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MEMÓRIA DE PAPEL - Fernando Brant

Tenho em casa alguns bilhetes do metrô de Paris. E de que me servem eles, se alguns milhares de quilômetros me separam da estação mais próxima? Há um oceano entre nós e seria necessária uma despesa enorme para comprar passagem de ida e volta, enfrentar aeroportos e me hospedar em hotéis habitados por ratos. Minhas gavetas, tenho de confessar, ao lado de preciosidades, abrigam muita inutilidade.

São papéis que guardo para ler e resolver mais tarde. O tempo se encarrega de torná-los desnecessários. Mas a preservação da memória política ou familiar solicita que sejamos avaros na destruição dos quase documentos. Chega um dia em que me disponho a organizar o que para o outros é bagunça, mas que entendo. Encho sacos de lixo, mas sempre sobra mais um tanto de fotos, rabiscos, pastas. Alguma coisa ainda merece ficar entre os meus guardados. Pois na próxima volta à limpeza, sempre pode surgir uma surpresa agradável.

Sou da geração do papel e não domino todas as técnicas de gravar para o mundo digital o que vivi. Faço o simples e vou levando a existência com conforto e tranquilidade. Os textos, as canções e muito mais estão garantidos em computador, pen-drive e também em cadernos manuscritos que faço questão de ter comigo.

Fotos perdi o desejo de tirar desde que minhas meninas cresceram e fui tomando preguiça do vício fotográfico dos turistas, principalmente japoneses, que nada aproveitam das viagens e, penso, só vão curti-las na volta ao lar ao projetar o que retrataram, mas não viram. Hoje não são apenas eles, a praga é mundial.

Depois da chegada dos celulares, ninguém presta atenção em nada. Nos shows, a música não tem a menor importância. O barato total é se postar, de costas, diante do cantor e registrar aquele momento de protagonismo.

Recebi pelo correio uma canção de um compositor carioca gravada em cassete. Se não fosse prevenido não teria condições ouvi-la.

Aí entro num terreno que aprecio. Ao contrário da maioria das pessoas, conservei todos os vinis que tinha. Precavido, lembro-me que fui a uma loja de aparelhos sonoros e comprei uma dúzia de agulhas. Desconfiado, julguei que, em pouco tempo, isso não seria mais encontrado no mercado. Fiz mais: comprei um aparelho que toca e grava cassetes, vinis e CDs. E adquiri um aparelho dos antigos, mas profissional, para ouvir com qualidade as músicas que quero.

E agora que, parece, o vinil está voltando e com alta qualidade, no mundo inteiro, eu poderei ter os que não tenho e, também, causar inveja naqueles que, seguindo a moda do dia, abriram mãos de seus bolachões.

Contemplo minha estante de LPs e me orgulho do fato de não ter caído na catastrofismo dos que acreditaram e acreditam no que todas as modas e ondas indicam.
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A MÚSICA DA MINHA VIDA - Fernando Brant

A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Vejo-me de calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, Menino de Braçanã: “É tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu filho não demora em Braçanã”. Essa é uma característica da música, linguagem universal que é trilha sonora da existência de quase todo mundo. Mas existe gente, como o poeta João Cabral de Melo, que dizia detestar o que a tantos agrada.

Como não recordar a tristeza que senti ao pegar, junto com minha mãe e irmãos, o ônibus que nos traria definitivamente para Belo Horizonte? Ao longo das quase 12 horas de viagem por estrada de terra, vim cantando coisas que ouvia na Rádio Nacional. Especialmente uma ocupou o meu tempo, Recuerdos de Ypacaray: “una noche tíbia nos conocimos junto al lago azul de Ypacaray”. Menino, eu chorava, mentalmente, a certeza de que estava perdendo algo valioso, aquela vida folgada de brincadeiras e amizades, em troca de outro ambiente que, por desconhecido, parecia-me assustador.

