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VAIDADE E AGRESSIVIDADE

Comecei a me aprofundar nas questões da vaidade há muitos anos. Porém, parece que só agora sou capaz de compreender a dimensão agressiva embutida neste prazer erótico que todos temos de nos exibirmos, atrairmos olhares de admiração ou de desejo.

Gastamos tempo e energia consideráveis com o objetivo de chamar a atenção das pessoas em geral – até mesmo daquelas que nos interessam pouco. Nos preocupamos muito com nossa aparência física e os mais displicentes sabem que também se destacam por agirem da forma como agem. Gostamos de exibir nossas conquistas materiais, nossos sucessos profissionais, artísticos, esportivos etc.

Muitos de nós têm prazer genuíno naquilo que fazem (trabalho, esporte ou qualquer outra atividade) e sentem crescer sua autoestima (juízo que uma pessoa faz de si mesma em função de estar agindo de acordo com suas convicções). Porém, os prazeres derivados da vaidade (que depende do juízo que “os outros” fazem de nós por estarmos de acordo com as convicções deles) raramente são secundários.

Vivemos nos comparando e quando nos sentimos menos do que “os outros”, segundo algum item, imediatamente nos sentimos humilhados. A humilhação é a dor derivada de nos sentirmos por baixo, perdedores no jogo exibicionista. Fugimos da humilhação porque é uma das maiores dores que podemos sentir.

Estamos expostos ao risco deste sofrimento porque vivemos numa sociedade que estimula de maneira desmedida todas as formas de competição e todo o tipo de sucesso que só pode ser atingido por um pequeno grupo de pessoas.

Chamo de “felicidades aristocráticas” – beleza, riqueza, inteligência ou dotes esportivos excepcionais – as propriedades raras e que condenam à infelicidade e à humilhação a grande maioria da população. Na verdade, mesmo quem tem inteligência excepcional pode se sentir frustrado por não ser tão bonito e se tornar uma pessoa extremamente ressentida.

Ou seja, numa sociedade assim competitiva e estimuladora da ambição (que nos levaria a atingir resultados extraordinários capazes de chamar a atenção dos outros cidadãos), praticamente todos nós nos sentimos por baixo (humilhados) em algum aspecto “essencial”. Somos todos movidos pela competição e estamos todos frustrados porque achamos que a cota de privilégios que recebemos é insuficiente.

Nos tornamos rancorosos, amargurados e com sede de vingança: usamos nossas prendas, nossas facilidades (inteligência, beleza, destreza verbal, “cara-de-pau” ou o que seja) com o intuito de nos vingarmos daqueles que nos humilham com as “qualidades” que não possuímos.

O fenômeno é quase universal: todo o mundo fica com raiva de todo o mundo. Todos aqueles que podem sentem a humilhação e tratam de se vingar exibindo seus dotes.

Muitas meninas, quando crianças, acham que o legal é ser menino e se sentem frustradas e prejudicadas pelo destino. Quando, na adolescência, se tornam atraentes aos olhos dos rapazes, transformam seu poder sensual em arma, humilhando aqueles que agora estão a seus pés.

Meninos delicados, objeto de humilhação durante a infância porque eram mais baixos, porque eram gordinhos ou menos competentes para as práticas esportivas, descobrem que são particularmente inteligentes e dotados para os estudos. Transformam seus dotes em arma, humilhando quem os humilhou com seu saber e com o sucesso que podem atingir pela via do conhecimento.

O triste é constatar que nossa sexualidade (da qual a vaidade é parte essencial) se compromete com elementos agressivos de uma forma quase que irrecuperável.

Homens e mulheres vêm se digladiando de uma forma brutal em prejuízo de todos. A associação é tão radical que muitos casais, que efetivamente se amam, mal conseguem ter um relacionamento sexual básico (o sexo acoplado à agressividade se distancia da ternura que reina entre os que se curtem).

Triste também é constatar que o universo do conhecimento, tão importante para nosso bem-estar quanto a sexualidade, também se contamina com a agressividade, condição na qual os erros poderão se suceder de uma forma dramática. Não espanta que num mundo constituído desta forma, estejamos a um passo da autodestruição total.

Considero essencial aprofundarmos a reflexão acerca da vaidade, da competição, da ênfase que temos dado às qualidades excepcionais que só uns poucos podem ter (em prejuízo de outras que poderiam fazer parte do modo de ser de todos, como é o caso das virtudes de caráter, a disciplina, a competência sentimental etc.), de quanto tudo isso é, de fato, inexorável.

Sim, porque vivemos numa época em que se atribui tudo à seleção natural, às disputas para que os mais fortes reproduzam mais e gerem descendentes mais e mais violentos. Ao tratarmos isso como inevitável, teremos que constatar que tais processos, que estavam a serviço do aprimoramento e perpetuação da nossa espécie, agora serão os que nos levarão ao fim dos tempos.
 Flávio Gikovate

O MEDO DA FELICIDADE – Flávio Gikovate

Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.

Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.

Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.

Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.

O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.

O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!

Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.

Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.

Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.

Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank. Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.

A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.

Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.

Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade. Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.

A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.

Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente. Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.

Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado. Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!
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O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A RAZÃO CONHECE – Flávio Gikovate

Me surpreendo quando penso que a grande maioria dos humanistas e psicoterapeutas se acomodaram diante da ideia de que o amor é um fenômeno mágico que se apossa de nós de uma hora para a outra e sem nenhum fundamento lógico ou racional.

Não se empenharam em estudá-lo e o assunto ficou reservado para os poetas. O amor é visto como um tema menor, apesar de ser fonte de enormes sofrimentos para a grande maioria e de grandes alegrias para um pequeno grupo de bem-aventurados que não sabem porque receberam tamanha graça.

O sexo tomou conta das especulações mais relevantes, especialmente as masculinas. O amor era “coisa de mulher”. As mulheres passaram a ser vistas como as mais românticas, ao passo que os homens seriam mais práticos. Tudo errado! Na realidade, os homens são os mais românticos e se encantam com facilidade, muitas vezes fascinados pela aparência física delas, objeto de admiração pouco refletida. As mulheres? Elas, antes de se encantarem observam muito bem quem é o homem, sua base cultural, nível de educação, posição social… Agem de forma bem mais racional que eles, que sempre foram os responsáveis por quase toda a literatura romântica disponível.

Venho me interessando pelo assunto desde que me formei, há 50 anos. Sexo, amor e seus desdobramentos têm sido o objeto dos meus estudos. Me fixei mais nos dramas sofrimentos das pessoas ditas “normais” do que nos temas relacionados às patologias psiquiátricas. Esse tipo de atividade hoje se enquadra no que alguns autores norte-americanos chamam de Psicologia Positiva.

