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SONHOS - Manoel Carlos

Vínhamos de São Paulo. Eu estava sentado sozinho e à minha frente duas jovens senhoras conversavam:

— Eu corria, corria, e a minha sombra corria atrás de mim com um punhal na mão, querendo me matar. Eu gritava, pedindo ao Rodolfo que me ajudasse, que me tirasse daquele pesadelo, porque eu sabia que era um sonho, entende? Isso é que era interessante. Sabia, mas não conseguia acordar.

— Deus do céu, Lurdinha, que coisa angustiante! E o Rodolfo não acordou com seus gritos e não te sacudiu, pegou um copo d’água, nada?

— Ah, você parece que nem conhece ele! Acordou, claro, mas, enquanto eu contava, aos soluços, a angústia do meu pesadelo, ele olhava para mim e ria, ria, ria.

— Nossa, me dá até medo! Sempre achei seu marido muito egoísta. Ainda bem que era um sonho!

— Um pesadelo!

— Ah, se o Eduardo fosse assim, eu não ia aguentar não.

— Tá admirada? Pois olha: ele faz a mesma coisa na vida real. Uma outra vez eu estava me afogando no mar, a praia vazia, e ele olhava e também não fazia nada. Já estava achando que ia morrer, quando ele finalmente me socorreu e me tirou da água. Sabe o que ele me disse, enquanto eu tossia e punha água pela boca e pelo nariz?

— Nem imagino!

— Que queria ver se eu saía sozinha de uma dificuldade. Que estava fazendo um teste, me experimentando, me avaliando. Que eu era muito mimada e não sabia reagir numa situação difícil. E que ele ia me ensinar a enfrentar as dificuldades da vida.

— Deus do céu, que homem pretensioso! E frio!

— Gelado!

Fez uma pausa e completou:
— Mas tem suas qualidades também. Seu lado bom e quente!

— Tem mesmo é? Me conta.

— Ah, todos os homens têm! São como os sonhos. Bons e maus.

E a jovem — a tal Lurdinha — começou a rir, lembrando-se de alguma coisa…
— Eu vou te contar no que ele é bom e quente, acho que melhor que qualquer outro homem! E riram, maliciosas. Eu estiquei o pescoço para ouvir, mas a voz da comissária cortou a narrativa, dando as instruções de praxe. Já estávamos sobre o Rio.

— Não tenho medo de avião — disse Lurdinha —, mas fico nervosa na hora do pouso.

— E logo quando a sua história ia ficar tão boa!

— E apimentada!

— Conta, vai!

— Ah, agora tenho de fechar os olhos e ficar quietinha. Te conto no táxi. E as duas fecharam os olhos e recostaram-se em suas poltronas. Fiquei frustrado. Eu também estava querendo saber qual o lado bom desse marido que olha a mulher se afogando e fica rindo… Antes que chegássemos à fila do táxi, eu o tempo todo atrás delas, as duas pararam diante de uma banca de jornais.

— E esse escândalo da Petrobras, hein?

— Que roubalheira!

— Ah, mas agora eles pegaram os peixes graúdos!
Vamos ter muita gente na cadeia!

— Você sempre sonhando!

— Como viver sem sonhar?

— É verdade, mas agora me fale das tais qualidades do seu belo marido!

Entraram rindo num táxi e lá foram as duas, levando com elas uma boa história de amor.
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SESSENTONA - Manoel Carlos

 
Minha mãe não mentia, mas escondia a idade. E a melhor maneira de conseguir essa omissão era evitar o assunto. E, se fosse inevitável abordá-lo, disfarçar o tempo com os artifícios que estivessem à mão. Assim, em novembro de 1950, no dia em que ela comemorava aniversário, eu comentei durante o almoço festivo:

— Mãe! A senhora faz hoje meio século de vida! Já pensou?

— Já pensei e não gostei.
Eu insisti.

— Mas, mãe, todo mundo sabe que a senhora está fazendo 50 anos.

— Mas precisa associar a meio século? Assim parece muito mais. Tenho 50, tudo bem, não nego, mas não meio século. A conotação é dispensável.
Minha mãe era muito vaidosa. Linda e vaidosa. Numa crônica de novembro de 2005, aqui neste mesmo espaço da Vejinha, saudei as mulheres de 50 anos, encerrando o texto com estas palavras: Bem-aventuradas as cinquentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.

Na ocasião, recebi mensagem de uma senhora que agradecia a maneira positiva como eu me referia às mulheres de 50 anos. Pois bem: nesta semana recebi nova mensagem da mesma leitora e gostei tanto do que ela escreveu que li em voz alta para a minha mulher. E reproduzo aqui, certo de que ela (a leitora) me autorizaria a fazê-lo. Leiam, abrindo aspas:

“Passaram-se quase dez anos desde o dia em que lhe mandei um e-mail agradecendo pelo seu olhar delicado. Agora estou comemorando muito o fim dos meus 50. Comprei uma bike, sempre que me dá vontade paro no Bracarense para tomar um chope com bolinho de feijoada (sozinha ou acompanhada), voltei a andar de patins, falo com todo mundo que puxa papo (pois meu tempo está parado e eu é que caminho por ele). Decreto feriados em minha homenagem, vou à praia, faço stand-up paddle, trabalho nos horários que me interessam e quando tenho vontade, pois meu compromisso agora é com o que vejo, o que sinto e o que me interessa. Não tenho nem relógio, portanto nunca sei a hora nem o dia. Não é fantástico? Aguardo um novo texto seu, agora com um olhar mais generoso ainda: para as mulheres de 60! Posso esperar até 2015. Enquanto isso, vou nas manobras e nas marolas com que a vida me presenteia. Um grande beijo. Elizabety Mirannda”.

