Mostrando postagens com marcador MIGUEL FALABELLA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MIGUEL FALABELLA. Mostrar todas as postagens

TEMPOS VERBAIS - Miguel Falabella

Clarice Lispector diz que a palavra mais importante da língua portuguesa tem um som de letra: é. E ela tem razão. Não é preciso muito mais para definir-se o momento. É justo. Seco. Bom o bastante para o aqui e agora, sem os temores do será, ou a nostalgia do era que, com o passar dos anos, vai-se fortalecendo e embaralhando a noção de tempo. As rugas que vamos descobrindo na superfície são as pontas de profundos icebergs e, ao tentar mapeá-los, frequentemente, trocamos o é por sua forma no pretérito. Na maturidade, aquilo que era vai ganhando cada vez mais espaço, até que um dia cruzamos a tênue linha que delimita o tempo e avançamos sem medo na direção do passado.

As tempestades da alma, tão comuns na meia-idade, na verdade, são vislumbres do futuro e a bonança, que se segue a elas, sopra o vento das saudades sazonais, que chegam inexoráveis, instalam-se sem aviso prévio, tomam conta de tudo e não têm data marcada para a partida.

Nesses últimos dias, por exemplo, de baixas temperaturas em São Paulo, muitos ensaios e muita correria, o vento trouxe meu pai de volta. Talvez porque a última vez em que tenhamos ficado juntos foi nesse apartamento. Ele dormiu comigo e lembro que conversamos até às tantas; ele me contou novamente o meu nascimento, uma história que ele adorava repetir.

As crianças de olhos azuis nascem com os olhos muito claros e, por um momento, papai acreditou que eu fosse cego. Tio Olavo, que fazia todos os partos da família, dissipou-lhe os medos, mas a história, que ele me contou mais uma vez, na última vez em que estivemos juntos, valeu-me o apelido familiar de olho branco. Curiosamente, aquele homem que era o arquétipo do carioca da gema, que adorava andar de peito nu pela praia da infância, ficou para sempre guardado neste meu apartamento de concreto, que hoje resolveu engolir a noite gelada e sem estrelas.

A cama e o colchão ainda são os mesmos. Eu tento adivinhar-lhe a forma, ao meu lado, naquela noite de alguns anos atrás. Ele ficou viúvo muito cedo e nunca conseguiu superar a perda do amor da sua vida. Foram essas as suas palavras, no corredor do hospital, quando mamãe avançou decidida para o passado. Nunca mais pensou nas coisas do amor, mas, como ainda era jovem, nós fizemos de tudo para que ele se interessasse por alguém. Finalmente, ele arranjou uma namorada e manteve com ela um relacionamento por alguns anos. Um dia, ele almoçava comigo e falávamos dela, quando eu perguntei, assim como quem não quer nada, se ele estava feliz, se gostava daquilo que estava vivendo.

- Você gosta dela, pai? - eu perguntei, atrás da intimidade que, hoje eu sei, tanto eu quanto ele buscamos desesperadamente um no outro.

Papai me olhou, surpreso com a objetividade da minha pergunta, e respondeu sem alterar o tom.

- Ela me dá lanche - ele disse, e deu o assunto por encerrado.

A resposta lacônica virou piada entre os irmãos, mas hoje, escrevendo nessa noite cada vez mais fria, eu entendo a justeza daquela frase. Ela me dá lanche é apenas mais uma tradução do é de Clarice que abriu a crônica. Simples e definitivo. Como a saudade é.
___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________



A Casa Encantada 
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
https://amzn.to/2oP20S4
_____________________________________________________________
________________________________________

SAUDADE - Miguel Falabella

Em alguma outra vida,devemos ter feito algo muito grave,para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta doí.
Bater o queixo no chão doí.
Doí morder a língua,cólica doí, doí torcer o tornozelo.
Doí bater a cabeça na quina da mesa,carie doí,pedras nos rins também doí.
Mas o que mais doí é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma brincadeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós mesmo,o tempo não perdoá.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele,do cheiro,dos beijos.
Saudade da presença,e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto,sem se verem,mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a trabalho,mas sabiam-se onde.
Você podia ficar sem vê-lo,e ele sem vê-la,mas sabiam-se amanhã.
Contudo,quando o Amor de um acaba,ou torna-se menor no outro.
Sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Se aprendeu a entrar na internet,se aprendeu a ter calma no trânsito.
Se continua preferindo cerveja a uísque(e qual a cerveja)
Se continua sorrindo com aqueles olhos apertados,e que sorriso lindo.
Será que ele continua cantando aquelas mesmas musicas tão bem(ao menos eu admirava)?
Será que ele continua fumando e se continua adorando Mac Donald's?
Será que ele continua não amando os livros,e ela cada vez mais?
E continua não gostando de dar longas caminhadas,e ela não assistindo televisão?
Será que ele continua gostando de filmes de ação,e ela de chorar em comédias.
Será que ela continua lendo os livros que já leu?
Será que ele continua tossindo cada vez que fuma?
Saber é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos,não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,não saber como vencer a dor
de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra,e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro,se ele está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se Ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti(e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria)
provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.
Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade!!!
______________________________________________________________________________________
__________________________



Contos e Crônicas
https://amzn.to/2oP20S4
_____________________________________________________________

SAUDADES DA GUANABARA - Miguel Falabella

A falência do ensino público causou-nos um estrago
tão grande que vamos precisar de tempo 
para recuperar a palavra

Em algum lugar entre o sonho e a realidade, numa zona que a medicina ainda não conseguiu entender, alguém me entrega uma frase estranha: por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Quase uma mensagem secreta, trazida de além-mar, numa trama de espionagem, eu penso e, ato contínuo, começo a abrir os olhos. 

