do que incômodos. Com a frequência dos momentos prazerosos estaremos aumentando a possibilidades de que os fatores disparadores daquela sensação estejam presentes por mais tempo, aumentando a chance de sentir aquelas sensações.

Para que tenhamos o discernimento necessário para saber o que nos agrada, o que não faz diferença e o que realmente nos contraria profundamente , é preciso um autoconhecimento bastante razoável.

Prestar atenção nos próprios sentimentos e reações é fundamental. Ter a capacidade de perceber onde estão nossos limites requer autocrítica, sempre incômoda e perturbadora. Ninguém gosta de reconhecer limitações.

Depois dessa etapa, vem uma tão difícil quanto: estipular os nossos limites externos. 

Até onde deixar que os outros opinem, influam e nos cobrem por nossas decisões de âmbito pessoal? Até onde deixar, e quem vamos deixar, "se meter na nossa vida".
Até onde dar satisfação de nossos atos, e a partir de onde nossas motivações e propósitos são questões sobre as quais não devemos satisfação a ninguém?

É complicado. Mas, ninguém disse que não seria. 

Para procurar a receita, primeiro é preciso descobrir quais os ingredientes e que quantidades devem ser usadas para que o resultado nos traga a satisfação da vida com sabor.

E, como seria  bom, se  pudéssemos deixar essa receita como herança para nossos filhos. Como a receita de um bolo da vovó.
Mas, infelizmente, essa receita só vai servir para você. 
É pessoal e intransferível. 
E, quando a gente pensa que está chegando a uma conclusão, entra mais alguém na história e dana-se tudo de novo.

Se sozinho já é difícil, imagina a dois...


     

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TERRA PLANA, DOENÇAS E A DESIGUALDADE INTELECTUAL – Edmir Saint-Clair

Para mim, é muito difícil acreditar que essa 
“Teoria” da Terra Plana possa ser levada a sério 
por alguém com um pingo de sanidade mental.

O ser humano é, sem dúvida, um animal com uma característica muito peculiar: é o único que consegue desaprender.

Uma onça, por exemplo, que atacar um porco-espinho adulto, via de regra, terá dolorosas lembranças espetadas em sua boca e focinho. A probabilidade desta mesma onça atacar novamente um porco-espinho é mínima ou nula dali pra frente. Essa lição nunca será esquecida durante toda a vida do felino. Ela jamais vai duvidar ou questionar o que aprendeu, o que comprovou cientificamente através de sua experiência prática. Após o evento, será muito pouco provável que volte a se arriscar.

O ser humano é diferente, parece sofrer de uma triste capacidade de retroceder em seu processo evolutivo, de involuir, de desaprender. Parece não se importar em jogar fora conquistas importantes e fundamentais para sua própria segurança, para que sua vida seja potencialmente melhor.

O recrudescimento da ignorância é o mais preocupante sintoma da desorientação mental pela qual nossa sociedade parecer padecer atualmente. A Terra plana é um desses sintomas. Para que alguém acredite que a terra é plana tem que, necessariamente, desacreditar de todo o progresso conquistado pela ciência nos últimos séculos . Praticamente tudo desde Galileu Galilei até hoje. E, pior, tem que acreditar numa imensa e colossal Teoria da Conspiração, claramente doentia e psicótica.

Não hesito em apontar que a pior crise que o Brasil vive hoje é a intelectual. A decadência de nosso sistema de ensino  tem se refletido de forma trágica nas escolhas realizadas por nossos cidadãos quando votam para escolher seus representantes, demonstrando como são facilmente enganados, ludibriados e conduzidos como um "admirável gado novo" de Zé Ramalho. A ignorância sempre é terreno fértil para que o que há de mais condenável numa sociedade emerja. Por isso, mantê-los nessa situação de incapacidade intelectual é tão interessante para políticos e religiosos.

O Sarampo que já havia sido erradicado há anos volta preocupar bastante nosso país. O caso é sério e grave. Um absurdo, uma abominação. E não só os não vacinados estão em risco, toda a população está.

Não sem motivos, essa onda de ignorância que parece estar aumentando de forma galopante, deixa claro um aspecto sobre o qual não vejo comentários ou preocupações manifestadas: o abismo da desigualdade intelectual.

Sob esse prisma as projeções são dignas das piores distopias imaginadas, por enquanto, como ficção.