A realidade, porém, foi muito melhor do que eu esperava e logo já tinha novos amigos, novos jogos e outras canções. Encontrei aqui, nessa cidade, um belo horizonte. Correndo para cima e para baixo, nas ladeiras, atrás de bola, suando em busca de gols e vitórias nas peladas diárias, eu escutava o som que vinha das casas. Dorival Caymmi, violão e voz entoando sua saudade da Bahia.

Na trilha sonora pessoal nem sempre importa a qualidade do que ouvimos. Mais importante é o acontecimento, o fato, a situação que vivemos no momento em que a canção surge no ar. Não posso, por exemplo, ouvir Call me sem me lembrar de minha namorada e mulher. Era o que tocava no tempo de nossos primeiros encontros.

E assim, de música e com música vou vivendo. Se ela é vital para mim, sei que é indispensável para a maioria das pessoas. E fico chateado quando me deparo com grandes organizações, órgãos de comunicação que têm na música um elemento essencial para que produzam suas novelas, filmes e uma infinidade de programas de entretenimento, empresas que tiram daí seus lucros enormes e merecidos – não consigo entender que seja civilizado o fato de elas não pagarem o que lhes é cobrado por utilizar o que não lhes pertence. Se não querem pagar, que não usem a criação, o talento e as vozes de compositores, cantores e músicos. Será que, sem música, teriam o público de hoje?

O PAÍS NÃO É UMA IGREJA - Fernando Brant

O domingo deveria ser de descanso, de repouso dos guerreiros. Depois de trabalhar toda a semana, o cidadão imagina poder se entregar aos braços de Morfeu, sem culpa. Ficar igual celular, quando é ligado, procurando rede. No bem-bom do à toa, lendo os jornais volumosos ou um livro, escutando música boa, ou simplesmente pensando. Melhor ainda, quando chega a família com os netos e a conversa corre solta, descontraída e amorosa. Esses momentos de chinelo e bermuda eu não troco por nada. E quem trocaria? Talvez esses desmiolados que só pensam em dinheiro, consumir e distribuir incivilidade pela cidade.

Nem sempre o previsto acontece. Pois há sempre a possibilidade mais que provável de se acordar com o som altíssimo que vem da igreja em frente. O pastor e os fiéis não entendem que nem todos querem ouvir aquelas preces coletivas entoadas em altos decibéis.

Depois das orações, um longo período de ensaio musical (quem disse que queremos ouvir isso?), que impede que as pessoas possam conversar dentro de casa.

E depois do duradouro tocar embolado de canções que mais primam pela altura do que pela qualidade, finda a tarde, vem a sessão noturna. Tudo o que foi treinado volta agora revigorado por vozes e instrumentos. 

E tem um sermão altissonante que, pelo volume, parece ser uma esculhambação geral nos ouvintes que não querem prestar atenção à palavra divina. Berrar não é a melhor maneira de convencer, é o que penso humildemente. Se o ensinamento for bom, os bons de espírito o acatarão mesmo se sussurrado. Melhor principalmente se sussurrado.

Aceito todas as religiões, respeito todas as doutrinas e ideias. É uma questão de princípio, mas também a constatação do que reza a Constituição, livro de todos os brasileiros. Sempre lembrando que o Estado é laico, sou a favor da liberdade de crença, de expressão, de ir e vir, tudo o que é essencial em uma democracia. Infelizmente, vejo, com temor, a cada ano que passa, a invasão dos políticos ligados às crenças religiosas. Tudo certo eles defenderem seu pensamento religioso, seguir em suas vidas particulares os conceitos de sua fé.

Mas não julgo correto que os deputados, vereadores e senadores, em nome do credo religioso que abraçam, queiram impor a todos os brasileiros a sua convicção.

Assuntos de igreja se resolvem pela e na igreja. Se não querem se casar, se acham a bebida um absurdo, se são contra o uso de preservativos, não casem, não bebam e cultivem a abstinência sexual. 

Quando eleitos representantes do povo, porém, não confundam o país e os cidadãos com a sua seita e seus fieis. Cada um com sua crença e suas ações, desde que não prejudique o próximo. Isso é civilizado.

O MURO E A GRADE - Fernando Brant

A pressão social e familiar separou os dois namorados da história.


