APRENDA FAZENDO COM QUEM FAZ.

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LEMBRA DE MIM? - Fábio Porchat

Aconteceram três coisas curiosas comigo, tudo naquela mesma semana e que se relacionam entre si. Recebi uma mensagem no meu telefone: "Fabio, vou assistir ao seu show no sábado! Quanto tempo, né? Vai ser legal matar as saudades. Depois quero uma foto. Beijos, Camila C." Você sabe quem é Camila C, caro leitor? Pois é, eu também não. Respondi prontamente animado dizendo: "que maravilha! Te espero lá.".

Terminado o show do sábado, quem me aparece para tirar foto? Sim, ela. Que, quando eu bati o olho, lembrei. Camila era uma amiga de uma minha amiga, que, na ESPM, em 2001, estudou no mesmo período que eu, mas cursando Publicidade e eu Administração. Fazia 11 anos que eu não a via, mas ela continua com a mesma aparência e muito simpática! Comentei com ela, rindo, que não sabia quem era quando recebi a mensagem, mas que ali, ao vivo, me caiu a ficha. Ela ficou um pouco sentida e falou brincando, mas a sério: "depois que ficou famoso, ficou assim. Não se lembra de mais ninguém."

No mesmo sábado, depois da peça (foi o último dia da temporada no Teatro Frei Caneca - muito obrigado ao Sérgio d'Antino e à Betânia pelo carinho), fui pra casa do meu pai comemorar com os amigos. Lá chegando, a moça que organizou o buffet veio sorridente e mandou o já tradicional e temido: lembra de mim? E eu não lembrava. Ela, espantada com minha negativa, tentou reavivar a minha memória: eu organizei o buffet da sua festa de 18 anos, lembra? Eu falei que já tinham se passado 12 anos e que não me lembrava. Ela ficou triste. "Poxa, como a gente esquece daquelas pessoas que fizeram parte do nosso passado."

No aeroporto Santos Dumont (que a mulher que anuncia nos microfones de Congonhas cisma em dizer: aeroporto DO Santos Dumont. Não é dele o aeroporto!!!!), um fã pediu para tirar uma foto e disse que eu conhecia a mulher dele. Eu, ingenuamente, perguntei quem era e ele muito tranquilo me respondeu que ela, um dia, em 2009, no Galeão, tirou uma foto comigo e disse que era minha fã. Lembra? Eu ri, achando que era uma brincadeira e disse que não, que fazia muito tempo. Ele insistiu que ela era muito fã e era morena, ela pediu uma foto. Lembra? Eu falei que não lembrava e ele: "não vou nem falar pra ela isso que ela vai ficar chateada."

Agora, de verdade, me digam se eu estou maluco por não me lembrar, depois de 12 anos, da senhora que preparou a comida da minha festa em que provavelmente eu estava mais preocupado em encher a cara e pegar mulher. Eu nem lembrava que eu tinha dado uma festa de 18 anos. Muito menos que se contratou um buffet. Será que eu sou um babaca que não me lembro de como se chama uma pessoa que não conviveu comigo nem 20 horas somando todos os nossos encontros e era amiga de uma amiga, ou se eu sou uma estrela sem noção de não saber quem era uma fã do longínquo 2009 que era morena? O que me deixou mais impressionado foi o fato de elas se sentirem ofendidas pela "não lembrança". Como se eu fosse um sem noção. É que nós queremos sempre nos sentir especiais e únicos, para justificar a nossa própria existência nos dando muita importância e relevância na relação com o outro. Ou de repente eu só tenho Alzheimer.
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Contos, Crônicas e Poesias







PROPORÇÕES – Poesia 


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FÁBIO PORCHAT - Crença


Atendente:

- Boa tarde, posso ajudar?

Cliente:

- Eu tava querendo uma religião.

Atendente:

- Ah, bem legal. Tá procurando alguma coisa específica?

Cliente:

- Não, é mais pra distrair mesmo.

