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NATUREZA HUMANA: LIVRE ARBÍTRIO - Francisco Daudt

Sabe aquele ouro que o Brasil perdeu para a Rússia no vôlei? Fui eu o culpado. Explico: nunca assisto a esportes, mas meu filho queria ver o jogo, e eu lhe fiz companhia. Logo comecei a torcer, e tudo saía ao contrário das minhas mandingas. Resultado foi o que se viu. Nunca mais. Não quero o peso do fracasso brasileiro.

Para eu sentir essa culpa, são necessárias algumas crenças: que eu tenha poderes mágicos de influenciar jogadores em Londres; que eu tenha a vontade para operá-los de forma a que eles dêem bons frutos; que minha vontade não foi bastante para produzir os efeitos supostamente desejados.

Em suma: para ter culpa, eu preciso acreditar que tenho arbítrio (significa vontade), e que ele é livre ao meu dispor. O tal livre arbítrio.

Há milênios que nossa espécie se acha grande coisa. Nossos antepassados criam que o raio havia caído porque eles tinham tocado numa pedra. Quando criança, acreditei poder parar a chuva queimando a palha do domingo de ramos (e não é que a chuva parava… às vezes). Havia uma relação poderosa de causa-efeito entre o que fazíamos e o que acontecia. Há uma criança dentro de nós até hoje (ou um antepassado troglodita, que ambos se parecem), caso contrário não haveria o menor sentido em torcer (pelo menos, não pela TV). É duro admitir, mas não estamos com essa bola toda. O último milênio foi cruel com nossa vaidade. Copérnico mostrou que não éramos o centro do universo. Freud mostrou que não mandávamos nem em nosso próprio quintal, que forças ocultas nos manipulam (no que foi endossado pelos evolucionistas, com as forças genéticas). Cientistas em geral mostram que é cada vez mais difícil completar a frase “O ser humano é o único animal que…”

No artigo sobre sentimento de culpa, falei que a crença no livre arbítrio, na vontade perfeitamente comandada por um eu soberano, era essencial para que sentíssemos culpa. Neste, questiono, não a existência da vontade, mas o quanto ela é livre. “Mas se a ausência de livre arbítrio for demonstrada, não podemos pôr ninguém na cadeia, pois ninguém será culpado”. Sinto muito, não é por isto que a cadeia existe. Ela é necessária para afastar pessoas perigosas a nosso meio. E para criar mais um constrangimento à vontade, algo que a torne menos livre ainda: cuidado com seus atos, pois eles têm conseqüências.

Afinal, quais são os cordéis que tornam nossa vontade um bonifrate? Ela é um títere de que, ou de quem? Começando com o mais básico, o nosso desejo é seu maior manipulador. Compreenda “desejo” como nossa força motora que carrega, desde os instintos mais primitivos, à modelagem que eles sofrem da genética e da criação, da cultura, da moda, do zeitgeist (o espírito do tempo). Ele é um gigantesco software inconsciente, que se mostra na tela da consciência com uma imagem a cada vez. Uma delas é a vontade. Minha vontade de assistir ao jogo foi completamente diferente da de meu filho. Livre arbítrio? rsrsrsrs. Odeio isto e o kkkk, mas, sabe, é o zeitgeist… Lamento muito, mas não peço desculpas.

O MAL - Francisco Daudt

 
Sou fascinado pela afirmação de que 'ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância'

"As crianças nascem más, elas melhoram crescendo, pois a cultura pode civilizá-las." Ao ler essa frase, apareceu-me a velha questão da "verdadeira essência" da nossa espécie.

Rousseau, filósofo suíço, século 18, achava que nossa natureza era originalmente boa, e que a cultura a corromperia (o "bom selvagem", como se os nascidos na selva não tivessem cultura).

Hobbes, filósofo inglês, século 16, acreditava na infinita capacidade de violência do ser humano, obrigado a contê-la para viver na civilização (na cidade, encontrando desconhecidos sem poder matá-los, como seria seu impulso de origem).

A frase não segue Hobbes, portanto. Ela seria mais o inverso perfeito da crença de Rousseu. Nossa espécie teria uma essência má, que a bondade da cultura amorteceria... um pouco.

Que maldade é essa? O que é o mal? O tema é vasto. Vamos pensar apenas na maldade humana. Ela teria a ver com infligir dano e sofrimento de maneira intencional e injusta (se você mata em legítima defesa, não praticou o mal).

No entanto, encontrar justificativa para a prática do mal é a coisa mais comum, não à toa Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do mal ao perceber que o nazista Adolf Eichmann acreditava que seu trabalho de extermínio de judeus era completamente justificado como o correto exercício do dever, e que não conflitava com o bom chefe de família que ele era.

A ética contempla os costumes. Depois do julgamento de Nuremberg não mais se justificam atos danosos pelo "cumprimento de ordens" --assim como, na época em que foi composta, "Nega do Cabelo Duro" não ofendia ninguém.

Lembrei-me dos pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. O curioso é que eles não são pecados em si, mas "capitis" (cabeça) de pecados, daí "capitais". Todos temos, como Hobbes observou, capacidade para eles, mas só quando a partir deles causamos dano/sofrimento intencional, cometemos pecado (ou crime), fazemos o mal com eles.

Mas, fazer o mal com a preguiça? Sim, pela omissão, pelo dane-se. A ganância está contida na avareza; a humilhação dos outros na soberba; os vícios na gula; a maledicência na inveja; o estupro na luxúria e assim por diante.

E a maldade das crianças, onde reside? Numa tira de quadrinhos (C. Schulz), o pequeno Linus, no recreio, fica fascinado com uma coleguinha linda, vai se aproximando dela devagar e finalmente, quando está junto a ela, não se contém e... Dá-lhe um soco no nariz! Maldade?

Não. Falta de instrumentos adequados para expressar a intensidade dos sentimentos que lhe assoberbavam. Como um bebê que chora por não saber falar.

Sou fascinado pela afirmação de Sócrates de que "ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância, pois a sabedoria e a virtude são inseparáveis."

Ela sugere que poderíamos prevenir o mal através do cultivo de instrumentos de expressão mais eficientes de nossos desejos e insatisfações. Do maior conhecimento de si mesmo e do outro. De maior sabedoria, que leva à consideração e à compaixão.

Sem excluir as leis e a cadeia, claro.

CRENÇAS INJUSTAS – Francisco Daudt

Meu filho só entrou em contato com os dez mandamentos aos nove anos, quando entrou num colégio católico. Diante do que mandava honrar pai e mãe, me perguntou candidamente: “Por que não tem um mandando honrar filho e filha?”

