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CARAS E BOCAS: A VERDADEIRA FACE DAS EMOÇÕES

Como sentimentos e palavras são expressos no rosto das pessoas;
Elas dizem mais do que as palavras. Para quem sabe ver, dizem até aquilo que as palavras às vezes escondem. Por isso, a ciência procura tanto decifrar o código das expressões faciais.

Diante da expressão de zanga do gordo Oliver Hardy e do ar de choro do magro Stan Laurel é difícil conter o riso. Para saber a sério o que esse riso tem a ver com a sensação de alegria, pesquisadores americanos convidaram dois grupos de estudantes para uma sessão de filmes da mais bem-humorada dupla da história do cinema. Enquanto suas trapalhadas se sucediam na tela, as reações fisiológicas dos jovens eram monitoradas por meio de eletroencefalogramas. Foi possível verificar assim que os membros de um dos grupos saíram da sala literalmente menos felizes - não por acaso, talvez, tratava-se daqueles a quem se havia pedido que procurassem não esboçar sequer um sorriso durante a exibição das comédias.

Era onde os pesquisadores queriam chegar, comprovando a surpreendente e controvertida teoria de que a expressão facial não apenas traduz um sentimento mas também o estimula. Ou seja, quem ri porque está feliz fica ainda mais feliz porque ri. Essa experiência faz parte de um fecundo campo de estudo da Psicologia contemporânea, que pretende decifrar o mais ostensivo dos mistérios do comportamento humano - o sentido das expressões faciais, como o riso e o choro, o espanto e o desdém, a raiva e o nojo. A linguagem do rosto é provavelmente a forma mais comum de comunicação entre as pessoas: fala-se mais com caras e bocas do que com palavras. Com certeza, falam-se também mais verdades. Os sinais visíveis do que vai dentro de cada um muitas vezes contradizem a arrumação racional das palavras.

Sentir determinada emoção é sempre experimentar determinada reação fisiológica. Entre outros sintomas, por exemplo, a tristeza é a diminuição do ritmo respiratório; a raiva e o medo têm em comum a secreção do hormônio adrenalina, que dispara o coração preparando o organismo para o ataque ou a fuga; por sua vez, a sensação de alegria, a emoção testada naquela experiência americana, é um aumento na produção de endorfinas, hormônios analgésicos e calmantes naturais, que criam o bem-estar da felicidade. A quantidade desse hormônio era muito maior no organismo dos estudantes que puderam rir à vontade nos filmes do Gordo e o Magro.

Alguns pesquisadores acreditam que os nervos do rosto, ao informar o cérebro da posição exata dos músculos faciais, desencadeiam as reações fisiológicas correspondentes às diversas emoções. A idéia é instigante mas não é nova. O psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910) propôs que, diante de um perigo, uma pessoa não se põe a correr propriamente porque sente medo, mas sente medo porque corre - e a teoria tem seguidores até hoje. O fato é que atualmente a maioria dos cientistas admite o caminho de mão dupla: O que se expressa no rosto pode afetar a reação do cérebro, concorda o neurologista Luiz Augusto Franco de Andrade, da Escola Paulista de Medicina. Mas a recíproca, segundo o médico, é verdadeira.

Pacientes com mal de Parkinson, em que falta no cérebro a substância dopamina, têm bastante dificuldade de fazer expressões faciais, exemplifica Andrade. Do mesmo modo, suponho que, se a atividade bioquímica do cérebro estiver acentuada, a pessoa mostrará melhor no rosto aquilo que sente. Mas afirmar que um jogo preciso dos músculos da face reforça ou mesmo cria uma sensação é algo que pode fazer muita gente torcer os lábios de desconfiança. Pois, se fosse assim, argumenta-se, um japonês educado para não expressar sentimentos negativos ficaria menos triste ao encarar uma situação pesarosa com aquele sorriso que os ocidentais dizem ser tipicamente amarelo.