Por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Um novelista romântico a passeio pela cidade talvez tenha decidido fazer-me um agrado e, na busca pelo remetente, eu finalmente acordo de vez com as palavras brincando no fundo dos olhos e, mais à frente, a imagem da árvore espelhada na retina. 


Acordo também com vontade de ver outra vez um pé de abricó-de-macaco exibindo sua exuberância na floração, mas pulo da cama, pois o dia me chama. Mais tarde eu procuro uma imagem na rede e exercito meu platonismo cotidiano, eu penso. Mais tarde.


A frase, entretanto, continua comigo, exigindo ser usada quanto antes e, convenhamos, construir uma crônica ao redor dela me parece uma tarefa mais simples do que colocá-la na boca de alguma personagem que, para entrar em cena e dizer eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco...vai-me exigir um equilíbrio delicado, já que trata-se de uma espécie amazônica e, se florescem por toda parte, eu acredito que a comédia, ou drama, deva se passar no Norte. Ou talvez ela pudesse ser dita numa cena de adeus, filmada naquela minha enseada da infância, com a luz perfeita que havia então. 

A personagem estenderia o olhar acompanhando a curva sinuosa da praia e diria: eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Não. Pensando bem, ela vai ser usada numa crônica. Uma crônica da memória, já que a imagem vem do passado, e também uma crônica de verão, já que é nesta estação que a árvore floresce com mais luxúria. Uma crônica da Guanabara, eu decido:


Eu estudava no Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na rua Pio Dutra, na Ilha do Governador, com aquele uniforme de então, camisa cáqui, calça azul e o escudo costurado no bolso, com os golfinhos da insígnia em baixo relevo. Um colégio que tinha sido modelo do Estado da Guanabara, vale a pena acrescentar. Tínhamos um excelente ensino. 


E então vieram os anos 70 e a educação pública brasileira começou a ruir, sem que ninguém mexesse um dedo para deter o estrago que se fazia na população. Junto com o resto da nação, a classe média carioca, que sempre colocou os filhos nos bons colégios que o Estado oferecia (porque é assim que deve ser), começou a fazer das tripas coração para pagar as escolas particulares, na tentativa de dar uma formação decente à prole, pois é esse o desejo de todo pai e toda mãe do planeta. 

Dar à cria uma chance de sobrevivência, enfim. A falência do ensino público causou-nos um estrago tão grande que, mesmo que se tome alguma iniciativa eficaz neste sentido, ainda vamos precisar de muito tempo para recuperar a palavra e seus tantos sentidos.


Acredito que nossa presidente conhece a importância da educação na vida dos povos e certamente tomará medidas que deem oportunidades iguais a todos, tal qual tínhamos num passado não tão remoto, quando floresciam por toda parte os abricós-de-macaco, guardados intactos nos arquivos de um jovem escritor.

____________________________________________________________________

A INTERNET, A BONDADE E O FUTURO QUE DESEJAMOS CONSTRUIR

Edmir Saint-Clair



AMAR E SER FELIZ 

 Edmir Saint-Clair




SONHAR NÃO CUSTA NADA - MIguel Falabella

Há sonhos que nascem prematuros. 
Como é o caso de alguns bebês. 
Afoitos, eles gritam sua existência.

Recebo mensagem de um velho amigo que vive fora, mudando seus planos de viagem por causa da crise aérea deflagrada pelo vulcão da Islândia, que ruge sua fúria outra vez, escurecendo os céus do norte da Europa. Já não poderemos nos ver como tínhamos combinado, porque as datas vão acabar se perdendo, mas, quando a natureza cobra seu preço, não há o que se fazer. Não poderemos mais nos abraçar e lembrar como sonhávamos, porque os laços mais fortes de uma geração de amigos são os sonhos compartilhados, sem dúvida alguma. 

E somente aqueles que viveram a mesma fatia de vida são capazes de entendê-los ou, em última análise, de adivinhar os caminhos trilhados até eles, porque as gerações mudam as modas, as gírias, os costumes, mas mudam principalmente os sonhos ou a maneira de sonhá-los.

É mesmo curioso observar as novas gerações e a estruturação de seus sonhos. Não iniciei a crônica com o rugir do vulcão impunemente. Acredito que a consciência de que o planeta anda gravemente ferido e a constatação de que o tempo parece se esgotar muito rapidamente, agora, têm transformado radicalmente os sonhos da nova geração, tornando-os mais objetivos, mais concretos, sem nenhuma chance para aqueles sonhos-que-não-podem-ser que, outrora, preenchiam nossos dias. Talvez seja assim mesmo, eu penso, com vontade de rever o amigo.