Atendente:

- Bom, se é para distrair, a gente vai ter uma religião católica aqui que pode ser bem interessante.

Cliente:

- Será? Não sei. Tô achando meio batida.

Atendente:

- Bom, a mais da moda é o islamismo mesmo.

Cliente:

- Mas daí é muito empenho, eu queria uma coisa mais pra usar em casa, uma coisa mais levezinha.

Atendente:

- Temos o budismo que é bem em conta e tá saindo muito.

Cliente:

- É uma, hein?

Atendente:

- É bem relaxante essa.

Cliente:

- Essa aqui é qual?

Atendente:

- Essa é a cientologia.

Cliente:

- Como é que é essa aí?

Atendente:

- Ah, o espiritismo. Hoje o espiritismo está na promoção, tá? E se você quiser levar um espiritismo, paga apenas 50% em qualquer umbanda dessas daqui. Candomblé também.

Cliente:

- Aceita cartão?

Atendente:

- Todas as bandeiras. A evangélica é que tem muita gente usando. Mas daí custa um pouco mais caro.

Cliente:

- E o judaísmo, hein?

Atendente:

- Tem que pedir no estoque e ver se eles autorizam.

Cliente:

- Tá.

Atendente:

- Se quiser uma coisa um pouco mais radical temos uma mórmon aqui que pode ser a sua pedida. Até a Testemunha de Jeová também é uma opção...

Cliente:

- Não sei, acho que eu vou dar mais uma olhada.

Atendente:

- Se você quiser, a gente pode aqui preparar uma mistura pra você com um pouquinho de tudo. Funciona bem também. O brasileiro adora. É um pacotão completo: Você passa a acreditar em Deus, acha que vai pro céu, mas também acende uma velinha, vê espírito, medita, pula sete ondinhas e lê a Bíblia.

- Cliente:

Ah, gostei dessa.

Atendente:

- Todo mundo gosta.

Cliente:

- Mas coloca aí nesse pacote as 70 virgens.

Atendente:

- Quer que embrulhe?
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CARTA AO PAI - Fábio Porchat

Prezada Rosely Sayão, meu nome é Fábio Porchat e eu preciso da sua ajuda. Sei que você é de outro jornal, mas não sei a quem mais recorrer quando o assunto é família. Não é nada comigo, é um amigo meu que está passando por uma situação bem delicada. Ele fez um vídeo de humor e recebeu uma ameaça de morte de um blog na internet. Ele estava tranquilo, pois sabia que aquilo era a reação de uma pessoa só e que não ia dar em nada.

Passada uma semana, o tal blog já estava fora do ar, o assunto já estava esquecido, mas o pai desse meu amigo, assustado, resolveu pedir ajuda para um amigo senador dele que leu uma carta desse pai no Senado, pediu ajuda ao Ministro da Justiça e o estardalhaço trouxe o assunto de volta à tona só que muito pior. Esse meu amigo tinha pedido pro pai não fazer barulho, não expor a sua vida porque ele já estava resolvendo tudo da forma mais discreta possível, falou que não queria que nada fosse parar em Senado nenhum, mas não adiantou. O pai fez do jeito que ele queria e agora a notícia se potencializou quinhentos por cento.

Eu entendo que o meu pai, digo, o pai desse meu amigo só tenha feito isso querendo ajudar, preocupado com o seu filho e que só tinha boas intenções, mas a vida é minha, quer dizer, do meu amigo, e eu tenho que poder resolvê-la do jeito que eu quiser. Afinal de contas, eu já tenho trinta anos, ele também, e sabemos cuidar muito bem das nossas vidas.

Se eu faço uma piada, eu tenho que aguentar sozinho as consequências dela, não preciso da ajuda de ninguém, e, se precisar, eu peço. Ele pede. Enfim. Parece aquela história do moleque que apanha na escola e o pai vai tirar satisfação envergonhando o filho, como se dissesse, "ele não pode se defender, então eu estou aqui para ajuda-lo". Como lidar com uma situação onde a pessoa não é mais criança, e o pai é imparável e faz aquilo que bem lhe der na telha, nem que isso vá contra a vontade do seu filho?