A discussão, na verdade, existe desde 1872, quando o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) defendeu em seu livro A expressão das emoções em homens e animais que algumas expressões faciais são comuns ao gênero humano. Estudos sistemáticos comprovando a tese de Darwin, porém, se firmaram só há uns trinta anos. O psicólogo americano Paul Ekman, que estuda caras e bocas desde 1953, é autor de uma famosa experiência a respeito. Em Tóquio, ele convidou pessoas para assistir, uma a uma, a um documentário com cenas de acidentes, queimaduras e cirurgias, enquanto filmava suas reações - sem elas saberem, é claro.

Na piores cenas do documentário, o espectador japonês, ao lado de quem Ekman estava sentado, dava um sorriso; então o psicólogo se levantava, fingindo que ia dar um telefonema. O resultado apareceu com nitidez no filme feito às escondidas: toda vez que ficava sozinho, o espectador não sorria, mas contorcia o rosto de horror diante das imagens sangrentas, como faria qualquer pessoa não guiada por uma cultura que manda disfarçar sentimentos negativos. Segundo Ekman, toda cultura impõe as chamadas regras de exibição, normas que inibem ou enfatizam determinada expressão facial.

Entre os brasileiros uma clássica regra de exibição é a de que homem não chora, exemplifica o psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo, autor de uma tese sobre as expressões faciais das emoções. De acordo com ele, os psicólogos afirmam que a cara de no mínimo sete emoções é idêntica em quaisquer seres humanos. À medida que as enumera, o rosto de Ailton, um psicólogo que passou mais de um ano treinando músculos faciais em frente ao espelho, vai se transfigurando. Enquanto fala, monta traço a traço as máscaras do medo, da raiva, da surpresa, do nojo, do desprezo, da tristeza e, finalmente da alegria. Como notas musicais que compõem infinitas melodias, as expressões básicas se misturam, formando outras muito complexas, compara.

O que torna mais difícil decifrá-las, porém, é seu tempo de vida - muitas vezes não duram mais de 1 segundo. Brevidade, contudo, não quer dizer escassez: quanto mais complexa for uma espécie do ponto de vista evolutivo, maior será a capacidade de seus membros de criar expressões diferentes com o rosto. Por isso, de todos os seres deste mundo nenhum é tão careteiro como o homem, cujos 22 pares de músculos faciais - metade do lado esquerdo, metade do lado direito - podem formar mais de mil expressões. Se alguém conseguisse demonstrar voluntariamente toda essa habilidade, o espetáculo terminaria porém em alguns minutos, tão ágeis são esses músculos.

A capacidade de distinguir expressões parece ser herdada, fazendo parte do que os cientistas chamam memória biológica. Numa experiência pioneira realizada por pesquisadores americanos, macacos criados em regime de isolamento, sem verem sequer rostos humanos, postos diante da fotografia de outro macaco com expressão agressiva, apresentavam reações típicas do medo. Pesquisas como esta reforçam a teoria de que a compreensão da linguagem silenciosa da face é fundamental à sobrevivência. Tanto nos animais como nos seres humanos, essa compreensão pode variar. 

Está provado que tóxicos como o álcool e a maconha - esta com a injusta fama de aguçar a sensibilidade - confundem o indivíduo no reconhecimento das expressões faciais. Um fato curioso, comprovado mas ainda não muito claro para os cientistas, é que a bebida alcoólica tende a atrapalhar a percepção de duas expressões específicas - a do desprezo e a da raiva. Também é comum a crença de que a criança, por não compreender bem o significado das palavras, perceberia melhor trejeitos faciais do que o adulto. Tudo indica que isso é falso. Há pessoas mais sensíveis do que outras, independentemente da idade, explica a psiquiatra Maria Cristina Ferrari, da Universidade de São Paulo.


