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ABORTO – Fernanda Torres

Toda geração tem o seu. 
O da minha atendia pelo nome de Dr. Chaim.

Dr. Chaim mantinha um consultório no Leblon, e era para lá que as meninas iam cada vez que a liberdade recém-adquirida de trepar na adolescência acabava numa gravidez indesejada.

Ainda não existia a Aids, esse complicador.

Terminado o procedimento, as pacientes eram dispostas em cadeiras reclináveis, numa pequena sala comunal, à espera de que recobrassem os sentidos.

Um amigo enfrentou o dia fatídico e presenciou dois ataques histéricos na sala de recuperação. Assustadas com o peso e o caráter criminoso da decisão, as moças muitas vezes acordavam aos gritos da cirurgia.

Não conheci o Dr. Chaim, mas passei por dois abortos espontâneos e tomei a pílula do dia seguinte.

Em todas as ocasiões, senti algo parecido com dar um cavalo de pau num Fenemê acelerado. Uma vez fecundado, o óvulo se apodera do corpo, enviando ordens para o centro nervoso da gestante, a fim de garantir a imortalidade do DNA egoísta.

Indivíduo, desejo, livre arbítrio, tudo o que prega a cartilha de direitos civis passa para terceiro plano.

Vômitos, suadouro, depressão, medo, tristeza, vazio são alguns dos sintomas que experimentei.

Por isso, percebo algo falho nos slogans das campanhas pró-aborto, que afirmam que a mulher é livre para fazer o que quiser do próprio corpo. Uma gestação envolve, no mínimo, o parceiro, além de um misterioso terceiro elemento chamado embrião.

Não sei se há consciência no embrião, mas existe a vontade.

A defesa do direito ao aborto peca pelo tom libertário, assim como a da legalização das drogas, por vezes, parece esquecer da dependência trágica do vício.

É nesse ponto que a bancada conservadora se sobressai, ao se firmar como guardiã da vida, ignorando fato de que a imaculada pauta escamoteia o fracasso da política antidrogas e o mercado clandestino de aborteiros de plantão.

Sou favorável à regulamentação do aborto pelo mesmo motivo que defendo a legalização das drogas. Sua proibição acarreta mais danos do que benefícios à população.

Mas uma coisa é liberar a droga, outra é se libertar da droga. Uma coisa é legalizar o aborto, outra é controlar o sexo sem camisinha, é criar horizontes para crianças sem perspectiva de futuro.

Choca assistir ao encaminhamento de propostas ao Congresso que visam retroceder no direito ao aborto para mulheres vítimas de estupro, enquanto leis que restringem o comércio de armas se veem ameaçadas pelos interesses da indústria bélica.

É a lógica distorcida, tão bem definida em "Haiti", de Gil e Caetano, sobre o Papa que vê tanto espírito em feto e nenhum no marginal.

O aborto, no Brasil, esbarra em crenças e convicções inarredáveis; um embate sem solução, entre ciência e religião, para precisar o momento em que a intervenção cirúrgica maquia um assassinato.

Por ora, aprovar o uso da pílula do dia seguinte já diminuiria, e muito, o sofrimento de inúmeras mulheres que arriscam a saúde em clínicas ilegais.

O lobby dos fármacos, tão poderoso quanto o das armas, poderia exercer uma pressão maior sobre o plenário do que a retórica em torno da liberdade individual.

Pragmatismo econômico no lugar de ideologia. É triste, mas é a norma do século 21.

VOVÓ GAROTA - Fernanda Torres

Não nasci para anfitriã. Abro as festas tensa, receosa de que não apareça ninguém. Depois, quando a casa lota, rezo para os convidados irem embora para eu poder dormir em paz. Outro dia, um casal de amigos veio em casa.

Fiquei com sede e bebi água de um copo, aparentemente intacto, que estava na mesinha ao lado do sofá. Não sobrou nem uma gota. Era da visita, já estava até tomado. Fiz isso na hora em que eu confessava o meu pouco talento para receber. Minha amiga foi obrigada a concordar comigo.

Mas os aniversários se sucedem e a pressão de fazer algo que preste no dia do cumpre anos volta a atormentar. Nos últimos tempos, apelei para o mesão no restaurante, que é prático, acaba cedo e salva o lar do dia seguinte. Mas não quis repetir a dose neste ano.

Completei 48 anos, tomei coragem e chamei alguns amigos para um almoço, seguido de pôr do sol. A meia-idade é uma grande fase da vida. Os conhecidos se espalham por diversas gerações, é muito interessante. Vieram bebês recém-saídos da barriga, audazes rapazes de 20, balzacas da minha safra e setentões do mais alto calibre.

Paula Lavigne me salvou de uma deprê há três anos.

Na sua casa, na Bahia, conheci Cézar Mendes, violonista extraordinário, a quem já dediquei, aqui, uma crônica. Cezinha compareceu com Dadi Carvalho e Pretinho da Serrinha e passamos a noite cantando sem compromisso.

O apagão, presente do acaso, nos deixou a sós com a luz da lua.

Tom e Vinicius, documentário de Miguel Faria Jr., traz um filme caseiro do poetinha na roda de cantoria de um apê em Ipanema. Estão todos altos. Ele, rodeado por uma pirâmide de mulheres estonteantes, segura o copo de uísque na mão e solta a voz no “vai, vai, vai, vai, vai…” do Canto de Ossanha. De vez em quando, Vinicius interrompe a levada para declamar um poema, retornando, em seguida, para o vai, vai cada vez mais épico e transcendental.

Corei de inveja.

Cantar com os amigos cura qualquer problema sério. Mesmo desafinando, vale. Meus enteados e a turma deles foram os últimos a abandonar a roda. Amantes de Caymmi, dos Novos Baianos, de Raul, Gil e Caetano, eles dividiram a tarde com os boleros da terceira idade, sem saber que muitas das músicas que escutam foram produzidas por André Midani, também presente à comemoração.

