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LEBLON - O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU - Edmir Silveira

Tudo dentro do planejado. Com alguma folga. Ótimo, dá tempo de tomar um coco apreciando esse pôr do sol maravilhoso. Realmente, a meditação tem me feito muito bem, pensou Jair.

Ele avista seu alvo a uma distância perfeita. Levanta-se e mistura-se entre os “corredores” que passam. Regula seus passos no ritmo dos mais lentos.

Quando percebe a aproximação esperada, reduz ainda mais um pouco seu ritmo de modo que durante a ultrapassagem do alvo possa haver alguma troca de expressões. Após a ultrapassagem a distância aumenta apenas um pouco, o suficiente. E assim foram e voltaram até o arpoador. Na volta, a distância ficara bem maior, poderia despertar suspeitas manter uma distância próxima. Ele sabe onde o alvo vai parar.

Nos últimos metros ele dá um pique mais puxado e quando para no quiosque está bem ofegante, como deveria. Não foi difícil surgir um assuntos entre os dois enquanto tomam um coco. Quando o alvo se despede, já existe uma certa camaradagem carioca entre corredores de praia.

A partir daquele momento tudo tinha que ser preciso. Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, na direção da Rua Cupertino Durão, ele apressa o passo e rapidamente está  do outro lado da rua, onde sabe que o alvo tem de passar. Encosta-se numa das árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos lados.
O alvo passa e é abordado.

 - Sérgio, isso aqui é uma arma. Fica quieto e ouve com atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando como dois amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre na hora. Ouviu? Responde! Ouviu?

Sérgio estava paralisado. Apenas balbuciou um sim quase inaudível.

Jair continua.

- Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então fica calmo e tudo vai dar certo. Prometo pra você.

Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio, os dois começam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.

Sobem direto sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar. E a maioria, nesses prédios, não dá boa noite a porteiros.

Sérgio mora sozinho.

Na ampla sala, Sérgio ainda não sabe o que estava realmente acontecendo. Um assalto comum não é. Está na cara.

Sérgio nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser submisso sem questionar. Jair o manda sentar no sofá da sala e ele obedece.

À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio tem quase certeza que sabe porque Jair está ali.

Sérgio ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.

- Fica tranqüilo, pode levar tudo o que você quiser. Não vou causar nenhum problema. Só quero ficar vivo.

Sérgio ainda tem a voz bastante trêmula.

- Sérgio, sei que você tem 3 milhões de dólares em dinheiro vivo aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde e a mando de quem você pegou essa grana. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e muito menos que está aqui na sua casa.

Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo era bem mais do que isso. Definitivamente não era um simples assalto. Tinha algo a mais por trás.

- Você é policial federal? Perguntou Sérgio.

- Sorte sua que não!!  Respondeu Jair soltando um riso.

Mesmo sem ainda entender direito, Sérgio já está um pouco mais calmo. Já percebera que não está lidando com ladrãozinho pé de chinelo. Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez até da rede pública. Na verdade, não dava para fazer idéia de quem se trata e de onde surgiu aquele Jair.

Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.

- Você vai gravar? O quê? Pergunta Sérgio.

- Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o celular.

Sérgio hesita e fala:
- Não está mais aqui... o secretário do senador já pegou...
A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente troca o celular pela pistola e aponta para ele.

O corajoso deputado começa a chorar, e revela que a mala está dentro do armário no quarto dele.

Jair não segura o riso. Os dois se Recompõe, Jair volta a falar manso e nota que o deputado havia mijado nas calças.

Enquanto Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre sua cama e a abre, Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquandrando o quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos no quarto do deputado, para caracterizar com detalhes onde estão.

A seguir, vão para a sala onde Jair também o grava com a mala aberta sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.

Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com o deputado dentro de sua casa.

Jair recolhe a mala com o dinheiro. Diante do atônito e corajoso deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo e guarda o celular e a pistola no bolso.

- Bem Sérgio, agora vai ser o seguinte. Daqui a duas horas vou enviar para você, pelo seu whatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova de que você estava com 3 milhões de dólares em dinheiro vivo e que não tem como explicar como vieram parar aqui sem comprometer muita gente graúda. Mostre esse vídeo para a sua “galera”, porque isso também garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não aconteceu nada. Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na hora.

Sérgio ouvira calado e calado permanecia. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para o poder que representava.

Jair sai do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao porteiro quanto estava o jogo no Maraca.


Edmir Silveira

AS CIGARRAS DO LEBLON NÃO CANTAM MAIS - Edmir Silveira


Divido meu tempo entre Leblon e Vargem Pequena.
O Leblon, meu bairro, desde sempre até hoje e pelo jeito para sempre mesmo. Vargem, uma bela descoberta. Um Rio mais perto da floresta, mais distante da correria geral da cidade. Morar no pé de uma serra, na beira de uma floresta de mata atlântica preservada é bastante agradável.

No horário de verão, primavera, o por do sol em Vargem é belíssimo. A proximidade da mata proporciona sons interessantes. Sempre gosto de ficar ouvindo. Hoje, um som bem alto me chamou atenção. Um som simples, banal, cigarras. Um som que sempre me traz lembranças muito remotas da infância. Lembro que desde muito pequeno, na Rua José Linhares, o som das cigarras era muito alto e no bairro inteiro era igual. Uma grande sinfonia.

De repente me dei conta que não ouvia o canto das cigarras há muito tempo. Os dias seguintes foram de muita cantoria, muitas cigarras. É a época do ano que isso sempre aconteceu no Rio.

Poucos dias depois, estava caminhando pela Ataulfo de Paiva e me lembrei do que pensara. Estava perto da Rua José Linhares e dobrei a esquina, seguindo o caminho de quando era quase bebê. E prestando atenção. Dei a volta pela Humberto de Campos e subi de novo pela Cupertino Durão na direção da praia. O horário era o mesmo dos outros dias em Vargem. O anoitecer tinha as mesmas condições de temperatura e calor daqueles dias. E nenhuma cigarra cantava. 

SOMOS UM POVO FÚTIL? - Heloísa Seixas

Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes.

“No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua.”

Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de carnaval. 

“É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa.”

Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos black blocks, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.

Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. 

Sempre fui contra isso. Mas, desta vez — depois de visitar 11 museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros —, alguma coisa aconteceu comigo.

Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. 

Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o Facebook — sem escalas.

Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória — e a História — de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. 

Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.

Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos — refiro-me à nossa classe média —, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. 

E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. 


Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação — em todos os sentidos.

Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.

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