Especialista em crianças, ela reconhece a importância do rosto na educação. Conta, a propósito, o caso de uma garotinha de 4 anos que nas sessões de terapia sempre desenhava uma bruxa para representar a mãe - por sinal, uma mulher muito bonita. Por acaso, certo dia a psiquiatra viu a mãe dar uma bronca na filha e, ao observar seu rosto transtornado de raiva, matou a charada dos desenhos da menina. Comenta Maria Cristina: Uns tapas no bumbum não fazem mal, desde que o adulto não expresse raiva no rosto. Caso contrário, a criança entende que está sendo punida não porque fez algo errado mas porque não é amada.

No entanto, a própria psiquiatra, mãe de dois filhos pequenos, reconhece que é preciso muito autocontrole para não exibir raiva diante de uma malcriação. Se é verdade que tudo que está na cara é um sentimento. Posso mostrar no rosto o meu cansaço, diferencia o psicólogo Arno Engelmann, da USP. Nascido na Alemanha, há 59 anos, ele vive há 51 no Brasil e há 25 estuda o que chama estados subjetivos - um conceito que se aplica tanto às emoções quanto às sensações não muito localizadas, sono, interesse, distração, como define.

Após longa e criteriosa pesquisa, Engelmann conseguiu determinar nada menos de 370 estados subjetivos. Agora, ele está entusiasmado com um novo projeto - gravar o rosto de entrevistados, na tentativa de captar expressões faciais, se é que existem, relacionadas a cada um daqueles estados. É uma pesquisa pioneira no Brasil, revela, os olhos brilhando de orgulho. Engelmann lembra que há expressões não provocadas por emoções, como os emblemas - gestos mudos que substituem palavras. Exemplos: mostrar a língua no lugar de xingar, piscar os olhos em sinal de aprovação, abrir a boca em vez de dizer que ficou boquiaberto de espanto e por aí afora. Engelmann também cita os chamados sinais de conversação, a pontuação de um diálogo que aparece no rosto. As vezes, só pelo olhar do outro dá para notar que ele quer nos interromper para fazer uma observação, diz o psicólogo.

O olhar, de fato, é a expressão suprema. Geralmente, enquanto se fala, não se olha o tempo inteiro para o interlocutor. Este, de seu lado, também ora desvia os olhos, ora volta a encarar. Desconfortável sempre é o olhar fixo do outro, com toda probabilidade uma herança do medo experimentado pelos ancestrais. Psicólogos observaram macacos Rhesus reagirem com violência apenas porque o pesquisador os encarava olho a olho. Não só quando sustentados ou quando zanzam de um lado para outro os olhos se exprimem. As pupilas, garantem os cientistas, também revelam segredos. Em condições idênticas de luz - portanto, sem razões fisiológicas para se contrair ou se dilatar -, as pupilas diminuem diante de uma imagem desagradável e aumentam diante de algo prazeroso, por exemplo, uma pessoa atraente. Esse é, aliás, um dos indicadores mais comuns do flerte. Outros sinais de namoro que transparecem na face - habitualmente identificados como a expressão viva de quem está amando - resultam do fato de os músculos ficarem mais tensos, com isso retendo mais sangue.

Mas é na boca que nasce a mais humana das expressões: o sorriso. A careta de raiva, por exemplo, é muito semelhante tanto na aparência quanto nos músculos envolvidos à exibição dos dentes que caracteriza o focinho de qualquer mamífero antes de partir para o ataque. Já o sorriso - e não só o da Mona Lisa - é sempre enigmático. Ao menos o sorriso genuíno, que derrama alegria. Isso porque o movimento facial do riso aparece apenas nos primatas, mas com a função de apaziguar outro animal; ao se sentir ameaçado, o macaco repuxa os lábios para cima e emite um som, parecido com o de uma risada. Segundo estudiosos, tal sorriso simiesco promove um efeito calmante na macacada.