O diálogo não foi possível, e depois de tudo isso, ele ainda não entende que o filho não gostou de como tudo se sucedeu. Ele acha que está certo. E, com certeza, tomará decisões futuras sem a aprovação do filho. Esse meu amigo ama meu pai, mas esse pai precisa saber respeitar as vontades alheias. E saber que nem sempre as coisas acontecem da forma que ele quer.

Se ele está preocupado com a vida do filho, não seria melhor conversar com o filho antes de tomar atitudes precipitadas? Eu entendo a atitude de um pai que ama seu filho e só quer o seu melhor. Mas o melhor quem tem que saber não é a própria pessoa? Me ajude, Rosely. O quê que esse meu amigo deve fazer?

GUGU DADÁ - Fábio Porchat

Sabe quando uma criança fica enchendo o saco do pai porque quer porque quer mexer no celular dele, e o pai pega um celular velho e quebrado, dá pro filho e fala: toma, pode brincar? Daí o filho se fecha em seu mundo brincando com o aparelho estragado, mas crente que está falando com o mundo todo? Isso é exatamente o que eu penso que é a tal famigerada Comissão de Direitos Humanos e Minorias presidida pelo deputado, barra pastor, barra polêmico, barra (preencha a lacuna com o que quiser) Marco Feliciano.

Já reparou que tudo o que foi aprovado e decidido por essa importantíssima comissão nunca deu em nada na prática? Não foi adiante e nem gerou nada, além de barulho na mídia. Nunca nem tramitou na Câmara nada do que eles decidiram. Tudo aquilo que foi posto em discussão por eles parou um metro e meio depois.

Eles só se apegam a assuntos de interesses próprios. E têm uma fixação com gays. Meu Deus, tudo são os gays. Eles não podem casar, eles não podem entrar em cultos, eles não podem se beijar, eles não podem, eles não podem, eles não podem... Nunca é uma decisão que os gays possam alguma coisa. É sempre proibindo. Curioso uma comissão que cuida dos direitos humanos ficar impedindo pessoas de serem livres.

Eu acho que, na real, ninguém leva muito a sério o que esse pessoal do CDHM fala, sabia? Eles são meio café com leite, tadinhos... É como se quem tá na Câmara e no Senado fosse os adultos recebendo os amigos em casa e os membros da comissão fossem as crianças brincando no quarto. Fazem barulho, se divertem, convivem no seu próprio mundo de fantasia, mas não representam nada de muito relevante pra ninguém, a não ser entre eles mesmos.

E repare que, como as crianças, eles acreditam de verdade naquilo que estão fazendo. Se dão muita importância, acham que estão vivendo a vida, quando na verdade estão só passando o tempo. A população não dá a mínima pra eles, o governo não dá a mínima pra eles, mas, afinal, quem dá alguma coisa por eles? Eles estão lá, claramente, para ocupar algum buraco.

Pensando nisso, eu sugiro a criação de mais comissões. Comissões para encostarmos uns Sarneys e Malufs da vida. Que tal? Comissão das Decisões Éticas e Corretas, presidida por Anthony Garotinho. Comissão da Importância da População para o Desenvolvimento do Estado, presidida por Roseana Sarney. Comissão da Tolerância e do Respeito, presidida pelo Bolsonaro. Aí fica toda essa corja num canto brincando de achar que decidem alguma coisa, enquanto aquela meia dúzia que presta toma as decisões de verdade.

PLIM PLIM - Fábio Porchat

Eu tenho viajado muito de avião nos últimos anos fazendo shows pelo Brasil. Mas só semana passada percebi que as aeronaves estão que nem camisetas de futebol. Anúncio em todo canto. Onde houver um espacinho livre, merchan! No paninho do encosto pra cabeça, na adesivagem das mesinhas, colado nas janelas...