As reflexões sobre a racionalidade do amor têm a ver com os critérios de escolha dos parceiros amorosos. Freud em sua Introdução ao Narcisismo (1914), levantava duas possibilidades: aliança entre parceiros diferentes (defendida por ele) e entre semelhantes. Minha experiência profissional e pessoal me levou para o outro caminho, já que, nos tempos mais unissex, as afinidades iam se tornando indispensáveis. 

No passado, os homens mandavam e as mulheres obedeciam. É claro que nessas condições as diferenças entre os casais eram menos relevantes e a ideia de complemento era bem prática e racional – um tem o que falta ao outro. Ainda nos anos 1970, percebi que a grande maioria dos casais se formava de forma complementar. Não só eram diferentes, mas opostos quanto ao caráter. Quem não gosta do seu jeito de ser admira seu oposto! O que acontecia? Viviam às turras, como o fazem ainda hoje.

Mesmo hoje quando as pessoas já falam em “almas gêmeas”, as relações entre afins são muito raras: na hora de se unirem, o fazem segundo os critérios tradicionais da tampa e panela; unem-se por força de suas diferenças, brigam o tempo todo por causa delas e se separam em virtude delas. Não pude deixar de reconhecer a existência de um fator contrário ao amor por afinidades, presente em todas as pessoas, e que as impulsionava para elos muito menos satisfatórios.

Minha atenção se voltou para as histórias de paixão, alianças amorosas baseadas em afinidades, onde os pares se entendem muito bem do ponto de vista intelectual; como regra, as histórias terminavam na separação dos amantes (título do livro do Igor Caruso, de 1968). 

A outra constatação foi a de que a paixão provoca um estado emocional alterado (um “estado extraordinário”, segundo F. Alberoni, no livro que publicou em 1979), no qual as pessoas perdiam peso, dormiam pouco, pensavam no amado o tempo todo com prejuízo das outras atividades. 

Percebi que o que estava associado ao encantamento era um enorme medo: medo de que o amado desistisse da relação, medo de se entregar a ela e se “diluir” no amado e um medo ainda mais esquisito, que chamei de medo da felicidade sentimental! É como se coisa muito boa atraísse tragédia, de modo que as pessoas tendem a fugir de situações desse tipo, especialmente no amor. 

Assim, acabei definindo, como uma fórmula, que a Paixão = amor + medo. Tudo parece desprovido de lógica, mas o encaixe intenso provoca um medo explicável e que, a meu ver, deve ser bem entendido e enfrentado.

Nada disso tem a ver com o sexo. Aliás, no auge da paixão muitos homens experimentem enorme dificuldade sexual. Isso confirmou minha convicção de que o sexo e o amor estão longe de ser parte da mesma “pulsão” como hoje se gosta de dizer. 

O amor tem a ver com o encontro de alguém com quem nos sentimos aconchegados, com uma sensação de completude derivada da reconstrução do animal duplo original (segundo a fala de Aristófanes, no “Banquete” de Platão) que se rompe com o nascimento (O. Rank, no livro “O trauma do nascimento”, de 1924). 

Desde o nascimento, a sensação de desamparo e incompletude nos persegue e é atenuada através dos elos sentimentais. É claro que o amor que primeiro nos aconchega vem de nossa mãe, sendo os amores românticos adultos apenas uma das formas de expressão desse sentimento.

O amor é paz e atenua a dor do desamparo. É, pois, um prazer chamado de “negativo”, ou seja, alivia uma dor preexistente. Depende da presença de uma outra pessoa, sendo sempre interpessoal. Não existe, pois, amor por si mesmo. 

O sexo é diferente: a criança o descobre quando sua curiosidade cresce e ela passa a tocar todas as partes do corpo; detecta em algumas a presença de uma excitação muito agradável. 

Acho que o sexo permanece pessoal ao longo de toda a vida. Tão pessoal, tão pessoal, que dá até para fazer sozinho! E é prazer positivo, pois não depende de desconforto prévio para nos provocar suas sensações.

Como usar todas essas informações para os dias que correm? Hoje, homens e mulheres trabalham; não há como continuarmos a pensar em relacionamentos que não sejam baseados em respeito e cumplicidade.

Os inúmeros programas de lazer pedem maiores afinidades e não há espaço para as chamadas “brigas normais dos casais”. Amor tem que ser paz, aconchego, companheirismo e ajuda recíproca. 

Se não é melhor ficar sozinho. A qualidade de vida dos solteiros só tem melhorado e isso gera uma “nota de corte” para os relacionamentos afetivos: tudo o que for pior do que viver só irá desaparecer. No futuro próximo, não existirão mais casamentos de má qualidade. Só existirão pessoas solteiras e bem casadas.

Os bons casamentos são baseados em afinidades e recíproca admiração. A razão participa tanto das más escolhas como das de qualidade. O “dedo podre” ou persistência em escolhas equivocadas é fruto da ação racional que, por medo do amor, opta por relacionamentos ruins. Quem sabe escolher mal também sabe escolher corretamente!

As relações de boa qualidade contemplam os 3 avais: o erótico (perigoso que tenha relevância exagerada), o do coração (envolvendo os fatores “inespecíficos” do tipo: timbre de voz, jeito de andar, sorriso…) e principalmente o da razão (afinidade de caráter, gostos, interesses, planos de vida…). 

Os que negligenciarem as razões da razão certamente estarão se envolvendo em uma empreitada com prazo de validade curto. 

Afinidades de caráter, respeito recíproco, gosto pelo convívio, afinidades eróticas definem um tipo de aliança que, segundo penso, caracterizará o romance do século XXI. 

A esse tipo de amor, próprio dos que amadureceram a ponto de não fugirem de medo do elo sentimental de qualidade, chamo de +amor.
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O QUE É SER “BOM DE CAMA”? – Flávio Gikovate

Muita gente acha que a questão da sexualidade está equacionada e “resolvida”. Tanto isso é verdade que os livros sobre o assunto escassearam e os sexólogos praticamente desapareceram. Não compartilho desse ponto de vista. Acho que temos vivido uma época fortemente influenciada pela indústria pornográfica; isso nos leva a pensar o sexo de uma forma curiosa, como algo parecido com os exercícios físicos mais exigentes e rigorosos. 

A influência desses filmes que estão, aos milhares, disponíveis pela internet, tem sido tal que voltaram algumas das antigas preocupações e preconceitos: agora, de novo, os homens têm se preocupado com as dimensões de seus pênis; o orgasmo vaginal parece ter voltado a ser fundamental para que uma mulher se satisfaça de verdade e seja realmente “boa de cama”. Suponho que esses ingredientes sejam muito interessantes do ponto de vista das filmagens; porém, na vida real não têm maior serventia.