Em frente à nossa casa, havia um muro com cerca de um metro de altura e mais de 20 centímetros de largura. Baixo e largo, acabou virando o imenso banco em que estudantes se assentavam à espera do ônibus para o Colégio Estadual. Em outras horas, servia de arquibancada para quem queria assistir às gloriosas peladas dos meninos da região. Futebol algumas vezes interrompido pela chegada do coletivo,que desembarcava seus passageiros.

À noite, o nosso murinho acolhia meninos e meninas na adolescência, vizinhos amigos que comentavam fatos corriqueiros de suas vidas e iniciavam os primeiros passos de namoros breves e de outros que permaneceram ao longo dos anos, gerando famílias.

Era um tempo de muita timidez e costumes rígidos. O menino, depois de um período probatório de semanas, pôde enfim pegar nas mãos da namorada. O amor avança e a ansiedade juvenil demandava novas ousadias. Eis que, ao se despedirem numa noite fria – e como era amena a temperatura da cidade naqueles anos –, ele disse que tinha um surpresa a lhe oferecer. E encostou suavemente seus lábios aos dela, naquilo que hoje chamamos de selinho. Nada de línguas se encontrando, apenas o suave roçar de bocas fechadas. Enrubescida – como os rostos das meninas e dos meninos se avermelhavam por qualquer motivo... –, ela lhe disse que se aquilo se repetisse, as relações estariam cortadas.

Não me lembro ao certo de quando o nosso muro recebeu a alta grade, deixando de ser poleiro de meninos e estudantes. Talvez em nome da segurança, isolou a casa da rua. Sei, com certeza, que foi um movimento coletivo, pois todas as residências começaram a se proteger com paredes altas e gradeadas. Perdia-se o contato físico, mas o visual continuava. Não havia ainda o medo da violência urbana, mas já pressentíamos que muita coisa estava mudando na vida da cidade e das pessoas.

Quando a insegurança e o medo se instalaram de fato, as casas tiveram que buscar outras modernidades: alarmes e câmeras tomaram conta do pedaço. O amor seguiu novos rumos, a inocência foi aos poucos se perdendo, o tradicionalismo também. A pressão social e familiar separou os dois namorados da história aqui contada. Agora eles estão à minha frente contando sua aventura, os descaminhos pelo mundo, sua busca individual pela felicidade. Casaram-se e descasaram-se com outros parceiros, mudaram do país para terras diferentes, estudaram e trabalharam, mas sem se realizar afetivamente. Existia um beijo selado há muitos e muitos anos, numa noite da cidade com cheiro de dama-da-noite que os marcou para sempre.

Arrisco a dizer: se ele tivesse sido mais arrojado, avançasse mais na qualidade do beijo, talvez eles nunca tivessem se separado. Ela faz que concorda. O certo é que os dois vivem juntos há sete anos. E guardam no sorriso a mesma ternura que conheci em minha juventude.
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FERNANDO BRANT - Só a Mulher pode mudar o mundo

Toda dominação é perversa, desumana.

Drauzio Varela escreveu um texto em que fala de pesquisas de universidades que buscam comprovar que, quando em uma cultura não há submissão das mulheres, a possibilidade de guerras e violência diminui muito. São estudos que varrem a história das humanidade. Eu, sem ser senhor de nenhuma delas, vivo cercado de mulheres.

Desde pequeno, com as quatro irmãs e a mãe. Casado, com a mulher e as filhas e uma delas, antes de um neto, me presenteou com uma neta, jóia rara de imenso valor.

Na vida, mulheres continuaram me cercando de amizade, afeto, compreensão, intuição, delicadeza e inteligência. Não que elas sejam perfeitas e não existam homens que carreguem na alma ações e sentimentos que machistas estúpidos não entendem e clamam ser coisa de mulher.

O certo é que o ardor guerreiro aflora muito mais onde se trata desigualmente as mulheres, os negros, os pobres. Daí é que surgem as reações que têm momento de início mas nunca se sabe até onde e quando irão. Onde há parceria, há compreensão. Se isso vale para a vida particular de cada um de nós, na esfera coletiva a história já demonstrou e continua a demonstrar nos campos de guerra dos nossos dias.

