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A SÍNDROME DO NINHO VAZIO OU A GLÓRIA DOS MÚLTIPLOS NINHOS - Moacyr Scliar

Convenhamos, a independência dos filhos é,
 ao fim e ao cabo, um triunfo para os pais.

Ano-Novo, vida nova, é um dito clássico. Que, contudo, raramente se traduz em mudança real. Na maioria das vezes, continuamos levando nossas vidas, mantendo nossas rotinas, postergando nossos projetos revolucionários. Mas toda regra tem exceção, e o Beto Scliar é disso um exemplo: ele se mudou para seu próprio apartamento, por ele muito bem instalado e decorado. Mais do que isso, e ao menos para seus orgulhosos pais e para a Ana, está se revelando um grande dono de casa. Ou seja, é um marco em sua bela trajetória pessoal e profissional.

Em algum momento os filhos têm de sair do reduto paterno-materno. A época para isso varia de acordo com as culturas, com as famílias. Nos Estados Unidos, a independência tradicionalmente ocorre no momento em que o jovem vai para o college, que mais ou menos equivale à nossa universidade. A regra é que isso se faça com mudança de cidade (quanto mais distante melhor), e a partir daí o rapaz ou a moça terão de tomar conta de si mesmos.

Na classe média brasileira, a coisa sempre foi mais flexível, e essa flexibilidade aumentou na medida em que cresceu a expectativa de vida e na medida em que a independência, cada vez mais dependente do diploma, do mestrado, do doutorado, foi sendo adiada. Uma adolescência prolongada, portanto, mas não infinita (ou, parafraseando Vinicius, infinita enquanto dura). De qualquer modo, a ideia da família extensa, que até era um costume no período colonial (entre os ricos ao menos) foi ficando coisa do passado.

Claro, é uma mudança, e toda a mudança tem suas implicações. Amigos nos perguntaram, e com razão, se já estamos com a síndrome do ninho vazio. A expressão, provavelmente de origem americana (“empty nest syndrome”) é muito conhecida; remete a quase 200 mil referências no Google, a dezenas de artigos que analisam esta situação. Os autores apontam algumas vantagens (o refrigerador não é mais saqueado pelo filho e pelos amigos, a mãe não tem mais que arrumar quartos que parecem um cenário de guerra, a casa fica mais silenciosa), mas reconhecem que esta ordem, esta limpeza, este silêncio podem ter o seu lado melancólico. E aí sucedem-se os conselhos tipo autoajuda, que incluem até indicações de terapia.

Será que é para tanto? Convenhamos, a independência dos filhos é, ao fim e ao cabo, um triunfo para os pais. O ninho poderá ficar um tanto vazio, mas a verdade é que outro ninho surge, não raro vários deles. São casas que acolhem os pais, são lugares que lhe proporcionam surpresas. É a nossa superfície de contato com o mundo que se expande, e isso sempre é consolador.

Não é de admirar, pois, que repetidos estudos realizados a respeito (nos Estados Unidos, obviamente; onde mais?) mostrem que o índice de felicidade conjugal, avaliado através de indicadores, melhora quando os ninhos ficam múltiplos, e quando o casal pode, de certa forma, se redescobrir.

Voar É com os Pássaros era o título de um antigo e clássico filme. Não, voar não é só com os pássaros. Nós também voamos, seja nos aviões (quando os voos não são cancelados), seja através de nossa imaginação. Cada ninho, onde quer que esteja, é uma base para os sonhos. Entre eles, claro, o sonho de nossa própria casa.
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FREUD EXPLICA O CARNAVAL - Moacyr Scliar

 

A nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo, mora um sujeito meio atucanado chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Como essas tarefas fazem parte da vida cotidiana, Ego até que não se queixa. O pior é ter que conviver com os dois outros moradores.

O andar superior é decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral. Aí vive um irascível senhor chamado Superego que dedica todos os seus esforços a uma única coisa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de uma boa piada e ri, ou atreve-se a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre, exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte que não quer festinhas em domicílio.