Terminada a leitura, vi que minha mulher estava comovida por ouvir alguém que declarava com tanta franqueza a sua felicidade aos 60 anos.

— É minha xará — comentou ela.

E ficamos assim, por um tempo em silêncio, embarcados numa imensa nave de sonhos. De sonhos e pesadelos que temos vivido juntos nesses 37 anos em que estamos casados.

*
Bety, minha mulher, fez 60 anos na semana passada. Tenho, portanto, também uma sessentona em casa. Uma sessentona que a vida muitas vezes tem envergado, mas que não consegue derrubar.

— Tim-tim, meu amor!

— Tim-tim!

O ELIXIR DA JUVENTUDE - Manoel Carlos

Sempre considerei a viuvez um dos mais cruéis golpes do destino, mas ela pode agir também como um rejuvenescedor. Eu mesmo conheço uma história que ilustra essa afirmação.

Só consigo ver a viuvez como um drama.

Concordo, mas em alguns casos, passado um tempo, o drama dá lugar a uma nova e proveitosa vida. Quem me contestava era a Luciana, uma nova amiga que se juntou ao nosso grupo no Café Severino. Estávamos só nós dois na mesa de sempre, jogando conversa fora, aguardando a chegada da turminha para o primeiro encontro do novo ano.Tentei explicar o meu ponto de vista:

Um homem, ao ficar viúvo, perde a mais íntima de todas as suas relações pessoais: a esposa. E precisa compensar essa ausência recriando-se. Quer e precisa ser um novo homem.

E contei a história do Gustavo, um vizinho que tive em São Paulo, químico renomado, já aposentado, que viveu um casamento feliz por três décadas, só interrompido com a morte da mulher. Sem dúvida, foi um drama. Por cinco ou seis dias seus olhos permaneceram inchados, o olhar turvo, e seus 64 anos lhe deram a aparência de 70. Na missa de sétimo dia já estava mais magro. Suas duas filhas e seus dois netos se preocuparam.

A dor emagrece — palpitou a bela Luciana.

Na missa de um mês pude notar um pequeno brilho no fundo dos seus olhos, além do rosto bronzeado naquela tonalidade que só o sol de praia proporciona.

Estou reagindo — ele me garantiu.

Três meses passados, ele despediu a cozinheira, na família havia mais de vinte anos e até então zeladora das taxas de colesterol e glicose do patrão.

Ela já estava um pouco caduca — justificou ele.

E saiu do amplo apartamento para um flat com serviços.

É o ideal agora que vivo sozinho. Tem arrumadeira, faxineira e uma telefonista que recebe e anota os recados. Só vou precisar de uma secretária para ir ao banco, agendar compromissos, marcar minhas consultas médicas.

Gustavo pôs anúncio no jornal, pedindo boa aparência às candidatas. Contratou a Simone, uma atraente loirinha de 31 anos, que agendou para ele consultas a vários médicos.

Durante muitos anos relaxei com a saúde e com a aparência — suspirou ele.

Logo depois desse episódio, Gustavo assumiu Simone como uma secretária de cama, mesa e banho. Comprou uma poderosa Harley-Davidson e passou a cortar a cidade de ponta a ponta, vestindo jeans e casaco de couro. E sempre com Simone na garupa.

À moda de Marlon Brando — disse.

Todos que o conheciam se admiraram com o seu rejuvenescimento. Diante do meu comentário, atribuindo à viuvez esse renovado vigor, um outro vizinho declarou:

Que nada! É um químico emérito. Deve ter descoberto o elixir da juventude.

Tenho certeza — ele me disse um dia — de que a minha querida Eugênia, que Deus a tenha!, agiria da mesma maneira, fosse eu o falecido, fosse ela a viúva.

Agora, na véspera do Natal, fiquei sabendo que Simone está grávida e que Gustavo se prepara para ser pai outra vez. De um menino. Aos 70 anos.

PÉROLAS - Manoel Carlos

Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim.” Essa frase é atribuída a Freud e pode ser encontrada entre as pérolas mais cultivadas da internet, ainda que não conste em que espaço ela está inserida na obra do criador da psicanálise.

— Freud é o máximo — declarou distraidamente o Raul numa mesa do Café Severino.

— Esse máximo não quer dizer rigorosamente nada — provocou a Carla.

— Por que só você quer dizer alguma coisa fundamental quando diz qualquer bobagem? Por que eu não tenho o mesmo direito? Porque sou homem?

— Por falar em Freud — cortei eu —, li num dos livros de Bioy Casares que uma vez, numa palestra na Sociedade de Psicanálise, em Buenos Aires, quando alguém falou em eleição, muitos entenderam ereção.

