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AMAR O TEMPO – Poesia - Edmir Saint-Clair



Todo minuto é momento
Um invento, um sentido, 
Por fora, por dentro,
É cada segundo, sem tempo,
É quase nada no vento

A vida são horas correndo 
e se existe ou não um destino,
Ele é só um menino que não sabe onde vai

A verdade é que nada se sabe, 
Se é do errado que se chega ao certo,
Se é para frente, para trás ou para os lados,
Porque não tem lado certo, nem errado
Não tem nem em cima, nem embaixo

E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber para que andar
Já que é o tempo que nos carrega
Até onde quiser nos levar

Que me leve em qualquer pé de vento

Para um tempo que seja de amar
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UM OUTRO MUNDO – Poesia - Edmir Saint-Clair


Enquanto a noite amanhece lenta
Nossos Corpos se reconhecem quentes
Revelando mundos
 Que afinal se entendem

Muito, todo, tudo
Sangue trocando de veia,
Renascendo dentro de um mundo à parte
Construído pela arte que só quem ama sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha
Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente
Um mundo além do mundo
Um mundo além do sonho
Um mundo além da gente
Porque ao sonho faltam 
a tua carne, as tuas unhas e os teus dentes.
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A SOLIDÃO E O FACEBOOK - Edmir Saint-Clair

Talvez, para quem tenha crescido acostumado a encontrar os amigos pessoalmente para desabafar e pedir socorro, a coisa seja ainda pior. 

Sempre fico surpreso pelo números de “amigos” no meu FB, e, às vezes, muito alegre por me lembrar de boa parte deles, que me remetem à várias fases da minha vida.

Mas, na hora que a solidão bate com força a coisa muda de figura. E, essas centenas de “amigos” não mudam a dor emocional de uma separação, nem da saudade de um ente querido que se foi, aumentando mais ainda a falta e a sensação de vazio.

Numa dessas horas, em que a gente busca um ombro amigo porque está muito pesado suportar sozinho aquele momento em que até sua própria alma parece que vai desistir e abandonar você, resolvi abrir o bate-papo do FB. Resolvi procurar um amigo ou amiga que me desse colo.

Haviam dezenas ou centenas de “amigos” online. Depois de trocar palavras com uns poucos que achei que me perguntariam, com real interesse, como eu estava de verdade, daquele jeito que nos dá espaço para falar sobre nossas emoções, fui ficando ainda mais solitário. Não aparecia uma fresta sequer, naquelas conversas, onde pudesse colocar minha tristeza.

Fiquei mais de meia hora indo pra cima e pra baixo daquela lista grande de nomes, buscando apenas um que me ajudasse a passar aquele momento.

Cheguei a triste conclusão que, quando a dor é real, o mundo virtual não a alcança. Ele não tem braços pra abraçar, não tem calor pra aquecer o frio da alma. Não tem colo pra te dar. E não chora junto com você. E nem ajuda a secar as suas lágrimas com aquele toque de gente, humano, quente, de quem está ali dando atenção à sua dor. Mostrando que se importa com você  dando, não seu tempo virtual, mas seu tempo real, parte de sua vida, para te ajudar.

Às vezes, precisamos sentir que outro ser humano, de carne e osso, compreende nossos sentimentos e está ali se importando com a gente. Aqueles ícones de carinhas amarelas, tristes ou sorridentes, ou a utilização de caracteres para expressar emoções, passam a kilometros de distância de um abraço forte e confortante de um amigo(a) de verdade.

Nada, nunca, vai substituir um amigo. Nossa alma precisa do toque humano, do calor, da compaixão.

Ter muitos amigos no FB quer dizer, apenas, saber se comunicar bem. Facebook não tem ombro, nem colo, nem o toque de um abraço amigo.

Ter amigos verdadeiros, na vida real, é uma das mais importantes conquistas que se pode alcançar na vida.