Hector Babenco, Daniel Filho, Domingos de Oliveira e Cacá Diegues são diretores com quem já trabalhei e fiz testes. Sempre os encarei de baixo para cima. Mas, agora, que já passei um bom naco de tempo na Terra e compartilho com eles histórias em comum, já não os olho com a tensão de saber se me darão, ou não, um papel; se aprovam, ou não, minhas escolhas profissionais. É outra a razão que nos une.

É o próprio testemunho de termos visto os outros vivos. Somos todos dinossauros.

Para curar a ressaca, fui ao mar no dia seguinte. Praia apinhada, mar azul e areias limpas. Presentão de aniversário da campanha Lixo Zero.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa me escreveu para agradecer a tarde: “Acho que certas geografias melhoram as pessoas, e o Rio, com os seus morros, puxando nosso olhar para cima, é uma dessas geografias”.

Ele tem razão, a Guanabara é um grande criadouro de vovós garotas. Espero não ser exceção.

ORELHA NÃO TEM PÁLPEBRA - Fernanda Torres

Tenho horror a barulho. 
Só consigo raciocinar com a casa em silêncio. 

Até a música me incomoda, um traço de personalidade do qual não guardo o menor orgulho.
E não há nada que me enerve mais do que o volume abrupto do horário comercial e das chamadas da programação de TV. Os cling, cong, pãpãpãs e tátátátás. Sou o gatilho mais rápido do oeste para acionar o botão do mute. Sei de cor sua localização nos mais diversos controles remotos e gostaria de dar um prêmio ao gênio que inventou o atalho.

Assim como 80% da audiência nacional, acompanhei de boca aberta a saga de Carminha e cia., haja maldade humana, mas toda vez que o oi, oi, oi, oi… gane, anunciando o intervalo, minha espinha se eriça e o dedo corre para o botãozinho analgésico.

Conjecturei com meu esposo a respeito desse ataque-surpresa ao ouvinte desavisado e ele me explicou que a prática tem um nome: stopping power. Trata-se da capacidade que um reclame, ou inserção que seja, tem de prender a atenção do desatento. O objetivo é evitar que o ser humano vá até a cozinha, ao banheiro, brinque de boneca, leia, converse e se esqueça de olhar a TV.

Consultei o oráculo. A Wikipédia afirma que a origem do termo é bélica. Stopping power “representa o poder que um calibre de arma de fogo possui para pôr fora de combate um oponente atingido com um único disparo, preferencialmente sem necessidade de matá-lo”. Curioso que a expressão tenha sido adotada pelo entretenimento e pela propaganda e que a vítima dos cucunssss, quequéuns, plunct, plact e zooms seja o espectador.

O som é o mais invasivo dos sentidos, orelha não tem pálpebra.

O plim-plim da Globo é agudo e penetra nos tímpanos até as zonas mais primitivas do cerebelo, mas não deixa de soar gentil.
A onda de cinema apocalíptico da virada do milênio, com títulos como Armageddon, Vulcano e 2012, causou a surdez precoce em muita gente. Do meio dessas películas para o fim, as cenas se desdobram em explosões e cataclismos naturais, incêndios e colisões impulsionadas pelo vigor dos decibéis THX. O subwoofer embrulha o estômago, o chão treme, os estalos colam a gente na cadeira e, em vez de encontrar no cinema uma forma de elevação, o prazer vem da força desorientadora que chacoalha a razão.

A maioria dos filmes de hoje se compara mais a uma montanha-russa do que a um livro ou uma peça de teatro. Gosto de 007, Missão Impossível e Duro de Matar, mas desisti dos de guerra, de super-heróis e dos sobre o fim do mundo. Esses só me causam alívio quando terminam. Em alguns casos, apenas o Dramin dá fim à zonzeira.

O THX tem muito a ver com isso.

O stopping power é um desafio para a internet. A publicidade estuda formas de impor sua presença na rede, o que é com­preen­sível, mas esbarra no caráter independente do usuário de computador. A solução mais agressiva é a das janelas que tomam a página desejada sem pedir licença. Enquanto o mouse não encontra o minúsculo xizinho para encerrar a tortura, o jingle se alastra pelo ambiente. Confesso que me recordo involuntariamente dos anúncios que me foram impostos dessa maneira; o que não sei é se a deselegância agrega uma boa imagem à marca que se vale de tão baixo artifício.

Os filmetes de internet dirigidos por Polanski e Scorsese para a Prada e para uma marca de espumante espanhol são dois grandes exemplos de como conquistar seguidores e não ser grosseiro. Clássicos, inteligentes, irônicos e bem filmados à beça, eles têm uma estratégia de lançamento requintada e silenciosa. Como uma mulher sedutora, os curtas exigem que a gente os procure, deseje, queira ver, e não o contrário. Não há nada pior do que mulher atirada, barulhenta e espaçosa.
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LEILA DINIZ - Fernanda Torres

A distância criada entre a arte e o varejo 
simplificou o dilema do ser ou não ser Leila Diniz.

Quando comecei, uma das motivações que levavam uma atriz a posar nua, além do cachê, era dar provas de ser uma mulher desejada, com coragem o suficiente para estar à frente de seu tempo. Heranças de Leila Diniz.

Os nus de hoje chocariam o mais avançado apreciador de então. Há 20 anos, close de rego e lábios, só nas impressões "hard-core". Leila não faria.
A mudança reduziu a presença das divas da ribalta nas páginas das revistas masculinas. 

Mais pudicas do que as profissionais do ramo, com raras e louváveis exceções, costumam produzir ensaios mornos, café com leite.

Com a explosão da indústria do sexo explícito, algo parecido ocorreu nas telas. A abertura de mercado para o novo gênero livrou o cinema da obrigação de causar ereções. A distância criada entre a arte e o varejo simplificou o dilema do ser ou não ser Leila Diniz.

Sempre achei que havia uma linha definida entre a mecânica pura do nheco-nheco e a riqueza pseudointelectual do "soft" pornô "made in Brazil". Mas, em um fim de domingo besta, zapeando na TV, encontrei, é claro, no Canal Brasil, um tesouro da arqueologia. O elo perdido entre a pornografia e a pornochanchada.

Mulheres desnudas riam endiabradas entre a folhagem de um jardim tropical; algumas bem à vontade, outras nem tanto. Lascivas, abandonavam a mata e atacavam um homem de cabelos fartos e barriga descomunal, também pelado, sentado à beira de uma fonte. 