— Muito apropriado — disse o Otávio, rindo.

Era a deixa certa para a nossa amiga Carla voltar ao ataque:

— Nada faz rir os homens mais do que uma piada de fundo sexual.

— Não é o que também acontece nas reuniões entre mulheres?

— Não — respondeu Clara. — O que mais nos faz rir é a ignorância de vocês quando falam de nós.

— É que vocês são muito profundas — cutucou o Gabriel, marido da nossa bela amiga.

— Profundas como um pires — completou Otávio.

E todos riram da velha piada.

E passamos a uma brincadeira que sempre nos diverte, que é a citação de pérolas e de episódios edificantes da história. Reais ou inventados. E o Gabriel, mais falante naquela tarde, contou que Beethoven, por já estar completamente surdo quando compôs suas últimas obras, sem conseguir, assim, ouvir a música que criava no piano, mandou encurtar as pernas do instrumento para poder abraçá-lo com todo o corpo. Com isso ele “ouvia” a música que compunha com o coração encostado no piano!

— Isso é verdade ou é inventado?

— Li como verdade — afirmou Gabriel.

— Que interessa saber se é verdade? É uma linda história, e isso é que interessa — completou o Otávio.

— Onde é que você leu isso? — perguntou Carla ao marido.

— Não tenho certeza, mas acho que foi num livro do Jorge Luis Borges.

— Meu Deus, que revelação! Somos casados e eu nunca vi você com um livro do Borges nas mãos.

— Ah, e você acha que sabe tudo a meu respeito?

— Pelo menos o essencial eu pensei que soubesse.

Antes que começassem as alfinetadas entre marido e mulher, voltei a Bioy Casares, que citou um editor americano que comparou um livro ao iogurte:

— Um livro não deve ficar mais do que quinze dias na estante. Perde a validade.

Foi quando o Otávio perguntou:

— Já pensaram que um dia, em meio a escavações feitas na Inglaterra, alguém possa encontrar um diário atribuído a Shakespeare, datado dos anos 1600, em que se leia em uma de suas páginas o seguinte registro: “O teatro às vezes me cansa. Tomara que inventem logo o cinema!”?

— Já pensaram nessa possibilidade?

— Santa idiotice! — exclamou Carla.

E, antes que a conversa enveredasse totalmente pelo caminho do absurdo, pagamos a conta e nos dispersamos na primavera do Leblon.

MANOEL CARLOS – JORGE DÓRIA

Jorge Dória desvirtuou o meu pai. Foi ele que o arrancou da faculdade de medicina e lhe apresentou o teatro, a noite e a boemia. Quando meus pais se casaram, em 1953, Fernando partiu em turnê com a companhia de Eva Todor e Fernanda ficou no Rio. A saudade o fazia datilografar compulsivamente em uma máquina de escrever, o que lhe valeu o apelido de Taradinho Underwood, dado por Dória.

Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Sérgio Britto, Bárbara Heliodora. São pessoas com quem convivo e convivi por osmose. Tenho por eles um apreço que atravessa os seus feitos como artistas, são parentes, são de casa.

A grandeza do Dória é intraduzível. Era um louco devasso, tio, amigo fiel e companheiro. Jamais me esqueci da sua descrição da visão de Iris Bruzzi, então sua mulher, montada em um trator no sítio deles. As coxas na engrenagem, a loura ideal, a mulher da terra. A suculência era tamanha que o instante ficou marcado em mim como se eu o tivesse presenciado.

Já atriz, trabalhamos juntos na TV. Esperávamos para gravar um take dentro de um carro; uma atriz que havia sido um fenômeno de beleza atravessava a rua à nossa frente. Dória esperou que ela ensaiasse uma, duas vezes, até que, na falta de um amigo homem, soltou:

— Essa foi uma que embruacou.

Continuamos mudos após o comentário. Eu, de certa forma, orgulhosa pelo fato de o amigo mítico dos meus pais segredar uma cafajestice tão sem cerimônia para mim.

Mas era em cena que a insanidade de Jorge Dória reinava absoluta.

Em Escola de Mulheres, vi-o aproximar-se do proscênio e dizer:

— Ali é a minha casa — enquanto apontava solenemente para o fundo da plateia, indicando o local.

Em vez de dar continuidade ao solilóquio, Dória encarou uma senhora na primeira fila e, após longa pausa, atacou:

— Não, minha senhora, ali não é a minha casa. Isso é teatro. Quando eu indico o fundo, não quer dizer que a minha casa esteja lá. Não precisa se virar, é para a senhora imaginar que a minha casa talvez esteja lá.

Usando a espectadora de escada, Dória avançou num improviso bestial. A peça parou por bons cinco minutospara discutir a questão do ser ou não ser, do existir,ou não, a suposta casa.

O leão gostava de deixar Molière à espera.

Em A Presidenta, vestido de tailleur à moda Dilma, Dória se queixava das atribulações do cargo. De repente, sem avisar, começava a dar detalhes de suas lavagens íntimas matinais no bidê. Dizia que gostava de colocar as partes ao sol, falava dos benefícios da prática. Aos poucos, ia levando o público a um estado de gozo contínuo.