O cliente tinha doze anos, e se masturbava alegremente desde os nove, quando seu irmão mais velho veio lhe informar que aquilo era pecado mortal, e que ele podia ir para o inferno se não se confessasse. Claro que ele não parou, mas passou a sentir uma culpa enorme por fazer aquela coisa tão boa.

Um leitor me escreveu dizendo que considerava a homossexualidade uma aberração, pois o normal era homem desejar mulher, pela sobrevivência da espécie. Respondi-lhe que a natureza não produz apenas coisas funcionais, que pelo seu raciocínio o apêndice não deveria existir – só existe para causar apendicite? – e que os 10% de canhotos que sempre houve também seriam aberrações. Escreveu-me de volta dizendo que entendia meu ponto, mas que para ele já estava muito tarde para mudar, pois tinha 75 anos.

Essas histórias mostram como podemos absorver crenças injustas – e erradas – numa época em que ainda não temos como discuti-las, nem como rejeitá-las. Meu filho teve a sorte de conhecer uma delas quando já podia fazer a pergunta óbvia que expunha sua injustiça, mas a história do leitor gay me doeu no coração: uma vida inteira se considerando aberrante!

Elas não se derivam só da religião formal, ao contrário, sua maioria vem da principal religião informal que existe: o senso comum. Ele vem derramando crenças injustas e erradas em nossos ouvidos desde que nascemos, e elas se entranham num software poderoso em nosso cérebro: o superego.

Nós nos movemos por dois motores biológicos principais: o da própria sobrevivência, e o da sobrevivência da espécie. O superego cuida da primeira, dando medos inatos que salvam nossas vidas (confinamento; altura; escuro; abandono; ameaça física; répteis e grandes insetos voadores, p.ex.).

Mas depois ele vai se emprenhando pelo ouvido de crenças erradas que parecem fundamentais para sobrevivência, não só de si, mas que envolvem o segundo motor, o sexo.

Entre as piores está a que divide a humanidade em superiores e inferiores, vencedores e fracassados (“winners e losers”, em inglês), fodões e merdas (em português claro).

Oriunda da nossa necessidade de ostentar troféus que nos tornem atraentes para o sexo oposto, ela é o motor das guerras, das brigas de torcida, da busca desesperada de proeminência social (nada de errado com proeminência social em si), da ganância, do jogo sujo, da corrupção.

Exemplo incrível: Vladimir Putin, sabedor que Angela Merkel tem medo de cães, chamou seu imenso labrador para se deitar aos pés dela, em sua visita ao Kremlin. Perguntada depois, Frau Merkel disse: “Só pessoas muito inseguras se utilizam de um expediente assim. O que não faz mais que deixar à mostra suas fragilidades”.

A chanceler ganhou o meu respeito, não apenas por seu diagnóstico preciso, como por mostrar que há meio melhor de se obter proeminência social do que o injusto winner-loser: a sabedoria.

CORPO E ALMA? - Francisco Daudt

“Quereis saber o que é a alma? Olhai um corpo sem alma”. As palavras do sermão do padre Antônio Vieira, ditas por meu pai, me impressionaram desde a infância. Eu não sabia, mas estava se formando ali, na cabeça do pequeno obsessivo, uma crença dualista: existem as coisas do espírito e existem as coisas físicas (“res cogitans; res extensa”, Descartes, séc. XVI). O Iluminismo, a idade Moderna, suas classificações e o império da razão, são o paraíso do obsessivo, e não estou falando mal da obsessividade, não: ela é preciosa, desde que não se apodere da gente (neurose obsessiva).

Mas, de fato, seu instrumento de organizar as coisas em ítens atrapalha um pouco na compreensão da realidade, pois ela não tem fronteiras tão marcadas: o ser humano não é assim tão diferente dos outros bichos, por exemplo.

A questão dualista, a separação de corpo e alma, sofreria um questionamento interessante para mim, à medida que os anos se passaram.

Tudo começou com o abandono da fé: se eu não era mais crente, então não havia mais alma. Mas isso deixava uma pergunta: o que sou eu, aquele que pensa, logo existe? É só corpo?

A informática veio para abrir um caminho de resposta: hardware e software, a máquina e o programa, um não vive sem o outro. Transportei isso para mim e fui ficando encantado: sou, desde minha primeira célula – o ovo fecundado – um hardware rodando um software. As informações genéticas (software) daquele ovo começaram por construir uma máquina cada vez mais complexa, apta a rodar programas mais e mais complexos. A coisa não parou, ao ponto que minha indissolúvel máquina/programa está escrevendo este artigo agora.

Ah, agora fazia sentido a afirmação de Freud de que nosso Eu é principalmente corporal: olho meus dedos digitando, e me reconheço tanto quanto ao me olhar no espelho. Exulto ao perder peso, pois me pareço mais comigo mesmo. É uma concretude que equivale ao abstrato: quando sou amoroso, pareço-me comigo, me sinto bonito (nova fronteira que cai: a ética e a estética se confundem).

Mas nada equivale às fronteiras que vêm caindo, justamente entre as formas de amor que os gregos classificaram: Eros (o amor/excitação sensual); Ágape (a camaradagem) e Filia (a amizade), sentimentos que meu superego separava com rigor, começam a ser olhados de forma diferente. Será mesmo que Eros só existe quando eu tenho uma ereção? Um abraço gostoso, um cafuné despretensioso, não são eles uma excitação dos sentidos? Nossa cultura, tão chameguenta que é, não nos ensina que Eros pode estar presente no amor que temos por filhos e por amigos? Quando eu penso em quantos melhores amigos se separaram por medo de estarem gostando “demais” um do outro. Que sofrimento inútil, típico de obsessivos exigentes de “pureza”.

E o que dizer do contrário, da defesa que faço do amor companheiro entre casais, o que mais é senão a defesa da amizade – Filia – para quem tem uma relação predominantemente erótica?



As coisas melhoraram muito com essas fronteiras fluidas. E hoje posso dizer, ao olhar um “corpo sem alma”: não é um nem o outro, são apenas restos mortais.
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O CONCEITO DE CURA EM PSICANÁLISE - Francisco Daudt

Ao ver que não as alcançava, a raposa deu de falar mal das uvas. A mesma coisa aconteceu com a psicanálise, em relação à cura das doenças psíquicas: grande parte dos psicanalistas atuais desdenham da cura, como se ela fosse uma coisa menor e desprezível. 