Em uma bacanal angustiante, as possessas empurravam o mastodonte para a água, afogando-o entre guinchos e gargalhadas. Era um pesadelo de Carlos Imperial.

Ele, o gigante da fonte, viúvo devasso deflorador de virgens, se arrastava entre a perdição do sexo e a culpa pela esposa defunta. As diabas do além, enviadas pela morta, vinham arrastá-lo para o lado de lá.

Em meio à desesperada tormenta, o herói seguia seu destino de pecador, dissuadindo a velha tia a permanecer no andar de baixo, enquanto subia ao quarto para se deleitar com a sobrinha virgem.

Defendido pela pança bíblica, Imperial metia as fuças em uma xoxota peluda, comum na década de 70, mas pré-histórica para os padrões atuais. A cabeleira púbica, único obstáculo a proteger a mucosa íntima da indiscreta panorâmica, se confundia com as madeixas de Imperial. 

Sentada sobre a fronte do colega, a suposta donzela fingia gostar, mal escondendo a vontade de se ver livre da cena o mais depressa possível.

Foi chocante. O Imperial era um personagem da minha infância, eu não sabia que ele havia chegado a tanto. 

Na cavalgada final, a mal dublada falecida gritava sobre a montanha de banha: "Vem, Augusto, goza comigo!". Augusto obedecia e morria de amor.

Como peguei no meio, não entendi se o final era feliz ou triste. Se a fantasma arrastava o canalha para as chamas do inferno, ou se o filme era um elogio culpado ao amor conjugal. 

Não importa: o que impressionava era o arrojo sexual. A obra do Imperial é a fronteira final, o estertor da mistura da Boca do Lixo com o cinema cabeça. A quase pornografia.

Leila não faria.

Ganhei um livro do Roland Barthes chamado "Mitologias". Barthes abre os trabalhos com um capítulo sobre o tele-catch, que ele não chama de luta, mas de pantomima sobre a moral e a justiça. O filme do Imperial não deixa de ter a mesma ambição.

A barriga mole, a raiva leonina, a cafajestice brutal, o exagero: Carlos Imperial teria uma carreira brilhante como bufão dos ringues. A encarnação de escrotidão humana. Grande, assustador e despido sobre o colchão, debaixo da luz chapada, o tarado personifica a vitória da vilania da carne sobre o espírito.

Dali para a frente, só a fornicação assumida.
O julgamento do mensalão é um divisor de águas semelhante.

Diante das acusações de venda de voto, o caixa dois se apresenta como prova de idoneidade e inocência. O custoso marketing eleitoral empurrou a política para tamanha encruzilhada.

O Supremo enfrenta a mesma questão da comediante, a de conseguir separar o que é arte do que é exploração; no caso, o que é política do que é falta de decoro, ou crime. 

É preciso estar atento para o que Leila não faria.

TEMPO, TEMPO, TEMPO... - Fernanda Torres

Duas horas e quarenta minutos. No relógio. Foi quanto eu levei para completar a terceira sessão de depilação definitiva.

O dia não havia começado promissor.

Às 9 da matina daquela sexta-feira, eu já me encontrava sentada na cadeira da dentista. Acreditei que na segunda consulta concluiria a contenção da arcada inferior, algo que eu estava adiando havia mais de ano com a ajuda de um aparelho de dentes que eu esqueci no avião. Reagi com espanto à notícia de que o fio pré-moldado não se encaixava corretamente. Tentei negociar uma forma de me livrar de uma terceira visita ao 7º andar da Siqueira Campos, mas foi em vão.

Meu destempero deixou as duas doutoras discretamente boquiabertas. Como explicar que não sobra tempo? Que, fora o trabalho e a família, a idade aumenta a necessidade de rotinas de saúde e beleza, o que congestiona ainda mais a vida curta?

A dermatologista, eficientíssima, que se esmerou por duas horas e quarenta no comando do incinerador de pelos a laser, contou que, certa vez, receitou uma lista de cuidados para um senhor que sofria de uma coceira causada por ressecamento cutâneo. Ao ler o tratado, o paciente deu uma pausa e respondeu com mesura que, para executar o protocolo a contento, teria de acordar às 4 da matina, todos os dias, antes de ir trabalhar. “E isso é uma coisa que, vamos combinar, não vai acontecer.”

Quanto mais vivido o cidadão, mais revisões ele deve fazer. É difícil dar conta. Quando eu era jovem, tinha medo de ir mal na prova da escola. A maturidade me trouxe um receio ainda pior, o de ser reprovada no exame de sangue.

Embora frívolos, os cuidados cosméticos não ficam a dever em termos de obrigatoriedade.

É possível ser hippie até os 30 anos, depois complica. Se você é mulher, complica muito. Os cabelos brancos são um divisor de águas, o momento decisivo de se tornar, ou não, uma mulher bem tratada. Para sê-lo, saiba que uma boa parte da sua passagem na Terra será gasta com cutículas e raízes aparentes.

Sempre fugi de salão de beleza. Fico exasperada com o tempo gasto em cortar, pintar, fazer unha, escova… Talvez por executar esse ritual constantemente na minha profissão eu tenha desenvolvido essa aversão quando estou à paisana, mas desconfio que não aguentaria mesmo se fosse veterinária ou cozinheira.

Fora o tédio, a aplicação da tintura provoca queda na autoestima. É um terrível efeito colateral. Nenhuma mulher deveria ser vista com o cabelo empastelado de amônia, perfume e pigmento, é feiíssimo. Para dar resultado, fica-se uma boa hora diante do espelho nesse estado monstruoso e exalando um cheiro meio bom, meio ruim. É um exercício de desapego digno de um monge budista. Igualmente humilhantes são as sessões depilatórias.

No fim da interminável recauchutagem, a sensação de égua tratada realmente não tem preço, mas o custo em segundos é incalculável.

Quando optei por não me deixar largar, criei a ilusão de que conseguiria ocupar as tardes nos salões de maneira produtiva. Carreguei computador e livros e me instalei na bancada. Pra quê?