No porão sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id, que não tem modos, não tem cultura, na verdade, mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta essas coisas, exige que Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. É o que acontece durante todo o ano.

No carnaval, contudo, Id se solta. Arromba o portão do porão e vai para a folia, arrastando o perplexo Ego, que num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebidas, mulheres.

Quando volta pra casa na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ego sabe que errou e, humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id volte ao seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exatamente um ano.

De vez em quando Ego tem um sonho. Imagina que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco e que juntos, se divertem a valer. O Superego é inclusive, o folião mais animado. Mas isso, naturalmente, é apenas um sonho.”
Crônica de Moacyr Scliar (Jornal Zero Hora, 08/02/97)

 
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AS DOENÇAS DA PAIXÃO - Moacyr Scliar

No clássico "A Montanha Mágica" Thomas Mann coloca na boca de um médico, o doutor Krokowski, palavras que se tornaram célebres: "Os sintomas da doença nada mais são do que uma disfarçada manifestação do poder do amor; toda doença é uma paixão transformada." Não se trata, propriamente, de uma afirmativa original; já o dissera o poeta alemão Novalis, no começo do século XIX: "Nossas enfermidades são resultado de uma sensibilidade exagerada."

Esta é uma idéia antiga. A medicina hipocrática fala dos humores, que governam o nosso temperamento e nos tornam sujeitos a certas doenças. Um destes humores é o sangue. A pessoa que tem temperamento sanguíneo é vivaz, cheia de energia. Mas se há excesso de sangue - a pletora - pode ocorrer uma apoplexia, ou seja, um acidente vascular cerebral de tipo hemorrágico. Pletóricos eram tratados com sangria, cujo objetivo era remover o excesso de sangue.

A medicina chinesa distingue entre as causas externas do doença (clima, alimentação) e causas internas, que são basicamente emocionais. Mais recentemente criou-se a expressão doença psicossomática, para designar aquela situação em que os problemas emocionais geram doença, através sobretudo do estresse - outro termo moderno, este cunhado por Hans Selye. Na Universidade de Washington foi organizada uma escala de estresse, com pontuação; um dos valores mais altos (73 pontos) corresponde ao divórcio.

Seja através dos efeitos somáticos (hormonais, imunitários) seja através das repercussões na mente, as paixões reprimidas, contrariadas ou mal-sucedidas adoecem as pessoas. Isto ficou muito claro à época do longo (1837-1901) reinado da rainha Vitória na Grã-Bretanha. Entre os vitorianos a repressão sexual, através de uma educação em que o castigo corporal era a regra, podia gerar perversões que às vezes chegavam ao crime, como o mostra a sombria trajetória de Jack, o Estripador.

Também eram freqüentes os casos de histeria. O nome, que vem do grego hysteron, útero, mostra que o problema era considerado principalmente feminino, ainda que homens não estivessem imunes a ele. Vários quadros eram descritos. Em primeiro lugar, o ataque histérico propriamente dito: a mulher alternadamente chorava ou ria, tinha convulsões semelhantes à da epilepsia, eventualmente desmaiava. A paciente às vezes queixava-se do globus hystericus, uma sensação de bola na garganta. Também podiam ocorrer paralisias histéricas, em geral de um braço - sem que a paciente se mostrasse impressionada, situação descrita como la belle indiférence, a bela indiferença.

Estes casos foram estudados, a partir de 1870, pelo famoso doutor Jean Martin Charcot, em Paris. Com ele, estagiava um jovem médico vienense, Sigmund Freud. Discutindo com Charcot a origem da histeria, Freud ouviu dele uma afirmação reveladora: "C\\`est toujours la chose génitale", é sempre a coisa genital. A partir daí Freud começou a desenvolver a teoria da qual resultaria a psicanálise, na qual a repressão da libido é vista como causa de doença psíquica.

