APRENDA FAZENDO COM QUEM FAZ.

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DORMIR DE CONCHINHA - Ivan Martins

O que esse gesto universal ensina 
sobre os seus sentimentos

Proximidade é coisa que se aprende. Demora algum tempo para que a gente relaxe na presença do outro e extraia desse contato o prazer e a paz profundos que a intimidade física proporciona. Quando isso acontece, a gente descobre, invariavelmente, que está dormindo de conchinha.

Não sei o que existe nessa posição que a torna tão universalmente afetuosa. Pense nos filmes que você viu ou nos romances que você leu: quando o narrador da história quer sugerir que o casal está muito próximo ou apaixonado, faz com que ele a abrace pelas costas e os dois adormeçam “como duas colheres”, que é o jeito como os americanos descrevem essa posição. Talvez exista a mesma expressão em japonês, mongol ou na cultura tuaregue, do norte da África. Eu não me espantaria. Sendo o corpo humano igual no mundo inteiro, é provável que diferentes culturas usem as mesmas formas corporais para demonstrar carinho e dividir conforto.

No livro Tristes trópicos, do antropólogo francês Claude Levis-Strauss, já morto, há um momento em que ele descreve como os índios nômades nambikwara, do norte do Mato Grosso, (cuja cultura material era tão pobre que nem redes ou cabanas eles tinham), dormiam aglomerados em volta da fogueira, nus sobre o chão nu, os casais abraçados em conchinhas para se esquentar e proteger. Talvez venha daí, do tempo que éramos tão selvagens e tão pobres que só tínhamos o nosso próprio corpo, e o corpo dos outros como nós, nossa disposição ancestral de abraçar pelas costas e encaixar o rosto nos cabelos da mulher querida – para esquentar e proteger.

Apesar do progresso e da nossa imensa prosperidade material, acho que às vezes ainda nos sentimos como índios Nambikwara. Ainda despertamos assustados, no meio da noite, assaltados por medos e inquietações tão humanas, tão profundas, que nem sabemos de onde eles vêm. Nesses momentos de vulnerabilidade, quando nos sentimos minúsculos e irremediavelmente solitários, abraçamos o corpo da parceira ou do parceiro como se ele fosse um refúgio, talvez o último, da nossa integridade ameaçada.

Mas isso, como eu disse no início, leva tempo. Mesmo o instinto que parece se esconder atrás do abraço de conchinha precisa ser aprendido. Lembro de um tempo, quando eu era garoto, que a proximidade de outra pessoa na hora do sono não era assim tão confortável. Aplacado o desejo, eu procurava distância e liberdade de movimentos. Só aos poucos fui percebendo que havia naquele jeito de ficar um aconchego e uma calma que eu não conhecia. Como tantos dos gestos que compõem o nosso repertório afetivo, o abraço cheio de sono e de confiança teve de ser aprendido.

No interior das relações ocorre o mesmo processo de experimentação e aprendizado. Para muitos, essa coisa de abraçar não funciona logo de cara. É preciso tempo e proximidade para que o gesto se torne natural. Há uma parceria silenciosa nos nossos enlaces que precisa ser construída. É inútil apressá-la e talvez haja relações em que elas nunca se manifestem. Talvez por causa do temperamento dos envolvidos. Talvez pelo caráter mesmo do que existe entre eles.

Sei que algumas pessoas recusam até de forma inconsciente esse tipo de contato afetuoso. Elas o associam a acomodação. Escolhem manter a relação no que eu chamo de estágio do beijo, quando a fome e a curiosidade pelo outro ainda não foi saciada e parece que nunca será. Nesse momento sublime dos agarros, o acesso ao corpo do outro é 100% erótico. Apenas mãos, saliva, palavras. Tem gente que se embriaga disso e não quer sair. Evita o passo seguinte, em que o barato físico pelo outro dá lugar a outro tipo de coisa, mais suave e mais silenciosa – e os beijos famintos são substituídos, sem que se perceba, pelos abraços de conchinha. Não sei se alguém já fez um estudo científico sobre isso, mas parece que a convivência simultânea entre beijos famintos e abraços de conchinha é impossível no longo prazo. Vocês me digam.