Um lacaniano conceituado com formação na França me contou que ouviu uma de suas colegas de linha teórica afirmar num congresso: “A finalidade terapêutica corrompe a psicanálise”.

Que inversão de valores chocante!

Consideremos as origens da psicanálise: ela foi inventada por Freud, um neurologista que estava firmemente determinado a achar um meio de curar aquelas misteriosas manifestações doentias da mente.

Vamos pensar no conceito de cura: curar é eliminar o mal, mas também é cuidar, é atenuar o sofrimento, é conduzir para o bem. O curador de menores faz isso, ele cuida e orienta, não extirpa doença. Curar é, portanto, tratar, é a finalidade terapêutica, a tal que estava amaldiçoada pela psicanalista lacaniana.

Agora, um psicanalista não pode buscar uma cura parecida com a que o cirurgião faz quando retira um apêndice inflamado. Não, nós lidamos com tecido nobre: a memória e o desejo. O risco de se jogar fora o bebê junto com a água do banho é grande. O último que tentou isso foi o Dr. Egas Moniz, o português (!) inventor da lobotomia.

A cura psicanalítica consiste em desentranhar a memória e o desejo do cliente das invasões bárbaras que sua vida sofreu como resultado de uma criação incompetente, aquilo a que Freud deu o nome de Complexo de Édipo. Um cuidadoso e árduo trabalho – que parece arqueologia – vai tornando consciente para ele o que é seu, o que lhe pertence, e o que é problema de quem o criou, e que ele até então carregava como seu, de modo a que ele se torne dono de sua vida e de seu destino. Na medida do possível, claro. Que o psicanalista possa ser o parteiro do que cada um tem de melhor.

A cura também inclui transferência de tecnologia, de modo a que ele se torne analista de si mesmo pelo resto da vida, que saia do ninho do consultório para alçar voo solo. Esta era a análise interminável desejada por Freud, e não aquela de que Woody Allen falou: “Já faço análise há quatorze anos. Vou dar mais um ano ao analista. Se ele não me curar, vou a Lourdes…”

Perguntei àquele lacaniano: “Se não buscam a cura, o que buscam então?” Ele me disse que é a experiência do inefável (seja lá isso o que for), junto com a ideia de que o cliente deve inventar um sentido para sua vida e se responsabilizar por ele.

Ah, aí fizeram sentido várias coisas que me assombravam: se eles não se importam com cura, então não se importam com diagnóstico, nem com conceito de doença psíquica. Não espantam então sessões de quinze minutos ou menos. Nem que falem um dialeto incompreensível que se parece vagamente com o português (confundir é boa base para enrolar). Que deixem o cliente perplexo com declarações misteriosas ao fechar a sessão, e que despachem o cliente com o bordão: “Pense nisso!”

COMO ESCOLHER SEU PSICANALISTA - Francisco Daudt

Há profissionais não comprometidos com a melhora 
dos seus clientes, que dirá com a cura dos sintomas.

Meu assunto é como escolher um psicanalista, alguém que vai cuidar de você com o instrumental que Freud inventou. Você o contrata e consome um serviço de saúde.
"Que barbaridade, pensar no cliente como consumidor!" Sinto muito se feri suscetibilidades, mas acompanhe.
Clínica: do latim, "inclinar-se", para observar e entender. Pratico clínica psicanalítica há 35 anos. Fui consumidor do serviço por oito, com dois psicanalistas diferentes. É prestação de serviço mesmo: eu pagava (caro) e recebia 50 minutos de suposta atenção. Assim como quando fui pai tentei me lembrar do que, quando criança, funcionava ou não no jeito de meus pais, quando me tornei analist prestei atenção no que me fez bem e mal como cliente. Aprendi com erros e acertos de meus psicanalistas.
Gosto de clareza, transparência, do que é lógico, razoável. Se você gosta de obscuridades e esoterismos pule este artigo. Não é tua praia.

Afinal, psicanálise veio para explicar ou confundir? A coisa é simples: quantos psicanalistas são necessários para trocar uma lâmpada? Um só, mas é preciso que a lâmpada queira muito ser trocada.

Procurei a psicanálise porque me sentia mal comigo mesmo e queria me sentir bem. A pergunta seguinte era: o profissional teria o mesmo objetivo? Queria me fazer sentir melhor com o seu instrumento terapêutico? Parece uma pergunta besta? Não é! Há vários psicanalistas não comprometidos com a melhora dos seus pacientes (que dirá com a cura dos seus sintomas).
Eles têm como meta "a reflexão sobre os enigmas do seu funcionamento psíquico" ou, pior, "a sua aceitação da castração" (calma, explico, é assim: "O mundo é duro mesmo e você deve aceitá-lo como é, sem esperar colinho de mãe, que é o mesmo que querer roubá-la de seu pai, representante do mundo cruel. Tenha horror do incesto, o complexo de Édipo"). 

Escolher um psicanalista não é mesmo fácil. Aqui vão algumas sugestões, se você ainda não largou a leitura deste blasfemo insolente, desta pessoa desprezível pela sua linguagem chã que qualquer um pode compreender.

INDICAÇÃO
Pode vir de um amigo que tem se sentido melhor com seu tratamento. Pode vir de artigos que você leu e te deram alívio e compreensão, assinados pelo cara. Ou de livros que ele escreveu, entrevistas que ele deu etc.

PRIMEIRO CONTATO
Em geral, é pelo telefone. Impressionante o que se pode aprender sobre o outro num telefonema: se é acolhedor; se é pomposo ou simples; se você se sente bem ou constrangido; se vai te atender logo ou "talvez, se abrir uma vaga nos próximos meses". Só vá à entrevista se você se sentir bem com ele ao telefone. De desconforto basta a tua vida, você não precisa pagar (caro) por ele!

PERPLEXIDADE
Se o doutor Fulano te disser algo que você não entenda, se falar complicado a ponto de você achar que é burro, desista: não serve para você.

MUDEZ
Se doutor Fulano ficar te olhando quando você quiser saber algo na entrevista, as chances são de que ele ficará mudo durante a terapia. Por que você há de pagar (caro) para quem não diz nada? É teu trabalho se entender? Então fale para o espelho. É mais barato.

CONTRATO
Sinta-se confortável com um contrato claro sobre tempo de sessão e custos. Pergunte sobre férias (suas e dele). Pergunte sobre pontualidade (há poucas coisas mais constrangedoras do que encarar colegas numa sala de espera). Você tem mais o que fazer na vida, e é uma falta de respeito fazer cliente esperar tendo hora marcada.