Esse mesmo sorriso pálido e sem graça também aparece no rosto humano. Há histórias de guerra relatando episódios de soldados que se sentiram desarmados quando o inimigo lhe sorriu. Mas é um mistério como, na evolução do homem, do riso inseguro brotou a risada feliz. Outra particularidade humana é fingir no rosto aquilo que não sente. E o sorriso é a arma mais usada da mentira, porque, segundo os cientistas, além de ser uma expressão positiva, de todos os componentes do rosto o homem tem mais controle sobre a boca. Assim, o sorriso mascara a tristeza, aumenta na aparência a dose de satisfação de rever alguém, esconde rancores, afirma o desprezo. Reconhecer o verdadeiro riso é uma das últimas etapas de um treinamento para identificar expressões faciais, informa o psicólogo Ailton Amélio, da USP.

No entanto, se todos podem controlar a boca, apenas uma em cada dez pessoas consegue impedir a formação de rugas na testa quando o sorriso vem disfarçar a tristeza. Mais difícil ainda é camuflar sorrisos falsos, ditados pelas convenções sociais. A verdadeira risada contrai os músculos orbiculares, em torno dos olhos, formando pequenas rugas laterais, feito pés-de-galinha. De acordo com os especialistas, mesmo os mentirosos profissionais, como os atores, que reproduzem esses movimentos menos sujeitos ao controle da vontade, não o fazem no ritmo natural.Pois um riso nasce aos poucos, se sustenta e esmorece - tudo isso em cerca de 10 segundos. O falso sorriso pode surgir do nada e desaparecer de repente. O austríaco Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, que sabia das coisas, sabia também que a face humana é um baú de informações sobre os sentimentos mais íntimos. Quem tem olhos para ver pode se convencer de que nenhum mortal consegue guardar um segredo, escreveu ele. A traição brota pelos poros. O que ele queria dizer está na cara.

Retratos das emoções
Quando se olha alguém, um dos erros mais comuns é ver medo em um rosto apenas surpreso. Isso porque, mesmo quando as emoções não se misturam no semblante, há músculos que trabalham em mais de uma expressão. Mas o olhar atento não se engana, pois cada sentimento traça sua máscara própria no rosto humano, como mostra a seqüência de caras do psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo.

Medo - As sobrancelhas também se erguem, mas se aproximam por causa da contração do músculo piramidal do nariz - o único da face que nenhum treino ensina a dominar - e assim formam rugas verticais na testa; as pálpebras inferiores e superiores sobem, diminuindo os olhos; a boca, aberta ou fechada, fica tensa.

Nojo - As sobrancelhas se abaixam, sem se aproximar; o lábio superior é puxado para cima, empurrando as bochechas na mesma direção; assim, podem aparecer rugas no nariz; o lábio inferior se contrai para fora.

Surpresa - Ao se erguerem, as sobrancelhas costumam formar rugas horizontais na testa; as pálpebras superiores sobem, sem tensão; o maxilar relaxa, deixando a boca entreaberta e abaixando as pálpebras inferiores - daí os olhos se arregalarem.

Tristeza - Apenas o canto interno das sobrancelhas se eleva; os cantos da boca caem; de modo geral, todos os músculos faciais perdem tônus, criando a expressão típica do abatimento.

Alegria - Os lábios são puxados para trás e para cima, empurrando as bochechas; as pálpebras inferiores também se elevam e aparecem rugas na parte externa dos olhos, feito pés-de-galinha; um detalhe fundamental é que não existe tensão na testa.

Raiva - As sobrancelhas se aproximam, só que abaixadas; a tensão em torno da boca comprime os lábios.

Desprezo - Os lábios se comprimem, um contra o outro, e um canto é puxado para cima.

Primeiras caretas
Com menos de duas semanas, o recém-nascido já tenta imitar expressões faciais do adulto. Assim, abre a boca e faz beicinho, franze o cenho, arregala os olhos. Aproximadamente no terceiro mês, o bebê aprende a sorrir sempre que alguém se aproxima. Na verdade, nessa fase ele reage com um sorriso, como se agradecesse a companhia, toda vez que enxerga o que os cientistas chamam T - as linhas formadas pelos olhos, nariz e boca. Numa experiência clássica, cientistas aproximaram de uma criança um T esculpido em madeira e obtiveram o mesmo sorriso. Por volta do oitavo mês, porém a criança já reconhece rostos. Então sua face começa a revelar todos os matizes do humor, mostrando que aprendeu o bê-á-bá da fisionomia.
Por Lúcia Helena de Oliveira

Vídeo – AMOR, MEDO E FELICIDADE - ZYGMUNT BAUMAN


Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman

Depoimento exclusivo em vídeo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, gravado em sua casa na cidade de Leeds, Inglaterra, no dia 23 de julho de 2011, pela equipe da CPFL e do Fronteiras.