Não conheço cristão que resista à tara por revistas de moda e fofoca no cabeleireiro. É a literatura ideal, não tem outra. Curiosamente, em ambientes menos fúteis, como as antessalas dos especialistas em medicina, também impera esse tipo de publicação. É corpo são e mente em compasso de espera.

Talvez por ter me exasperado mais do que queria na dentista, enfrentei sem muxoxo as duas horas e quarenta de gelo, ar refrigerado e agulhadas lancinantes poros adentro. A promessa de me livrar da intimidade excessiva com moças que eu mal conheço, munidas de cera quente, me segurou na maca.

Sigo resignada. Não tem jeito. É daí para pior. Otimizar é a palavra de ordem.

Juntei o check-up do ginecologista com o do clínico geral. É tanto teste que eu nem sei quanto tempo vão demorar para me virar do avesso. Faço uma escova razoável em mim mesma e já não queimo o pescoço quando piloto o baby liss.

Eu me esmero na tentativa de executar breves paradas no boxe, seguidas de uma longa corrida.

HOMO BAHIANUS - Fernanda Torres

É mesmo impossível negar a fé na Bahia. 
Ela não é imposta, é um hábito concreto e festivo.

Passei o Ano-Novo em Salvador. Na despedida, assisti à extraordinária missa da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Há dois anos, fortes chuvas danificaram a estrutura da capela original, erguida por escravos e alforriados. Enquanto aguardam a restauração, os fiéis realizam as preces na quase vizinha igreja do Carmo.

O ritual é o retrato supremo do sincretismo religioso que tanto vingou no Brasil. Atabaques saúdam o Senhor enquanto pães de santo Antônio rodopiam nas mãos de beatos bailarinos. Ninguém recebe santo em solo sagrado, a liturgia católica permanece intacta, mas, como na mais primitiva das experiências, a catarse rítmica arremessa a alma às alturas.

"Eu sou ateu, posso sair?" Perguntou entediado meu filho de 12 anos. Eu o deixei ir. Jamais induzi minhas crias a essa ou aquela religião, mas também não cultivei o ateísmo. Caetano riu da certeza categórica em tão tenra idade. Confessou que também não acreditava em Deus na adolescência.

Mais velho, no entanto, percebeu uma censura repressora por trás da rejeição da esquerda ao sagrado e se reaproximou do divino.

É mesmo impossível negar a fé na Bahia. Ela não é imposta, é um hábito concreto, festivo, que domina o calendário anual. Cada igreja tem o seu dia; cada terreiro, uma agenda; cada imagem, uma adoração. E, mesmo no Carnaval, o mais pagão dos blocos só põe o pé na folia depois de ungido.

Os soteropolitanos sabem cultuar seus tesouros. Sempre que caminho no Pelourinho lamento a devastação do patrimônio colonial carioca.

O Rio de Janeiro decepou o morro do Castelo, lugar de sua fundação. Em 1921, a faraônica obra de remoção deu um drástico fim à favelização do local.

Hoje, a ladeira da Misericórdia, antigo acesso até a igreja dos Jesuítas, termina em um abismo em linha reta tomado por mato. É tudo o que sobrou do berço dos cariocas.

No momento, Salvador enfrenta o milagre da multiplicação de prédios de 30 andares, estilo paulista, avançando pela orla como ocorreu na Barra da Tijuca. As cidades tendem a se perder quando assaltadas por corridas imobiliárias, mas a capital parece resistir ilesa.

Ao menos quando vista do mar no primeiro dia do ano, entre o farol da Barra e o do Humaitá, seguindo o trajeto da procissão do Bom Jesus dos Navegantes.

Acordei cedo para acompanhar a galeota que leva as imagens de Jesus e Maria entre a basílica da N.S. da Conceição da Praia e a igreja da Boa Viagem.
O hino do Bonfim, na voz juvenil de Gil e Caetano, abriu os trabalhos para, em seguida, ceder o trono para o arrocha.
A romaria é uma invenção grandiosa que envolve a população, a geografia e as águas cristalinas da baía de Todos os Santos.

Levei na mala o livro de Nelson Motta sobre a juventude de Glauber Rocha. Só agora entendo o grau da amizade entre o cineasta e João Ubaldo Ribeiro. Que turma. 

Fala-se muito da sensualidade e da expansividade dos baianos, mas um dos grandes traços daquela terra é o seu refinamento intelectual.

Paulo César de Souza, cuja recomendada tradução do alemão de "Assim Falou Zaratustra" acaba de ser lançada pela Cia. das Letras, mora lá. Paulo é discreto, lembra Antonio Cicero, e em nenhum momento se vangloria, ou mesmo deixa transparecer a dimensão do seu saber. 

A razão, na Bahia, é uma prática tão espontânea quanto a fé. E o sexo.

No documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos", de Werner Herzog, sobre as pinturas paleolíticas da caverna Chauvet, na França, o antropólogo Jean Clottes diz que o termo Homo sapiens não define bem o que somos. Homo espiritualis, na sua opinião, seria mais adequado.

A caverna Chauvet era um templo destinado à realização de cultos. Seus desenhos datam de 30 mil anos atrás. É um dos mais antigos sítios arqueológicos dessa natureza de que se tem notícia.

Ali, foram lapidados o sentido da representação, a arte, a música, o espírito e a fluidez da alma, a grande revolução que catapultou o abrupto desenvolvimento do homem moderno. 

A Bahia é a caverna Chauvet do Brasil, ainda em atividade. Ai que recalque que eu tenho de não ser Homo Bahianus.
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PERFEITO - Fernanda Torres

Quando eu tinha 11 anos, vi Perfeito Fortuna pela primeira vez. Voltando da escola, notei uma figura assustadora sentada no banco do corredor do ônibus. Ele estava descalço, com pés imensos, imundos, e exibia uma cabeleira sebenta até a cintura. Trajava um macacão de jeans surrado, sem camisa nem cueca, supus. Os traços brutos lembravam os de um neandertal.

Pouco depois, descobri tratar-se de um integrante do Asdrúbal Trouxe o Trombone, grupo de teatro carioca que livrou uma geração inteira da divisão entre esquerda e direita que dominava o pensamento vigente.