AO FIM DA SESSÃO
Não deixe ninguém te convencer que sair aos prantos e arrasado significa que a sessão foi "funda e produtiva". Só significa que o terapeuta colocou mais dor naquilo de que você já se acusava. Ele quer que você se arrependa. É mais barato procurar o confessionário da igreja católica.

SENSO DE HUMOR
Se sentir falta de humor na sua terapia, significa que seu analista gosta de drama, e o drama é parte integrante e agravante dos seus sintomas. Vá embora! Parte da cura é não se levar tão a sério, não se achar (e a ninguém) tão importante. Dentro de cem anos, lembre-se, estaremos todos mortos. E faz parte do meu imaginário aparelho humildificador: amanhã este artigo será papel de embrulhar peixe... 
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O PROFESSOR E A MADAME - Francisco Daudt

A lista de negações dela é bem maior e mais grave do que a dele, como o consequente desastre

A negação é mecanismo de defesa essencial para que não enlouqueçamos (a morte só deve ser lembrada às vezes). Porém, como qualquer remédio, seu excesso é um veneno capaz de levar-nos ao desastre, ou à morte (quando se negam sintomas de uma doença e as providências não são tomadas).

O Professor acha que a seleção fez um bom trabalho, exceto nos seis minutos de apagão. Pensa que um passado de glórias põe a mão na Copa, junto a palestras motivacionais, dispensados a disciplina e o dever de casa. Some-se arrogância e não reconhecimento de erros, e terminamos nos 7x1 (e nos 3x0, em que não houve apagão).

Madame é semelhante, porém a coisa é mais séria, sua lista de negações é bem maior e mais grave, como o consequente desastre.

A saber: ela, seu Inventor e seu partido negam o passado, o Brasil começou em 2003. Antes havia a herança maldita. Palocci, com seus "métodos rudimentares", quase foi crucificado por elogiar Pedro Malan.

Cesare Batisti não é terrorista e merece asilo político. Pugilistas cubanos não queriam asilo, por isso foram rapidamente reenviados para Cuba.

Qual o problema de mudar a língua portuguesa? E não é para fins populistas que ela é presidente, gerente e pretendente à reeleição. O mensalão (que não houve) não foi substituído por loteamento de ministérios, em número "nunca antes neste país". Aparelhamento do estado? Substituição de cargos técnicos por políticos cúmplices? Nunca! Redução populista da taxa de energia elétrica empurrando a conta para 2015? Absurdo! Gastos máximos com a máquina e investimentos mínimos? Jamais! Controle da imprensa? Como? Madame tem reiterado a importância da mídia livre. O decreto de criação dos sovietes (perdão, em português é "Conselhos populares") não é golpe na democracia, ao contrário. Pegou em armas, não para implantar a ditadura do proletariado, mas "para defender a democracia".

Não tem inflação represada por preço artificialmente controlado, nem contabilidade criativa. Madame não dá moleza para a inflação. Não há insegurança jurídica e o país continua atraindo investimentos. Não, a balança comercial negativa não é pela importação de combustível caro para ser vendido barato, é pelas "zelite branca que viaja", por isso, imposto neles. E não se privatiza nada, fazem-se "concessões".

Tudo o que o ministro capacho diz tem credibilidade junto ao mercado, ele não insulta a inteligência de ninguém. Fazer um porto em Cuba é muito bom para o Brasil. Os caríssimos estádios de Manaus e Cuiabá não se tornarão elefantes brancos. O caos de transporte urbano durante a Copa não foi evitado pelos feriados que derrubaram o comércio. E qual o problema de Abreu e Lima custar 15 Pasadenas? São ambas bons negócios.

Dividir o país e estimular a luta entre elites brancas e povo pobre? Jamais! Isso seria atiçar ódio racial, e racismo é crime hediondo, ela governa para todos.

Pelo menos o trem-bala TAMBÉM não foi feito. É, entre tantas, sua maior não obra.

Depois disso tudo, o leitor pode tirar suas próprias conclusões sobre como votar.

QUE MÃE? - Francisco Daudt

Tendo sido importante, a memória dela se conecta 
com praticamente todas as vivências do filho

Aparecem notícias de que um cientista russo foi queimando neurônio por neurônio no cérebro de um paciente que queria se livrar das memórias de sua mãe que o atormentavam. Finalmente, bingo, o paciente nem sabia mais que havia tido mãe! O cientista queimara o "neurônio-chave" da lembrança de mãe.

Todo o meu prezado ceticismo veio à tona ao ler essa notícia. Um neurônio para mãe?

Mas... Que mãe? Sua mãe da infância, da adolescência ou a atual? A que o atormentou e a que o encantou? A que ele comparava com inveja com a mãe de seus colegas? A que o levava ao colégio ou a que o esquecia lá? A que usava Joy do Jean Patou nos anos 50 e passou para Diorissimo, nos 60? A que pedia que ele a ajudasse a abotoar a cinta? A que o espancava com o cinto? A que o seduzia e depois o abandonava? A chantagista emocional? A mãe idealizada que convive em todos nós? O ódio dela que ele cultivou por anos? Os mil ressentimentos entrelaçados em suas relações com as mulheres e com a vida?

O próprio conceito de mãe, maternidade, instinto materno, vocação maternal, matriz, a mãe gentil dos filhos deste solo, língua-mãe, "mater ecclesiae", Santa Maria, mãe de Deus, "alma mater", matriarcado, o indissociável conceito de filho, filial/matriz, mamãe, mamãe, o avental todo sujo de ovo, o churrasquinho de mãe, do Teixeirinha ("O maior golpe do mundo que eu tive na minha vida foi quando, com 12 anos, perdi minha mãe querida" -veja no YouTube, se você não conhece), "Minha nossa (senhora)!", mãe em outras línguas, "motherfucker", mãe das águas Iemanjá, "É a mãe, seu...!", matricídio?

Uma coisa é certa: essa mãe foi de uma importância enorme na vida do sujeito/objeto dessa experiência, senão ele nem iria pensar nela -quanto mais se sujeitar a um procedimento tão arriscado. Tendo sido importante, sua memória se conecta com praticamente todas as vivências que ele teve, através de vários graus de separação (diz-se que estamos ligados a quase todas as pessoas do planeta por até seis graus de separação: minha mãe conheceu Hitler em Berlim, na Olimpíada de 1936, logo, estou ligado a ele por dois graus, e por aí vai).

Se assim é com pessoas, que dirá com memórias. Uma puxa a outra porque se vinculam pelas conexões neuronais, numa rede gigantesca.