Talvez já não haja lugar para utopias delirantes e aspirações etéreas. Mas se, por um lado, a objetividade e as ambições herdadas dos vorazes yuppies do final do século passado têm seus aficionados, por outro, sinto que esse olhar para um material tão delicado acaba nos aprisionando num espaço cada vez menos tolerante. 

Seja como for, sonhos, ainda que de formas diferentes, são feitos da mesma matéria e vale o lembrete para aqueles que ainda não desistiram deles.

Há sonhos que nascem prematuros. Como é o caso de alguns bebês. Afoitos, eles gritam sua existência em algum lugar da mente e abrem caminho por entre a massa enevoada, querendo fazer-se ouvir, ignorantes do fato de que ainda não estão fortes o bastante para justificar o alarde. Geralmente são abandonados à própria sorte e acabam desaparecendo na bruma. 

Eu abandonei um bom número deles à beira da estrada e, anos depois, passo grande parte do meu pouco tempo livre tentando resgatá-los. Passamos todos, no final das contas. A tal maturidade de que tanto falavam nada mais é do que aceitar a nossa galopante fragilidade. Mas voltemos ao sonho, matéria da qual somos feitos. Aprendi que um sonho prematuro, com cuidado, desejo e afeto, pode sobreviver e tornar-se uma daquelas raras alegrias eternas. 

O problema é saber como organizar-se para chegar a eles, porque os costumes impõem novas regras até mesmo para esse nobre esporte que não custa nada.

Como dizia Emily Dickinson, a poetisa norte-americana, “Nunca falei com Deus/Nunca fui até o céu/Para ir lá adivinho/Qual é o melhor caminho!” É assim que se faz! Bons sonhos!

UMA FATIA DE VIDA - Miguel Falabella

Em 1960, exilado no México, o grande diretor de cinema Luis Buñuel recebeu um convite oficial do ministro da Cultura da Espanha, ainda sob o jugo da ditadura de Franco. A esta altura, o mestre já era considerado um dos maiores diretores de cinema do mundo e Franco não via com bons olhos o exílio daquele que era um dos mais talentosos filhos da terra. O convite era mais do que generoso: Buñuel podia regressar para realizar qualquer filme que desejasse, reencontrando suas raízes e o olhar de seu povo. O convite foi aceito (acredito que não sem, antes, profundas reflexões) e Buñuel filmou "Viridiana", uma de suas obras-primas.

O filme, é claro, já tinha sido pensado e era peça importante no processo de busca do artista, que lutava para libertar-se da rígida formação católica que ele abominava. Um violento libelo contra a Igreja Católica que apoiava a ditadura franquista, "Viridiana" ainda hoje é um filme impactante. Buñuel, sabedor de que aquela história não teria um final feliz, escapou para Paris, assim que a última cena foi filmada, levando com ele os negativos e deixando para trás um irado ditador, que demitiu o ministro e tentou impedir a exibição do filme no Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro. O filme foi proibido na Espanha e o Vaticano o condenou violentamente.


Quase uma década depois do escândalo, uma cópia surgiu no cine Itamar, num daqueles programas duplos que juntavam os gladiadores à nouvelle vague sem nenhum pudor. Como eu vivia naquele cinema e já era um rapazinho, o porteiro fez vista grossa para a censura e foi assim que vi Silvia Pinal dar vida à noviça de Buñuel. 

Há muitos anos não vejo o filme e não sei se continua tão impactante quanto foi na época, mas acredito que sim. "Viridiana" é o sagrado coração exposto em sua crueza. Fiquei anos com imagens do filme na cabeça e Silvia Pinal entrou para a galeria das minhas divas. Agora mesmo, enquanto escrevo a crônica, num fim de tarde incendiado, lembro da sensação que tive ao assisti-lo nas cadeiras do Itamar e o quadro vivo dos mendigos recriando a Santa Ceia ainda está guardado em algum lugar do labirinto.

Um dia, eu morava em Copacabana, e estava olhando a tarde morrendo no mar, quando o telefone tocou. A voz bonita, num espanhol cantado, anunciou-se como Silvia Pinal. Demorei um tempo até entender do que se tratava. Ela tinha ouvido falar do sucesso de "A Partilha" em Buenos Aires e queria detalhes sobre a obra. Ficou um pouco desanimada quando soube que não havia exatamente uma protagonista, já que a peça falava de quatro irmãs que dividiam seu passado e a herança da mãe falecida. Não foi uma conversa longa. 

Eu não consegui lhe dizer que sua Viridiana andava comigo, nas noites em que eu não conseguia dormir. Não disse que seu rosto estava no panteão das deusas que eu vi menino na tela prateada. Foi uma conversa formal e objetiva. Ela disse que ia ler, eu me despedi.

Ainda fiquei um tempo com o telefone nas mãos, lembrando do saguão do velho cinema e de minha avó, que nos levantava pela cintura, para beijar os pés do senhor morto. Quando voltei a olhar o mar, a noite já o tinha engolido. Isso foi tudo.
________________

MIGUEL FALABELLA – Velhas resoluções ainda no prazo de validade

Hoje estou desatando da memória as imagens de amor. As minhas, as nossas imagens de amor, porque as coisas são como são: no momento em que escrevo e no momento em que você lê, abrimos esses arquivos de imagens geradas a partir do amor, que são - vamos admiti-lo antes que seja tarde - os nossos arquivos prediletos.