LEBLON - O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU - Edmir Saint-Clair

Tudo dentro do planejado. Com alguma folga. Dá tempo de tomar um coco apreciando esse maravilhoso pôr do sol . A meditação tem me feito bem, pensou Jair.
Ele avista seu alvo a uma distância ideal. Levanta-se e mistura-se entre os corredores que passam. Regula seus passos no ritmo dos mais lentos. Quando percebe a aproximação esperada, reduz  mais um pouco seu ritmo, de modo que durante a ultrapassagem do alvo possa haver alguma troca de expressões. Após a ultrapassagem, a distância aumenta apenas um pouco, o suficiente. E assim foram e voltaram até o arpoador. Na volta, a distância ficara  maior, poderia despertar suspeitas manter uma distância próxima. Ele sabe onde o alvo vai parar.
Nos últimos metros, acelera  a marcha e quando para no quiosque está ofegante, como deveria. Não foi difícil surgir assuntos entre os dois enquanto tomam água de coco. Quando o alvo se despede, já existe uma certa camaradagem carioca entre corredores de praia.
A partir daquele momento tudo tinha que ser preciso. Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, na direção da Rua Cupertino Durão, ele apressa o passo e rapidamente alcança o outro lado da rua, onde o alvo tem de passar. Encosta-se numa das árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos lados.
O alvo passa e é abordado.
 - Sérgio, isso aqui é uma arma. Fique quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando como se fossemos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu? Responde! Ouviu?
Sérgio estava paralisado. Apenas balbuciou um sim quase inaudível.
Jair continua.
- Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então fique calmo e tudo vai dar certo. Prometo pra você.
Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio, os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.
Sobem direto sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar. E a maioria, nesses prédios, não dá boa noite a porteiros.
Sérgio mora sozinho.

Na ampla sala, Sérgio não sabe o que estava realmente acontecendo. Um assalto comum não é.
Sérgio nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.
À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio tem quase certeza que sabe porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.
- Fique tranqüilo, pode levar tudo o que você quiser. Não vou causar nenhum problema. Só quero não quero violências,por favor.
Sérgio ainda tem a voz bastante trêmula.
- Sérgio, sei que você tem 1,5 milhão de dólares em cédulas  aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde e a mando de quem você pegou essa grana. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e muito menos que está aqui na sua casa.
Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia algo por trás.
- Você é policial federal? Perguntou Sérgio.
- Sorte sua que não!!  Respondeu Jair soltando um riso.
Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair não parece violento, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre foi medroso. Já percebera que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo. Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças públicas. Na verdade, não fazia idéia de quem se tratava e de onde surgira aquele homem.
Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.
- Você vai gravar? O quê? Pergunta Sérgio.
- Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o celular.
Sérgio hesita:
- Não está mais aqui... o secretário do senador já pegou...
A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente troca o celular pela pistola e engatilha e aponta para ele.
O corajoso deputado se tranfigura apavorado, e revela que a mala está dentro do armário no quarto.
Jair não segura o riso. Os dois se recompõe, Jair volta a falar manso e nota que o deputado havia molhado as calças.
Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre sua cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquandrando o quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos no quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão.
A seguir, voltam para a sala onde Jair continua gravando com a mala aberta sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.
Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com o deputado dentro de sua casa.
Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e corajoso deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola no bolso.
- Sérgio, agora vai ser o seguinte. Daqui a duas horas vou enviar para você, pelo seu whatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova de que você estava com 1,5 milhão de dólares em dinheiro vivo e que não tem como explicar como vieram parar aqui sem comprometer muita gente graúda. Mostre esse vídeo para a sua “galera”, porque isso também garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não aconteceu nada. Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na hora.
Sérgio ouvira calado e calado permanecia. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para o poder que representava.

Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao porteiro quanto estava o jogo no Maraca.

Este conto faz parte do Livro "A Casa Encantada - Contos do Leblon"
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MISTÉRIO NO LEBLON - Edmir Saint-Clair

Eu acabara de sair da academia Lucinha&Cláudio, atravessara a Rua Humberto de Campos, na direção da Rua José Linhares que fica a menos de 50 metros, e já estava  dobrando a esquina quando vi uma senhora idosa vindo na direção contrária a minha. 