Bauman nos motivou a encarar um grande desafio contemporâneo: entender as mudanças que o advento da modernidade líquida produz na condição humana. E esse desafio orienta a agenda de discussões do café filosófico cpfl, programa no qual repensamos os velhos conceitos que costumavam cercar as narrativas de nossas vidas. Aprendemos com Bauman a tratar com rigor conceitual - reconhecendo a fluidez entre os laços, entre os conceitos e os saberes - temas que ainda não haviam conquistado um estatuto acadêmico claro, como o amor, o medo e a felicidade.

Oferecemos a você este vídeo em que Zygmunt Bauman fala de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, entre outros temas.
 
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MEDO - Ana Paula Schimidt

Você desenvolve um ótimo projeto e seu chefe lhe propõe uma apresentação para uma platéia cheia.É uma boa chance para mostrar seu talento a todos. Porém você declina da proposta porque a ideia de encarar um grupo de pessoas faz a barriga doer.
O que leva as pessoas a esse tipo de decisão? Um sentimento bem antigo e que esteve e sempre estará presente na humanidade: o medo, seja ele pequenino ou enorme.
É, porque não somos visitados apenas pelos grandes temores – da morte, de ter uma doença grave, de sofrer um desastre e afins. No dia-a-dia, somos colocados diante de várias situações em que precisamos decidir entre encarar ou parar.
E às vezes desistimos pelo receio de lidar com o incerto em um grau menor ou maior. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, considerado um dos grandes pensadores da atualidade, descreve bem esse tipo de sentimento em seu mais recente livro Medo Líquido. Em um trecho da obra, ele compara o medo à travessia pela neblina, onde não se pode enxergar 30 m à frente.
Bauman diz: “Fiel a esse ‘viver na neblina’, nossa ‘certeza’ direciona e focaliza nossos esforços de precaução sobre os perigos visíveis, conhecidos e próximos, perigos que podem ser previstos e cuja probabilidade pode ser calculada – embora os perigos mais assustadores e aterrorizantes sejam precisamente aqueles cuja previsão é impossível, ou extremamente difícil: os imprevistos, e muito provavelmente imprevisíveis”.
O medo tem, então, a ver com encarar o imprevisível e com coragem para enfrentar o que não lhe é confortável. Mas, que fique claro, ter medo não é sinal de fraqueza porque ninguém precisa ser corajoso o suficiente para passar pela vida com o peito aberto para tudo.
A questão é quando começamos a declinar demais e sem perceber colecionamos uma série de desistências. E isso, ao longo do caminho, gera uma frustração danada, insegurança e mais medo e pode até abalar o que nos é tão caro: a autoconfiança.
Então, que tal fazer um balanço dos medos que incomodam, os pequeninos mesmo? Reconhecê-los é o primeiro passo. E assim ter uma vida mais leve e sem tantos tropeços porque, afinal, às vezes é preciso seguir pela tal da neblina e encarar o caminho, apesar das incertezas.
Há mesmo o medo de coisas que vêm da fantasia de cada um. A imaginação constrói, avoluma e, por vezes, aprisiona. Mas não vamos negar o medo que é acionado por um instinto de preservação. Esse é seu parceiro. Por exemplo, é tarde da noite, você está só, assistindo TV, quando uma porta bate. Não dá outra: o coração dispara, os músculos se enrijecem e todos os sentidos ficam em alerta.
Alguns segundos depois, quando percebe que era só o vento – e não um acontecimento incomum –, é que você volta a relaxar. Isso acontece porque em momentos de perigo iminente seu cérebro aciona um mecanismo ancestral que serve para torná-lo mais apto para a fuga ou o combate. O objetivo disso é preservar a vida. E o gatilho que dispara esse circuito é um velho conhecido: o medo. Aliás, ele não é algo exclusivo do ser humano.