Tanto nos filmes eróticos, como na publicidade e no conteúdo das obras de ficção, tudo leva o observador a crer que o relacionamento erótico entre duas pessoas não passa de um jogo de sedução e poder, em que, tomando como exemplo o ambiente heterossexual, uma mulher poderosa tenta submeter o homem, encantado por sua beleza e desenvoltura; isso enquanto o homem, graças às suas aptidões físicas, tenta despertar nela o prazer que, nessa linguagem corpórea peculiar, teria o significado de uma rendição. Não espanta que tantas não alcancem o orgasmo num relacionamento íntimo apesar de todos os esforços de seus parceiros; essas mesmas mulheres, ao se masturbarem, alcançam o clímax com grande facilidade; ou seja, não se trata de um problema sexual e sim de um empenho em não se deixar subjugar.

Num contexto como esse, agrava-se a já natural associação entre o sexo e a agressividade, afastando bastante o relacionamento íntimo de qualquer tipo de convívio sentimental. Não estou me referindo a elos matrimoniais; penso que o encontro erótico entre pessoas que mal se conhecem só pode se tornar uma espécie de demonstração de competência de ambas as partes e onde vale tudo, inclusive fingir o prazer – condição cada vez mais frequente, talvez também influenciada pela indústria pornográfica. Os homens se empenham em “dar” prazer à mulher com o intuito de deixá-la dominada e também para seu deleite pessoal: ele se orgulha de ser competente o suficiente para estimulá-la do jeito certo para que ela chegue lá; isso basicamente como manifestação de vaidade pessoal e não como anseio genuíno de agradar o parceiro. Um indivíduo que haja assim pode muito bem ser considerado “bom de cama”. Da mesma forma, a mulher que aceita variações mais “picantes” durante o ato e que emite os ruídos considerados eróticos acaba sendo considerada como “boa de cama” mesmo se tudo isso contiver uma boa dose de falsidade.

Penso que é muito importante retomarmos as reflexões acerca da nossa sexualidade, pois ela vem tomando um rumo nada interessante. É possível tratar o tema de uma forma radicalmente oposta à que vem sendo conduzida: ao invés do sexo vinculado ao controle – controle sobre as próprias sensações e controle sobre o parceiro –, considerar que a verdadeira liberdade sexual consiste em ser capaz de se “descontrolar”. Uma mulher pode se colocar sexualmente de forma insinuante, ousada e disposta a impressionar o parceiro; ou então, apenas se despojar de todas as armas e armaduras, soltar-se e se deixar embalar pelas sensações agradáveis que derivam das trocas de carícias próprias da estimulação das zonas erógenas. A mulher não se entrega ao homem e sim ao prazer durante as trocas de carícias com um parceiro confiável, sendo essa condição bastante mais comum do que a capacidade de se soltar diante de parceiros que tenham acabado de conhecer. Essa talvez seja a mulher verdadeiramente “boa de cama”!

Um homem que esteja realmente despreocupado com seu desempenho e com todos os aspectos quantitativos relacionados à sua sexualidade pode se entregar ao prazer das trocas de carícias sem pretender subjugar, dominar, controlar; buscará apenas o seu prazer e o deleite derivado do prazer da parceira. Não é necessário ser agressivo, ter “pegada” para ser “bom de cama”; basta estar ali de corpo e alma.

Nos casais acostumados a entender o sexo como jogo de sedução e de dominação, o erotismo tende a decrescer muito depois de consolidado o vínculo; sim, porque não há mais necessidade de seduzir! Se tiverem desenvolvido o gosto por mergulhar no sexo como fonte efetiva de prazer, não terão problemas em manter o nível de interesse em suas práticas ao longo das décadas. Será importante reforço da intimidade e cumplicidade indispensável para a longa vida dos casais, além, é claro, de ser adorável fonte de descontração e relaxamento.
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EM QUE CONSISTE A INTIMIDADE? – Flávio Gikovate

A intimidade consiste em uma adorável sensação de proximidade e cumplicidade com uma pessoa especial: um amigo sincero, um parente, um parceiro sentimental. Ela só se constrói em determinadas condições especiais, sendo que a mais importante delas tem a ver com o modo como se constituiu nosso modo de pensar.

Cada um de nós desenvolveu um jeito de correlacionar as palavras e os pensamentos que é mais original do que pensamos. Apesar de todos falarmos a mesma língua, nem sempre o que dizemos corresponde exatamente ao que o outro ouve; e, o que é o principal, muitas vezes não está em sintonia com aquilo que estava em nossa mente. Ou seja, como cada cérebro é único, não é raro que aquilo que estou escrevendo aqui agora – e que é o fruto de um esforço de transformar em palavras o que se passa em minha mente – não corresponda ao que você, leitor, estará entendendo. Isso não se deve apenas à uma eventual dificuldade minha de me comunicar e sim a diferenças relevantes entre os nossos modos de pensar.

Em contrapartida, há vezes em que o que falamos ou escrevemos parece corresponder exatamente ao que nosso interlocutor entendeu. A sensação é extremamente agradável, uma vez que nos sentimos devidamente entendidos e isso define uma importante afinidade no sistema de pensar, condição indispensável para que se constitua um relacionamento íntimo. Quando ocorre essa comunicação bem sucedida nossa sensação é de aconchego, de não estarmos tão sozinhos nesse mundo.

Ao longo do convívio com alguém cujo modo de pensar é suficiente parecido com o nosso, é claro que podem surgir divergências de pontos de vista e mesmo de atitudes diante das várias condições objetivas da vida de cada um dos que são íntimos.

É indispensável que esse canal fluente e fácil de comunicação não se feche, o que exige certos cuidados muito relevantes. O primeiro deles diz respeito ao modo como colocamos nossas diferenças: o melhor caminho consiste no uso da primeira pessoa do singular e não a terceira pessoa, uma vez ela que pode facilmente provocar a sensação de cobrança, crítica ou acusação.

Se algo me desagrada no outro, posso dizer a ele que “eu fico triste quando acontece isso ou aquilo entre nós” em vez de “não acho que você deveria fazer isso ou aquilo”; ou pior ainda: “não aceito – não admito – que você faça isso ou aquilo”.

Ninguém tem o direito de exigir nada de ninguém, muito menos dos mais íntimos. Temos o direito e mesmo o dever de informá-los sobre os desdobramentos de seus atos: “quando você age dessa ou daquela maneira, isso provoca em mim tantas e tais sensações e emoções”. Se o outro quiser nos agradar certamente tenderá a evitar as condutas que nos entristecem. Se não for esse o caso, cabe a nós decidir se aceitamos ou não o convívio com essa pessoa.