Ela dá uma topada na calçada, se desequilibra e começa a acelerar descontroladamente o passo. Não há  como não cair.

Tento correr nem sua direção para tentar ampará-la, mas antes de fazê-lo surge do nada uma mulher esguia de cabelos pretos e a segura, colocando-a de pé e sumindo novamente. Tudo não durou mais que 2 segundos.

Fiquei petrificado com a cena. Me senti muito estranho, um desconforto cerebral desagradável. Como alguém aparece e desaparece do nada?

Sim. Ela não surgiu ou foi embora correndo e foi desaparecendo. Ela apareceu e depois desapareceu, como um flash fotográfico.

A Senhora estava tão petrificada quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, foram de pura estupefação. 

Aproximei-me um pouco maias, perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ela me relatou exatamente a mesma coisa que vi. Utilizando, inclusive, as mesmas palavras “apareceu” do nada, e “Desapareceu” do nada. Ela relatou o que eu tinha presenciado com a mesma precisão de detalhes que vi. Ou seja, quase nenhum.

Com apenas uma e fundamental diferença. Ela não vira uma mulher, ela vira um homem fazer exatamente o que eu tinha visto a mulher fazer.

Ficamos em silêncio alguns minutos e depois a levei até a entrada do prédio para onde ela estava indo, na Rua José Linhares.

Despedimo-nos sem tocar mais no assunto, mas ainda visivelmente desconcertados, intrigados...

Nunca contei isso a ninguém. Nunca entendi o que havia acontecido.
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O MEDO DA MUDANÇA – Edmir Saint-Clair

O medo está nos rondando o tempo todo,
nos fazendo engolir sapos maiores que a boca.
Mas, por outro lado, foi o que nos manteve vivos até aqui...

Sem nos dar conta, lá está o medo tentando encaixar nossas atitudes em modelos que nem sabemos mais quais são. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mas seguro o ser humano se sente. É a chamada zona de conforto, que de conforto não tem nada. O nome certo seria zona de tédio.

Esse estado é uma consequência não desejada do medo que a simples ideia de mudança provoca. Mas as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

Esse é o cenário desse nosso conflitos interno, provocado pelo antagonismo entre o medo transcendental e a capacidade de raciocinar adquirida ao cabo de milhares de anos de evolução, que, por fim, nos permitiram controlar os perigos reais aos quais aquele medo servia como alerta fundamental para a sobrevivência.


Mesmo com todo essa evolução, o medo da mudança continua a ser uma força muito poderosa no ser humano, só que, atualmente,  é menos explícito e vive escondido nas pequenas coisas, sendo um dos responsáveis por diversos tipos de sofrimento em nossas vidas. 

Platão tratou brilhante e definitivamente disso no "Mito da Caverna". Há milhares de anos. Não é nenhuma novidade, mas permanecemos os mesmos. Disfarçados...para nós mesmos.

Ouvi de um amigo psicanalista algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçam a verdade que traduz:

- "O ser humano só se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas condições, aparentemente insustentáveis se vistas de fora, mas que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples idéia de romper com a situação e partir para algo novo causa pânico. Resumindo, a natureza do ser humano o impele a ficar no sofrimento conhecido, mas que ele sabe não o mata, a arriscar qualquer outra coisa que ele não conhece. A origem desse comportamento é aquele mesmo medo necessário e primitivo que o fez permanecer vivo para contar e fazer história há milhares de anos. O que diferencia cada indivíduo é o nível de coragem para enfrentar esse medo, que hoje já não é tão necessário quanto na época em que fugíamos de predadores nas florestas”.

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos da vida. Nas relações familiares, profissionais, amorosas e fraternas.

Admiro muito as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incomodas da vida.

É claro que tudo tem sua particularidade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode ser tênue, de onde, a partir dali qualquer um tem certeza do dano que aquela situação que está sendo vivida está trazendo a um ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste da relação é tão forte e nítido que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo.