Freud dizia que se poderia reconstituir a vida inteira de uma pessoa a partir de um único sonho. Ele vislumbrou o que era a rede neuronal e a complexidade que ela tem, muito antes da neurociência e das ressonâncias magnéticas funcionais.

Eis porque não acredito na experiência do russo. A menos que ele esteja a reproduzir o feito que deu ao português Egas Moniz, em 1949, o primeiro prêmio Nobel que seu país recebeu: a invenção da lobotomia como método de tratar violentos incuráveis (e transformá-los em vegetais ambulantes). Seria a única maneira de erradicar a memória de mãe numa pessoa para quem ela fez diferença (para o bem ou para o mal, não importa).

Um caso típico de, como no antigo ditado, "jogar fora o bebê junto com a água do banho".

NÃO SEI - Francisco Daudt



Todos têm explicações engatilhadas, teorias engendradas,
 receitas preparadas, conselhos a dar

SERÁ QUE a origem e o desenvolvimento do indivíduo (ontogênese) repetem a origem e o desenvolvimento de sua espécie (filogênese)? Sei que esta teoria já foi desacreditada há tempos, mas às vezes ela faz sentido.

Todos nós, quando crianças, precisávamos nos agarrar a fatores externos que nos dessem segurança. Real ou inventada, acreditávamos na proteção dos pais, das preces, de nossas crenças, das superstições, dos rituais, das explicações que arranjávamos para tapar os buracos de nossos conhecimentos, e desprezo total para escapar do que não nos era alcançável, como uma língua estrangeira, por exemplo.

Mesmo aí, lembro-me de inventar uma algaravia de sons parecidos para poder cantar músicas em inglês.

À medida que crescemos, vamos descobrindo que não sabemos inglês, que a tempestade com trovoadas não é consequência da lavagem do céu e de móveis lá empurrados para a faxina, que os bebês não são trazidos pelas cegonhas, e que se fecharmos os olhos bem apertados, as ameaças não somem. Perdemos frequentemente até crenças religiosas. Ou seja, migramos do mundo mágico para um realismo relativo.

Ora, o mesmo aconteceu com nossa espécie. Nossos antepassados tinham uma quantidade de crendices semelhantes às que as crianças têm. Nós saímos da infância, a espécie também foi saindo. O que não significa que, adultos, desprezemos o pensamento mágico para produzir uma sensação ilusória de segurança.

Era folclórico no colégio: um livro grosso de problemas de matemática nos dava uma compulsão masturbatória. O que há de erótico na matemática? Nada, claro. Era o horror do abismo da nossa ignorância exigindo um mecanismo de defesa, um devaneio que tirasse nossa atenção daquilo. Enfrentar o "não sei" nunca foi fácil, quer para o indivíduo, quer para a espécie. No entanto, pensar "não sei, mas quero saber" foi o motor da filosofia, que depois foi mãe da ciência.

Repare em torno. Quantas pessoas respondem "não sei" a qualquer pergunta que lhes seja feita? Muito poucas. Todos têm explicações engatilhadas, teorias engendradas, receitas preparadas, conselhos a dar a cada problema que se lhes é apresentado.

Mesmo os cientistas, eles ficaram tão deslumbrados com o "poder mágico" da ciência e da tecnologia, que passaram a endeusá-las como crianças e suas crendices.

Uma paciente foi ao oftalmologista. Ele ficou horrorizado porque, pelo aparelho, sua pressão ocular era zero. Foi ela a três outros, só para ouvir o mesmo. Finalmente consultou-se com um quarto. Este nem usou aparelho. Simplesmente apertou o dedo em seu olho e disse: "Um olho é como um pneu de bicicleta. Quando não tem pressão, o dedo afunda. O seu tem".

Era a forma da córnea que impedia a medição. Mas para os outros, se o aparelho dizia zero, zero deveria ser. A ciência era inquestionável (e olhe que, por definição, ela é o interminável questionamento).

A verdade é como o açúcar do Barão de Itararé: "uma substância que dá muito mau gosto ao café, em se não lho botando". Nossa espécie, em geral, parece preferir café amargo.

MOMENTO PERIGOSO - Francisco daudt

O investimento da paixão é tamanho que sua perda 
precisa ser negada a qualquer custo

"O inferno não contém fúria igual à de uma mulher rejeitada." A citação de William Congreve, erradamente atribuída a Shakespeare, fala de um dos momentos mais perigosos da convivência humana: a separação, o desprezo dos apaixonados pelo objeto de sua devoção.

É curioso que a história tenha guardado ícones femininos dessa fúria (quem viu "Atração fatal", 1987, Glenn Close e Michael Douglas, nunca mais se esqueceu, homens têm calafrios só de lembrar).

O mesmo vale para o homem rejeitado (as óperas "Carmen", de Bizet, e "Os Palhaços", de Leoncavallo, terminam com homens rejeitados assassinando suas mulheres, enquanto cantam seu amor por elas).

A vingança que se segue à rejeição é tamanha, que dá uma ideia do monumental terremoto psíquico que ela envolve. Homens costumam ser mais diretos, assassinam pessoalmente. Mulheres, mais elaboradas (veneno; contratação de um assassino de aluguel; sequestro de filhos dele; perseguição implacável --"Vou dedicar minha vida a tornar a sua um inferno").

Mas mulheres atiram, e homens perseguem também.

O "stalking" ("perseguição implacável") de outros tempos --telefonemas desligados no meio da noite; lixo revirado; aparições de surpresa; barraco armado na frente do prédio; cartas anônimas; difamação --vai sendo substituído pelo instrumento de perseguição mais diabólico já inventado: a internet.

Ela permite fuçar, não mais o lixo, mas todo o conteúdo de e-mails. Possibilita difamar, não com palavras, mas com filmagens e fotos íntimas postadas na rede. Nas mãos de um bom hacker, a devassa completa da vida do outro. O inferno tornou-se muito pior na era da informática.

Mas, afinal, o que move tamanho investimento maligno? Chico Buarque cantou: "Dei pra maldizer o nosso lar, pra xingar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou sua".

Aí mora a chave: o investimento da paixão é tamanho que sua perda precisa ser negada a qualquer custo. Eis porque o "amor" precisa ser afirmado mesmo com seu objeto morto: o cadáver é a posse definitiva.

"Se ela já estava separada dele havia tempos, por que ele foi matá-la quando ela arranjou um namorado novo?" São truques da paixão: imaginar a mulher com outro homem é capaz de reacendê-la, pois dá um enorme tesão (vide "swings", "ménages").