Nos anos seguintes, eu o veria em Trate-me Leão e Aquela Coisa Toda, imitando magistralmente o crítico teatral Yan Michalski, com sotaque impagável e pochete na mão.

Lembrei de tudo ao assistir a A Farra do Circo, documentário de Roberto Berliner que recria a trajetória do Circo Voador, cujo idealizador foi o meu Cro-magnon do 572.

Ao ver as imagens da Lapa deserta, impressiona o que um grupo de artistas guiados por um visionário é capaz de fazer por uma cidade. Perfeito é um homem à frente de seu tempo.

Expulso da Zona Sul, ele se mandou com a tropa para o Morro do Alemão, isso muito antes de as UPPs falarem em reintegração da cidade partida. Na Lapa falida, Perfeito levantou a lona com seus pares, abriu uma creche, plantou uma horta e as palmeiras que estão lá até hoje. Fez renascer o bairro.

Graças a ele, e à marginália dos anos 80, a Fundição Progresso, cuja fachada já recebia golpes de marreta, foi salva. A noite do Centro renasceu graças a uma mistura de strippers do baixo meretrício com o Brock, Deborah Colker, Luiz Zerbini e Barrão, Manhas e Manias e os poetas malditos, rádio FM e contracultura.

Vestido com uma cartola de strass, com plumas e flores azuis à moda de Chacrinha, Perfeito comanda a massa. Sempre calmo, pede que a plateia ensandecida se pendure na estrutura do Circo com consciência, como se fosse possível encontrar bom-senso na loucura.

A horda segue para a Copa do México, num avião Hércules da FAB, espremida pelos cantos da aeronave despressurizada. Quem viveu a experiência de passar 32 horas a bordo com a carga conta histórias inesquecíveis da empreitada.

E é lá, no México, enfrentando a desistência dos patrocinadores, que a lucidez de Perfeito se torna mais evidente.

Com uma placidez assombrosa, o novo guerreiro afirma que entende a atitude dos empresários. Diz que a arte e o resultado nem sempre andam de mãos dadas; aliás, quase nunca. Perfeito faz o discurso mais claro que já ouvi sobre os interesses que separam a cultura do marketing empresarial. Sem nenhum rancor, avisa que o Circo não vai morrer porque o Circo é voador.

Fala-se muito de verbas no documentário, de aprovações políticas, de números e receitas. A certa altura, Perfeito confessa que espera sair da empreitada gerando muita riqueza, ou muitas dívidas, tanto faz, o importante é bater as asas.

A arte, no Brasil e no mundo, sempre dependeu de mecenas, mas hoje a dependência é institucionalizada. O teatro, a música, a dança, o cinema, todos nós dependemos das leis de incentivo. A inteligência clarividente do Perfeito prova o que um bando de doidos pode fazer por uma cidade e um país.

Eu desejo a ele fortuna, muita fortuna, nesta vida sempre imperfeita.

À QUEIMA-ROUPA - Fernanda Torres

É inverno no Rio de Janeiro. A estação traz um ar civilizado à cidade, uma calma que não se encontra nos meses tórridos. O ano de 2014 nos brindou com um julho perfeito, de chuvas passageiras, atmosfera limpa e sol ameno.

Foi num dia assim que eu soube da morte de Tintim, a dona do Guimas, assassinada à queima-roupa com um tiro na cabeça. Vítima da saidinha de banco, Maria Cristina Mascarenhas morreu no bairro que ajudou a transformar, perto de uma banca de flores; cenário bucólico, como o tempo frio.

A violência não escolhe o dia.

Há cerca de um mês, numa tarde bonita dessas, eu voltava de São Conrado com os meus. Entardecia e o engarrafamento se estendia por toda a Lagoa-Barra. Lentamente, vencemos a boca do túnel. Logo após a entrada, uma moto emparelhou conosco do lado esquerdo.

Não estranhei até meu filho berrar para sairmos dali. Sentada no banco do carona, vi dois homens pela janela do motorista. Eles vestiam casaco de malha escuro com um capuz que só deixa a boca e o nariz de fora. Nervosos, exigiam os celulares. Na mão direita do garupa havia um objeto metálico apontado na nossa direção. Era um revólver.

Meu companheiro bateu no vidro com os dedos e forçou a leitura labial, evidenciando as sílabas para que entendessem. “É blindado”,  ele disse. A lembrança me deu coragem de encarar a pistola, uma automática prateada mirada para mim. Eu me ative ao buraco negro de onde partiria o tiro, o orifício escuro, a morte. Lembrei de uma amiga que sobrevivera a cinco disparos na cara, graças ao reforço extra do carro. Não tive pânico, só um leve temor de que o vidro não resistisse ao confronto.

Irritado, o motoqueiro chutou o retrovisor e me tirou do estado letárgico. Meti a mão na buzina. Forçamos a passagem pelo meio dos carros, acelerando sem olhar para trás. Os gatunos devem ter tomado o primeiro retorno pela galeria e escapado para a outra pista. Não os vimos mais.

Longe do perigo, fui parabenizada por ter justificado o gasto com a blindagem, feito ao longo da vida. Agradeci a Deus pelo custoso seguro.

Nós continuamos abrindo caminho até avistar uma patrulha da guarda civil presa no trânsito do Zuzu Angel. Dado o aviso, a guarda teve uma atitude lógica: ligou a sirene e saiu batido. Era a única direção possível, mas a cena pareceu mais uma debandada. A guarda civil não tem porte de arma.

Sempre considerei absurdo, quase obsceno, passear por aí num blindado. Eu me rendi ao costume durante um período belicoso da Rocinha. Fui pegar meu filho na escola e dei com um caveirão atravessado no alto da Marquês de São Vicente.

Três soldados trocavam um pneu furado, enquanto dez homens tensos, de escopeta e colete, faziam a escolta. Eram mundos paralelos, o meu e o do pelotão, convivendo apertados na ladeira que leva ao morro. Mandei blindar.

Não me orgulho, mas não me arrependo. Hoje, talvez, eu não estivesse aqui para contar a história.