Tudo o que realmente nos interessa está arquivado ali. Na câmara escura das nossas recordações. Imagens que vamos recolhendo vida afora. Elas têm nome e uma história para contar, cada uma delas. E nostalgia nada mais é do que a saudade da emoção vivida, num determinado momento que passou veloz. Emoções e emoções e ainda tanta emoção a ser vivida!
Muito além dos indivíduos, além das particularidades. E todas essas químicas se processando no nosso corpo, pois há quem diga que amor nada mais é do que uma sensação provocada, para evitar a loucura da espécie e perpetuar o predador. Uma ilusão passageira, uma descarga de substâncias certas no sistema. Lubrificação. Cuidados com a máquina.
Seja lá o que for, andei tomando resoluções práticas para a existência.
Porque nunca mais nesta vida quero ter saudade de beijo.
Nunca mais a nostalgia daquele mundo de línguas dançando balé no céu das nossas bocas.
Nunca mais!
E juro que nunca mais nesta vida quero tentar entender o amor.
Quero deixar que ele passe por mim, como um pé de vento que sopra folhas e poeira num arranjo aprumado.
Eu fico ali, no meio do redemoinho, só achando tudo muito bom.
Depois, o amor se vai e a gente continua a tocar a existência.
Assim é que deve ser.
Nunca mais nesta vida quero gente se indo. Já está de bom tamanho.
Coração da gente vai absorvendo os golpes: que são muitos e de todos os lados, sempre.
Com quase todo mundo é assim.
De repente, as pessoas começam a ir embora, por morte matada e morrida,
por desamor, por tristeza, por ansiedade, por medos diversos, seu coração vai recebendo as pancadas e uma hora dá vontade de dar um berro, sair vomitando as mágoas todas que a gente foi engolindo.
Nunca mais gente partindo sem motivo aparente, sem dar nome aos bois ou uma denúncia vazia. Nesta vida, nunca mais!
E nunca mais, nesta breve passagem, a palavra não dita, o gesto parado no ar, dissolvido antes do afago. Nunca mais a dose nossa de orgulho besta,
a solidão das noites perdidas por amor desenganado, o coração parado, à espreita. Isso, não. Quanto mais o tempo passa, mais a urgência da felicidade ilusória e da química do bem-estar, essas coisas todas que se operam em nossos íntimos.
Nunca mais.
Nunca mais um dia atirado ao nada, nunca mais o verbo que não se completa, todas as palavras que não foram ditas - verdades -, todas elas,
uma após a outra, formando frases, pensamentos, sentimentos, amor costurando o texto, que é linha que não refuga de jeito nenhum.
Nunca mais!
O coração se magoando todo o dia, a gente engolindo sapos e lagartos e se esquecendo de que é capaz de mudar cada uma das histórias, reescrever o livro das nossas vidas.
Uma hora mais cedo e a cena teria sido outra ou o que teria acontecido
se você não tivesse ido àquele lugar, àquela noite, quando o universo conspirava contra nós, ou a nosso favor?
Quem é que vai nos explicar?
Ninguém. Ou alguém

MÃE - Miguel Falabella

 Tenho recebido mensagens que me encantam.  Os leitores encharcam suas palavras de poesia, de modo que abrir a caixa postal tem sido uma tarefa gratificante, geralmente já de madrugada, quando a cidade está embalada pelos sonhos. Crie um código, fale uma língua e acabam lhe pagando na mesma moeda. Uma irmandade secreta vai se formando nos corações - eu venho aprendendo a lição, nesses meus anos de coluna. Os bandos vão se agrupando, as escolhas vão sendo feitas - a alma escolhe a própria sociedade e depois fecha a porta, já dizia Miss Dickinson, trancada em seu quarto, nos invernos de Amherst.

Tudo isso foi para dizer que eu tenho orgulho de estar reunido a um bando tão talentoso e inspirado! Muito obrigado a todos pelos afetos, palavras, carinhos, amores e esperanças que vocês têm me enviado. Fiquei me banhando no mar de coisa bonita que derramava no meu escritório através das fibras óticas. Muito, muito bom. E quando eu digo bom, não quero dizer elogiosos, mas bem escritos, generosos, poesia do cotidiano, ar renovado, gente que olha para gente – olhares múltiplos sobre um mesmo tema. Os corações urbanos, perdidos no meio do concreto, estabelecendo contato. Gosto muito disso, com certeza.

Estou imprimindo todos e guardando. Desculpem a falta de tempo para responder, mas não acho graça em mandar uma mensagem padrão, porque cada discurso é próprio e tem sua beleza particular. Cada um de nós recebeu sua cota de dons, sejam eles quais forem. Assim sendo, vou tentando driblar o tempo e respondo um aqui, um ali, mas da forma correta.  Indivíduos. Mentes e corações.