Outro ingrediente que considero fundamental para a continuidade dos relacionamentos baseados em respeito e intimidade é a ausência de críticas.

Quando uma pessoa relevante nos censura, nossa sensação é muito desagradável; e é especialmente ruim se esperávamos algum tipo de compreensão ou alívio de um desconforto que nós mesmos estejamos sentindo por termos cometido algum erro.

Quando esperamos colo e recebemos uma reprimenda, tendemos a nos calar; e não só naquela dada situação específica, mas também em qualquer outra que venha a ser passível de algum tipo de reprimenda.

Um exemplo: se eu contar para o meu parceiro sentimental algo no qual eu tenha falhado – ou algum sonho ou pensamento não muito abonador – eu não gostaria de ouvir algo do tipo “nossa, nunca pensei que você fosse fazer essa bobagem ou ter tal tipo de pensamento”. É claro que da próxima vez que eu fizer algo que possa ser censurável ou pensar algo não tão agradável não mais contarei o que se passou comigo.

Assim, o que mais comumente interrompe a comunicação e impede a intimidade são atitudes críticas e reprovadoras vindas de parceiros cuja aceitação nos é tão importante.

Se ao invés de críticas ouvirmos algo do tipo “você sabe que em uma dada ocasião fiz algo parecido e sei muito bem como é chato errar e imagino como você deva estar se sentindo; mas não se aflija, pois isso logo passa”, é claro que a intimidade cresce e se fortalece.

Em síntese, as boas relações de companheirismo acontecem entre aqueles que possuem modos de ser e de pensar assemelhados, que sejam muito cautelosos ao colocar suas divergências – sempre dando prioridade para a descrição da repercussão das ações do outro sobre si mesmo – e, mais que tudo, entre pessoas que não se arvorem em juízes e que sejam acima de tudo cúmplices.

PARA MELHOR CONHECER AS PESSOAS – Flávio Gikovate

A primeira condição para conseguirmos conhecer melhor as pessoas diz respeito a tratarmos de evitar o erro usual de buscarmos avaliá-las tomando por base a nós mesmos. Ou seja, um erro grave é o de pensar assim: “eu no lugar dela faria isso ou aquilo”; a verdade é que eu não sou ela e a forma de ser e de pensar não acompanha obrigatoriamente a nossa. Temos de nos afastar da nossa maneira de pensar e tentar, com objetividade, entender como funciona o psiquismo de quem queremos conhecer.

Um aspecto importante para quem quer efetivamente conhecer o outro consiste em prestar bastante atenção em seus atos, gestos, expressões corporais e faciais. Podemos saber muito de uma pessoa pela forma como se move dentro de casa, como pega o jornal, se ela serve ou não as pessoas que estão à sua volta, pelo sorriso, pela facilidade com que se irrita, como reage quando está com raiva e assim por diante. Esses traços são particularmente relevantes quando o observado está distraído, sem intenção de impressionar os interlocutores. A objetividade na avaliação é essencial e depende de critérios de valor claros na mente do observador.

É claro que se pode conhecer muito das pessoas por seus sentimentos: sua capacidade de amar e se dedicar, a forma como lidam com o ciúme, como se comportam quando sentem inveja, se têm controle sobre suas emoções ou não.

Um aspecto que me chamou a atenção mais recentemente e que considero extremamente relevante é que as pessoas mais egoístas – as que recebem mais do que dão e que, por isso mesmo, são mais dependentes – são mais realistas e objetivas para analisar o modo de ser das pessoas com as quais convivem. Elas buscam se aproximar de pessoas mais generosas, competentes para lhes dar o que necessitam. Elas sabem perfeitamente que os mais generosos são ricos em sentimentos de culpa, esta que, uma vez estimulada, faz com que não resistam e digam “sim” mesmo quando gostariam de dizer “não”.

É curioso, pois os mais egoístas não são muito empáticos, ou seja, não são competentes para se colocar no lugar das outras pessoas; porém, são objetivos e realistas na avaliação dos que os cercam. Isso nos leva a concluir que a atitude empática, a de se colocar no lugar do outro, pode nos induzir a erros de avaliação bem maiores do que aqueles que derivam da observação direta e objetiva.

Os mais generosos, aqueles que, por vaidade ou incapacidade de lidar com excesso de sentimentos de culpa, dão mais do que recebem, são os que mais erram na avaliação que fazem a respeito de seus interlocutores. A forma como exercem a empatia, a de imaginar o outro à sua imagem e semelhança, ofusca a objetividade que deveriam ter para perceber que os seres humanos não são tão parecidos conosco quanto gostaríamos. A verdadeira empatia deveria se assemelhar à dos “hackers”, aqueles que tentam entrar na mente do outro com isenção, buscando entender como é que ela funciona.

Perceberiam, por exemplo, que os mais egoístas não sentem culpa e não têm pudor em dramatizar situações com o intuito de provocar esse sentimento nos mais generosos. Perceberiam que a ausência de culpa gera uma diferença enorme entre as pessoas, de modo que os mais egoístas mentem com facilidade, inventam sofrimentos duvidosos apenas com o intuito de, pela via da chantagem sentimental, induzir os mais generosos a agir de acordo com sua vontade e satisfazer seus anseios e necessidades.

A conclusão a que devemos chegar é que o realismo e a objetividade são bons mecanismos de exploração do meio externo e que a avaliação das pessoas também deve ser regida pela observação dos fatos e não por ideias.

Os mais generosos tendem a ser idealistas nos dois sentidos da palavra: se baseiam mais em suas suposições do que nos fatos; e também tendem a ver beleza e virtude onde não existe: acreditam que, no fundo, todas as pessoas são boas e que têm coração de ouro.

A proposta de Freud, de que todos temos um Super Eu, uma censura moral interna, deriva de generalizações que ele fez tomando por base a si mesmo e algumas outras pessoas. Convém ser realista e objetivo: uma boa metade da humanidade não sente culpa. Assim, quem quiser aprender a conhecer melhor as pessoas deve se ater aos fatos mais que às ideias. 

O realismo só gera certo pessimismo numa primeira fase e para aqueles acostumados com o mundo das ideias onde tudo é belo e, principalmente, existe de acordo com seus gostos e vontades.
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O QUE É SERENIDADE? – Flávio Gikovate

O termo serenidade costuma estar associado a mais de um significado, sendo que o primeiro deles tem a ver com a capacidade de algumas pessoas de lidar com docilidade e tolerância com as situações mais adversas, especialmente aquelas que não dependem de nós. 

Muitas vezes nos angustiamos e perdemos a serenidade quando nos sentimos pressionados por expectativas que nós mesmos produzimos em relação aos nossos projetos; é preciso cautela para que nossos planos de futuro, nossos sonhos e esperanças não se transformem em pesadelos e fontes de tensão e de decepções. Os que fazem planos mais realistas sofrem menos e se aproximam mais da serenidade.