CHOVE CHUVA - Fernanda Torres

Uma teoria recente associa a Revolução Francesa à fome que castigou a Europa durante a segunda metade do século XVIII, deflagrada pela erupção do vulcão islandês Laki, entre junho de 1783 e fevereiro de 1784. A nuvem de cinza e poeira cobriu o continente europeu, provocando uma sequência de invernos rigorosos, seguidos de minguadas colheitas. A escassez alimentou a insatisfação popular. Não à toa, Luís XVI perderia a cabeça na guilhotina dez anos depois do ocorrido.

No meu 4º ano primário, a professora dividiu a turma em dois grupos e promoveu um debate sobre o homem e o meio. Um lado da sala defendeu a supremacia da ciência sobre a mãe natureza, enquanto a outra metade evocou meteoros, tufões, furacões, maremotos e enchentes para dar cabo das conquistas do engenho humano.

Na época, eu não conhecia a obra de Jared Diamond e tomei partido do homem. Anos depois, o antropólogo me faria entender que o destino de um povo é indissociável da geografia à qual ele pertence. O homem é o meio.

O Rio de Janeiro é uma cidade insalubre. A proximidade entre a cadeia de montanhas e o mar impede a circulação do ar, os charcos e mangues que alimentam a Baía de Guanabara são criadouros naturais de larvas e mosquitos e o calor abafado propicia a propagação de vírus, amebas, germes e bactérias, além de provocar alergias.

Sempre invejei o ar seco e civilizado das zonas temperadas, que deixa os cabelos sedosos e mantém os poros fechados. Mas a idade me ensinou que a aridez causa sangramentos e envelhecimento precoce. O clima seco amofina, enrijece o caráter e agride a mucosa.

Hoje, venero o bafão carioca. O ar molhado e pesado do Rio de Janeiro. Mas, cadê? Faz três meses que só vejo azul anil. A gigantesca massa de ar quente continua estacionada sobre o Sul e o Sudeste, empurrando as nuvens para o oceano e o Acre. As águas de março não deram o ar da graça e as precipitações de outono nunca foram muito animadoras.

Ando prostrada, desinteressada, sem vontade ou determinação, não aguento mais sol. Outro dia me peguei desfrutando a chuva artificial da gravação do seriado Tapas e Beijos. O inferno abate. Como sobreviver a um dezembro que se perpetua de janeiro a janeiro? E se for definitivo? Será esse o quinhão que nos cabe no agourento aquecimento global?

Em um ano truncado, com Copa e eleição pelo caminho, o clima desértico aumenta as tensões, o risco de apagão, o desabastecimento, a agressividade das manifestações populares e o risco de uma reviravolta política. Se só chover em setembro, cabeças vão rolar até o fim de 2014, vítimas do verão escaldante.

Os maus ventos, que afastaram as intempéries do Centro-Sul do Brasil, à maneira do vulcão islandês, podem trazer consequências graves em um ano de tantas decisões.

Tenho pena dos que, neste momento, ocupam cargos de chefia e liderança. Não existe nada mais ingrato do que assar vacas magras, enquanto se administram as sete pragas do Egito.

A CIDADE DAS ARTES - Fernanda Torres

 
O carioca se acostumou a olhar a faraônica Cidade das Artes, no entroncamento das avenidas Ayrton Senna e das Américas, na Barra, como um monumento em homenagem à corrupção.

A rejeição é tamanha que, mesmo depois de pronta, o público resiste à visita, ignora, não se sente convidado.

Pois eu arrisquei duas semanas de temporada de A Casa dos Budas Ditosos na famigerada Cidade, no apagar das luzes de 2013. E até Budas, que é aquele tiro certeiro, sofreu na primeira semana. Não tivemos corrida, só na segunda semana, depois de vencida a resistência do bairro.

Não é difícil ceder aos encantos do lugar. Cheguei de carro e subi a poderosa rampa até o colosso de concreto. O clima lá dentro é agradável e veem-se o mar e Jacarepaguá, o maciço da Tijuca e os morros de Guaratiba por entre os pilotis.

A proporção faraônica faz a gente se sentir como um hebreu em visita a Luxor. Os vãos, que eu considerava obsoletos, o pé-direito incomensurável, que muda conforme o sol, nada disso me pareceu inútil, enquanto caminhava até a entrada do teatro.

O projeto Aquarius fez sua apresentação na mesma noite do meu espetáculo. Homens de terno e mulheres de salto alto lotavam os espaços vazios. À tarde, quando cheguei, Copélias meninas corriam de uma coluna a outra: era a formatura de uma escola de balé.

Emilio Kalil, com sua vasta experiência como curador, programador, produtor, não sei que título dar a ele, abraçou a causa e tem se empenhado para que a Cidade das Artes não se transforme em um mausoléu em louvor ao mau uso do dinheiro público.

Quem assistiu ao Back2Black lá garante que foi inesquecível; assim como o show do Arnaldo Antunes.

A mostra de obras de arte contemporânea já vale a visita, a biblioteca, as salas de ensaio que comportam pequenas apresentações, tudo presta. Mas a qualidade do teatro foi o que mais me impressionou.

A sala em que me apresentei, a menor, onde cabem até 550 pessoas, tem uma acústica tão apurada que eu fui obrigada a pedir que abafassem o som do microfone, piorassem um pouco a nitidez da fala, para parecer humana. É uma distribuição diferente, com o balcão maior do que a plateia inferior, e não há ângulos retos na sala, tudo termina em curvas, até o assento das cadeiras. É muito bonita, e a sensação para quem está no palco é de total domínio do espaço.

Não entrei na sala grande, o que me arrependo de não ter feito. Deve ser um espetáculo. Ainda não me conformo com o fato de que um espaço tão grande não conte com um teatro com mais de 1 300 lugares. Três mil seria o ideal, com possibilidade de transformá-los em 1 500 sem parecer que o lugar está vazio. Christian de Portzamparc é tão talentoso que não encontraria dificuldade para resolver o problema.

O terminal de ônibus que desemboca no local ainda não está pronto. Quando ficar, espero que o Rio usufrua um projeto pelo qual pagou caro, mais do que caro para ter.