Domingos de Oliveira, que o dirigiu na peça de Molière, contou-me que Dória ambicionava não o riso, mas o frouxo. Ondas de deleite contínuo. A submissão completa da massa.

Celso Nunes mandou uma carta a minha mãe lamentando a morte do ídolo. Nela, lembrava um encontro que tiveram para convidar Jorge a fazer parte do inesquecível Seria Cômico Se Não Fosse Sério. O gênio preparou uma blague, disse que tinha vindo para o teste e tirou de dentro de uma mala diversos bigodes, barbas e perucas. Diante de meus genitores e do diretor de vanguarda, pasmo, elencou as n possibilidades do personagem, trocando de cabelo a cada nova investida.

Dória era Vittorio Gassman, Procópio Ferreira, Walter Matthau e Ugo Tognazzi juntos.

Não tinha, e não tem, para ninguém.

MANOEL CARLOS - Assim é...

Assim é… se lhe parece, em italiano Così è (se vi pare), é uma peça teatral de Pirandello, que eu vi no começo dos anos 50, no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Na história, uma mulher está desaparecida e surgem então várias hipóteses para esse desaparecimento, numa relação exaltada entre ilusão e realidade. Enfim: surge a verdade de cada um.

***

Numa entrevista à Paris Review, revista literária americana, Tennessee Williams conta que Marlon Brando apareceu em sua casa para um teste. Na época, o autor procurava um ator para o papel principal de Um Bonde Chamado Desejo. E Williams diz: “Ele sentou-se muito naturalmente e leu o texto do personagem por cinco minutos. Não precisou continuar por mais tempo para ganhar o papel”. E o ganhou não apenas na Broadway,mas também no filme, que no Brasil se chamou Uma Rua Chamada Pecado. E continua o escritor: “Mas, antes da leitura, Brando foi muito gentil e prestativo: consertou um encanamento que estava arrebentado na cozinha e trocou lâmpadas queimadas”. Pode-se ver um Marlon Brando suado, a camiseta colada ao corpo, deslumbrando Tennessee. Será que foi exatamente assim que aconteceu?

***

O escritor argentino Bioy Casares conta que, depois que seu pai morreu, sonhou com ele por noites e noites seguidas. Sonhos bons, prazerosos, em que os dois conversavam, riam, divertiam-se. Com o tempo, esses encontros oníricos diminuíram, até que numa noite o escritor sonhou que falava com o pai pelo telefone, mas que em menos de um minuto a ligação foi interrompida e ele não conseguiu restabelecê-la. E afirma Bioy: “De qualquer maneira fiquei feliz em ouvir novamente a voz do meu pai, mesmo por telefone”.

***

Meu amigo Reynaldo certa vez me mostrou uma foto em que seu jovem cunhado aparecia ao lado do pai, os dois muito sorridentes e felizes. Quem lhe deu essa foto foi o pai, depois que o rapaz morreu. Para demonstrar toda a sua imensa tristeza pela perda do filho, o velho homem escreveu: “Lembrança do tempo em que éramos vivos”. Obviamente, com essa frase expressava toda a sua dor de sobrevivente. Quando o Rey me mostrou a foto, o pai havia morrido fazia uma semana. E o Rey para mim: “A dedicatória agora ficou com novo sentido. O da verdade sobre a metáfora”.

***

Uma vez, almoçávamos num restaurante em Nova York. Minha mulher, meus filhos e eu. Numa mesa próxima, um homem almoçava sozinho, enquanto passava os olhos num jornal. Ficamos em dúvida: seria o ator e diretor Mel Brooks?

De molecagem, usei de um velho truque: quando ele se levantou e ia se aproximando da nossa mesa para ir embora, eu falei numa voz razoavelmente alta: — Hei, Mel!

O homem virou-se, sorriu e me abraçou:

— Quanto tempo! Vi seu último filme. Gostei muito!

Aturdido, agradeci e ele se foi, porta afora. Até hoje nos perguntamos: por quem ele me tomou? Quem era eu para ele?

***

A verdade de cada um. Repito muitas vezes para mim os versos de Fernando Pessoa, numa das odes de Ricardo Reis: “Nada se sabe. Tudo se imagina”.