Há duas espécies de ciúme: o sexual (dos homens, que sempre correram o risco de criar o filho de outro) e o de prestígio (das mulheres, que detectam desinvestimento nelas, mesmo que seja em favor do futebol, do computador ou dos amigos do marido). Isso fala só do mais frequente. O de praxe é haver sempre uma mistura dos dois.

Mas como o momento perigoso é o do crime passional, precisamos entender que a paixão (do latim "passio", cuja única tradução é "sofrimento") é um programa de loucura transitória, um investimento de toda nossa vida, não numa pessoa, mas na idealização de alguém. Por isso, ela pode prosseguir depois da perda, mesmo depois da morte.

Quem ama, não mata. Quem está apaixonado, sim.

FRANCISCO DAUDT - Motivação, meio e oportunidade

Corrupção, obras faraônicas, 
tomada de três pinos, 
classe política em descrédito... 
Tudo isso deixa o povo irritado
Talvez estejamos acostumados a pensar nesses três requisitos como parte da investigação criminal, mas qualquer ação humana para acontecer requer motivação, meios e oportunidade.

Tomemos o próprio crime como exemplo. Minha motivação para odiar flanelinhas achacadores e chantagistas --"Vai deixando cinquenta real aí, dotô, pro seu carro não ser arranhado"-- é bastante grande. A oportunidade para matá-los existe em abundância, já que operam longe da polícia e à noite. Por estas razões jamais andarei armado: não quero ter os meios (só o que me falta) para me transformar em um assassino.

Por contraste, tomemos um exemplo do bem.

Motivação: a insatisfação com o desgoverno, com o mau investimento dos impostos escorchantes com que somos achacados pela única máquina de governo que funciona bem, a Receita. Aliás, não sou "contribuinte", contribuição é uma ação de vontade.

Sou um pagador de impostos contra a minha vontade; a corrupção impune; o superfaturamento de obras faraônicas (trem bala?) e inúteis; o abandono das úteis; a falta de investimento em infraestrutura, que faz disparar o custo Brasil; um "mensalão" (legal, mas imoral) disfarçado pelo loteamento de ministérios e cargos públicos em número que "nunca antes na história deste país"; o desmanche da estabilidade da moeda com volta da inflação maquiada (Argentina, nos aguarde que chegamos aí); o descrédito na classe política. Sem falar das tomadas de três pinos e sachês de sal nos restaurantes (jabuticabas, coisa que só existe no Brasil, como o falecido "kit primeiros socorros") criados com o propósito de enriquecer fornecedores apaniguados, nunca para atender os interesses da população.

Tudo isso deixa o povo irritado, indignado e furioso, mais ainda por sentir-se impotente nas mãos de políticos que não são representativos senão deles mesmos. E a raiva fermenta silenciosa.

Meios: com as entidades de classe, UNE, sindicatos e partidos no bolso do governo (com nosso dinheiro), os tradicionais mobilizadores de manifestos emasculados e apelegados, a população encontrou na internet e nas redes sociais a maneira de se comunicar, transmitir suas queixas e se organizar.

Oportunidade: para produzir mais uma maquiagem da inflação, os governos atenderam ao apelo de não aumentar o (péssimo) transporte público em janeiro, e o fizeram bem durante o mês de junho, durante as aulas. Foi o que bastou para começarem as passeatas de protesto, que rapidamente deixaram de ter o preço das passagens como único foco e se transformaram na vitrine da insatisfação geral.

Resultado: um deságue democrático, uma tradução real da insatisfação do povo, e o desmascaramento da "ilha de prosperidade", slogan dos tempos da ditadura que foi assimilado pelos governos atuais do "nunca antes estivemos tão bem".

Claro, como efeito colateral, tais movimentos ofereceram meios e oportunidades para quem tinha motivação criminosa, daí saques e depredações do patrimônio público e privado puderam acontecer.

Ao sabor de suas motivações, meios e oportunidades.

FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Sexo e Erotismo

Está bem que nosso primeiro e mais basal motor para viver é o impulso sexual (o gene egoísta quer reprodução, por isto nos ilude com a isca dos prazeres), como qualquer outro vivente sexuado. Mas a nossa espécie, em sua complexidade, arrumou sofisticações para a coisa, e a maior delas é o amor.

Os campeões de pensar o amor continuam sendo os gregos clássicos, de 2400 anos. Eles reconheciam três formas distintas de amor: Eros, Filia e Ágape.

Eros fala do desejo se expressando nos sentidos, como excitação, e no cérebro, como embriaguez. No coração e nos genitais, ambos pulsantes, na pele que se arrepia, na visão que se turva, na face que enrubece, no equilíbrio que se perde, na voz que falta, na paixão que arrebata, no animal que irrompe, no ímpeto de tomar, na lassidão de se entregar. A um tempo telúrico e delicado, tectônico e sutil, a mais evidente força da natureza em nós. Ainda estão para inventar prazer maior que o da excitação romântica. Nada se compara à felicidade sexual que faz ver passarinhos verdes, e que só acontece quando a chave e a fechadura certas se encontram, coisa rara. Assim é Eros.

Filia é a amizade, o encontro das almas, o porto seguro, a confiança aliada ao respeito. A consideração (que é ter o outro dentro de si), o bem querer e querer o bem. O lugar da intimidade emprestada com gosto, da compreensão, da compaixão (que é o sofrimento partilhado), do acolhimento da alegria e da tristeza, da saúde e da doença, da riqueza e da pobreza pelos tempos afora. Qualquer semelhança com os votos do casamento é totalmente intencional, pois não há um que perdure sem que a filia tenha crescido entre os dois.

Ágape é a camaradagem, a ligação dos companheiros, seja da boa mesa, seja da torcida pelo esporte. É a liga entre correligionários, do partido ou da religião mesmo, que às vezes se confundem. São os contendores do frescobol, o esporte sem contenda, voltados que estão para construir beleza em suas jogadas, um escada do outro. Os colegas de turma, que almoçam nos aniversários redondos de formatura e se atiram bolinhas de pão. Sócios do mesmo clube, os seguidores do mesmo twitter, do facebook, parceiros do baralho na pracinha. Aqueles que se reúnem para tirar um carro do atoleiro, e depois não se encontram mais. Dão passagem no trânsito, lugar para os mais velhos. Colegas de excursão. Colegas.