Algo que ninguém pediu, mas que, uma vez concluído, é melhor que ganhe sentido de existir.

COVARDIA - Fernanda Torres

Minha colega Andréa Beltrão é uma nadadora exímia. Três mil metros era o mínimo que cumpria nas piscinas. Agora que se mudou para Copacabana, descobriu o nado em mar aberto.

Eu já invejava a sua disposição de acordar às 8 e se jogar na água gelada do Rio de Janeiro. Mas a notícia de que a Princesinha do Mar é a praia mais limpa da cidade agravou a frustração de não ter o espírito guerreiro da minha companheira.

Cardumes gigantes acompanham a travessia, diz ela, e tartarugas, e peixes, e barcos. Um dia eu chego lá.

Eu tinha 10 anos quando o filme Tubarão acabou com o meu prazer de entrar na água. Assim como milhões de espectadores impressionados com o tum, tum, tum, tum da tela, era sentir o pezinho boiando para ser assolada pela sensação de que a bocarra iria me partir ao meio.

Eu ia muito a Itaipu com o meu pai para pescar. Ele ficava em um bote — acho que nunca fisgou um peixe — enquanto eu punha a máscara para olhar as pedras com uma prima.

Um dia, vi uma tartaruga pequena, desesperada, agarrada a uma rede de pesca. Em vez de ajudar, abandonei a coitada à própria sorte e fugi panicada. Culpa do Spielberg.

Fernando de Noronha me curou da síndrome do Tubarão. Cheguei a abraçar uns lixas de noite, munida de colete e garrafa, descobri a curiosidade amigável dos seres marinhos e o silêncio das profundezas.

Um amigo mais audaz foi parar em Rangiroa, na Polinésia Francesa. O pacote de mergulho incluía um passeio na Cave de le Rocan. A caverna dos tubarões se encontra a 30 metros da superfície e, em caso de pânico, não é possível pular fora ligeirinho, tem de parar na descompressão.

Os turistas mergulhadores desceram na boca do atol, onde os mastodontes famintos aguardavam a saída dos peixes. Agarradas ao recife, em meio à correnteza, as pessoas viram o guia retirar uma carcaça suculenta de dentro de um saco e soltá-la perto dos visitantes.

Sugado pela corrente, um pedaço considerável de carne se aninhou no peito do meu amigo. Desespero total.

As mandíbulas disputavam nacos a um palmo do rosto dele. Aqueles momentos em que a gente se pergunta o porquê de ter saído de casa. Mas ele viveu para contar — isso é o que vale.

Conheço outro que comemorou os 50 anos em uma gaiola, rodeado de tubarões-brancos na África do Sul. Tem seu estilo.

O problema é que eu nasci covarde. Passei uns vinte anos lutando contra a covardia, até que desisti; foi depois que
tive filhos.

Tenho uma esteira em casa, onde corro como um rato adestrado, e uma cama de pilates. De vez em quando, dou a volta na Lagoa. As aulas ainda são cascudas, mas já me encaminho para a maturidade. Não luto mais para ser destemida.

Para os que não têm o fôlego de campeã da minha colega, e mesmo para os que o têm, depois do sagrado banho salgado de domingo, vale a visita à Casa Daros. O restaurante é excelente, a reforma, de cair o queixo e a exposição Le Parc Lumière, de tirar o fôlego. O penetrável do pátio, de Hugo Richard e Natali Tubenchlak, faz teu filho te agradecer por tê-lo arrastado para um museu, mas aconselho ir de manhã ou bem no fim da tarde, porque lá dentro esquenta.

ANDARILHOS - Fernanda Torres

Gabeira sempre se manteve à margem, no acostamento, 
cruzando a pista vez por outra, mas no contrafluxo

Em 1976, 1975, não me lembro mais, assisti a um "Globo Repórter", dirigido por Walter Lima Júnior, sobre contatos imediatos de terceiro grau no Brasil.

O que prometia ser um programa sobre a visita de seres de outros planetas ao Planalto Central revelou tratar-se de algo bem mais perturbador. Embrenhado nas veredas de Minas e Goiás, Lima Júnior colheu o depoimento de capiaus que viviam isolados em casas de pau a pique e afirmavam ter sido abduzidos por extraterrestres.

O caso mais impressionante narrava a história do amor entre um matuto e uma ET.

Levado por um facho de luz, o caipira jurava ter despertado em uma nave espacial, onde fora examinado, não sabia por quanto tempo, por uma junta de médicos alienígenas. Ao cruzar os olhos com um deles, uma ela, enamorou-se. E foi correspondido.

Encontrado em um campo ermo, uma semana após a suposta abdução, foi trazido de volta para casa. Agora, lamentava a falta da amada e passava as noites a olhar as estrelas.

Surpreendia o caráter experimental da reportagem. Lima Júnior fazia parte de um grupo de cineastas convidado para produzir especiais para o horário nobre do telejornalismo. Ao receber a encomenda de um "Eram os Deuses Astronautas?", levou ao ar um tratado sobre a loucura.

O programa de estreia de Fernando Gabeira na Globo News me lembrou imenso o "Globo Repórter" de Lima Júnior. Gabeira optou pelo tema dos andarilhos da via Dutra. Gente que largou a família, ou jamais teve uma, e perambula pela rodovia.

Com aquela voz inconfundível, lerda, pausada, o verde Gabeira mata a sede em uma fonte de água limpa, fala da abundância do recurso natural na principal ligação entre o Rio e São Paulo e da sua importância na sustentabilidade da vida dos "easy riders".

E aborda o medo, a violência e a solidão que assombra os errantes. Um rapaz mostra a carteira de documentos escondida no fundo da mochila, diz tratar-se de seu bem mais precioso. É de uma melancolia ímpar.

Gabeira poderia ter se debruçado sobre a Síria, os "black blocs" ou a alta espionagem, mas preferiu ser existencialista. Por quê?

Havia uma clara identificação entre o repórter e o caminhante. O homem e sua circunstância. Há muito, desde que se livrou dos dogmas de esquerda, o ex-guerrilheiro, escritor e deputado federal examina o limite entre a liberdade do indivíduo e o interesse comum.