MANOEL CARLOS - Amizade carioca

Há duas semanas tivemos uma demonstração explícita de bairrismo no encontro habitual do Café Severino, que acabou se transformando numa crônica sobre violência urbana. São Paulo seria mais violenta que o Rio?
Não se chegou a um consenso, mas a discussão, pelo menos, não gerou violência entre nós. Afinal, não estávamos no nosso café para salvar o mundo, o Brasil, uma cidade que fosse, ou mesmo aquele pequeno trecho da Rua Dias Ferreira. Era apenas o encontro habitual entre amigos!
Amigos! Assim, de maneira exclamativa, essa palavra sagrada me traz à memória versos de Camilo Castelo Branco, o escritor português mais conhecido como autor do romance Amor de Perdição. No soneto, Camilo lamenta que, apesar de contar com muitos amigos, foi visitado por apenas um a partir do momento em que ficou cego. E por que essa ausência numa hora tão crucial da sua vida? Os tais amigos justificavam:
“Que vamos nós, diziam, lá fazer? se ele está cego não nos pode ver!”.
Apesar do acento bem-humorado de Camilo, os versos traduzem uma situação dolorosa. Mas voltemos ao Severino. O Fla-Flu (podemos chamar assim?) entre paulistas e cariocas ocupou-se naquela tarde da diferença entre os cidadãos das duas cidades no que toca à manifestação entre as pessoas, que constitui o que chamamos de laços de amizade.
Desta vez foi o Flávio, paulistano que está em visita ao Rio, que proclamou:
— Carioca não é bom amigo, mas apenas boa companhia.
Essa afirmação às vésperas de um bem-vindo verão causou indignação. O Raul, que é um tanto beligerante, reagiu em cima, sem sutileza:
— Para não pular no seu pescoço, vou fingir que não ouvi o que você acaba de dizer.
Flávio não deu trégua:
— Você fala, discorda, sente-se ofendido, enche a boca para dizer que está entre amigos, mas me diga quando é que vocês se visitaram em casa? Quando foi a última vez?
Todos nós trocamos um olhar de incompreensão. Perguntei:
— Não vejo o que tem uma coisa com outra.
— A relação é óbvia — garantiu-me Flávio. — Amigo, amigo verdadeiro, significa também casa, família, presença em festa de aniversário, em enterro, em missa de sétimo dia. Tudo que transpira amor, carinho, solidariedade.
O Raul não se conformava:
— Deixa de ser bobo, rapaz! Nós nos reunimos aqui há muitos anos. Visita doméstica é para as mulheres!
Já viram que o Raul voltava ao seu bairrismo e machismo exibidos na discussão sobre violência de duas semanas atrás. Flávio continuou:
— Amigo de café, de bar, de praia, não é amigo. Pode ser no máximo, repito, uma boa companhia. Em São Paulo as pessoas se visitam, as mulheres dos amigos também se tornam amigas, os filhos de uns e de outros brincam juntos, se relacionam. Tenho certeza de que muitos de vocês nem sequer sabem onde mora cada um desses “grandes” amigos.
— Temos uma visão mais democrática do que seja amizade — garantiu o Raul, meio enfezado.
— Pois a minha visão é radical. Vocês chamam de amigo a quem mal conhecem. Outro dia li uma declaração do escritor inglês E. M. Foster. Ele escreveu: “Nunca tive de escolher entre trair um amigo e trair meu país, mas se isso um dia acontecer, espero ter a coragem de trair meu país!”.
— Deus do céu — exclamei eu —, a declaração é linda e forte. E, literariamente, um luxo.
— Pois é o que eu acho da amizade. Mais importante que a pátria, mais importante que o amor.
E por aí foi a conversa no Café Severino. Depois de nos separarmos na santa paz, fui dirigindo o carro pelo Leblon, familiarizando-me com as obras do metrô. Liguei o rádio e entrou a linda voz de Adriana Calcanhotto cantando a última parte de uma de suas mais inspiradas canções:
“Cariocas nascem bambas
Cariocas nascem craques
Cariocas têm sotaque
Cariocas são alegres
Cariocas são atentos
Cariocas são tão sexy
Cariocas são tão claros
Cariocas não gostam de sinal fechado.”
Pensei: essa gauchinha é danada!
****
Durante o jantar, comentei com a minha mulher:
— O Raul faz aniversário no sábado. O que você acha de a gente ir até lá dar um abraço nele?
— Acho ótimo. Assim fico conhecendo a mulher dele.

MANOEL CARLOS - De médico e de louco

Marcamos no Café Severino a comemoração pelo retorno do Gustavo ao nosso grupo. Nosso amigo de muito tempo, Tavinho andou arredio, devido a um turbulento divórcio que enfrentou por mais de um ano e que o deixou deprimido. Com isso, afastou-se de tudo e de todos, indo morar um largo tempo em Petrópolis. Agora, dissipadas as negras nuvens da turbulência e já vivendo novamente em paz, eis que ele retornava a nós e ao nosso reino. Não é a primeira vez que um divórcio penaliza algum membro do nosso grupo. Afinal, todos nós já cruzamos a faixa dos 60 anos e contabilizamos mais de um casamento, à exceção de alguns poucos, como Carla e Gabriel, ambos na casa dos 30. Eles fazem parte da nova geração de frequentadores da nossa roda de vinho e grana padano. Gosto dessa presença jovial, pois impede que as reuniões fiquem lacrimosas, cheias de recordações, e que os assuntos mais frequentes sejam os incômodos na lombar e na cervical, além do medo do diabetes e a comparação entre os níveis de colesterol e glicose. Com a mocidade, fala-se da vida, não de doença e morte.

Mas nessa tarde, mesmo com a presença deles, o assunto perigoso voltou a imperar, enquanto nós cinco esperávamos a chegada da turma toda, inclusive do festejado Gustavo.

Minha glicose está em 105 — anunciou o Raul.

É alta. Você já está diabético — sentenciou Alfredo, que é um assumido hipocondríaco.

Pré-diabético — corrigiu Raul, já um pouco irritado.