A serenidade corresponde a um estado de espírito no qual nos encontramos razoavelmente em paz, conciliados com o que somos e temos, com nossa condição de humanos falíveis e mortais. É claro que tudo isso depende de termos atingido uma razoável evolução emocional e mesmo moral: não convém nos compararmos com o que são ou tem as outras pessoas, não é bom nos revoltarmos com o fato de não sermos exatamente como gostaríamos; conciliados com nossas limitações, podemos usufruir da melhor maneira possível as potencialidades que temos.

Um aspecto que considero muito importante para a questão da serenidade é a competência dos indivíduos para lidar com o tempo. Um exemplo disso é a inquietação que toma conta de muitos quando, presos no trânsito, não conseguem chegar a um encontro na hora marcada. Apesar do atraso não ser da responsabilidade deles, sofrem e se sentem por vezes até mesmo culpados pelo que está acontecendo. Chegam ao local esbaforidos e demoram um bom tempo para se recuperarem de um problema que, como regra, não tem a menor importância concreta.

Outra peculiaridade dessa dificuldade de lidar com o tempo própria da maioria das pessoas tem a ver com a condição de quem espera um acontecimento, o resultado de uma prova que irá indicar sua aprovação – ou não – em um concurso, a expectativa nervosa diante do resultado de um exame médico que irá dizer da sua condição de saúde. Saber esperar é uma das virtudes mais raras que tenho conhecido e certamente contribui enormemente para que uma pessoa desenvolva esse estado de calmaria correspondente à serenidade. Sim, porque é fato que, de certa forma, estamos continuamente esperando eventos que irão influenciar nossas ações futuras.

O momento presente é sempre uma ficção: vivemos entre as lembranças do passado e a esperança de acontecimentos futuros que buscamos, mais ou menos ativamente, alcançar. A regra é que estejamos indo atrás de alguns objetivos, perseguindo-os com mais ou menos determinação e persistência. A maior parte das pessoas se sente muito triste quando está sem projetos, apenas usufruindo dos prazeres momentâneos que suas vidas oferecem. Somos pouco competentes para vivenciar o ócio. Esse estado de não querer nada, não estar buscando nada e que os filósofos antigos consideravam como muito criativo é algo gerador de um estado de alma que chamamos de tédio e que não deixa de ser uma forma peculiar de depressão. No tédio nos perguntamos acerca do sentido da vida e, como não temos meios de responder a essa pergunta, nos deprimimos.

De uma certa forma, fazemos tudo o que fazemos com o objetivo de fugir do ócio e do tédio que o acompanha. Mesmo nos períodos de férias percebidas como merecidas – por termos sido capazes de produzir bastante – temos que nos ocupar: abandonamos nossos afazeres habituais e nos entretemos com a visita a lugares que não conhecemos, com a prática de esportes exigentes, com a leitura… Aqueles que não são capazes de se deleitar com essas outras ocupações, tendem a fazer uso excessivo do álcool ou de outras drogas. A verdade é que poucos são os que conseguem ficar em paz em prolongada inatividade.

Por outro lado, perseguir objetivos com obstinação e aflição de alcançá-los o quanto antes também subtrai a serenidade. Assim, perdemos a serenidade quando andamos muito devagar, perto da condição do ócio – que traz o tédio e a depressão – e também quando nos tornamos angustiados pela pressa de atingirmos logo nossas metas. Mais uma vez, a sabedoria, a virtude está no meio, naquilo que Aristóteles chamava de temperança: cada um parece ter uma “velocidade ideal”, de modo que se andar muito abaixo dela tenderá a se deprimir, ao passo que se andar muito acima dela tenderá a ficar muito ansioso. Interessa pouco comparar nossa velocidade com a dos outros, posto que só estaremos bem quando estivermos em nosso ritmo, qualquer que seja ele. 

Conhecer a si mesmo implica, entre outras coisas, conhecer a velocidade na qual nos sentimos confortáveis e conseguimos andar com competência e serenidade.

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OS DESENGANADOS E OS ENGANADOS – Flávio Gikovate

Não sei se ainda hoje se fala assim, mas até há alguns anos se dizia, a respeito de alguém que estivesse gravemente enfermo, que ele estava desenganado. Ou seja, que estava à beira da morte. Quanto mais penso mais acho curioso o fato de usarmos a palavra “desenganado” quando nos referimos a uma pessoa que vai morrer, já que isso vai acontecer a todos nós.

Desenganado é aquele que já sabe que vai morrer, ao passo que aqueles que gozam de boa saúde, que ainda não sabem que vão morrer, são os “enganados”.

Nos relacionamos de uma forma extremamente complexa com o fato de sermos mortais. A tendência que predomina em nós é a de negá-la, o que define o mecanismo pelo qual nos tornamos “enganados”, aqueles que fingem não saber que vão morrer.

Poucas são as pessoas que, em plena saúde, pensam na morte como uma possibilidade permanente. Poucos levam em conta a morte como parte dos seus projetos de vida: a morte determina um sentimento de urgência, de que não podemos adiar indefinidamente nossas decisões, de que temos que fazer opções e aceitar perdas.

Aliás, uma das dificuldades de lidar com as perdas é que todas elas têm algo da morte, da inaceitável e inexorável finitude. Ao pararmos de fumar dizemos: “nunca mais poderei fumar um cigarro”! Nunca mais é quase sinônimo de morte; é vivenciar a morte em vida. Rupturas amorosas provocam sentimentos equivalentes.

Mesmo aqueles que se empenham em não fazer parte dos “enganados” têm que viver como se fossem eternos. Em termos, é claro. Não cabe, aos 80 anos de idade, continuar a trabalhar e a poupar para o “futuro” da mesma forma que se faz aos 30 anos. Não é o caso, porém, de se abandonar todos os projetos e planos para o futuro, já que não é impossível que se possa viver ainda uns 10 ou 15 anos com boa atividade e lucidez.

Penso que o ideal é se posicionar mais ou menos da seguinte forma: sabemos que somos mortais e que poderemos morrer a qualquer instante. Porém, temos que atuar como se fôssemos viver para sempre. Trata-se de ter, ao mesmo tempo, consciência da finitude e humildade de saber que não se é dono do próprio destino.
Não creio que se deva pensar de modo diferente no caso de sermos portadores de alguma doença mais ou menos grave. Mesmo respeitando os médicos e a medicina, não são eles – e nem os exames que eles nos mandam fazer – os que vão decidir sobre se estamos em vias de morrer ou não.