Da minha parte, sinto que há opções a fazer e que a gente as faz todos os dias, em favor do abraço de conchinha. Passada a turbulenta adolescência, tendemos a construir relações estáveis. Nelas, os abraços cheios de sono e intimidade são mais frequentes que os beijos apaixonados. Há uma troca que parece refletir as nossas necessidades profundas. Deixamos de lado a paixão incandescente pelo afeto profundo. Trocamos tesão por amor. Claro, essa não é uma solução inteiramente satisfatória. Nem definitiva. Mas parece ser aquela que de forma mais frequente atende a nossa insondável, dolorosa e contraditória humanidade – a mesma que nos acorda no meio da noite, inquietos, e nos faz procurar, no escuro, o calor e o conforto do corpo do outro.

O INGREDIENTE SECRETO - Ivan Martins

Alguns acham que é o amor. Outros, que é o desejo.
Eu penso que é o conflito permanente entre eles

A intimidade é inviolável. Saber o que se passa no coração alheio é uma pretensão tola. A maneira como sentimos amor, como lidamos com sexo, como reviramos na cama sob o peso de uma lembrança – ou de um corpo – constituiu uma reserva indevassável de individualidade. Apenas a arte, a psicanálise ou a sinceridade dos amigos nos aproximam, precariamente, da verdade dos outros. O resto é empáfia.

Na semana passada, depois de ver pela segunda vez o filme Ninfomaníaca, fui assaltado pela vontade de falar de uma questão insolúvel da nossa intimidade: a relação entre amor e sexo.

A certa altura do filme, uma personagem sussurra ao ouvido da outra: “O ingrediente secreto do sexo é o amor”. Lindo, mas a personagem que recebe a revelação não acredita. E como poderia? Ela é uma devassa enrijecida, sem conhecimento do afeto. Quando se trata de sentimentos, o que é verdade palpável para um de nós pode ser romantismo pueril para o outro. E vice-versa.

Eu mesmo, embora romântico, ao ouvir a frase do filme pensei que também se poderia dizer ser o contrário: “O sexo é o ingrediente secreto do amor”. Estaria errado? Não. Há muitos para quem a intensidade do sexo é que define a ligação amorosa. Quando o sexo é bom, seus sentimentos vão de roldão.

Quantos de nós somos assim? Nem tantos, eu acho. Minha percepção é que a maior parte das pessoas, homens e mulheres, está disposta a trocar sexo por romance. O melhor sexo fica na memória, ou persiste em escapadas. Mas a pessoa por quem somos apaixonados, (sabe-se lá por que razão), queremos perto de nós, “para sempre”. Aceitamos até sexo irregular e meia boca em troca da sensação de amar.

O desejo nos perpassa a vida, mas não tem a capacidade do amor de nos ligar às pessoas. Fenece rápido, enquanto o anseio amoroso dura. Talvez se possa dizer que o desejo é uma sensação permanente e impessoal, refere-se a muitos, enquanto a paixão é incomum e voltada a um ser específico. Eles se misturam, mas raramente se confundem.

Isso não implica numa hierarquia de sensações. Não quer dizer que o amor é mais nobre. Mas sugere que as emoções têm tempo e qualidade diferentes. Não se constrói com o sexo o mesmo que se constrói com o amor. Não se extrai dele o mesmo grau de compromisso e nem a mesma dependência emocional. Quando o sexo com alguém começa a se tornar fundamental, deixou de ser apenas sexo. Virou carinho ou paixão. Ganhou um rosto. Sexo pode ser anônimo; amor tem identidade.

Mas, na vida de cada um de nós, frases gerais não fazem sentido. Somos peculiares e contraditórios. Fomos dotados pela natureza do poder de fazer sexo a todo momento, quase indiscriminadamente, mas não agimos assim. Alguma conexão afetiva é necessária. Uma pitada de amor, ainda que ilusória, torna o sexo possível no dia a dia. Nos dá segurança para se despir, física e metaforicamente, diante do outro. Para a maioria é assim, eu imagino. Mas, para outros, eu sei, a desconexão afetiva é essencial. Sem ela, não conseguem mergulhar na insensibilidade moral sem a qual o sexo se torna excessivamente cuidadoso.