Acima de 99… — tentou argumentar o Alfredo, com um sorriso maldoso.

Raul cortou:

Ah, não vai atacar de médico, que você, até onde eu sei, é funcionário aposentado da Caixa Econômica.

E tentou encerrar a discussão:

O importante é a saúde como um todo. O fundamental é sentir-se saudável. E é como eu me sinto. Caramba! Você só sabe falar em doença!

Alfredo contra-atacou:

Só me diz uma coisa: o seu colesterol quanto está?

Olhei o Raul e percebi que ele estava a ponto de apelar. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o Alfredo puxou da carteira os resultados do seu último hemograma, propondo um sinistro desafio:

Vamos comparar os nossos hemogramas! Você tem o seu aí?

Claro que não. Não sou louco como você!

Pelo menos sabe de cor os principais índices?

E enumerou alguns:

Eritrócitos, hemoglobina, leucócitos e plaquetas. Vai, me diz. Aposto que você está anêmico!

Raul saltou da cadeira. Houve uma inquietação no café, já se prevendo uma luta de moleques entre homens da terceira idade, o que seria, no mínimo, ridículo.

Chega — bradou ele, batendo com a palma da mão na mesa.

Calma — disse eu. — Estamos aqui para festejar. Daqui a pouco chega todo mundo e vocês…

Mas Raul emendou, virando-se para o Alfredo, o indicador quase encostando no rosto do amigo:

Que você seja hipocon­dría­co, não tenho nada com isso. Que veja em você todas as doenças, imaginárias ou não, o problema é seu. Mas colocar doenças nos outros, aí não está certo!

E voltou a sentar-se, bufando. Um tempo de silêncio. Olhei o casal jovem. Gabriel passava os olhos num jornal, indiferente à contenda, e Carla olhava a cena, sorrisinho maroto nos lábios. Percebendo que a reunião estava agonizando por sua culpa, Alfredo amenizou:

Me desculpem. Acho que exagerei. Vou embora. Vou ver um carro para comprar, que o meu já está num bagaço de dar pena. Rateando. Como um coração a ponto de enfartar. Quem é que tem uma sugestão para me dar? Pensei numa Pajero esporte…

Foi quando Carla, sempre tão tímida e até um pouco cerimoniosa, cortou em cima, numa voz suave e com os olhos brilhando:

Por que você não compra uma ambulância?

A gargalhada foi geral, contaminando o Raul e o próprio Alfredo. Nesse mesmo momento, começaram a chegar os velhos amigos, com Gustavo à frente, sorridente, feliz.

E fez-se a paz no reino do Café Severino.

MANOEL CARLOS - De médico e de louco

Marcamos no Café Severino a comemoração pelo retorno do Gustavo ao nosso grupo. Nosso amigo de muito tempo, Tavinho andou arredio, devido a um turbulento divórcio que enfrentou por mais de um ano e que o deixou deprimido. Com isso, afastou-se de tudo e de todos, indo morar um largo tempo em Petrópolis. Agora, dissipadas as negras nuvens da turbulência e já vivendo novamente em paz, eis que ele retornava a nós e ao nosso reino. Não é a primeira vez que um divórcio penaliza algum membro do nosso grupo. Afinal, todos nós já cruzamos a faixa dos 60 anos e contabilizamos mais de um casamento, à exceção de alguns poucos, como Carla e Gabriel, ambos na casa dos 30. Eles fazem parte da nova geração de frequentadores da nossa roda de vinho e grana padano. Gosto dessa presença jovial, pois impede que as reuniões fiquem lacrimosas, cheias de recordações, e que os assuntos mais frequentes sejam os incômodos na lombar e na cervical, além do medo do diabetes e a comparação entre os níveis de colesterol e glicose. Com a mocidade, fala-se da vida, não de doença e morte.

Mas nessa tarde, mesmo com a presença deles, o assunto perigoso voltou a imperar, enquanto nós cinco esperávamos a chegada da turma toda, inclusive do festejado Gustavo.

Minha glicose está em 105 — anunciou o Raul.

É alta. Você já está diabético — sentenciou Alfredo, que é um assumido hipocondríaco.

Pré-diabético — corrigiu Raul, já um pouco irritado.

Acima de 99… — tentou argumentar o Alfredo, com um sorriso maldoso.

Raul cortou:

Ah, não vai atacar de médico, que você, até onde eu sei, é funcionário aposentado da Caixa Econômica.

E tentou encerrar a discussão:

O importante é a saúde como um todo. O fundamental é sentir-se saudável. E é como eu me sinto. Caramba! Você só sabe falar em doença!

Alfredo contra-atacou:

Só me diz uma coisa: o seu colesterol quanto está?

Olhei o Raul e percebi que ele estava a ponto de apelar. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o Alfredo puxou da carteira os resultados do seu último hemograma, propondo um sinistro desafio:

Vamos comparar os nossos hemogramas! Você tem o seu aí?

Claro que não. Não sou louco como você!

Pelo menos sabe de cor os principais índices?

E enumerou alguns:

Eritrócitos, hemoglobina, leucócitos e plaquetas. Vai, me diz. Aposto que você está anêmico!