Todos os animais compartilham essa emoção, e é graças a ela que a gazela sai correndo quando vê um leão. Esse tipo de medo é considerado positivo e necessário porque serve para nos proteger. É ele que nos faz, por exemplo, olhar para os dois lados antes de atravessar a rua – e não ser atropelado – ou impede, diante de um penhasco, que alguém se atire em queda livre, sem receio. Aliás, o mecanismo biológico por trás de qualquer tipo de medo (do bom e protetor àqueles que nos apavoram) é igual.
O psicobiólogo Marcus Lira Brandão, coordenador do Laboratório de Psicobiologia da USP de Ribeirão Preto, onde é desenvolvido o Projeto Psicobiologia do Medo e Estresse, explica que o medo provoca uma reação em cadeia no cérebro, que tem início com um estímulo de estresse, como uma platéia lotada ou uma batida repentina na porta. Funciona assim: uma vez recebido o sinal de estresse, o hipotálamo (região no cérebro) informa todos os circuitos cerebrais que é preciso entrar em ação, liberando hormônios como adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea.
Esses hormônios deixam o corpo mais alerta, pronto para lidar com uma ameaça. Daí aumenta a freqüência cardíaca, os sentidos ficam mais aguçados e os músculos tensos. “Tudo isso acontece para que a gente possa correr adoidado para fugir de um perigo ou, se for o caso, enfrentá-lo com todas as forças”, diz Brandão, que, como todo mundo, também tem seus medos – o dele é o de não entender o medo. “Se o cérebro recebeu um sinal de alerta, vai reagir como se estivéssemos frente a frente com o leão mais feroz da África, mesmo que se trate só de uma inofensiva barata”, explica o psicobiólogo.
De acordo com a psiquiatra Ana Beatriz Silva, autora de Mentes com Medo, da Compreensão à Superação, os motivos pelos quais uma pessoa tem um medo maior ou menor diante de um inseto, por exemplo, ou não tem coragem de enfrentar uma platéia variam de pessoa para pessoa e dependem da história de vida de cada um.
Mas a maneira de tentar superá-los é bem similar. “É necessário acolher o medo, em vez de negá-lo ou diminuir sua importância”, diz Ana Beatriz. “Só assim se torna possível lidar com esse sentimento”, explica. Parece difícil? Nem tanto.
É só lembrar de todas as vezes em que você já ficou muito triste. Não foi melhor assumir que estava mal mesmo e chorar tudo o que tinha para chorar? Com o medo, é a mesma coisa. “Para que ele não vire um bicho-papão, o melhor é encará-lo de frente, sem reservas”, explica a psicanalista Júnia de Vilhena, da PUC do Rio de Janeiro.
Você tem medo de que?
De não encontrar a cara-metade
Por trás disso, pode estar o medo da perda, ou ainda o temor de não ser suficientemente bom. “Quem não se sente digno de receber amor e de ser valorizado dificilmente consegue acreditar que merece coisas boas”, acredita Maria Conceição Bahia Valadares, terapeuta bioenergética que tinha medo de morrer afogada, mas mesmo assim fez um curso de mergulho e hoje nada em qualquer piscina.
A armadilha desse tipo de medo é ficar agradando os outros o tempo todo e assim se esquecer de si mesmo. “Quem se sente não merecedor de afeto muitas vezes acaba sendo submisso nas relações pessoais”, analisa Maria Conceição. É um passo para ficar roendo as unhas toda vez que está sozinho, achando que nunca mais vai encontrar alguém. Não há solução mágica para aprender a se valorizar e ser mais autoconfiante. De novo, um bom caminho é a busca o autoconhecimento. “Sem isso, é muito difícil lidar com medos tão primitivos, que podem ter surgido lá atrás, na infância”, acredita Maria Conceição.
De dirigir