Toda dominação é perversa, desumana e busca a exclusão ou o controle sobre o outro. Os poderosos não enxergam adversários ou pensamentos diferentes. Só vêem inimigos a ser destruídos, extirpados. Democracia é um conceito impossível de ser aceito por esse tipo de gente, mesmo quando louvam em palavras o seu valor.

O governo de todos e para todos, ideal a ser perseguido por todo humanista, talvez seja mesmo coisa de mulher. E eu estou com elas. Sempre estive.

Estou lendo um livro de Juan Arías, teólogo e jornalista do jornal El País, sobre Madalena, apóstola de Cristo e não a prostituta arrependida descrita por alguns evangelistas. Não vou tratar hoje dessa questão, mas me ilumina essa idéia de um mensageiro, Jesus, acompanhado por apóstolos machos e também por mulheres.

Não reivindico aqui o poder para as mulheres, pois seria apenas trocar de dono para dona. O seis por meia dúzia de que tanto falam no campo dos esportes.

E não sei se é com cotas que melhor se combate essa e outras desigualdades. A questão, como todas as essenciais para a raça humana, é de cultura. A primeira mestra de todos nós é nossa mãe. Dela é que pode partir a revolução que pode transformar as crianças de hoje em homens melhores no amanhã. 

É dela, com beijos, abraços e verdade é que deve vir o ensinamento que transformará nossa sociedade através do novo homem. O homem filho da mãe será parceiro e igual a todos os seus semelhantes.

FERNANDO BRANT - O egoista e o solidário

Dizer que se ama a humanidade é fácil. 
Difícil é respeitar os outros no dia a dia.

Gente existe que pensa que tem o rei no umbigo. Anda pela vida como se fosse o maioral, um deus a quem todos devem reverência. Pisa em quem estiver à frente, o que importa é que seus desejos sejam satisfeitos.

Houve um tempo em que pensei que isso fosse exclusividade do capitalismo, que exacerba o individualismo e a competição desenfreada. Aprendi que não importa o nome do regime e que por baixo de discursos de desprendimento e compreensão coletiva se escondem farsas, mentiras e violência.

É fácil amar a humanidade, essa abstração presente nas palavras dos sinceros e dos demagogos. Difícil é, no dia a dia, no cara a cara com as pessoas, respeitar de fato as pessoas com quem convivemos nos lugares em que realmente habitamos: a casa, a rua, nossa cidade. Fala-se muito que padecemos de uma herança colonial que acostumou os que eram, e ainda se sentem, senhores a mandar e desmandar de acordo com sua conveniência. E que nem a independência e a proclamação da República apagaram essa mácula que nos acompanha até hoje.

A igualdade de todos perante o coletivo se apaga, o sociólogo Roberto da Matta nos lembra sempre, diante da frase abominável que ainda se ouve, infelizmente, em nosso país: “você sabe com quem está falando?” Quem diz isso é um idiota, que não compreende sua insignificância diante dos semelhantes e, muito mais, diante da vastidão do planeta que é um grão de areia em relação ao que conhecemos do universo.

Sabemos de inúmeros exemplos de pessoas que se dedicam à solidariedade, à ajuda desinteressada aos outros. Eles são essenciais, embora pareça uma ilusão a idéia de que algum dia, pela tecnologia e pelo esforço de todos, se chegue a uma desigualdade menor, uma igualdade possível. Mas vamos, cada um, fazendo a sua parte. Nas relações do dia a dia em casa, no trânsito, no trabalho, na escola.

E é necessário que se lembre que a generosidade que existe no mundo vem muito mais de pessoas comuns, aquelas que vivem e sofrem o mesmo que seus vizinhos. Não de quem quer se promover, sair nos jornais e postular posições na política ou na sociedade.