Gabeira sempre se manteve à margem, no acostamento, cruzando a pista vez por outra, mas no contrafluxo, na contracorrente. Vendo-o na TV, interessado por uma escolha tão radical de vida, me veio a sensação de que a obra era um elogio ao livre-arbítrio. Uma quase autobiografia.

A retrospectiva dos últimos 40 anos da "Veja" traz uma foto, mais que foto, o "portrait" de Gabeira em Trancoso, deitado sobre um tronco de árvore à beira-mar, coberto apenas com a mítica tanga herdada da prima, Leda Nagle.

A imagem é bonita, provocante, aborígine, homem-fêmea, e explica o choque dos que esperavam a volta do revolucionário. O microquadrado de crochê lilás com debrum amarelo é pequeno demais para acomodar os pelos da virilha, o elástico é frouxo, e Gabeira está com as pernas abertas, de lado, mas abertas. Ele ri feliz, bronzeado, na Bahia, depois do tortuoso inverno e da convivência com a moral avançada dos países nórdicos. É o retrato de um homem livre.

Nos quase três meses em que passei acampada no Xingu, durante as filmagens de "Kuarup", nenhum índio superou em graça um Yawalapiti de nome Palavra. Palavra era capaz de acertar uma mosca com uma flecha a cem metros de distância. Era gentil, humorado e sensível. Foi o mais próximo do ideal de índio que eu já cheguei.

Palavra era místico e viajante, gostava de cruzar longos trechos de floresta a sós. Uma noite, no meio do caminho que levava até a exuberante aldeia dos Camaiurá, sentiu uma letargia súbita e se amparou para não cair. Foi quando um disco voador surgiu flutuando sobre uma árvore à sua frente. A aparição girou as luzes, dançou, rodou, até desaparecer.

O delírio do Palavra dava a dimensão da profundidade dele.

É por isso que na semana em que a "Economist" estampa a capa do Cristo Redentor colapsando sobre a Guanabara, "I go looking for flying saucers in the sky".

O DRIBLE - Fernanda Torres

A imprensa se mantém alerta para qualquer movimento 
que interfira em direitos conquistados

Lanço um romance agora em novembro. Chama-se "Fim".

Saindo de uma reunião na editora, parei para observar a estante de lançamentos e fui convidada a escolher alguns títulos. Interessei-me pela biografia de Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trotsky, do Leminski, botei o exemplar no bolso e me dirigi à porta.

Meu editor veio atrás com "O Drible", de Sérgio Rodrigues, nas mãos. Perguntou se eu não queria levar. Sérgio foi um dos que tiveram a pachorra de ler e escrever o blurb, palavra odienta, uma pequena resenha na contracapa do meu "Fim". Agradeci a lembrança, encabulada por não ter partido de mim o impulso.

A vergonha me fez atacar o livro de bate-pronto e descobrir um escritor finíssimo, mineiro radicado no Rio. Sérgio se vale de um péssimo pai, cronista de futebol aposentado, que, desenganado, decide reatar relações com o filho, para compor uma tragédia burguesa que atravessa os últimos 70 anos da nossa história.

Através da paixão poética do pai pelo esporte bretão, Sérgio explora a geração que conviveu com Nelson Rodrigues e Mário Filho, que viu Nilton Santos, Garrincha e Pelé em campo, que testemunhou o apogeu e queda do futebol arte. Murilo desenha paralelos entre o jogo e o país, enquanto o filho, nascido junto com o golpe de 64, cresce em uma sociedade utilitária, movida a autoajuda, embalado pelo saudosismo dos seriados americanos da infância, o rock de 80 e as caixas de farmácia que come pelo caminho.

O "Drible" é primo-irmão do "Fim". Melhor, é claro, mais sórdido, mais macho, mas primo. O Rio de Janeiro é o seu palco. O hedonismo libertário, vazio, a decadência da corte, o desprezo por qualquer grande ato e a natureza imperiosa.

A diferença é que Sérgio é das Gerais, seus personagens sobem a BR-040, a mesma que dá em Minas, para se esconderem na umidade do Rocio; possuem a doença do interior, são abatidos pelo oculto, pela insanidade, arquitetam crimes.

Infelizmente, de nada vale o elogio. O Sérgio acaba de me prestar um grande favor e, em prol da isenção crítica, a ética literária condena troca-trocas desse tipo. Como amadora, me permito a heresia, o autor merece.

Por falar em boa escrita, o Procure Saber foi obrigado a rever a sua posição com respeito às leis que regem a publicação de biografias.

A liberdade de expressão está sob ameaça em muitos países latino-americanos. No Brasil, a imprensa se mantém alerta para qualquer movimento que interfira em direitos conquistados. É um tema sagrado para os meios de comunicação e entendo o porquê de a contenda ter tomado contornos tão radicais.

Sou a favor da liberação. O "sem fins lucrativos" beneficia a internet e a versão chapa-branca da história; a informação duvidosa, sem fontes seguras. A má-fé existe, o mau gosto também, e não só em Gutenberg. Talvez menos em Gutenberg.

Por outro lado, alguns limites merecem atenção.

Não é justo que um criminoso lucre com o crime que cometeu. Nos Estados Unidos e na França esse direito é negado, aqui, não há lei para isso.

Estranha também que a reparação a um dano físico, ou moral, seja calculada com base nos dividendos da pessoa lesada. Quem ganha pouco, recebe pouco, quem ganha muito, recebe muito.

E não acho certo a veiculação de fotos de crianças sem a autorização dos pais. Tem muito louco nesse mundo e eu gostaria de ter o direito, ou não, de expor meus filhos ao Coliseu.

Caso seja aprovada a nova versão do artigo 20 do Código Civil, uma coisa permanecerá imutável, a sua frágil redação. Ficaria assim:

"A mera ausência de autorização não impede a divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica de pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade."

É a liberdade irrestrita, mas preocupa o uso de um termo tão ambíguo quanto divulgação no enunciado. Divulgar é promover, um verbo que abre espaço para a comercialização indevida. Não tem nada a ver com o livre pensar ou a memória da história. Não é publicar e nem transmitir.

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