“Trata-se de outro medo mais comum do que se pensa, principalmente entre as mulheres”, diz Ana Beatriz. Quase sempre ele está relacionado à dificuldade de assumir a autonomia, de dirigir e responsabilizar-se pela própria vida. A psicoterapia aqui pode ajudar porque as raízes dessa falta de confiança podem ser antigas. Há ainda as terapias que colocam a pessoa literalmente dentro do carro, com um psicólogo ao lado, que vai ajudando o motorista a lidar com seu pânico diante do volante. De ir a uma festa sozinho, de falar em público, de dizer “eu te amo”Todos esses exemplos se relacionam ao medo de se expor e eventualmente esconde uma dificuldade de aceitação. Por trás dela, pode estar também um desejo grande de se sentir querido ou mesmo revelar uma expressiva carência afetiva.
Uma das armadilhas causadas por esse tipo de medo é a criação de expectativas pouco realistas, já que a tendência é sempre evitar ou adiar a ação. A conseqüência é que, quando ela finalmente acontece, já criamos fantasias, como a de receber aplausos estrondosos durante uma apresentação sem maior importância e de arrasar naquela festa. Daí, a frustração é sempre maior. O medo de se expor em geral está ligado a questões íntimas e, muitas vezes, inconscientes. “Por isso, uma saída é procurar um terapeuta, que vai ajudar o paciente a se conhecer melhor e, dessa forma, entender por que ele se apavora diante das solicitações da vida”, diz a psicoterapeuta Junia de Vilhena.
De animais
Os mais comuns são de insetos, aranhas, cobras, cães, gatos, sapos, ratos e lagartixas. De acordo com a psiquiatra Ana Beatriz Silva, a melhor forma de resolver o problema é por meio da exposição ao que se teme. “O objetivo é treinar e habituar o paciente a reduzir a ansiedade, fornecendo a ele subsídios para o enfrentamento gradual”, diz Ana, em seu livro Mentes com Medo.
De dentista
Esse é dos medos comuns. Há gente que se apavora ao ouvir o barulho do motorzinho do dentista, outros se assustam ao ver a seringa da anestesia. Um bom papo com o dentista, claro, ajuda. Mas técnicas de relaxamento podem reduzir bastante o problema.
Quando vira fobia?
Quando começa a impedir atividades do dia-a-dia. Aí, o sentimento passa a se chamar transtorno de ansiedade e muitas vezes requer tratamento médico. A síndrome do pânico também faz parte desse caldeirão. “Afinal, é um período de intenso temor, injustificado, com sintomas característicos, como taquicardia, suor, dor no peito, tontura”, conta a psiquiatra Ana Beatriz Silva. “É até possível se curar sozinho, mas o mais recomendável é procurar uma terapia ou um atendimento psiquiátrico”, diz ela.
10 Coisas que você não precisa temer:
1. De soltar a voz no karaokê - Todo mundo está lá para desafinar mesmo.
2. De pintar as paredes da sala de roxo - Ficou ruim? É só pintar de branco de novo.
3. De fazer um corte de cabelo radical - O cabelo cresce novamente.
4. De terminar um relacionamento ruim - A vida é cheia de possibilidades de novos encontros.
5. De dizer o que sente - Isso pode ser libertador.
6. De errar na receita do bolo - Se não ficar bom, você compra outro na padaria.
7. De errar no presente para alguém especial - Não serviu? Ele pode trocar. E se não gostar, está aí uma chance de você conhecer melhor a pessoa.
8. De não acertar o caminho - Basta saber que, às vezes, é preciso parar para perguntar a direção das coisas.
9. De experimentar um prato diferente - Descobrir novos sabores é uma delícia. Se o prato for mesmo ruim, você sempre pode pedir outro.
10. De fazer perguntas: para o médico, para o chefe, para alguém que você considera sábio. O papel dessas pessoas é, também, dividir conhecimento.

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