Adoece-se de paixão contrariada, morre-se de amor não correspondido. Esta era uma visão freqüente na época romântica, em que jovens poetas e artistas morriam mesmo muito cedo (mas de tuberculose, como foi o caso de Castro Alves). A isto deve-se acrescentar os casos de suicídio, de alcoolismo, de uso de drogas.

Mas o amor ajuda a viver. Não estamos falando só da preservação da espécie humana; o amor, o carinho, preservam a vida. A expectativa de vida de casados que estão juntos há muito tempo é bem maior que a de solteiros, de divorciados, de viúvos. O Elixir do Amor, que dá título à ópera de Donizetti, é também o elixir da longa vida.

MOACYR SCLIAR - As palavras e o Silêncio

Os últimos diálogos:
18:48:34 Co-piloto: "Desacelera, desacelera!"
18:48:40 Piloto: "Não dá, não dá... Ai, meu Deus!"

Desde criança tinha um sonho: queria ser escritor, autor de livros como aqueles que lia (lia, não: devorava) na escola: as obras de josé de alencar, de machado de assis, de graciliano ramos. Muito cedo começou a rabiscar historinhas que mostrava com orgulho para os professores e para os pais. Todos o encorajavam, diziam que deveria prosseguir, que tinha muito talento. Mas disso ele próprio duvidava. A verdade é que se sentia muito distante dos grandes mestres.

Não tinha fôlego, parecia-lhe, para escrever uma obra como as de Shakespeare, autor que admirava, embora nem sempre o entendesse. Uma constatação que o deixava deprimido. E mais deprimido ficou quando, a conselho dos pais e dos amigos, começou a estudar letras.

Quanto mais autores famosos conhecia, mais se envergonhava de seu próprio trabalho, coisa de simplório amador. Os seus diálogos, por exemplo, eram fracos, banais, nada que chegasse aos pés dos diálogos escritos por Shakespeare, diálogos que traduziam todos os dramas que as pessoas podem viver.

Um dia, e de repente, ocorreu-lhe uma resposta. Um grande tema, era isso o que lhe faltava. Um tema que pudesse ser expresso através de diálogos fortes, transcendentes. Mas que tema poderia ser esse? Na sua própria vida nada acontecia que o motivasse. Era uma vida tranqüila, sem grandes problemas.
Os pais, ele, advogado, ela, médica, não eram ricos, mas podiam sustentá-lo confortavelmente. Moravam numa boa casa, onde ele tinha seu quarto, sua tevê, seu computador.

Nunca passara fome, nem ele nem a irmã mais velha, que aliás era a companheira, a confidente com quem podia contar sempre. Nunca tivera doenças graves, era um jovem atlético (jogava basquete), simpático. Namoradas estavam ao seu alcance à hora que quisesse.

Grandes escritores muitas vezes são pessoas atormentadas, angustiadas. Não era seu caso. E por essa razão, era o que achava, não tinha sobre o que escrever. Faltava-lhe uma tragédia. Então ocorreu o acidente aéreo.

Medonha catástrofe, dezenas de vítimas. Olhando a tevê, ele, como tantos outros, chorou de emoção. Ocorreu-lhe escrever uma história a respeito. Uma história que retratasse a agonia humana numa tragédia como aquela e que a expressasse por meio de diálogos: entre os passageiros, entre os pilotos.
Sem demora, sentou-se ao computador. Mas aí viu, sobre a mesa, o jornal daquele dia, com a transcrição dos últimos diálogos gravados na caixa preta. 

Ele os leu, ou melhor, releu. Eram palavras simples aquelas, palavras que poderiam fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, mesmo que essa pessoa não escrevesse: ""Desacelera, desacelera!", "Não dá, não dá... Ai, meu Deus!"
Desligou o computador. Nada mais havia a ser dito ou escrito. Nesse momento ocorreram-lhe as palavras daquele distante autor inglês, Shakespeare: o resto é silêncio.