Não é curioso? Precisamos de algum grau de intimidade para chegar ao sexo, que é fornecida pelo afeto. Mas, no curso do sexo, temos de nos desvencilhar do afeto, temos de despersonalizar o outro com títulos vulgares (seu isso, sua aquilo) para alcançar a luxúria, de onde emana o prazer mais visceral. Há uma tensão permanente entre essas coisas na vida da maior parte das pessoas. E no interior dos casais. O sentimento abre portas que levam ao sexo, mas em algum momento é necessários superá-lo para chegar até o fim - aonde se vai, contraditoriamente, apenas em companhia de quem nos dá segurança afetiva.
Mas isso tudo, claro, são suposições. A intimidade de cada um de nós é coberta por um véu de mistério e incompreensão. As misturas que fazemos de amor e de sexo, ou as trocas entre eles, nós s apenas somos capazes de admitir, e teríamos dificuldade em entender. Mas é fato que essas duas entidades - o desejo e o afeto - nos habitam. Duelam dentro de nós permanentemente. Às vezes, para nossa felicidade, se abraçam.

Nesses breves momentos, que jamais serão eternos, a vida nos parece simples e sublime. Como a de um bicho deitado ao sol. Como a de um anjo, embora anjos não existam.

VIVA OS HOMENS SUAVES - Ivan Martins

A influência gay modificou 
a cultura masculina para melhor

As conversas masculinas raramente são generosas quando se trata dos gays. O comentário mais benigno que eu escuto desde criança é que os gays são legais porque deixam mais mulheres para o resto de nós. Apesar desse clichê, e de tantos outros igualmente bobos, minha impressão é que a influência gay no mundo masculino tem sido enorme nas últimas décadas. Enorme, subestimada e positiva.



Desde o seu surgimento, nos anos 60, o movimento gay ajudou a redefinir a maneira como os homens agem e pensam a respeito de si mesmos. A existência pública de homens gays ampliou radicalmente o repertório masculino, arejando e diversificando a ideia de masculinidade. Antes da influência gay, o comportamento masculino estava confinado até a página 10 do livro de conduta. Quando os gays emergiram socialmente, eles ampliaram o livro até a página 100. Foi um movimento libertador para todo mundo, que ajudou a melhorar inclusive a vida dos casais, tornando-a menos estereotipada.

Vamos por partes, para que eu me explique.

O primeiro impacto óbvio da cultura gay no mundo masculino aconteceu no universo da aparência. Desde os anos 60, os homens se aproximaram dramaticamente das mulheres na maneira de se relacionar com a moda e com o corpo. Dêem uma olhada nas ruas: a garotada está cada vez mais andrógina, confundido os códigos masculinos e femininos. Você olha o garoto, ou a garota, e demora alguns segundos para definir o gênero daquela figura ambígua. E às vezes nem consegue. Essa ambiguidade é um dos resultados radicais da influência gay na aparência masculina. Mas não é o único. Perdeu-se no tempo a reação aos primeiros modismos trazidos pelos anos 60. Aqui no Brasil eram considerados “coisa de viado”. A marchinha de carnaval “Cabeleira do Zezé”, composta em 1963, ilustra bem a reação aos cabelos compridos, que voltavam a ser usados pelos homens desde o século XIX. “Será que ele é?”, perguntava a letra da marchinha.

Pouco depois, nos anos 70, surgiram as bolsas a tiracolo, os sapatos de plataforma, as calças e camisas coloridas, os colares e pulseiras. Tudo isso pertencia, originalmente, ao universo feminino. Seu uso rotineiro pelos homens foi o equivalente cultural de um grande movimento transformista. Quarenta anos depois, homens e mulheres usam brincos, piercings, tatuagens de cores berrantes, sapatos vermelhos, calças cada vez mais justas e camisetas cada vez menores e mais decotadas. Há uma enorme convergência para o que eu chamaria de “campo gay” da moda. Mesmo os machos acima de qualquer suspeita vestem camisas agarradinhas que mulheres compram para eles nas melhores lojas da cidade.