É muito mais difícil presenciarmos alguém questionar a importância de uma vacina quando ela tem o mínimo de conhecimento formalmente adquirido de fonte com competência reconhecida.

O pior aspecto da desigualdade intelectual é que ela cria um abismo onde deveria haver uma ponte. 

Ela impossibilita o entendimento entre as pessoas no seu dia a dia. Chega a criar barreiras lingüísticas entre indivíduos que falam a mesma língua, dada a diferença de capacidade de entendimento recíproco. Gera antipatia onde deveria haver empatia. Abre espaço para todo tipo de crenças, superstições e teorias estapafúrdias, desagregadoras e perniciosas.

O desconhecido sempre foi o pior dos fantasmas para o ser humano. E, ele sempre tenta preencher esse buraco, provocado pela ignorância, com qualquer coisa que aplaque seu medo. Mesmo que seja a mais insana e absurda das explicações.

Nesse panorama, abre-se espaço para o sarampo, poliomielite, febre amarela, falsos profetas (aqui, uma nítida redundância), políticos hipócritas (também redundante), ladrões, criminosos e canalhas de todos os tipos em todos os segmentos da atividade humana.

Abre espaço para o retrocesso. A ignorância abre espaço para o desentendimento, para a mentira, para o mau-caratismo, violência, racismo, homofobia, doenças e para tudo que há de pior na natureza humana. Se temos alguma missão na vida, com certeza uma delas é conseguir evoluir a ponto de erradicar esses piores aspectos de nossas mentes e personalidades.

Por isso, a solução nunca estará no passado, porque a única solução é evoluir. E, para isso, a expansão do conhecimento deve ser ininterrupta. Temos que fazer diferente do que sempre fizemos para alcançar resultados que nunca alcançamos.  

Que resultados? Viver com menos aflições, com menos medo e com menos doenças, para que cada um possa ser o mais feliz que conseguir. Parece simples e é.

Dentre outras coisas, o conhecimento nos faz acreditar no futuro, no surgimento dessas novas possibilidades.

Não tenho a menor dúvida de que só o conhecimento advindo da ciência poderá nos salvar desse delicado momento que a civilização humana atravessa.

Esse texto foi publicado originalmente em 09 de julho de 2019. A ocorrência da Pandemia reforçou e piorou, ainda mais, todos esses aspectos. Inclusive, com relação a questão alarmante da resistência às vacinas.
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RECOMEÇAR - Poesia - Edmir Saint-Clair

O passo difícil, hesitante
O passo maior que o instante
Maior que todas as distâncias

Recomeçar sem ter para onde ir
Porque ontem não é um lugar
Para onde se possa seguir

Por instinto, caminhando, 
procurando atalhos
Bebendo água no gargalo, 
Errante

Recomeçar; um tentar constante
Sabendo que há sempre um fim 
em cada instante
E também o minuto avante
Que transforma tudo em novo instante.
Sempre.

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NÃO HÁ LEI QUE OBRIGUE - Edmir Saint-Clair


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AMAR O TEMPO – Poesia - Edmir Saint-Clair



Todo minuto é momento
Um invento, um sentido, 
Por fora, por dentro,
É cada segundo, sem tempo,
É quase nada no vento

A vida são horas correndo 
e se existe ou não um destino,
Ele é só um menino que não sabe onde vai

A verdade é que nada se sabe, 
Se é do errado que se chega ao certo,
Se é para frente, para trás ou para os lados,
Porque não tem lado certo, nem errado
Não tem nem em cima, nem embaixo

E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber para que andar
Já que é o tempo que nos carrega
Até onde quiser nos levar

Que me leve em qualquer pé de vento

Para um tempo que seja de amar
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SONHO É VERSO – Poesia – Edmir Saint-Clair

 

De que são feitos os sonhos?

De desejos, de  paixões, 

De vontades, De ilusões,

De necessidade, de  fome, 

De  sede,

De tesão

Há muitos tipos de sonhos, há muitos tipos de tudo,

Há o sonho que é esperança, outro que é melancolia,

Há o sonho que é vingança e há outro que é poesia.

O sonho é um encontro consigo, 

É a pista que falta,

O fio da meada,

A compreensão da vida,

É à frente do seu tempo 

É Maior que a rima,

É um verso,

É passeio no universo,

É  vislumbre do infinito, 

É a ilusão de um ser eterno.