Os egoístas são falastrões e pretendem ser os eternos mandões, mesmo que seu mandato tenha se encerrado e, mais importante, que ele seja apenas mais um na multidão. A democracia é o poder de todos, e ninguém manda em ninguém. Os solidários entendem isso, mas preferem se calar por recato.

A Cultura, tão desprezada por nossos governos, nos traz sensibilidade, aguça a inteligência, abre caminhos para que compreendamos melhor o barro de que somos feitos. A razão e a falta dela estão com o Oriente e o Ocidente. Os bons não estão só de um lado, nem os maus. O ser humano é complexo, mas vale a pena.

FERNANDO BRANT - Chuva e queijo com doce de leite

Estou de olho nos canalhas que infestam o Brasil.

Depois de quase quatro meses de seca, a chuva bate em nossa casa. O cheiro de terra molhada penetra pelo nariz e traz uma sensação de tempos melhores. Dá vontade de esquecer toda a violência e crueldade de que temos notícia a cada dia e mergulhar num mundo interior de sonho e felicidade. O amigo cão atravessa o pátio e se esconde debaixo de seu abrigo. Gostaria de fazer o contrário, de me encharcar com o que cai do céu. De cabeça quente diante dos descaminhos do time do coração, mas ainda com pulsante esperança, começo a me lembrar de acontecimentos alegres que vivi.

Não preciso ir muito longe. Ainda nesta tarde, recebi a visita da Clara e do Lucas. Apresentei a ela, depois de assistirmos a um balé das princesas, a Mafalda e sua turma. Para ele sobrou a contemplação extasiada de seu avô. Esses momentos me enchem de energia e gosto de viver. Também já fui neto e aprendi muito com os meus maiores. Esse é um bastão que recebi e carrego com muito prazer.

Já andei muito de bonde e foi uma experiência enriquecedora, que não acabou, porque resultou em lembranças e canções. Brinquei de motorneiro e fui muito amigo de um deles. Histórias de vida do povo brasileiro que nunca mais esqueci. O trem, então, meu Deus, foi companheiro de muitas jornadas Minas adentro. Para o Rio de Janeiro só ia de Vera Cruz, tão diferente dessa confusa e cansativa aventura de aeroportos dos dias de hoje.

A chuva fina de agora me faz recordar de uma outra, há muitos e muitos anos, em Diamantina. Caíam pedras de gelo e minha mãe, nem sonhávamos em ter geladeira, pôs a bacia no terreiro e lá colocou algumas garrafas de guaraná. Era meu aniversário de 5 anos e foi o primeiro refrigerante fresco que tomamos, eu e meus irmãos.

Bola na rua, bola no peito, drible, bola no gol. Corri e suei, junto com meus companheiros, pelas ladeiras da cidade. Meus colegas de brincadeiras cresceram e assumiram profissões diversas, de lixeiro a médico. Todos eles guardados com carinho em minha memória. Em casa e na rua aprendi coisas essenciais para minha existência: amizade, palavra, caráter, respeito, bondade, alegria e amor. Aprendi a não aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja coisa normal.

Estou de olho nos canalhas que infestam o Brasil e o mundo. Mas os afasto do meu pensamento quando vejo a menina partir uns pedaços de queijo e misturá-los ao doce de leite. Que cara boa a que ela faz. O rosto se ilumina enquanto mastiga devagar a delícia. O dia se completa com o cheiro da chuva e a visão da menina comendo queijo com doce de leite.

FERNANDO BRANT - Amigos que se foram antes da hora‏.

A amizade e o amor são combustíveis essenciais para uma vida boa. Quando a morte nos leva os que amamos, um vazio se instala em nossa alma e fica ali, presença constante até que nos chegue o último suspiro. Toda perda é uma dor sem medida. Lembro-me agora, quando a noite cai em minha cidade, de três entes queridos que se foram muito cedo, todos ligados à minha profissão de compositor. Quarenta e cinco anos se passaram daquele momento primeiro em que, diante de uma melodia arrepiante de Milton Nascimento, me dispus a casar minhas modestas palavras com aquela beleza. Daí nasceu nossa primeira canção, que abriu para ele o mundo e para mim uma profissão.