Nas relações entre casais isso é muito nítido. Do início da descida até se esborrachar no fim do relacionamento, a gente vem se ralando todo como numa ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem ardidos poderiam ser evitados.

É bem doloroso. Quanto mais tempo dura a ladeira com mais machucados a gente chega no final. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida e evitar mais machucados.

Saber interromper antes que os machucados se aprofundem demais e deixem cicatrizes indeléveis é o que decide nossa possibilidade de ser feliz nos próximos. Ou seja, essa decisão é das mais sérias: a hora de pararA hora de dar um fim a uma situação infeliz e não olhar mais para trás. A hora de decidir, de se cuidar, de se proteger.

Saber a hora de parar de viver uma situação de sofrimento é fundamental para não perder a crença em si mesmo. 
É necessário acreditar que podemos cuidar de nós mesmos e que somos capazes produzir e lutar por nossa própria felicidade. É quando a autoestima racional deve atuar soberanamente. 

É importante ser sincero ao responder nossas próprias perguntas. Precisamos saber, pelo menos, o que pensamos de verdade sobre nossos próprios assuntos. Precisamos estipular nossos limites.

A Tolerância é necessária, sem ela não se vive, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Mudar dá medo. Principalmente quando a decisão da mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego mais ou menos, mas que paga as contas, por um projeto que se der certo vai te dar a vida que você deseja (e isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas, que também pode dar errado.

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente o que, aparentemente, está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. E isso nunca incomoda ninguém!

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que continuar mudando até dar certo.

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso mudar sempre.

Até para que o que já está dando certo continue dando. Certo?

*Essa crônica faz parte do livro A Casa Encanta - Contos do Leblon, Edmir Saint-Clair

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NOSSOS ENCONTROS - Edmir Saint-Clair

Ela sempre me espera em absoluto silêncio.

Ao sentir minha presença sua respiração torna-se mais intensa. Minha pulsação aumenta. Torna minha respiração quase difícil. A saudade aflora forte. Me aproximo devagar e me aconchegando em seu corpo quase sem tocá-la. Nada mais excitante do que o tocar sem tocar. 

O toque anterior ao toque. As sutilezas são a essência do prazer. Não a toco, apenas contorno seu rosto com o meu a nanomilímetros de sua pele, sem tocá-la, afasto seus cabelos com o nariz, até alcançar o pescoço. Sentir seu hálito faz meu cérebro funcionar em outra sintonia, a sensibilidade além da flor da pele.

As sensações do tato, olfato, paladar e audição se misturam e se transformam em uma coisa só. Cheiros, sons, texturas, anima animal. A luta ansiosa e voraz do prazer. A fome. A fome.

Esse aproximar e tocar dos corpos faz desaparecer o espaço entre eles, alma engolindo alma, prazer do corpo. Só o teu prazer me alimenta. Só o teu prazer me sacia. Luta feroz. Meu prazer é te levar até bem perto da morte. E sua fome animal diz que vamos morrer, já sabemos disso. E morremos grudados até o último espasmo. Colados, encaixados como um quebra-cabeça montado.
Nossos encontros são assim.
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AMANTES - Poesia - Edmir Saint-Clair

Pintura de Dhiego Rocha

O toque acendeu o sol, dois sóis

Quentes, atraentes, penetrantes,

Somando-se num calor ardente, pendente, arfante



Pele, seda, alma, sussurrante

Atraindo, exalando seu perfume provocante

Fêmea nua, natureza dominante



A carne quente, úmida, envolvente

Sugando, atraindo, desejando urgente,

Acordando o desejo de se completar inteira,

Em cada poro, em cada arfar, em cada instante.



Teu ar, meu ar, arfante, dentro, fora, enebriante

Somos insanos, alucinados, delirantes,

Cabendo juntos no universo latejante

Somos a vida, somos amor, somos amantes.
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A GREVE DAS PALAVRAS - Edmir Saint-Clair

As palavras estão revoltadas. 
Não suportam mais ser vilipendiadas, 
mal interpretadas e caluniadas. 