O resultado disso tudo é que você olha na rua e não distingue mais o gay do não gay. Além de se vestir de forma parecida, homens gays e heteros estão igualmente malhados, bem definidos, de corpo cuidado. A vaidade que antes era feminina e depois virou gay agora é descaradamente masculina. Há caras perfeitamente macho que depilam o peito, tiram a sobrancelha, cuidam das unhas, fazem mecha nos cabelos. São os metrosexuais, que viraram referência para homens de todas as idades. Um cidadão dos anos 50 que desembarcasse subitamente na Avenida Paulista acharia que metade dos homens se parece com mulher. Do ponto de vista dele, seríamos todos um pouco Laertes.

No comportamento a mudança foi na mesma direção. O mundo masculino ficou gay. Os homens falam, andam e dançam de uma forma que seria inaceitável nos anos 50. A tendência geral é de feminização. Os heterossexuais ficaram mais suaves nos seus modos. Ou mais estridentes. Mais delicados, certamente, de um jeito que nossos pais e avós estranhariam. É comum que homens nascidos nos anos 60 conversem com caras 20 ou 30 anos mais novos e tenham a impressão de que eles são gays – pelo jeito de falar, pela linguagem corporal, por causa da atitude. A mudança de códigos foi muito rápida e muito profunda. A agressividade e a grosseria, que anos atrás eram a marca registrada de certa masculinidade, caíram em desuso. São mal vistas. Viraram quase um sinônimo de escrotidão. Há nisso uma influência benéfica da cultura gay. Ela modificou e amoleceu a cultura masculina, da mesma forma que o Gilberto Freyre diz que o Brasil fez com a cultura portuguesa – para melhor.

Essas mudanças, evidentemente, chegaram ao campo dos sentimentos e da intimidade.

Os homens agora choram sem vergonha nenhuma. Confessam seus sentimentos de um jeito até embaraçoso. Eles ficaram frágeis. As mulheres dizem, ironicamente, que estão com saudades daqueles tipos sisudos e caladões, de sentimentos inescrutáveis. Eles sumiram. Agora os homens são sensíveis. Falam pelos cotovelos e estão cheios de dúvidas e temores. Muitos dão excelentes donos de casa, tremendos pais, cozinheiros de primeira linha - e ainda são ótimos companheiros para fofocar e assistir à novela. Umas moças, enfim, mas com quem as mulheres podem transar gostosamente, uma vez que eles têm uma relação melhor com a própria cabeça e o próprio corpo. Aquele outro tipo, o macho à la Clint Eastwood, estava sufocando seus sentimentos mais viscerais, tinha coisas demais a reter e a esconder. 

Além de falhar na cama nas horas mais inesperadas, ele era uma panela de pressão pronta a explodir. Ou a ter um AVC ou um enfarte aos 40 anos.

Aliás, eu acho que a importância do movimento gay vai além das questões pessoais. Ou de casais. Quando um sujeito ou uma mulher lutam pelo direito de fazer sexo com quem desejar – e de andar na rua vestido como quiser, abraçado a quem achar melhor – ele e ela estão lutando, intrinsecamente, pelo direito de todos serem o que são. Os ganhos pessoais e íntimos de alguns se traduz em ganho público para a comunidade inteira. 

Quando um grupo socialmente discriminado é reconhecido em seus direitos, quando ele ganha espaço para expressar seus gostos e sentimentos (desde que isso não aconteça em prejuízo dos outros), a sociedade inteira se torna um pouco mais livre. 

Há uma lógica inexorável de contágio que começa com a liberdade do indivíduo, avança para o seu grupo e se espalha para a sociedade toda – e para o mundo. Quando os sinos tocam de júbilo, eles também tocam por todos nós. Gays e não gays.
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FIDELIDADE OU LEALDADE? - Ivan Martins

A gente se preocupa demais com uma e 
esquece da outra, que talvez seja mais importante.

Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra “lealdade”. Deve ser por causa de um livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.

Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício. Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós.