Essa primeira parceria teve, para impulsionar sua trajetória de sucesso, as mãos afetuosas de um cantor brasileiro que iluminou minha adolescência, Agostinho dos Santos. Foi ele quem inscreveu nossa música, sem que o Milton soubesse, no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, em outubro de 1967. O menino que eu era se viu, de repente, em meio aos aplausos do público do Maracanãzinho. Foi meu alegre ponto de partida. Uns quatro anos mais tarde, meu amigo cantor encontrou seu destino final em um voo entre o Brasil e a França. Quanta tristeza, meu Deus, ao vê-lo partir tão cedo.

Pouco mais de 10 anos se passaram. A cantora que nos abraçara e nos interpretava com talento, sentimento e alma, voz divina e humana, que nos entendia como ninguém, que espalhou nosso canto pelo Brasil e pelo planeta, foi-se, novíssima, num acidente de percurso. Elis, cuja exposição, Elis vive, acabei de visitar no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, continua sendo aquela voz que é a voz de todos nós. Os vídeos de sua vida artística emocionam até hoje os que a conheceram e espanta de prazer as novas gerações, que só agora ficaram sabendo de sua genialidade. Êta Elis que nos faz falta.

Outro que foi precocemente foi meu companheiro de música, conversa, cerveja e futebol. O brasileiro Gonzaguinha, amigo que guardo no peito com amor e dor. Que bom perceber que suas músicas continuam acalentando os corações de nossa gente. Quantas vezes acordo pela manhã e ainda espero por sua visita, com sua Variant preta. Aboletávamos em uma mesinha que tínhamos na cozinha e ali ficávamos por horas discutindo arte e política do país e do mundo. Sua trajetória de vida e canções, sua integridade absoluta vão poder ser conhecidas e reconhecidas por quem for ver o filme sobre ele e seu pai, que deve estrear nos cinemas ainda este ano.

Quarenta anos sem Agostinho, 30 sem Elis e 20 sem o amigo que virara mineiro e parente. A vida continua, a música continua, mas esses amigos tenho guardados no peito, debaixo de sete chaves, dentro do coração.

FERNANDO BRANT- Ao vivo, em preto e branco‏

Coisas antigas, mas valem ser lembradas. Fui, há muitos anos, televizinho. Palavra que, hoje, quase ninguém sabe o que significa. Era um tempo em que o Brasil era mais pobre, mas a miséria menor. A televisão, a maior das novidades, onde já se viu rádio com imagem? Os rádios que escutavam o mundo nós tínhamos, mas televisão só um vizinho, em todo o quarteirão. Éramos amigos dos netos e convidados para assistir àquela maravilha todas as noites. Havia filmes e seriados, mas a maioria da programação era ao vivo e em preto e branco.

Os erros não podiam ser consertados, apenas relevados diante do improviso total das emissoras e dos artistas, que se revezavam em anúncios, jornalismo, teleteatros e programas humorísticos e musicais. A maioria dos profissionais que trabalhavam na emissora associada do Rio de Janeiro vinha, semanalmente, mostrar seu serviço na capital dos mineiros.
Lembro-me do Stanislaw Ponte Preta, Marlene, Hebe Camargo, Antônio Maria e muitos outros. Uma atração era especial para a garotada e a maioria dos poucos que viam tevê naquele tempo: a Praça da alegria, comandada por Manoel da Nóbrega e que nos trazia personagens como o Zé Bonitinho, Golias e Chico Anysio. Essas eram noites mais divertidas do que as do Rin Tin Tin e outras séries americanas.

Houve um dia em que problemas aéreos impediram que a trupe da Praça… viesse a Beagá. Só um veio, o Chico. Foi, para mim, a primeira noite da admiração. Sozinho, ele encenou uma dezena de tipos engraçadíssimos, muitos dos quais não conhecíamos. O extraordinário foi a rapidez com que ele passava de um para outro tipo. Não sei se a câmera fazia algum malabarismo para desviar nossa atenção. O certo é que, por quase uma hora, os mineiros assistiram àquele show de um homem só e gostaram muito. Recordo-me até hoje do garoto de calças curtas, chupando um pirulito e dizendo “ Santelmo, você sabe por que faço isso?”. E a resposta: “Ignoro”. Não era o mais engraçado, mas ficou marcado em minha memória.