Raul saltou da cadeira. Houve uma inquietação no café, já se prevendo uma luta de moleques entre homens da terceira idade, o que seria, no mínimo, ridículo.

Chega — bradou ele, batendo com a palma da mão na mesa.

Calma — disse eu. — Estamos aqui para festejar. Daqui a pouco chega todo mundo e vocês…

Mas Raul emendou, virando-se para o Alfredo, o indicador quase encostando no rosto do amigo:

Que você seja hipocon­dría­co, não tenho nada com isso. Que veja em você todas as doenças, imaginárias ou não, o problema é seu. Mas colocar doenças nos outros, aí não está certo!

E voltou a sentar-se, bufando. Um tempo de silêncio. Olhei o casal jovem. Gabriel passava os olhos num jornal, indiferente à contenda, e Carla olhava a cena, sorrisinho maroto nos lábios. Percebendo que a reunião estava agonizando por sua culpa, Alfredo amenizou:

Me desculpem. Acho que exagerei. Vou embora. Vou ver um carro para comprar, que o meu já está num bagaço de dar pena. Rateando. Como um coração a ponto de enfartar. Quem é que tem uma sugestão para me dar? Pensei numa Pajero esporte…

Foi quando Carla, sempre tão tímida e até um pouco cerimoniosa, cortou em cima, numa voz suave e com os olhos brilhando:

Por que você não compra uma ambulância?

A gargalhada foi geral, contaminando o Raul e o próprio Alfredo. Nesse mesmo momento, começaram a chegar os velhos amigos, com Gustavo à frente, sorridente, feliz.

E fez-se a paz no reino do Café Severino.

MANOEL CARLOS - Amor & Desamor

Meu pai contava a história de um tal Theobaldo, homem de espantosa delicadeza, que um dia conheceu Mafalda, moça bonita, mas sem instrução, que lavava pratos e talheres na cozinha de um restaurante. Instantaneamente, Théo e Yola — como eram chamados — se apaixonaram e logo se casaram. Para surpreender a noiva, Théo comprou as passagens e voou com ela para os Estados Unidos, em lua de mel. Antes da viagem, Yola vivia aterrorizada com a própria ignorância. Se não sabia nem mesmo falar português com correção, o que faria nos Estados Unidos, se nada sabia de inglês? Confessou essa insegurança ao jovem marido, que a tranquilizou:

Relaxa, meu amor. Eu também não conheço a língua. Pode deixar que eu me viro por nós dois. E assim foi: três dias em Nova York, três em Miami e toda uma semana em Orlando, onde Yola realizou seu sonho de apertar a mão do Mickey e da Minnie. A viagem transcorreu sem nenhum contratempo. Sempre que era necessário um entendimento em inglês, Yola se afastava para não revelar sua ignorância, deixando para Théo a tarefa da comunicação.

Muito tempo depois, os dois já beirando os 70 anos e contabilizando três filhos e oito netos, ao procurar um documento na escrivaninha do marido, foi que Yola descobriu o certificado de um curso de inglês que ele concluíra — com distinção! — aos 20 anos de idade. Essa descoberta, revelando a delicadeza extrema de Théo, que fingiu não conhecer a língua para igualar-se à mulher, aumentou ainda mais o já imenso amor de Yola pelo marido e deu fôlego a mais dez anos de felicidade, até que ele morreu. Teve um infarto numa Quarta-Feira de Cinzas, feliz por não ter estragado o Carnaval de ninguém.

Não se tem notícia — contava meu pai — de homem mais delicado do que o jovem e o velho Théo. Nem de tão grande amor de marido e mulher.


***

Quando a gente pensa que já viu e ouviu tudo no item amor, surgem evidências de que ainda há muito a ver, ouvir, viver e descobrir. Se não, vejamos. Neusa está pensando em separar-se do homem com quem está casada há um ano. Rodrigo, o marido, foi transferido para uma pequena cidade no interior do Paraná, berço natal de ambos — e ela se recusa a voltar para a cidade de onde saiu para realizar seu grande sonho: morar no Rio.

Por respeito aos seus moradores, não vou dizer o nome da pequena cidade, que Neusa chama de buraco.

Quando saí de lá dei uma esnobada no pessoal, e agora como é que eu vou voltar? Vão rir na minha cara. Isso se não me lincharem, porque saí falando mal do lugar, dos seus habitantes, do prefeito… Não tenho condições de voltar para aquele buraco!

Tentei cortar, mas ela continuou com ímpeto:

E ainda sem realizar meu segundo sonho: ser atriz, conseguir um papel numa novela.

Aí consegui cortar a jovem, também com ímpeto, e, por que não dizer, com um pouco de raiva:

Mas o seu amor pelo seu marido não é maior do que esse sonho?

Não, claro que não! Nada pode ser maior do que o meu sonho!

Mas você sempre disse que estava apaixonada pelo Rodrigo!

E uma das razões era porque o casamento com ele me traria para o Rio! Foi uma coisa certa entre nós, desde sempre. E agora ele vem com essa história de que a situação aqui está difícil, o ministro está cai, não cai, e ele não consegue ser nomeado. Me disse que, voltando para o buraco de onde nós dois saímos, ele vai ter uma chance maior de estabilizar-se profissionalmente.