Na reunião de hoje do DIretório CIrcular Ordinário NAcional do RIO, entidade conhecida como DI.CI.O.NA.RIO, esse assunto parece dominar as conversas e debates preliminares. O plenário está fervilhando. Fala-se em greve geral, que envolveria todas as classes de palavras. Um representante dos substantivos pede a palavra e sobe à tribuna:
- Amigos e amigas, estamos perdendo, cada vez mais, nossa credibilidade. Essa casa parece não existir mais. As leis do idioma são sistematicamente ignoradas. Corremos o risco de não fazer mais sentido. Como dizia o grande Ariano Suassuna, quando um jornal adjetiva o Chimbinha, da banda Calypso, como guitarrista genial, que palavra usar para definir Beethoven? 
Foi aplaudido de pé pelo plenário.
A Democracia pediu a palavra:
- E eu?? Me usam sem a menor cerimônia e sem nenhum respeito a minha história. Falam em meu nome, mas no fundo estão só querendo enganar o povo. Estou cansada de ser usada por quem só quer exercer o poder em nome de si mesmo. Pelo prazer doentio de ter poder sobre outras pessoas.
A gratidão levantou-se e pediu um aparte:
- E eu??? Virei uma ordinária...na boca do povo. É gratidão por tudo a toda hora. Antes, eu era chamada somente para ocasiões muito especiais. Por uma graça alcançada, por um grande favor prestado ou uma atitude nobre realizada. Hoje, valho muito pouco. Todos falam de mim, sem ter a menor idéia de quem realmente sou. Não tem mais respeito algum. Sem querer ofender meus grandes amigos dessa classe tão efusiva, virei praticamente uma interjeição. Minhas origens estão ligadas oração, sentimentos profundos de agradecimento. Hoje, virei arroz de festa, fim de frase. Sinceramente, perdi completamente o sentido de existir...
Os companheiros se aproximaram para consolá-la, estava em prantos, muito emocionada com o próprio discurso.

Dali pra frente, discussões cada vez mais acaloradas davam a dimensão exata de como a corrupção dos sentidos e má utilização geral das palavras havia chegado ao limite do suportável. Acusação de complacência da casa com erros imperdoáveis. Para os mais conservadores, verdadeiros crimes hediondos contra as palavras.
No final, não houve mais discursos. Todo plenário levantou-se e uma só palavra foi ouvida:
- Greve!

A partir da meia noite, as pessoas que estavam em seus computadores foram as primeiras a notar. Primeiro, pensaram que fosse defeito nos teclados dos computadores e touch dos smartphones. Mas, todos perceberam que se digitassem números eles apareciam normalmente. As palavras estavam em greve. Inclusive as escritas a mão. Isso só foi confirmado pelo Jornal da Manhã da TV. Em todos os sites brasileiros, só havia números. Não havia palavras. Não havia nada escrito em português do Brasil. Os sites em outras línguas estavam normais.

O dia foi de ligações telefônicas. Recordes em cima de recordes nos números de chamadas de todos os tipos. As pessoas só conseguiam saber dos acontecimentos através da palavra falada. Ninguém conseguia escrever nada. Mesmo que tentasse escrever com canetas diretamente no papel, as palavras não obedeciam às ordens dadas e se embaralhavam como numa criptografia caótica e indecifrável.

No final daquela noite, surgiu o único texto que apareceu nas telas de todos os aparatos conectáveis nas últimas 24 horas:
Dentro de 10 minutos retornaremos ao trabalho. Mas, pedimos aos nossos usuários que façam um uso mais adequado de nossas atribuições. Levamos milênios sendo aperfeiçoadas e vocês estão nos deixando sem sentido em poucos anos. Por favor, nos tratem com mais carinho e aprendam nosso uso correto, não é tão difícil.  Afinal, nosso objetivo é o mesmo: fazer com que todos nós nos entendamos o melhor possível.


     

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