Antes que se crie a confusão, diferenciemos: lealdade não é o mesmo que fidelidade, embora às vezes elas se confundam. Ser fiel significa, basicamente não enganar sexual ou emocionalmente o seu parceiro. É um preceito, uma regra que se cumpre ou não se cumpre, uma espécie de obrigação. O custo da fidelidade é relativamente baixo: você perde oportunidades românticas e sexuais. Não tem a ver, necessariamente, com sentimentos. Você pode desprezar uma pessoa e ser fiel a ela por medo, coerência, falta de jeito ou de oportunidade. Assim como pode amar alguém perdidamente e ser infiel. Acontece todos os dias.

Lealdade é outra coisa. Ela vai mais fundo que a mera fidelidade. Supõe compromisso, conexão, cuidado. Implica entender o outro e respeitá-lo no que é essencial para ele - e pode não ser o sexo. Às vezes o outro precisa de cumplicidade intelectual, apoio prático, simples carinho. Outras vezes, a lealdade requer sacrifícios maiores.

A primeira vez que deparei com a lealdade no cinema foi num filme popular de 1974, Terremoto. No final do drama-catástrofe, o personagem principal – um cinquentão rico, heroico e boa pinta – tem de escolher entre tentar salvar a mulher com quem vivia desde a juventude, com risco da sua própria vida, ou safar-se do desastre com a jovem amante. Ele escolhe salvar a velha companheira e morre com ela. Parece apenas um dramalhão exagerado, mas desde Shakespeare o drama ocidental está repleto de escolhas desse tipo. É assim que nos metem conceitos elevados na cabeça. Vi esse filme com 16 e 17 anos e nunca mais deixei de pensar na lealdade em termos drásticos.
       
A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.

Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. 

Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.

Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana, precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. 
A fidelidade nos leva até a esquina. A lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.
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CASOS INACABADOS - Ivan Martins

Algumas pessoas ocupam dentro de nós 
um espaço emocional inconfessável

Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue. Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a milímetros de virar sexo. Em outras, como sexo mesmo, refeição completa que mata a fome mas não satisfaz, e ainda pode causar dor de barriga. Eu chamo isso de caso inacabado.

Minha impressão é que todo mundo tem ou teve alguma coisa assim na vida. Talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam. Porque o outro não quer. Porque os santos não batem. Porque uma terceira pessoa aparece e tumultua tudo. Mas o encerramento do namoro (ou equivalente) não elimina os sentimentos. Eles continuam lá, e podem se tornar um caso inacabado.

Isso às vezes acontece por fraqueza ou comodismo. Você sabe que não está mais apaixonado, mas a pessoa está lá, dando sopa, e você está carente... Fica fácil telefonar e fazer um reatamento provisório. Se os dois estiverem na mesma vibração – ou seja, desapaixonados – menos mal. Mas em geral não é isso.

Quase sempre nesse tipo de arranjo tem alguém apaixonado (ou pelo menos, dedicado) e outro alguém que está menos aí. A relação fica desigual. De um lado, há uma pessoa cheia de esperança no presente. Do outro, alguém com o corpo aqui, mas a cabeça no futuro, esperando, espiando, a fim de algo melhor.

Claro, não é preciso ser psicólogo para perceber que mesmo nesses arranjos desequilibrados a pessoa que não ama também está enredada. De alguma forma ela não consegue sair. Pode ser que apenas um dos dois faça gestos apaixonados e se mostre vulnerável, mas continua havendo dois na relação. Talvez a pessoa mais frágil seja, afinal, a mais forte nesse tipo de caso. Pelo menos ela sabe o que está fazendo ali.

Esse tipo de caso inacabado é horrível. Ele atrapalha a evolução da vida. Com uma pendência dessas, a gente não avança. Você encontra gente legal, mas não se vincula porque sua cabeça está presa lá atrás. Ou você se envolve, mas esconde do novo amor uma área secreta na qual só cabem você e o caso inacabado. A coisa vira uma traição subjetiva. Não tem sexo, não tem aperto de mãos no escuro, mas tem uma intimidade tão densa que exclui o outro – e emocionalmente pode ser mais séria que uma trepada. Ainda que seja mera fantasia. A minha observação sugere, porém, que boa parte dos casos inacabados não contém sexo. A pessoa sai da sua cama, sai até da sua vida, mas continua ocupando um espaço na sua cabeça. Você pode apenas sonhar com ela, pode falar por telefone uma vez por mês ou trocar emails todos os dias. De alguma forma, a história não acabou. A castidade existe, mas ela é apenas aparente. Na vida emocional, dentro de nós, a pessoa ainda ocupa um espaço erótico e afetivo inconfessável.