Mas, se é assim, você tem de dar força, ajudá-lo…

E quem me ajuda? Não, negativo. Ele aceitou a derrota, mas eu não. Daqui ninguém me tira! E estou até com vontade de dar queixa no Procon e pleitear uma indenização por perdas e danos.

???

Por propaganda enganosa. E tem mais: ele também me prometeu que falaria com um amigo que trabalha na televisão para me conseguir um teste, mas já deu para sacar que ele não conhece nem o porteiro da estação de TV. Propaganda enganosa configurada. Prometeu e não cumpriu. Vendeu e não entregou! Procon nele! E ainda tem mais um problema…

Sem esperar pelo fim do discurso, deixei a Neusa falando sozinha e saí do Café Severino.

MANOEL CARLOS - Mãe é mãe

Quem tem mãe tem tudo — é frase que ouvimos desde criança. E não há quem não a reverencie, tenha sido ela boa ou má. Mas existirá alguma mãe que possa ser designada como má?

Naquela tarde, no Café Severino, propusemos o tema. Que cada um falasse sobre a própria mãe. Principalmente, do que mais lhe devia como gratidão.

Com a minha mãe aprendi a ser paciente, a saber esperar — disse o Chico. — Devo isso a ela.

Com a minha, o amor pelas viagens — declarou a Suzana.

A minha me incentivou a ler. Fazia sugestões. Colocava um livro na minha mão e dizia: “Leia este, é bom, você vai gostar” —
garantiu a Carla.

E assim foram se sucedendo as virtudes que cada um de nós destacava e louvava em sua própria mãe.
Quanto a mim, sempre admirei na minha mãe a tolerância, a piedade, a misericórdia. Ela não acreditava no mal. Por isso, não acreditava no inferno. Dizia sempre:

Ah, Deus se compadece de todos! Não há de condenar ninguém ao fogo eterno!

Gostaria de ter seguido seus passos, exercitado com mais fervor essas virtudes que nela eram naturais, como se nem virtudes fossem.
As mães são um assunto inesgotável. Não há, entre os seres humanos, nenhum que tenha deixado de sentir — ainda que por um segundo — o calor dos braços de uma mãe. Ou sofrido com a ausência deles. E a frase mais definitiva, aquela que encerra todas as discussões, é a que diz apenas: mãe é mãe.

E todos citaram também as imagens maternais que guardavam na memória e que representavam um gesto de extrema bondade. E lembrou-se de tudo, muitas vezes com emoção e sempre com saudade. Para mim, o gesto maternal mais comovente é o da mãe que vai à cama do filho, quando a noite esfria, para ver se ele está agasalhado, protegido. E ajeita a coberta sobre ele, ternamente.
Foi nesse momento que chegou o Raul.

Do que é que vocês estão falando? — quis ele saber.

Falamos de mães — informou o Gabriel.

A favor ou contra?

Então ouvimos uma voz perguntar:

Posso participar?

Nós nos entreolhamos, surpresos. Não conhecíamos aquele homem que aparentava uns 60 anos e nos olhava da mesa vizinha. Sem esperar a resposta, ele aproximou uma cadeira, sem deixar a mesa que ocupava:

Só quero dizer a vocês que o que eu mais lembro e louvo em minha mãe, que já morreu há muitos anos, foi uma surra de vassoura que ela me deu.

Novamente nos entreolhamos, surpresos e divertidos. Ele continuou:

Acreditem. Uma surra de vassoura. Melhor: com o cabo de uma vassoura!

Pode-se saber a razão da surra? — perguntou a Carla, escancarando os olhos, como sempre.

Porque fui reprovado na escola — respondeu o desconhecido. — Éramos pobres, órfãos de pai, e com muito trabalho minha mãe pagava uma escola particular, que era a melhor da cidade em que morávamos. Ela me batia e dizia, enquanto eu gritava: “Você não tem o direito de ser reprovado e com isso me obrigar a pagar um ano a mais de escola! A viver um ano a mais de sacrifício!”.

E concluiu, levantando-se:

Não pensem que ela era cruel. Não. Ela me dava também muitos beijos e me contava histórias na hora de dormir. Mas sabia dividir seu amor entre o carinho e o cabo de uma vassoura. Não me esqueci nem de um, nem de outro. Aos dois eu devo a minha formação. Desculpem a intromissão. Boa tarde para todos.

E ele partiu. Foi o nosso momento de descontração naquela linda tarde de outono. A reunião acabou depois de um brinde que fizemos a todas as mães, vivas e mortas. Àquelas que nos ensinaram com beijos e com cabos de vassoura.
Mais tarde, caminhando no Leblon, as luzes das ruas já acesas, como a me protegerem — maternais — da escuridão da noite, repeti para mim mesmo: mãe é mãe.

* * *
O pensador francês Roland Barthes (1915-1980), em seu Diário de Luto, conta que deixou de temer a própria morte depois que a mãe morreu. Descobriu que o que temia, na verdade, era pensar no sofrimento que causaria caso morresse antes dela.
Vale repetir: mãe é mãe. E está dito tudo.

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