Até aí, tudo bem. É uma poluição visual, mas é mais um jeito de ganhar dinheiro. Que aliás é uma dúvida que eu tenho: de onde vem tanto prejuízo das companhias aéreas? Todo ano eu leio que elas estão endividadas até a alma e que o semestre fechou no negativo. Só que as passagens estão cada vez mais caras, o número de passageiros aumentou, já não servem mais comida de graça nos voos, o ar condicionado só é ligado quando a porta fecha para economizar gasolina e, agora, uma hora de voo parece uma hora de um intervalo da novela das oito... Eles tão ganhando mais dinheiro e perdendo cada vez mais?

Bom, de qualquer forma, não vou me meter onde não entendo. O preço da gasolina deve estar uma loucura, a taxa do aeroporto deve estar tão inflacionada quanto um imóvel no Rio de Janeiro e a manutenção das naves deve estar saindo pela hora da morte.

Enfim, a mais nova moda agora são as televisõezinhas que passam conteúdo para o viajante. Eba, que legal! Quando você embarca, a primeira coisa que te oferecem é bala e, depois, um fone de ouvido. Maravilha, apesar de a imagem ficar passando a viagem toda, vê quem quer e, afinal de contas, é uma distração. Mais ou menos.

Na TAM, você é obrigado a ouvir, propagado em alto e bom som, o que está passando na TV, inclusive depois que já levantou voo. E metade daquilo que você está vendo é o quê? Anúncio!

Se você quer ler, não consegue, se quer dormir não pode. Eu me sinto o personagem do Laranja Mecânica forçado a ver as imagens. Sempre peço pra diminuírem o som, mas os comissários dizem que não podem fazer nada. Como ler um livro ao som de "pergunta no Posto Ipiranga"?

Ninguém quer assistir às propagandas na TV ou na internet, então por que raios eu ia querer ver no avião? Vê quem quer. Não tem o fone? Isso é mais um desrespeito com o cliente. A empresa quer ganhar mais e não está nem aí para o conforto do passageiro. E agora os comissários de bordo fazem propaganda pelo sistema de som! Anunciam promoções da empresa e parcerias vantajosas pra você que quer aproveitar ainda mais. Quer dizer, você se sente no programa da Sônia Abraão quando aparece o japonês vendendo cogumelo do sol.

Tô vendo a hora em que no meio da viagem uma aeromoça vai passar vendendo jornal, outra entregando folheto de empreendimento imobiliário, enquanto um comissário agita uma bandeira e o piloto aparece no corredor falando: "Desculpe interromper a viagem dos senhores. Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, mas estou vendendo gado Nelore".

MEU BRASIL, BRASILEIRO - Fábio Porchat

Aeroporto é um lugar de onde podemos tirar vários exemplos de quem é o brasileiro de verdade. Por mais que esteja acontecendo uma classecelização da passagem aérea (que bom!), o que torna esse ambiente agora cheio de marinheiros (voadores) de primeira viagem, quem eu vejo dar escândalo no balcão das companhias aéreas são sempre aqueles que já estão acostumados a viajar, que conhecem bem o esquema.

Estava em Florianópolis essa semana, sendo atendido tranquilamente pelo atendente, quando um cara ao meu lado começou a dar o seu escândalo. Um à parte: eu adoro ver pessoas alteradas aos berros dando piti, essas estão num tal estado bruto do sentimento que não tem mais filtros e se mostram como são lá dentro de verdade. E é divertidíssimo. Claro que pra mim e não pro coitado do atendente da TAM que estava sendo acuado.

O cara, transtornado, dizia que o voo dele era às 10h30 e que ainda eram 10h10 e o avião ainda não tinha saído. Que era um absurdo o pessoal não dar um jeitinho de colocá-lo pra dentro. O atendente tentava explicar que o voo estava encerrado, mas era interrompido por gritos de: "Você não está com boa vontade! Acordou de mau humor e resolveu descontar nos clientes. Isso é Brasil".