Os vários tipos de amor se entrelaçam, ou, pelo menos, não são categorias estanques, e é bom que seja assim. Eros surgindo na Filia, Filia no Eros, Ágape passeando entre eles…

A pornografia é curiosa. Em sua origem significa “registro da prostituição”. É, como a outra, comercializável. E pode, como a outra, ser ou não plena de Eros. Carlos Zéfiro da minha adolescência continha Eros, sedução. Os filmes de hoje, que já começam na aeróbica, têm pouco Eros. Ou o fetiche voyeurista é seu próprio Eros?

Mas meu interesse é perceber como a espécie trouxe complexidade ao comando genético que leva à reprodução, e o leque de possibilidades que nosso desejo contempla.

FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Romantismo

O amigo ficou horrorizado quando lhe contei alguns fatos da vida: que os partos se dão como rejeição imunológica ao corpo estranho transplantado para o organismo da mãe, que até se segura equilibrado na corda bamba por 40 semanas, mas ao fim delas o organismo expulsa aquele invasor.

Que a quantidade de abortos espontâneos é enorme e invisível, pelo mesmo processo. Que ninguém deve chorar pela perda de um feto antes dos seis meses (afora problemas uterinos corrigíveis), pois a natureza está apenas se livrando de um produto defeituoso. Que o homem deposita na fêmea de sua espécie três grupos diferentes de espermatozóides, apenas um deles é fecundador. Os outros dois só existem para atrapalhar os gametas de outros homens (que, como a mãe natureza presume, copularam com a fêmea no mesmo período).

São os matadores (capazes de detectar espermatozóides alheios, e de destruí-los com suas enzimas) e os obstrutores (que entopem a passagem de outros nos canalículos do colo do útero). Que, diferentemente do pensamento do senador republicano Todd Akin (“os casos de gravidez depois de um estupro são muito raros” e “se for um estupro de verdade, o corpo da mulher tenta, por todos os meios, bloquear a gravidez”), a mesma mãe natura considera o estupro apenas como uma das formas de reprodução, bem eficaz, a propósito, já que os índices de gravidez pós-estupro são bem maiores que os do sexo amoroso (na Bósnia-Herzegovina, mulheres de 9 a 50 anos engravidaram dos soldados estupradores). Para piorar a situação, o sexo violento é, em geral, mais fértil que o delicado, por isso as mulheres engravidam mais dos amantes “bicho-pega” que dos maridos acomodados. Que os animais comoventemente monógamos (cisnes, pombos) geram crias bastardas em torno de 20%. Quando começaram os testes de DNA em humanos, surpresa: nos casais mais pobres, o nível de frutos extraconjugais igualava o das aves, caindo à medida que a posição econômica do marido aumentava (mas nunca sumindo). 

Que uma pesquisa americana perguntou às mulheres o que elas prefeririam: ter como marido um fiel e pacato classe-média, ou ser a quinta concubina no harém de John Kennedy? Preciso dizer que resposta ganhou com ampla maioria?

“Mas, e o romantismo?”, perguntou ele. Vamos por partes. Primeiro, ele não foi uma criação cultural dos trovadores do tempo das cruzadas, maridos lutando, mulheres em torres. Nem começou na idealização dos amores impossíveis. Com traços mais toscos, ele é produto da seleção natural. Uma forma de reprodução que aposta mais na qualidade, pelo investimento do homem na mulher e suas crias (maior taxa de sobrevivência, melhor alimentação e proteção), que na quantidade, a estratégia do estuprador.

Logo, não podemos construir nossa ética com base na natureza. O que faz um leão, antes de se acasalar com uma fêmea sem macho, mas com filhotes? Mata-os a todos, o que produz instantânea ovulação na fêmea.

Não é incomum que um homem tenha o mesmo impulso, mas a civilização tem outros fatores a considerar.

FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Sentimento de Culpa

Que nós nascemos com a capacidade de sentir culpa, é certo. Até cães vêm com este programa. É velha a expressão “cara de cachorro que quebrou a panela”. De fato, depois de um óbvio “malfeito”, lá vem ele com a cabeça baixa e as orelhas murchas a tentar nos lamber, a nos pedir perdão. O sentimento de culpa mistura vergonha com arrependimento, e supõe uma certa integridade moral de quem o tem. É sabido que os psicopatas passam-lhe ao largo, apesar de a ele não serem indiferentes. Ao contrário, desafiam-no. 

Lembro-me bem que as regras da Igreja católica para categorizar algo como pecado incluíam pleno conhecimento da transgressão, livre arbítrio para fazê-la e um momento de “dane-se, vou fazer”. Se nós fossemos bem atentos ao catecismo, (e soubéssemos nossa taxa de livre arbítrio) não seríamos tão assíduos ao confessionário. Mas à instituição, não interessava nem um pouco a discussão dos meios, pois ela lucrava e prosperava com a culpa: o bobalhão acreditava no seu livre arbítrio, desconsiderava sua explosão hormonal da adolescência e considerava-se criminoso por ter-se masturbado, ou mesmo por pensamentos contra a castidade. Confessava seu crime. O padre, pelo ato da absolvição e pela penitência imposta, endossava que havia crime de fato, e lá ia o jovem, livre para pecar outra vez.
 
Ouvi dizer que a Igreja não considera mais a masturbação como pecado mortal. Numa festa do colégio jesuíta em que me formei, apresentei esta questão ao nosso antigo padre prefeito: “E aqueles que morreram em pecado antes da mudança da lei? Queimam no inferno assim mesmo?” Ele, que não tinha cacife intelectual para uma resposta teológica, e pressionado pela gargalhada dos colegas, disse-me que eu já havia bebido vinho bastante.

Fato é que, como instrumento de dominação, a nossa espécie não inventou arma melhor. A Igreja usa e abusa dela, e se mantém por dois mil anos. Você pode fazer com que uma pessoa se ajoelhe, submissa, sob a mira de um revólver. Mas, se ela tiver oportunidade, revidará. Uma vez sentindo-se culpada, a pessoa implora para se ajoelhar diante de você! Imbatível!

A coisa ficou séria quando a esquerda descobriu que podia fazer os trabalhadores prósperos se sentirem culpados de sua riqueza. Em nome deste grave pecado (a prosperidade, que vem de “explorar humildes”), jogam, sobre quem ganha seu dinheiro honestamente, impostos escorchantes, camuflados ou não (os camuflados tiram dos humildes, que ironia). São penitências atuais. É secundário se os impostos forem para perpetuar seu esquema de poder, em vez de reverterem para segurança, saúde e educação. O importante é dominar. O mesmo vale para as compensações exigidas pelas minorias massacradas por nossos ancestrais, sejam elas quilombolas ou índios. Você vai ver, a grande defesa do mensalão será que ele não foi em proveito próprio, mas na busca de uma sociedade mais igualitária, para ressarcir os coitadinhos. E o pior: há multidões que acreditam nesta culpa, pois, coitadas, têm “certa integridade a defender”.

FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Palavra e Pensamento

<Meio da madrugada. Minha filha, bebê, choraminga pela babá-eletrônica. Acordou com fome. Meu ritual de todas as noites, pego a mamadeira e vou com ela até a porta de seu quarto. No que giro a maçaneta, ela para de choramingar. Fiquei pasmo, pois ali havia se dado nossa primeira comunicação por símbolos. Seu choro era um chamado, o ruído da maçaneta, uma resposta. Ela não precisava continuar chamando, por isto parou. Símbolo é algo que serve de referência para outras coisas ou idéias. 

“Ora, isto é apenas reflexo condicionado, coisa de que qualquer cão é capaz, vide Pavlov”. Sim, mas o condicionamento de reflexos é apenas outra maneira de se descrever nossa capacidade de formar símbolos. Ainda que rudimentar, seja nos cães, seja na minha filha de meses, o programa mental que junta acontecimentos a sons ou imagens a partir de memórias, fazendo que um signifique muitos, está em nossos cérebros.

Está cada vez mais difícil completar a frase “o ser humano é o único animal que…” Pensamos hoje que é a quantidade, e não a qualidade, o fator determinante de nossa complexidade.

Mas a quantidade é assombrosa quando nos diz respeito. Volto à minha pequena, lembrando a primeira palavra que disse. Era um verbo no passado. Vendo que a água do copo parara de verter, anunciou: “Cabô”. Ali estavam representados conceitos amplos, como o de finitude, limites, volumes, desapontamento etc. De forma rudimentar, claro, mas as portas estavam abertas para que a complexidade de sua expressão, de seu pensamento, nunca mais parasse de aumentar, vida afora.

Disse que os ingleses tiveram uma sorte enorme com a invasão normanda, que lhes trouxe o latim para enriquecer o tosco anglo-saxão que falavam. Vendo a extraordinária série “Downton Abbey”, percebi que o roteirista quase só pôs derivados do latim na fala dos personagens, quer os do andar de cima, quer da criadagem. Para ilustrar o ganho de complexidade, pego o uso de “enter” no lugar de “come in”. Este tem uso restrito, prático. Aquele contém desde a permissão para abrir a porta e avançar, até nossas “entradas e bandeiras”, o partilhar da intimidade, o acolhimento, as conquistas territoriais.

Lembrei de um cartaz: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”. E me lembrei da diferença entre o olho que sabe e o olho que vê. Um burro olhando para um palácio usa o olho que vê. Um arquiteto culto usa o olho que sabe, e assim percebe as cornijas, as ameias, os capitéis, as gárgulas, os frontões, a história, a época, a mitologia, as batalhas, as armas de defesa (a começar pelo próprio castelo, que não é uma moradia qualquer), a economia, as castas, a política, um mundo de informações contido naquelas pedras empilhadas.

O que só pôde ser percebido porque aquele “Cabô” da primeira infância veio conversando com o mundo, enriquecendo-se com os livros, os dicionários, as línguas estrangeiras, os meios de comunicação. Com a santa internet, aquela que nos dá o Google e as enciclopédias. Assim, a capacidade de simbolizar do “Cabô” não se acaba jamais.

FRANCISCO DAUDT - Instintos de vida

Freud falou que todos nós carregamos instintos opostos: um de vida (que ele chamou de Eros), e um de morte (que ele não chamou de Tanatos). Este último é dos mais mal compreendidos em psicanálise, geralmente ligado a um monstro que aqui e ali surgiria no ser humano fazendo ele se tornar genocida, causador de guerras, assassino serial, político predador e coisas do gênero.

Enquanto o instinto de vida é bem acolhido como parte da nossa "boa natureza estragada pela cultura" (vide o bom selvagem de Rousseau), o de morte é olhado como um inimigo oculto dentro de nós, esperando sua oportunidade para cravar suas garras.

Deste mal entendido vêm crendices como a de que pessoas são capazes de "fazer" um câncer, já que são tão amargas. O que é uma crueldade adicional para os cancerosos, pois além da doença eles carregam a culpa de tê-la. Sem mencionar otimistas incuráveis que também desenvolvem câncer.

Você pode perguntar o que um conceito psicanalítico está fazendo numa coluna que cuida de natureza humana. É que o velho professor teve sacações brilhantes sobre o funcionamento universal de nossa mente, a acima descrita entre elas. Um dia desses, eu dedico uma coluna a comentar a lista de comportamentos universais da espécie (ou seja, presentes em todas as culturas do mundo, através dos tempos) que Donald E. Brown fez, e que está publicada no livro "Tabula rasa" de Steven Pinker. É fascinante. Entre eles, Brown colocou o Complexo de Édipo, outro conceito do velho. Prometo para depois.

Mas afinal, como entender o funcionamento da dupla vida/morte no nosso dia a dia? Entenda como se fosse uma conversa interminável entre a destruição e a construção. "Eros" ficou como símbolo de construção porque o sexo (a procriação) é nosso principal motor para construir e para destruir. Explico: tive uma linda filha e criei-a com desvelo, custo e eventuais noites insones, de tal forma que ela é hoje inteligente, um amor, hábil e autônoma. Eros operando, certo? Pois logo virá um ser monstruoso para destruir nossa bela família, casando-se com ela, levando-a daqui para construir a família deles. Eros operando novamente... Não posso me queixar: fiz o mesmo com a família da mãe dela!

Destruo a vida de uma vaca (eu não, que os bifes vêm do supermercado), corto-a em pedacinhos, queimo-a parcialmente e ainda a trituro com gosto entre os dentes. Seus tijolinhos de aminoácidos vão se juntar na construção de meus músculos. Você não imagina quantas palavras eu destruí ("deletei", do latim "delendere", que significa "destruir") para escrever esta coluna. Você se encanta ao ver uma catedral em mármore. Vá dar uma olhada na pedreira de onde ela saiu. Na Austrália é necessário se matar uma série de animais que, por seu surto de "construção", destruíram plantações e outras espécies, ameaçando a humana. Um estímulo à reflexão dos que pensam que ecologia é ter peninha de bichos e plantas.

Portanto vida e morte, construção e destruição fazem parte de nossa natureza e são necessárias à nossa existência.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo
A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...