Vivemos a vida com a sombra da morte ao nosso lado. Mesmo que uma tomografia ou outro exame detecte de modo vigoroso a presença da sombra da morte, isso não deveria nos surpreender tanto e nem mesmo considerarmos que já fomos julgados e que o veredito da morte é fato consumado, que a vida já foi derrotada.

Penso que cada situação existencial contém os ingredientes da vida e da morte e os exames são como uma fotografia, o registro de um estado momentâneo que sempre poderá ser alterado. Nós que não estamos enganados não poderemos ser desenganados.

Nós que não estamos enganados podemos estar com saúde ou doentes. Em ambos os casos, sabemos que se trata de uma fotografia instantânea e não de um filme permanente e definitivo. Talvez devamos compreender que a vida é mesmo uma luta permanente – agonia é sinônimo de luta, como aprendi lendo Miguel de Unamuno, escritor e ensaísta espanhol do século passado.

Lutamos contra inúmeros obstáculos e adversidades externas. Lutamos contra inimigos reais, animados e inanimados. Lutamos contra adversidades climáticas e tentamos sobreviver a guerras e a invasões de microrganismos. Lutamos para permanecer serenos diante de situações alarmantes e ameaçadoras, para manter a alegria mesmo em situações mais tristes, para sermos ponderados mesmo quando somos provocados etc. Nenhuma dessas eventuais vitórias é definitiva, de modo que em futuras situações teremos que voltar à luta com igual vigor e persistência. A luta é diária e ininterrupta.

Nenhuma luta contra adversidades externas é tão difícil e dolorosa quanto a que travamos internamente entre nossas tendências construtivas e destrutivas, entre a vida e a morte. A briga é permanente e independe de estarmos ou não com boa saúde. Não creio que seja igualmente relevante o fato de estarmos doentes – tanto as doenças banais como as de maior gravidade e perigo. Estamos sempre diante de um estado momentâneo, de uma fotografia. A luta é contínua.

Tanto faz se estamos sadios ou doentes, temos que lutar pela vida e contra a morte a cada dia, a cada instante. Temos que lutar com todas as nossas forças para prolongar a vida e fazer dela uma condição construtiva e produtiva tanto para nós como para os que nos cercam. Temos que lutar sabendo que, no fim, seremos derrotados; a morte, e só ela, dará fim à nossa agonia. Quando a batalha final chegar, os que souberam lutar com dignidade também saberão aceitar a derrota com docilidade.
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O LADO OBSCURO DA PALAVRA - Flávio Gikovate

Uma das mais fascinantes aquisições da nossa espécie foi a linguagem. Mesmo dispondo de um cérebro competente e da laringe, foram necessários vários milênios para que pudéssemos construir um conjunto de sons correspondentes a objetos, seus atributos e ações.

Depois, os sons tiveram de ser transformados em algum tipo de sinal, de desempenho – precursor das palavras e, finalmente, das letras que as compõem. O que cada criança demora poucos anos para aprender nos custou muito tempo e suor para construir.

Estabelecida a linguagem, passamos a experimentar um período de grande e rápida evolução, que correspondeu aos últimos 5 mil anos de nossa história.

A transferência de informações de uma geração para outra ficou muito mais fácil devido à existência da palavra, de modo que temos acumulado conhecimento a uma velocidade cada vez maior.

Como consequência, surgiram novos conceitos e ideias, e tudo isso acabou promovendo o progresso tecnológico de que tanto nos orgulhamos.

Nossa memória foi suficiente para armazenar todo o conjunto de dados necessários para a evolução em cada setor das atividades humanas.

Essa característica de nosso cérebro pode ser estimulada graças ao desenvolvimento da linguagem, pois é por meio das palavras que os fatos e os conceitos se fixam no sistema nervoso.

A comunicação entre as pessoas também experimentou grande avanço. A narrativa literária ficou cada vez mais sofisticada.

Usando a linguagem, sabemos expressar os mais diversos estados da alma. Podemos fazer perguntas sobre as sensações do outro. Podemos conhecer suas alegrias e a razão de suas amarguras, de forma fácil e direta.

Infelizmente, parece que tudo é uma faca de dois gumes. Até agora, falamos das impressionantes vantagens que obtivemos com a aquisição da linguagem. Mas existe também o lado negativo desse processo que nos permitiu um uso mais adequado da inteligência.

Por exemplo, uma pessoa, ao perceber que será punida se outras descobrirem determinado comportamento seu, poderá tentar esconder o fato por meio das palavras.

A mentira não deixa de ser uma utilização sofisticada da inteligência, mas também é um subproduto dela por seu caráter imediatista. Pode ajudar momentaneamente. A médio e a longo prazo, leva o mentiroso a se perder, afastando-o da realidade. Sim, porque ele passa a utilizar a razão de forma menos rigorosa e precisa.

A mentira é “coisa dos espertos”, dos que querem tirar vantagem sempre. Nunca aproximará alguém da verdadeira sabedoria e serenidade. A longo prazo, não há trambique no jogo da vida.

A linguagem se estabeleceu e com ela achamos os meios para uma comunicação interpessoal extraordinariamente fácil e direta. Por outro lado, os seres humanos aprenderam a usar a linguagem para afastar o interlocutor da verdade.

Por meio da mentira, as palavras ganharam peculiaridades muito negativas. Passaram a ser utilizadas para que uma pessoa consiga se impor indevidamente sobre outra.

A comunicação foi dando lugar ao jogo de poder, à dominação, ao desejo de enganar com o intuito de obter vantagens. Em vez de perseguir a verdade, a maioria costuma perseguir a vitória.

Como distinguir a verdade da mentira? Nem sempre é simples. Nem sempre é possível fazer essa separação. Muitas vezes, teremos de lançar mão da nossa sensibilidade para captar, nos gestos e nas atitudes do outro, suas intenções.

Mesmo assim, vale a seguinte regra geral: sempre que as palavras não estiverem de acordo com os fatos, prevalecem os fatos.

Se um homem diz a uma mulher que a ama muito e a maltrata o tempo todo, consideramos o tratamento e não a palavra.


Falar é fácil e, depois da invenção da mentira, só tem valor quando a palavra vem acompanhada de atitudes que confirmem o que está sendo dito.

AS VÁRIAS FACES DA MENTIRA - Flávio Gikovate

Há um momento na vida em que, graças ao domínio de mecanismos sofisticados da inteligência, aprendemos a mentir.

Mentimos jogando com as palavras, contendo gestos, assumindo posturas convenientes – e das quais discordamos – para aliviar tensões. Tentamos esconder aquele traço da nossa personalidade que não nos agrada assumindo uma maneira de ser mais apropriada.

São tantas as possibilidades de escamotear a verdade que o mais prudente seria olhar o ser humano com total desconfiança – pelo menos até prova em contrário.