O que ele não conseguia ver é que, na verdade, se o atendente o tivesse colocado dentro do avião, aí sim é que seria Brasil. Desrespeitar as regras, dar um jeitinho, fazer todo um avião esperar um cara que estava atrasado e errado embarcar, isso é que é Brasil. Se o horário de embarque é meia hora antes, então é meia hora antes, não é vinte minutos antes. Ponto.

A gente gosta de bradar aos quatro cantos que lá na Europa sim as pessoas são bem tratadas, que nos EUA o atendimento é diferente, mas, quando a aplicação da regra tem que valer pra gente aqui, reclamamos. O brasileiro gosta é do jeitinho brasileiro. É o que o coloca no patamar de malandro. E se eu sou malandro, alguém é otário. Aí sim eu vejo vantagem. Contanto que esse otário não seja eu. Alguém tem que se ferrar pra eu me sentir melhor. Se seguir as normas me faz fazer o papel de otário, eu não quero. A malandragem fala mais alto.

Eu duvido que se esse cara que estava alterado tivesse chegado atrasado no aeroporto de Munique, ia dar aquele chilique. Claro que não. Porque lá as coisas funcionam, lá é primeiro mundo, lá... Lá, ele teria saído do hotel duas horas antes, justamente pra não atrasar porque sabia que, se atrasasse, perderia o voo e não teria choro nem vela.

Não estou aqui querendo fazer uma defesa das companhias aéreas, pelo amor de Deus. Longe de mim. Elas realmente têm milhões de problemas, e muitas vezes tratam muito mal seus clientes. Mas a gente também trata muito mal as pessoas quando elas não nos deixam fazer o papel de malandro. Não adianta querer que nos tratem como na Alemanha se nós ainda somos brasileiros. E brasileiros no sentido mais pejorativo e preconceituoso da palavra "brasileiros".
*
PS: No final ele foi embora aos gritos de: "O comandante Rolim vai saber disso!". Hahaha! Gênio!

CIGARRO - Fábio Porchat

Sônia era fumante. Fumante inveterada. Três maços por dia era o exigido pelo corpo. Menos que isso e lá vinham as dores de cabeça, o mau humor e a impaciência. Dizia a todos que amava os filhos e o marido, mas que o cigarro era sua razão de viver. A família não apoiava, aliás, recriminava, e muito. Mas de nada adiantavam as reclamações. Os três a conheceram fumante e, no fim, era melhor ela feliz com do que irritada sem. Porque Sônia irritada era do tipo que magoava o próximo. Uns diziam que ela só entraria no céu com um cigarro aceso na mão, senão ia sobrar até pra Deus.

Certo dia, saindo do trabalho, ia caminhando pela calçada até o ponto de ônibus quando, de repente, um gol preto, cuspindo três pessoas encapuzadas, para em sua frente. Os três gritam: "Sequestro, sequestro".

Desesperada, obedeceu as ordens e entrou no carro. Tentou falar alguma coisa, mas foi interrompida pelos gritos de "cala a boca" dos sequestradores. Encapuzada, depois de algum tempo com o carro em movimento, engoliu o choro e pensou: "Meu Deus do céu, preciso de um cigarro. Não de um celular, não da policia, não da porra do Batman, mas de um cigarro." E, pior ainda, quanto tempo duraria essa confusão toda? Não, mesmo que durasse meses, sequestrador que é sequestrador fuma. No cinema, todo mundo que é mau fuma. Ficou mais tranquila. Na certa, chegando no cativeiro, dariam a ela comida, que facilmente poderia ser trocada por cigarro, como naqueles filmes americanos de cadeia.

Começou a imaginar todo o mercado negro de cigarros que iniciaria com os sequestradores. Por alguns momentos chegou a pensar até na venda do corpo, mas esse pensamento logo sumiu. Muito cedo para se pensar nessa possibilidade. Pensou, então, na família. No primeiro contato, avisaria que estava bem e que pagassem logo o resgate. Mas foi nesse momento que a ficha caiu e alguns pensamentos ruins tomaram conta de sua mente. E se eles a torturassem? Imaginou um poço, e ela lá embaixo, implorando por um cigarro, até que uma alma caridosa lhe atirasse um cigarro... Mas apagado. "Socorro, me tirem daqui!" Podia ouvir até o barulhinho das pedras batendo e ela, de cócoras, tentando fazer fogo sobre o cigarro.