O amor, é claro, muda o íntimo de forma irrecuperável. Fiquei numa alegria boa, um sorriso grudado no rosto. Felicidade deveria ser o natural da gente e é bom visitá-la, ainda que de vez em quando. O amor das gentes, que me chegou pela tela do computador, na cadência ritmada da impressora, foi se multiplicando e alterou o meu estado. Por isso, resolvi escrever logo a crônica, que começa agora e que justifica o título:

Tenho sentido saudades de minha mãe, ultimamente. Tenho pensado nela. Tenho nostalgia do perfume daqueles abraços, que foram únicos e inesquecíveis. O braço que pousa sobre o ombro com a graça do amor.

Tenho pensado em mãe, nesses dias que correm. E de saudade em saudade, chego nela, a maior de todas, a bem aventurada Maria, mãe do senhor Jesus - toda a doçura e amor do universo.

Tenho pensado nela, porque um amigo me contou que foi a um suposto encontro religioso e, lá, escutou o seguinte comentário da anfitriã, explicando o seu credo.

- Nossa Senhora não rola!

Enganou-se a mulher. Ela vem rolando pelos céus das nossas consciências desde sempre. Vem rogando por nós e trabalhando pelos nossos corações há tempos imemoriais!

Fiquei triste com o comentário. Fiquei agoniado mesmo, não consegui parar de pensar naquilo, assustado com a violência daquele credo. Estarrecido com o pouco nível de entendimento e o mar de desesperança que há nessas almas. Porque negá-la é negar o amor em toda a sua expressão maior. E eu não procuro outra coisa a não ser entender um pouco o amor dessas gentes.

A história me deixou tão perturbado, que passei o dia falando no assunto, buscando as lembranças dos mantos, dos andores e dos círios nas mãos dos crentes. Revisitei Nova Jerusalém, os olhos intensos de Diva Pacheco, os olhos molhados de Patrícia Pillar com o senhor morto nos braços. Todas as nossas senhoras visitei - as células de amorosa energia que cruzam nossos caminhos, para o alento e o conforto.

Daí, domingo, fui almoçar com Elba Ramalho e ficamos falando dela a tarde toda. Passei o dia com aqueles olhos doces sobre mim, enchendo meu peito de um sentimento sereno, buscando na memória as devoções familiares, as orações cheias de fé, os olhos febris dos êxtases cotidianos.

Nossa Senhora rola muito mais do que podemos supor, muito além desse pequeno conhecimento que amealhamos na passagem. Ela segue nossa trajetória acima das igrejas, templos e seitas.  Voa livre muito acima dos ouros, imagens e poder. Um plano de consciência tão superior que só podemos mesmo respirar fundo e aceitar o fato de que estamos no início da jornada.    

Tudo o que quero é dormir nos braços de Maria. Quero me aninhar no seu peito de amor infinito. Todo o mel do universo, toda a doçura e todo o tempo, que não conseguimos entender, porque primeiro vem o amor, de todas as formas e de qualquer maneira. E, como ainda não conseguimos avançar muito no seu entendimento, explica-se o atraso na viagem.

Quero, enfim, mergulhar nas águas do feminino, nas lágrimas dos teus olhos, na bondade da tua chama. Quero os olhos doces nos meus, maravilhado com a grandeza do perdão, que é outro aprendizado penoso.

Nossa Senhora rola. Roga por nós. Se um filho lhe foi tirado, em troca recebeu todos os filhos da terra. É daquele peito incendiado de amor materno que jorra o sentimento que ainda existe no planeta.

Salve, Rainha!

ALFAZEMA - Miguel Falabella

Chove no sítio. Uma chuva gorda que vai lavando a terra e deixando tudo com um brilho de esmeralda. Uma frase de Dickens chega de mansinho: não devemos ter vergonha de nossas lágrimas, porque elas são como a chuva que lava a poeira dos nossos corações ressecados. Eu adoro Dickens. Era assim que Esther Jablonski dizia, na montagem de “Mephisto”, na adaptação teatral de Ariane Mnouchkine para o livro de Klaus Mann, há já alguns anos. A chuva cai sobre a serra e eu, de nariz colado na vidraça, lembro daquele momento. Wilker dirigiu e éramos um bando no palco. Entrávamos em cena por ordem alfabética e Luís Maçãs colocava-se logo a minha frente, na penumbra da coxia, à espera do terceiro sinal. Nunca fomos muito íntimos, acho mesmo que o meu exagero às vezes o constrangia, mas era um belo ator no palco e eu fiquei triste quando soube que ele finalmente desistiu de esperar pelo terceiro sinal. Isso também já faz algum tempo. 

Estranhamente, porém, hoje eu lembro de sua nuca, parado ali, a minha frente, os colegas sussurrando frases, a música que se fazia ouvir, antes de entrarmos em cena. Percebo os contornos de sua silhueta, por detrás da cortina de água que despenca dos céus. Afasto a imagem com dificuldade e tento focar os projetos de árvores que plantei na frente da casa e que, a despeito dos comentários descrentes, de que não vingariam, resistem às intempéries do tempo com um vigor emocionante.