Ainda que sentir medo e insegurança faça parte da natureza humana, fingimos que tudo está sob controle e que nada nos abala para ocultar nossa fragilidade. Acreditando no que veem, os outros passam a se comportar como se também não sentissem medo.

Mentem para não parecerem frágeis e inferiores diante daqueles que julgam fortes. Nesse teatro diário, alimentamos o círculo vicioso da dissimulação. Minto para impressionar você, que me impressionou muito com aquele jeito fingido de ser – mas que me pareceu genuíno.

Não seria mais fácil se todos admitíssemos que não somos super-heróis e que não há nada que nos proteja das incertezas do futuro?

Em geral, quem não aceita o próprio corpo evita praias e piscinas. Diz que não gosta de sol, quando, na verdade, não tem estrutura para mostrar publicamente aquilo (a gordura, a magreza ou qualquer outra imperfeição) que abomina.

É o mesmo mecanismo usado pelos tímidos, que não se entusiasmam muito por festas e locais públicos. Em casa, não precisam expor sua dificuldade de se relacionar com desconhecidos.

Temos muito medo de nos sentirmos envergonhados, de sermos alvos de ironias que ferem nossa vaidade.

É para não correr esse risco que muita gente muda de cidade depois de um abalo financeiro. Melhor ser pobre e falido (e encontrar a paz necessária para reconstruir a vida) onde ninguém nos conheceu ricos e bem-sucedidos!

Até aqui me referi às posturas de natureza defensiva, que servem de armadura contra o deboche, as críticas e o julgamento alheio.

Há, no entanto, um tipo perverso de falsidade: a premeditada. Pessoas dispostas a se dar bem costumam vender uma imagem construída sob medida para tirar vantagem.

Um homem extrovertido e aparentemente seguro, independente e forte pode ter criado esse estereótipo apenas para cativar uma parceira romântica. Depois de conquistá-la, revela-se inseguro, dependente e egoísta.

Mulheres sensuais podem se comportar de maneira provocante para despertar o desejo masculino – e sentir-se superiores aos homens. Vendem uma promessa de intimidade física alucinante que raramente cumprem, pois são, em geral, as mais reprimidas sexualmente. O apelo erótico funciona como atalho para os objetivos de ordem material que pretendem alcançar.

Não há como deixar de apontar a superioridade moral daqueles que mentem por fraquezas quando comparados aos que obtêm vantagens com sua falsidade.


O primeiro grupo poderia se distanciar ainda mais do segundo, se acordasse para uma verdade óbvia e fácil de enfrentar: aquele que me intimida é tão falível e frágil quanto eu. 

E – nunca é demais lembrar –, para ele, eu sou o outro que tanto lhe mete medo.

AS BRIGAS “NORMAIS” DOS CASAIS – Flávio Gikovate

Sempre me surpreendo quando ouço casais falando que só têm aquelas brigas “normais”. Elas costumam ser ricas em gritos, ofensas leves ou moderadas; isso quando não envolvem algum empurrão ou agressões maiores. As razões são as mais variadas, quase sempre relacionadas com ciúmes, dinheiro ou diferenças de opinião acerca de algum tema pouco relevante. Enfim, os casais brigam por assuntos que talvez devessem ser conversados, negociados, discutidos em tom respeitoso e cada um tentando sinceramente saber o que o outro pensa sobre aquele problema.

Qual a razão para tanta dificuldade em conversar com delicadeza e elegância justamente com aquela pessoa que, ao menos como regra, se ama? Porque as diferenças de opinião ofendem tanto? A primeira sensação que se tem é a de que, ao não concordar com algum ponto de vista, a pessoa parece estar traindo seu parceiro: “quem não está comigo está contra mim”. Não deixa de ser um tanto absurda essa proposição, especialmente nos tempos atuais em que, definitivamente, homens e mulheres têm o mesmo nível de instrução e ambos pensam por conta própria.

Conviver com alguém que tenha pontos de vista divergentes pode ser extremamente rico e útil se os casais pararem de tomar como ofensa pessoal aquilo que é a expressão mais sincera da individualidade: nossas ideias!

Num casal existe “eu”, “você” e “nós”; acho bom que seja assim. A postura deles na hora das discussões não costuma ser a de buscarem um denominador comum; o que buscam é mudar o ponto de vista e o modo de pensar do outro. Não se trata de um genuíno desejo de trocar pontos de vista e sim da postura autoritária de fazer prevalecer seu ponto de vista. Como isso costuma encontrar certa resistência por parte do parceiro, surgem as discussões acaloradas, quase sempre associadas aos berros e tudo o mais. Não existem diálogos e sim duelos!

O usual é que, nos casais, um dos dois seja o que se exalta mais rapidamente. É o mais imaturo, o que tolera pior frustrações e contrariedades de todo o tipo; e é assim que esse tipo de pessoa decodifica a diferença de opinião; quer comandar, ter a palavra final. Muitas vezes o mais tolerante se comporta como quem aceita aquela decisão final, aparentemente concordando com o “estourado”; isso com a finalidade de não estender a discussão.

 Vai acumulando mágoas, o que não é bom. Podem se transformar em malcriações desnecessárias em algum momento futuro ou mesmo na perda do interesse pelo parceiro. Qualquer pessoa de bom senso e que está vivendo a dois deveria pensar não só no seu bem-estar e felicidade mas cuidar para que seu par também esteja se sentindo assim.

Por vezes a impressão que tenho é a de que as brigas por motivos fúteis acontecem justamente quando o casal está vivendo bem e em concórdia por um certo número de dias. É como se não tolerassem mais do que uma certa cota de harmonia e felicidade; de um ponto para adiante parece necessário jogarem um balde de água fria naquele ambiente quente e harmonioso. A excessiva e prolongada felicidade sentimental aparece como muito ameaçadora, como se ela fosse atrair alguma coisa muito ruim. É o medo da felicidade.

E o medo da felicidade não é nada mais do que o medo de se perder aquela felicidade porque sentimos que o risco de acontecimentos negativos aumenta quando estamos bem. Isso não é verdade, mas aqueles que não suportam o medo acabam por criar pequenos conflitos capazes de perturbar a serenidade – e com isso evitar o suposto mal maior.

Aprender a lidar com diferenças de opinião exige bom senso e perseverança. As pessoas deveriam, como regra, usar a primeira pessoa do singular: “eu fico triste quando isso ou aquilo acontece”; “eu gostaria que certas coisas fossem desse ou daquele jeito”. Sempre “eu” e nunca “quero que você…”.