A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco.

Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é uma delícia.

Para encerrar, uma observação: o alcance e a duração dos casos inacabados dependem do momento da vida. Se você está solto por aí, vira presa fácil desse tipo de envolvimento. Acontece muito quando a gente é jovem, também se repete quando a gente é mais velho e está desvinculado. Mas um grande amor, em qualquer idade, tende a por as coisas no lugar. Uma relação intensa, duradoura, faz com que a gente coloque em perspectiva esses enroscos. Eles não são para a vida inteira, eles não determinam a nossa vida. Quem faz diferença é quem nos aceita e quem nós recebemos em nossa vida. O que faz diferença é o que fica. O resto passa, que nem um porre feliz ou uma ressaca dolorosa.
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DENTRO DE NÓS, A ALEGRIA – Ivan Martins

Seu sintoma mais bonito é nos jogar para fora, 
de encontro ao mundo e a nós mesmos.

A alegria vem de dentro ou de fora de nós? 
A pergunta me ocorre no meio de um bloco de carnaval, enquanto berro os versos imortais de Roberto Carlos, cantados em ritmo de samba: “Eu quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá pro inferno”.

Estou contente, claro. Ao meu redor há um grupo de amigos e uma multidão ruidosa e colorida. Ainda assim, a resposta sobre a alegria me ilude. Meu coração sorri em resposta a essa festa ou acha nela apenas um eco do seu próprio e inesperado contentamento?

Embora simples, a pergunta não é trivial. Se sou capaz de achar em mim a alegria, a vida será uma.  Se ela precisa ser buscada fora, permanentemente, será outra, provavelmente pior.

Penso no amor, fonte permanente de júbilo e apreensão.

Quando ele nos é subtraído, instala-se em nós uma tristeza sem tamanho e sem fim, que tem o rosto de quem nos deixou. Ela vem de fora, nos é imposta pelas circunstâncias, mas torna-se parte de nós. Um luto encarnado.

Um milhão de carnavais seriam incapazes de iluminar a escuridão dessa noitese não houvesse, dentro de nós, alguma fonte própria de alegria. 

Nem estaríamos na rua, se não fosse por ela. Nem nos animaríamos a ver de perto a multidão. Ficaríamos em casa, esmagados por nossa tristeza, remoendo os detalhes do que não mais existe. 

Ao longe, ouviríamos a batucada, e ela nos pareceria remota e alheia.
Nossa alegria existe, entretanto. Por isso somos capazes de cantar e dançar quando o destino nos atinge.

Nossa alegria inata se manifesta como força e teimosia: ela nos põe de pé quando nem sairíamos da cama. Ele se expõe como esperança: acreditamos que o mundo nos trará algo melhor esta manhã; quem sabe esta noite; domingo, talvez. Ela nos torna sensível à beleza da mulher estranha, ao sorriso feliz do amigo, à conversa simpática de um vizinho, aos problemas do colega de trabalho. Nossa alegria cria interesse pelo mundo e nos faz perceber que ele também se interessa por nós.

Por mínima que seja, essa fonte de luz e energia é suficiente para dar a largada e começar do zero. Um dia depois do outro. Todos os dias em que seja necessário.

Quando se está por baixo, muito caído, não é fácil achar o interruptor da nossa alegria. A gente tem a sensação de que alegria se extinguiu e com ela o nosso desejo de transar e de viver, que costumam ser a mesma coisa. 

Mas a alegria está lá - feita de boas memórias, do amor que nos deram, do carinho que a gente deu aos outros. Existe como presença abstrata mas calorosa, que nos dirige aos outros, que nos faz olhar para fora. É isso a alegria: algo de dentro que nos leva ao mundo e nos permite o gozo e a reconhecimento de nós mesmos, no rosto do outro. Empatia e simpatia. Amor.


Se a alegria vem de dentro ou de fora? De dentro, claro. Mas seu sintoma mais bonito é nos jogar para fora, de encontro à música e à dança do mundo, ao encontro de nós mesmos.
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