A macieira, que eu plantei ainda outro dia, já floriu e me ofereceu um fruto, pequeno, sem muito viço ou beleza, mas ainda assim um fruto. Digam o que disserem, é uma maçã. Solitária e de cor indefinida, parece grande demais para o caule recém brotado. Mas é um fruto, resultado do próprio esforço e agradeci do fundo do coração. A figueira, irmã de plantio, recusava-se a brotar e eu, na última vez em que estive lá, dei-lhe dois tapas no caule seco e uns gritos bem dados. A preguiçosa deixou de fazer manha e abaixa as folhas tenras sob a chuva que cai, eu vejo daqui. Brotou finalmente, achou que valia à pena.  O galho de amoreira, fincado na terra, não ouviu nenhum apelo e abriu mão de qualquer possibilidade de verde. Simplesmente, deixou-se morrer. As outras árvores em volta, excitadas com a adolescência de botões e flores, parecem não se incomodar com ela. Sua morte é apenas mais um acontecimento na ciranda dos dias. 

Eu é que fiz um estardalhaço, tentando reanimar a condenada. Tudo em vão. Esqueci daquela máxima que deveria nos nortear a existência: não existem sucessos ou fracassos. O que há são uma fileira de acontecimentos. Depois da chuva, vou arrancá-la da terra e queimá-la na lareira, numa cremação simbólica e rápida. Não há lugar para sentimentalismo na natureza. Tudo é como deveria ser – o pranto fica por conta dos nossos corações apegados e dos céu que, volta e meia, despeja sua mágoa lá de cima.

Mais tarde, quando a lua brincar no meio do breu e a chuva parar, vai ter uma grande quadrilha de tatus no meio do gramado úmido. Eu tenho certeza de que eles se sabem observados, embora eu não faça nenhum ruído, imóvel, na escuridão da casa.  Aos poucos, eles vão chegando, em fila, cruzando a extensão do gramado, indiferentes aos uivos dos cães. Brincam por ali, agradecidos pelas visitas do final de semana (o que determina a prisão noturna dos cachorros) e, depois, com aquele passo miúdo, desaparecem na mata. Vou deixar algumas frutas no meio do gramado, como oferenda. Eles vão entender.

Olhar a chuva que cai é sempre um exercício para a alma. Uma daquelas coisas que sempre vemos nos filmes e que, de vez em quando, é bom fazer. Olhar fixamente para a paisagem, lavada liberta os nós e deixa nossos corações prontos para navegar no mar da lembrança. É uma forma de meditar, eu acho. E cada vez mais eu acredito que meditação é uma coisa importante, fundamental. Gastamos tanto tempo com o corpo - com a aparência que inevitavelmente vai deteriorar-se - e estamos sempre nos esquecendo de exercitar a mente, na subjetividade. Não os exercícios intelectuais de sempre, não o afiar da lâmina, para que a inteligência seja cada vez mais cortante, mas a suavidade da mente que anda livre por aí, aparando as arestas e abrindo outros horizontes, outros estágios de consciência.

Agora mesmo, parado aqui, a respiração embaçando um retângulo da vidraça, eu desfio um rosário de contas de todas as formas e todos os jeitos, as miçangas mais preciosas de minha vida que me fazem sorrir e me emocionam e me conferem a melhor parte de ser humano. 

Olho para o mundo sob a água e percebo outros mundos, além, de tanto que olhei para o mesmo quadro. De repente, a vontade de fazer parte daquilo tudo, enfiar minhas raízes terra adentro e só ficar. Um ponto.

Como tenho convidados em casa, pulo a janela do quarto e fico olhando para o vale, enquanto a água é trazida pelo vento em chicotadas de pingos grossos, milhares deles. Um banho de chuva como há muito tempo eu não tinha. Depois, assim como veio, ela se vai e o céu se rasga ao meio, mostrando o papo amarelo. 

Um cheiro de alfazema entra pelas narinas e há um silêncio de pássaros por toda a parte. De onde virá essa essência, no meio da tarde? Certamente, vem da memória e não da terra encharcada.

Depois é um céu estrelado, um copo de vinho e as janelas abertas durante a madrugada, para que um pensamento voe livre, antes do mergulho do sono: hoje foi um dia de paz.