Ninguém é obrigado a fazer coisa alguma. O parceiro tem que saber o que nos agrada e o que nos aborrece e magoa. Caberá a ele se preocupar ou não com o nosso bem-estar. Se ele não ligar para nos magoar, cabe a nós decidir o que fazer: tolerar ou se afastar. Além disso, é preciso que os que se amam aprendam a ouvir os argumentos do outro sem ficar apenas se preparando para encontrar as respostas em contrário. 

Ouvir tratando de ver se ele tem razão; e mudar de ponto de vista sempre que ouvir algo mais adequado. Isso cria um contexto evolutivo, condição fundamental para a longevidade e uma vida rica em comum.

Quanto ao medo da felicidade e a tendência que temos de amplificar problemas para destruir parte do que construímos, só nos cabe ficar atentos e saber que, definitivamente, felicidade não mata.

QUANDO FALAR É AGREDIR - Flávio Gikovate

A verdade não subtrai o caráter agressivo da afirmação; pelo contrário o acentua.

Há opiniões discrepantes em relação às pessoas que são muito cuidadosas e delicadas quando expressam seu ponto de vista, especialmente sobre temas polêmicos.

Alguns as julgam falsas e hipócritas, pois escolhem as palavras com o intuito de agradar o interlocutor. Resultado: desconfia-se de sua sinceridade.

Outros, porém, pensam de forma diferente. Acham que são espíritos mais atentos, preocupados em não ser invasivos e grosseiros. Tomam cuidado, sim, porque não gostariam, em hipótese alguma, de magoar a pessoa com a qual estão conversando.

Pode parecer também que o tipo mais espontâneo e sincero é mais veemente na defesa de suas ideias, enquanto o mais delicado tem menos interesse em fazer prevalecer seu ponto de vista, ficando sempre “em cima do muro”.

Embora muitas vezes tais considerações sejam verdadeiras, penso que não é tão simples fazer a avaliação da conduta mais adequada. Esse assunto não só envolve questões morais, mas diz respeito à eficácia da comunicação entre as pessoas.

Sob o aspecto moral, a preocupação com o outro se impõe sempre. Ser honestos e sinceros não nos dá o direito de dizer tudo que pensamos. A franqueza pode ser prejudicial.

Por exemplo, se uma pessoa, ao encontrar um amigo de rosto abatido, falar: “Puxa, como você está pálido! Até parece doente”, estará sendo sincera, mas tremendamente insensível.

A verdade não subtrai o caráter agressivo da afirmação; pelo contrário o acentua.

Na prática, acredito que uma boa forma de avaliar uma ação é pelo resultado. Se o efeito for destrutivo, a ação será nociva, independentemente da “boa intenção” daquele que a praticou.

A tese de que devemos falar tudo o que pensamos é ainda mais indefensável quando o objetivo é facilitar o entendimento e a comunicação.

Indiscutivelmente o ser humano é vaidoso e, se sentir-se ofendido por alguma palavra ou atitude do outro, acabará desenvolvendo uma postura negativa em relação a essa pessoa.

Se alguém iniciar uma frase com expressões do tipo “Você não percebe nada”, “Qualquer idiota é capaz de compreender que…”, elas provocarão uma espécie de surdez imediata.

Não ouviremos o resto do argumento ou então o ouviremos com o intuito de encontrar bons raciocínios para derrubá-lo.

Quando nos expressamos, é preciso ter extremo cuidado com as palavras, pois elas atingem positiva ou negativamente o interlocutor. No processo de comunicação, a recepção é tão importante quanto a emissão dos sinais. Temos que nos lembrar disso se quisermos agir de modo construtivo para nós e para os demais.

O descaso pelo “receptor” indica desrespeito moral e agressividade (voluntária ou não).

Há pessoas que só têm interesse em mostrar como são perspicazes e brilhantes. Querem ficar por cima. Querem ensinar e não aprender. Despertam raiva, não admiração, pois a arte de seduzir caminha exatamente na direção oposta.

Um homem (ou uma mulher) atraente faz o outro se sentir bonito, legal e inteligente. Prefere dar atenção a repetir o tempo todo “Como sou bárbaro e maravilhoso”.

Qual a pessoa que gosta de se aproximar de alguém cujo objetivo principal é a autopromoção constante? Quem atura discursos intermináveis baseados num narcisismo oco? Praticamente ninguém.

O descaso pelo interlocutor é, a meu ver, fruto de um individualismo acirrado e oculta o desejo inconsciente de se dar mal na vida.

O MACHISMO É O MAIOR INIMIGO DO HOMEM – Flávio Gikovate

tese da superioridade masculina esteve em vigor ao longo dos séculos e só passou a enfrentar resistência feroz e crescente a partir do século XX.

Além de fisicamente mais fortes, os homens sempre se acharam mais inteligentes, criativos e portadores de maior bom senso. Isso lhes dava o direito de mando sobre toda a família. Sentiam-se muito confortáveis para rebaixar e humilhar suas esposas. Atribuíam a si uma liberdade social e sexual proibida para elas.

Tais direitos implicavam também em deveres: tinham que ser os protetores e provedores de suas famílias. Deveriam cuidar da castidade de suas filhas e de afastar outros homens de suas esposas. Tinham que protegê-las contra ladrões e aventureiros. Para ganhar o pão se sacrificavam muito e sua honra dependia dos bons resultados, o que sempre onerou emocional e fisicamente os homens – que vivem, em média, 7 anos a menos que as mulheres.

Acontece que o rol das obrigações masculinas só tem crescido ao mesmo tempo que os direitos especiais estão desaparecendo. Vou dar apenas alguns exemplos:

1. Eles sentem que tem que estar sempre disponíveis sexualmente para suas esposas – e também para as outras mulheres (no passado elas não manifestavam claramente seus desejos, de modo que tal pressão não existia);

2. Qualquer fracasso nessa área arruína a autoestima deles, sendo que este evento se torna cada vez mais comum (até porque as mulheres agem de forma mais direta e intimidante);

3. Devem tentar abordar sexualmente todas as mulheres disponíveis (que agora são muitas) sob pena de serem objeto de chacota dos amigos;

4. Não podem se recusar sexualmente em casa e muito menos na rua;

5. Têm que ser competentes para conduzi-las ao orgasmo (preocupação que inexistia em homens e mulheres até há poucas décadas);

6. Têm que estar à altura das expectativas eróticas delas, o que implica inclusive em um maior cuidado com o próprio corpo (elas agora são as que os julgam também como machos).

A lista poderia ser maior. É fato que as mulheres também estão sendo muito mais exigidas do que antes.

Os homens deveriam mesmo é aproveitar o momento, rico em mudanças, para melhorar sua condição e não para se afundar ainda mais em deveres.

O lema da emancipação masculina deveria ser: “Abaixo o machismo!”.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...