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FERA - Poesia - Edmir Saint-Clair


Destruir o berço, a mata, a essência,
Que acalenta, com sons , cores e frutos
O futuro que é da vida, não nos pertence.

Matar a mãe, cuspir no prato que alimenta,
Suicidar-se, matar o mundo que é do filho,
Da beleza, do sonho, de si mesmo.

A ganância, grande herança do nada,
Nos torna cegos, sem ver belezas
E rezamos, pagãos hipócritas,
Carrascos do ventre que nos gerou.
    
E perdidos os homens, tão sem caminho,
     Se matam, matando tudo, seu próprio ninho.
Natureza que cria, que cura, que chora,
Pelo filho que lhe devora as próprias entranhas.
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OLHAR – Poesia – Edmir Saint-Clair

 

Quero entrar nos teus sonhos

                            Bem fundo

Com um  balde de tintas de todas

                            As cores

Para te colorir

Para saber teus segredos

                                  Como o sol que desvenda as manhãs

Mergulhar nesses teus lindos olhos

E morar para sempre no teu doce olhar

   Me iludir e me desconhecer

                                   Te confundir com o céu e com o mar.

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MIKE TYSON: NUNCA HOUVE UM PUGILISTA COMO ELE - Edmir Saint-Clair

 

Mike Tyson começou a lutar, profissionalmente, no dia 06 de março de 1985, quando venceu o Porto-Riquenho Hector Mercedes por nocaute no primeiro round. Daí pra frente foi uma saraivada inacreditável de nocautes consecutivos. Foram anos seguidos dando surras em todos os recordes possíveis do Boxe.

Não sei precisar a partir de quando comecei a acompanhar sua carreira. Naquela época, não existia canais por assinatura, ou a gente via na TV aberta ou não via. Sempre gostei de boxe, desde pequeno, e lembro perfeitamente de lutas de Mohamed Ali. Lembro-me da chamada “Luta do Século”, em 1974, quando Ali enfrentou George Foreman. De lá pra cá, sempre acompanhei com atenção tudo que passava na TV ou saía nos jornais sobre boxe. Ou seja, me considero uma pessoa com conhecimento mediano sobre as lutas e protagonistas do nobre esporte bretão, como era chamado na época em que Léo Batista narrava as lutas.

Com a carreira de Mike Tyson foi diferente. Já era adulto quando ele começou a lutar. Nessa época, já conhecia a história e havia visto muitos filmes e documentários sobre as carreiras dos grandes astros do boxe. 

As lutas de Mike Tyson eram completamente diferentes das outras. Não existia fase de estudos entre os adversários, não existia a dança de pernas de Ali, não existia a esgrima magnífica dos lutadores cubanos. Existia era porrada na cara do pobre que ousava enfrentar a máquina de nocautear chamada Mike Tyson.  Era absolutamente impressionante e rápido.

Após os primeiros nocautes, todas as TVs do mundo passaram a transmitir suas lutas, incluindo as do Brasil. As lutas eram, geralmente, nos sábados à noite, depois da meia noite. Rapidamente, o pessoal do Bar Clipper, no Leblon, incorporou o evento, e vi muitas lutas no bar com uma penca de amigos e freqüentadores. Em algumas, perdi a luta porque havia ido ao banheiro. E vi muitos outros passarem pelo mesmo desgosto de mijar na hora errada.  Bastavam uns 3 minutos de descuido e perdia-se a luta pela qual esperávamos tanto.

Mike Tyson teve outra característica impressionante, a quantidade de lutas que fez nos dois primeiros anos como profissional (1985/86); foram 28 lutas num período de 22 meses. Sendo que dessas 28 lutas, apenas duas foram decididas por pontos.

Como tudo na vida, um dia as histórias sem encerram, sem exceção, e Mike Tyson foi nocauteado por um lutador obscuro, como ninguém poderia imaginar, em 1990, após uma série de confusões em sua vida. 

Agora, ele volta aos noticiários e vai realizar uma luta como nunca houve na história: um ex-campeão mundial vai lutar (exibição) aos 54 anos de idade. Gosto de duvidar muito que seja só “exibição”, não para Mike Tyson.