O carro parou. Sônia ia dar um grito de desespero quando ouviu a voz do marido.

- Sônia, isso vai ser rápido. Só alguns dias.

- Jonas? - Falou, titubeante.

O capuz foi retirado. Conseguiu, então, ver os filhos e o marido fantasiados de sequestradores, já sem os capuzes. A luz do sol machucou seus olhos, mas não o suficiente para impedi-la de ver o que dizia a placa em frente a uma casa simples, com aparência de casa no campo:

"CASA DE RECUPERAÇÃO PARA FUMANTES"

- Nãããããããããããããooooooo!!!!!!

Preferia ter sido sequestrada.

OPINIÔES - Fábio Porchat

O que você acha dos Black Blocks? É só vândalo, ou eles estão mostrando que é quebrando tudo que realmente se chama a atenção para as coisas que estão erradas? As manifestações de junho no fundo foram em vão? E os testes em animais? Maldade, necessidade ou faz parte do nosso processo evolutivo? E das biografias não autorizadas, o que você tem a dizer? É censura? Mas e a questão da violação da privacidade? Você viu a Paula Lavigne no Saia Justa? Já procurou saber?

E a greve dos professores? Eles tão certos em querer melhorias, mas é certo ficar meses sem trabalhar prejudicando as crianças? E os bancários? Humor tem limite? E a ditadura do politicamente correto? E essa Marina Silva, hein? Surpreendendo a todos! O que você achou dessa aliança dela com o Eduardo Campos? Será que vai dar uma chacoalhada nessa eleição? O Lula volta? Você viu a Marina Silva no Jô?

Esse Obama é que não sei não... Que você acha dele? O Papa é que tá fazendo uma limpa lá no Vaticano. Mais cabeça aberta esse cara, né? E agora gay não vai mais poder entrar em culto evangélico. Você concorda com o Feliciano? E com o Jean Wyllys? E o casamento gay? E a adoção de crianças por pais gays? Você viu essa lei nova que tá tramitando aí no Congresso?

A Copa do Mundo ser aqui foi um erro? E as Olimpíadas? Os recursos empregados em estádios não poderiam ser destinados a projetos mais relevantes como saúde e educação? E esses clubes brasileiros falidos, isso é má gestão, é muita roubalheira, é o futebol brasileiro que não soube evoluir e se profissionalizar ou é tudo junto?

O que você acha que aconteceu com o Eike Batista? Ele sempre foi uma fraude? E esses cubanos, hein? Isso vai dar certo? A culpa é dos brasileiros que não querem ir pra longe por falta de estrutura ou é culpa do governo, que não possibilita a estrutura? Ou dos dois? Mas não é melhor um médico no meio do nada sem recursos do que nenhum? E se fosse o seu filho numa situação de emergência no interior do sertão?

E a televisão? Acabou? A internet é o futuro? Ou já é o presente? Taí a NetFlix, né? A culpa é da nova classe C, que melhorou de vida mas não mudou de hábitos? Ou é a TV que tem que oferecer a ela coisas melhores? Como é que se resolve essa questão da Síria? É necessária a intervenção dos EUA? A ONU tem tomado as decisões corretas? Por que a Síria e o Irã não podem ter armas de destruição em massa e os EUA podem?

Mas é muito ministério, né não? É tudo jogo político pra empregar aliado que o pessoal teve que fazer pra ter mais tempo na TV. Partido nem existe mais. Ou você acha que era só ter menos siglas que resolveria muita coisa? Que você acha, Fábio? Bom, respondendo sua primeira pergunta...

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RACISMO AQUI NÃO!

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