TRÊS DIAS ANTES DO AMOR - MIguel Falabella

Tenho corrido tanto neste início de século, que mal tenho tido tempo de aproveitar a chegada do verão - mas ele chegou, finalmente, e trouxe as mudanças de espírito que estávamos aguardando desde o início de dezembro. Chegou meio inesperado, meio molhado, mas ainda assim merecia ter sido melhor recebido, reconheço. Mas a vida vai empurrando a gente pra lá e pra cá, um passo desajeitado aqui, um pisão no pé ali, e a gente sem se dar conta de que o céu já está se tingindo de outra cor.
Dia desses, entretanto, nem sei mais porquê, cheguei na varanda e me permiti ficar na contemplação da vida que estava passando ali, embaixo da minha janela, numa tarde de janeiro. E que tarde beijava a lagoa, que grande iluminador, esse! - eu pensei comigo mesmo. Uma luz perfeita, de um amarelo vibrante, uma vontade de ficar debruçado e admirado com aquilo tudo, sem nada que quebrasse o mágico daquele momento.  Uma brisa que se podia sentir mergulhando no corpo e até ver no encrespado do espelho d’água. Fiquei lembrando de uma frase de Virginia Woolf, acho que está em Mrs Dalloway e ela se refere à beleza da manhã - como para crianças numa praia! - acho que é isso, e eu pensei que aquela tarde era o cenário ideal para crianças numa praia e todos os seus castelos de areia. E celebrei, ali, em silêncio, o meu festival do estio, acendendo o coração e enchendo as narinas com o cheiro que vinha pelo ar. O meu festival do estio.  Cheio de entidades tropicais, eu ia pensando, sereias e índios, sacis e caiporas. Dias antes, com alguns amigos, eu tinha assistido a um vídeo de um balé irlandês e ficamos comentando sobre a antiga religião celta. De repente, Mary começou a contar a história de uma raça de fadas, as pixies, na verdade humanóides alados, que habitavam as florestas da Irlanda.  Daí que, ali, pendurado na sacada, lembrei da história e fiquei inventado as minhas entidades, umas fadas brasileiras, cheias de gingado no bater de asas, despudoradas no vôo, que eu fui soltando pelo céu da minha imaginação.
O verão tira as pessoas de casa e coloca a cidade num movimento gracioso. A volta da Lagoa ia ondulando com o tanto de gente que passeava e corria e pedalava, celebrando a temporada. É bom olhar pra gente. Tem gente que gosta de observar os pássaros. Eu gosto de observar gente.  Fico inventando histórias e acontecimentos, partindo de alguém que acabou de cruzar o meu campo de visão. As histórias vão se misturando e trazendo outras e, no final, a cidade é cheia de personagens, porque é isso que elas são, na verdade.
A brisa ganhou corpo e mexeu com tudo lá embaixo. Era só uma ameaça de vento, mas não ia se concretizar. Ela soprou a calçada e um bando de folhetos fez um vôo rasteiro, para aterrisar mais adiante. Devem ser folhetos de cartomantes e adivinhos, eu pensei, porque eles proliferam nesta época do ano.
Trago a pessoa amada em três dias.
Eu adoro isso. Trago a pessoa amada em três dias.
Cada vez que alguém me entrega um desses panfletos, eu me imagino sentado numa cadeira, na frente da clássica cigana da bola de cristal. Sempre reluto, antes de atirar o papel fora. Sabe Deus quando é que vai se precisar de uma força extra!, eu penso, tentando gravar o número do telefone. E tudo porque me fascina essa única frase: trago a pessoa amada em três dias.
O que faríamos, se soubéssemos, com certeza, que dali a três dias ia chegar o amor que se foi? Não é tão simples assim, se a gente pensar bem. Se o amor chegasse com hora marcada, na estação, como alguém querido que se ausentou por um tempo, esses três dias antes do amor iam ser inacreditáveis! Afinal, esta volta com hora marcada exige um encontro impecável.
Sarita chegou sem se anunciar, pousou o queixo no meu ombro, leu o início da crônica e disse que estava sem pé nem cabeça. Depois, concluiu que não esperaria os três dias estipulados para a volta da pessoa amada.
- Não esperaria nem um! Nem um minuto! Se não esbarrasse com o cachorro na porta da cartomante, dava a visita por perdida!
E concluiu, com uma careta de desprezo:
- Quer saber do que mais? Estou chegando à conclusão de que amor é coisa pra desocupado!
Saí do computador e abandonei a crônica. Arrastei Sarita pra varanda, achando que a visão da cidade maravilhosa à noite, acalmaria aquele coração, mas ela não me deu trégua. Praticamente exigiu que eu mudasse o rumo da crônica e eu concordei, tentando não alongar a conversação. De repente, ela parou de falar.
A noite estava linda. A lua, nos céus, era uma lua árabe. A tarde generosamente tinha ofertado sua perfeição à noite. Havia uns pássaros voando na lagoa. Volta e meia um planava sob a luz e era como se ele brotasse do nada, uma mancha de branco que estendia as asas, uma, duas vezes, até desaparecer de novo na escuridão.
O que é aquilo? – Sarita espichou o pescoço, abruptamente.
São pixies – eu disse, sem pensar.
Ela me olhou com um ar de interrogação e desenhou a palavra, puxando o queixo pra baixo: pi – xies?
Eu não respondi.

NUNCA DISSE O QUANTO TE AMEI - Miguel Falabella

A coisa começou por causa de uma mariposa que estava se debatendo na pia, provavelmente queimada depois do choque com a lâmpada – o inevitável encontro entre mariposas e luzes.  Uma das asas desaparecera - nunca mais o vôo ao encontro da chama – sempre na direção da luz, como se ali, engolida por ela, pudesse voltar a ser lagarta, como se ali encontrasse outra vez a segurança do casulo.  Achei que deveria abreviar-lhe o sofrimento e atirei um jato de inseticida sobre seu corpo.   A agonia demorou mais do que supunha e acabei sendo espectador de seus últimos espasmos.