Para mim, não resta a menor dúvida: nunca houve um lutador de Boxe como Mike Tyson.

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UM OUTRO MUNDO – Poesia - Edmir Saint-Clair


Enquanto a noite amanhece lenta
Nossos Corpos se reconhecem quentes
Revelando mundos
 Que afinal se entendem

Muito, todo, tudo
Sangue trocando de veia,
Renascendo dentro de um mundo à parte
Construído pela arte que só quem ama sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha
Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente
Um mundo além do mundo
Um mundo além do sonho
Um mundo além da gente
Porque ao sonho faltam 
a tua carne, as tuas unhas e os teus dentes.
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ÁGUAS DE MARÇO EM LONDRES – Edmir Saint-Clair

 
Áudio da postagem: voz artificial


A última coisa que se espera, quando estamos em outro país, no caso a Inglaterra, é que um inglês saiba mais uma letra de Tom Jobim do que a gente, que é brasileiro e carioca.

Estava vivendo um tempo em Londres, maravilhado com aquela mágica atmosfera londrina da segunda metade dos anos 80. Uma das coisas me levou até lá foi a música.

Uma das características mais fascinantes da cidade é a quantidade de lugares onde se pode ouvir música ao vivo. Nos parques, estações de metrô e restaurantes, na hora do almoço. A partir do entardecer a oferta aumenta e não existe lugar no mundo com mais estabelecimentos com música ao vivo.

Os pubs londrinos são famosos, não se precisa acrescentar nada ao que já foi dito quanto a isso.

Tive vontade de tocar num pub na hora do almoço. Uma apresentação solo. Voz e violão, como nunca havia feito ou sequer cogitado até aquele momento. Um pocket show de bossa-nova. Nunca fui bom em decorar nem as minhas próprias letras, mas como eram todas em português, mesmo que eu errasse ninguém perceberia. A vida inteira participei de bandas, nunca havia feito uma apresentação solo.

Meus amigos ingleses se encarregaram de conseguir o lugar para que eu realizasse minha fantasia musical.

Era um restaurante bastante agradável e espaçoso. Claro e arejado, nem parecia ser londrino. O pequeno palco era baixo e a altura do som era regulada como música ambiente. Não incomodaria quem estivesse conversando. Perfeito para mim.

Uma experiência similar a dos músicos de churrascaria, mas em Londres. Pelo menos, não tinha ninguém conhecido se o fiasco acontecesse. Isso me trazia calma.

Depois de desfilar um monte de Djavan, Toquinho, Gil, Tom e Vinícius, resolvi finalizar o set cantando Águas de Março.

Durante toda a apresentação, uma mesa próxima demonstrara estar gostando. Das sete ou oitos pessoas, um homem em particular estava bastante entusiasmado. Inclusive, me pareceu cantar algumas em português. Pelo tipo físico, era inglês com certeza.

Quando iniciei o primeiro “é pau, é pedra...”, do que seria a última musica, ele se levantou, subiu o pequeno degrau do palco e fiz-lhe um gesto encorajando-o a se aproximar. Parei de tocar, ele se apresentou gentilmente e disse que sabia a letra da música, em português...

Quase que eu lhe respondi:

- Que bom, porque eu mesmo não sei...

Mas, achei melhor não.

O inglês pegou o microfone auxiliar e começamos o dueto mais surreal da minha vida. Como eu sabia que aquele restaurante era freqüentado quase que exclusivamente por ingleses, e eles não tem o costume de decorar a letra de Águas de março, não me preocupara com minha amnésia musical até aquele momento.

Mas, o desgraçado sabia a letra todinha... E, a partir da segunda estrofe , eu comecei a misturar pau com pedra, com toco, com fim do caminho, com chuva e o inglês tentando ir atrás do que eu falava...

Claro, afinal o brasileiro ali era eu. Se tinha alguém errando a letra em português só poderia ser ele!

Logo após soar o último acorde daquele desastroso dueto internacional, o pobre inglês aproximou-se, nitidamente constrangido, e ficou se desculpando por um bom tempo por ter se atrapalhado com letra. Afinal, disse ele, o português é uma língua muito difícil... No que eu concordei prontamente. Ele ficou tão inconformado que quase confessei para ele que quem errara a letra inteira fora eu. Ele acertara tudo. Mas, achei melhor deixar quieto.

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