Chico Anysio, ator e autor brasileiro extraordinário, se foi na mesma semana em que, finalmente, consegui assistir ao filme O artista, vencedor do Oscar de 2012. Nunca é tarde para ver obra fascinante como essa. Os apressadinhos de hoje, que pensam que ser moderno basta e que as invenções passadas nada valem, certamente não conseguem imaginar a televisão sem videotape e muito menos cinema mudo. Além de mudo, mas com uma trilha sonora muito boa, o filme francês é uma aula de cinema, um hino de amor ao cinema.

Além de todas as suas qualidades, me agradou muito a citação constante de um dos filmes que eu mais admiro, A turba, de King Vidor, também silencioso. Sem palavras e sem música, mas com uma carga de emoção que me impressionou aos 20 anos e guardo comigo até hoje. É o que nos fica dos grandes autores e artistas que, como Chico Anysio, nos animaram com alegria e beleza.

FERNANDO BRANT - Olha o outono aí, gente‏!

O frio que faz lá fora costuma bater na alma. E o agasalho que cobre o corpo não aquece o coração nesses momentos. Examinando bem, é apenas um arrepio de susto, que logo passa. A vida segue seu rumo, as nuvens logo se afastarão e trarão o outono, que por nossas bandas prenuncia meses e dias de muito sol, muito azul. Manhãs exuberantes de abril, tardes límpidas de maio, noites aconchegantes de junho.

A vida segue seu curso, as pedras ficarão pelo caminho e nós voltaremos a cantar debaixo do flamboyant, celebrando a amizade, a comunhão e a ética, na festa de brasilidade. Debaixo dessas árvores, dentro da casa e de seus salões, há muita música e pessoas de bem convocadas para celebrar a existência digna. 

Sou hóspede antigo desta casa brasiliense acolhedora. As conversas que essas paredes testemunharam são histórias de inteligência, talento, carinho e afeto por um país que todos amamos e queremos melhor para todos. É o lugar ideal para a conspiração dos poetas, o delírio dos loucos sadios e, ao mesmo tempo, ponto de referência da lucidez e da sabedoria. Um espaço de democracia e esperança, banhado muitas vezes por arroubos de fé.

É esta a morada que almejo para todas as estações, do ano e da vida. Não consigo, por mais que tente, assumir o pessimismo de Brás Cubas. Sou um otimista renitente, capaz de enxergar na bruma da noite o raio de luz que anunciará o dia.

Defeito de fabricação não é, pois Vinicius já dizia que é melhor ser alegre do que triste e a alegria é a melhor coisa que existe. Ao contrário, confesso me sentir muito benfeito e criado, fruto de uma família de gente simples, estudiosa e correta, que foi vencendo os obstáculos sem reclamar. Se faz frio, pego um cobertor. Se chove, guarda-chuva. Se está quente, água fria e cerveja gelada.

Descanso nos ombros das pessoas de quem gosto, me envolvo em conversas animadas a futebol, política e outras amenidades. Fosse só isso, seria um desperdício. Mas há as questões relevantes das ideias sobre a humanidade e uma vontade de contribuir com um pouco de beleza para a existência dos semelhantes. Olho para minha biblioteca e constato mais uma vez que eu deveria arquivar o leitor comprador e incentivar o leitor ledor. Quanta sabedoria e poesia nos volumes que tenho à disposição nas estantes. Nem li livros que, nessa altura da vida, deveria estar relendo. 

Se, como diz Brás Cubas, cada estação da vida é uma edição que corrige os erros da anterior, aproveito essa passagem do verão para o outono e volto a me prometer mais leitura gratificante, mais música no meu som e mais cinema em meus dias. E continuarei cada vez mais fora de moda.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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