Isso, é claro, mudou definitivamente o rumo da crônica que, a princípio, assim eu acreditava, versaria sobre alguém que cavalgava na direção do sol.  O insólito momento, entretanto - eu, nu, prestes a entrar no banho, e a mariposa morrendo na bacia de pedra polida – afastou a lembrança de quem cavalgava em silhueta para longe, que era a história que eu iria contar, antes do assassinato.

Parado, olhando o estranho balé do inseto na pia clara, eu pensei que o medo começa no desencanto da tarefa incompleta. Ou na raiva da palavra nunca dita. Ou ainda no desespero do amor que foi se embora. E por isso nos assombram o breu, a solidão e a paz fria do esquecimento – só porque acreditamos, em algum momento da história, que o amor nos traria a eternidade.   Mas os nossos pequenos e cotidianos assassinatos estão sempre trazendo a lembrança da finitude dos dias – como os dessa mariposa que se contorce envenenada. Quando enfim desfez-se a miragem na areia, lembramos do tempo e sentimos medo. Depois que a porta se fechou e fez-se silêncio no aposento. Depois que você olhou pelo olho mágico e percebeu que o saguão já estava vazio. Depois que a sua respiração soou como um soluço quebrado. Depois de tudo, vem o medo.

Era nisso que eu pensava, testando a temperatura da água com as mãos, antes de entrar no banho, um pé no tapete, o outro na pedra fria. Debaixo d´água, ultimamente, tenho tido lembranças de medos futuros, eu esfregava a pele e reconhecia a carne.  O momento existencialista no chuveiro não quis que eu murmurasse as canções de sempre, não permitiu que a intimidade do banho liberasse o canto – aliás, os banhos de inverno têm me trazido imagens estranhas que não descem pelo ralo com a espuma, ficam sentadas nas prateleiras, protegidas dos respingos, ao lado das essências.   Alguns instantâneos, entre os frascos, vêm surgindo no meio da bruma em que o banheiro fica mergulhado. Alguns pedaços do mosaico, algumas portas que se abrem.

Há uma grande quantidade de estampas, no quarto que visito – a capa de um romance para moças, a heroína com os cabelos ao vento, amparada pelo galã de casaca. A novela tinha sido abandonada por uma moça de cabelos negros, sobre o banco da praça.  Ela trabalhava na farmácia, vivia pendurada no balcão e tinha o olhar assustado de quem se apercebeu da velocidade com que a vida corre, quando se está atrás de um balcão de subúrbio e a cabeça cheia de amores impossíveis. Pois era sobre isso o livro que a moça esquecia.  Corcéis selvagens, damas e cavalheiros, embriagados de um amor tão sublime, tão cheio de adjetivos e beijos de intensa paixão sob o teto florido de madressilvas. Alguma coisa do gênero.

Eu estava brincando por ali, correndo, e encontrei o exemplar. Ainda sacudi o livro nas mãos, tentando lhe chamar a atenção, mas ela não percebeu e entrou no ônibus.  Levei o livro para casa, uma edição ordinária, meio ensebada, as páginas de papel barato manchadas aqui e ali. Chamava-se Nunca disse o quanto amei e o desenho da capa parece que brilha por entre a névoa, recortado na cerâmica da parede.  Li algumas partes, não consegui ir adiante e, no dia seguinte, devolvi à moça, que me agradeceu e ponto final.

Não sei quanto tempo depois disso, mas, um dia, eu estava subindo no ônibus e alguém comentou que a moça da farmácia tinha morrido. Tinha comido formicida. Lembro que deixei o olhar ficar para trás, enquanto o ônibus avançava, buscando a porta da farmácia, como se ela pudesse aparecer ali, os cabelos ao vento como a moça da capa da novela romântica. Ficou comigo, portanto, essa imagem de mulher debruçada sobre o balcão, o olhar perdido em terras que ela jamais conheceria.  Eu era muito menino. O ônibus sacolejava e eu pensava na agonia da moça da farmácia, sabedor de que jamais conheceria sua história. Pensava nela e na formicida. Meu avô tinha um saco no galpão das ferramentas. A moça comera o veneno, disseram que ela encheu a mão com o granulado vermelho e engoliu um punhado.  Dela, só sei que nunca disse o quanto amou e que corria na direção de seu amado, gritando juras de amor, numa linguagem rebuscada, enquanto o sol morria num crepúsculo faiscante. Deve ter morrido de sonhar. De certo, foi esse o motivo. As coisas que a gente é capaz de pensar depois de matar uma mariposa.

Ah, sim! Só agora me lembrei de quem cavalgava na direção do sol. Mas essa história fica para a próxima semana.  Tem dias que mais difícil do que dizer o quanto amamos é dizer adeus. Por enquanto, fiquemos no até breve. Mas é preciso aprender.  Antes que seja tarde.

.

.
A Casa Encantada - Contos do Leblon - R$12,99

18 EXPRESSÕES RACISTAS QUE VOCÊ USA SEM SABER

18 EXPRESSÕES RACISTAS QUE VOCÊ USA SEM SABER
Entre sutilezas, brincadeiras e aparentes elogios, a violência simbólica se amplia quando expressões como estas são repetidas:

RACISMO AQUI NÃO!

RACISMO AQUI NÃO!

Anúncio

Anúncio