MOACYR SCLIAR - De volta ao primeiro beijo


"O primeiro beijo é uma coisa muito falada. Sem dúvida é uma experiência muito marcante, inesquecível. O primeiro beijo é uma maturação, uma descoberta. Ao mesmo tempo, para alguns, ele pode ser um monstro assustador", diz o cineasta Esmir Filho, diretor de "Saliva".
O filme conta como Marina, uma garota de 12 anos, é pressionada a dar o seu primeiro beijo no experiente Gustavo.
TINHA ACABADO de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília -disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que freqüentemente a recordasse -e agora, ela lhe ligava. Como que adivinhando o pensamento dele, ela explicou: - Estou no hospital, Sérgio. Com uma doença grave... E queria ver você. Pode ser? - Claro -apressou-se ele a dizer- eu vou aí agora mesmo. Anotou rapidamente o endereço, vestiu o casaco, saiu, tomou um táxi. No caminho foi evocando aquele namoro, que infelizmente não durara muito tempo -o pai dela, militar, havia sido transferido para o Norte, com o que perdido o contato -mas que o marcara profundamente. Nunca a esquecera, ainda que depois tivesse beijado várias outras moças, uma das quais se tornara a sua companheira de toda a vida, mãe de seus três filhos, avó de seus cinco netos. E não a esquecera por causa daquele primeiro beijo, tão desajeitado quanto ardente.
Chegando ao hospital foi direto ao quarto. Bateu; uma moça abriu-lhe a porta, e era igual à Marília: sua filha. Ele entrou e ali estava ela, sua primeira namorada. Quase não a reconheceu. Envelhecida, devastada pela doença, ela mal lembrava a garota sorridente que ele conhecera. Consternado, aproximou-se, sentou-se junto ao leito. A filha disse que os deixaria a sós: precisava falar com o médico.
Olharam-se, Sérgio e Marília, ele com lágrimas correndo pelo rosto. - Você sabe por que chamei você aqui? -perguntou ela, com esforço. - Porque nunca esqueci você, Sérgio. E nunca esqueci o nosso primeiro beijo, lembra? Na porta da minha casa, depois do cinema... - Claro que lembro, Marília. Eu também nunca esqueci você... - Pois eu queria, Sérgio... Eu queria muito... Que você me beijasse de novo. Você sabe, os médicos não me deram muito tempo... E eu queria levar comigo esta recordação...
Ele levantou-se, aproximou-se dela, beijou os lábios fanados. E aí, como por milagre, o tempo voltou atrás e de repente eles eram os jovenzinhos de décadas antes, beijando-se à porta da casa dela. Mas a emoção era demais para ele: pediu desculpas, tinha de ir. A filha, parada à porta do quarto, agradeceu-lhe: você fez um grande bem à minha mãe. E acrescentou, esperançosa: - Acho que ela agora vai melhorar. Não melhorou. Na semana seguinte, Sérgio viu no jornal o convite para o enterro. Mas, ao contrário do que poderia esperar, apenas sorriu. Tinha descoberto que o primeiro beijo dura para sempre. Ou pelo menos assim queria acreditar.

MOACYR SCLIAR - As palavras e o silêncio


DESDE CRIANÇA tinha um sonho: queria ser escritor, autor de livros como aqueles que lia (lia, não: devorava) na escola: as obras de José de Alencar, de Machado de Assis, de Graciliano Ramos. Muito cedo começou a rabiscar historinhas que mostrava com orgulho para os professores e para os pais. Todos o encorajavam, diziam que deveria prosseguir, que tinha muito talento. Mas disso ele próprio duvidava. A verdade é que se sentia muito distante dos grandes mestres.
Não tinha fôlego, parecia-lhe, para escrever uma obra como as de Shakespeare, autor que admirava, embora nem sempre o entendesse. Uma constatação que o deixava deprimido. E mais deprimido ficou quando, a conselho dos pais e dos amigos, começou a estudar letras.
Quanto mais autores famosos conhecia, mais se envergonhava de seu próprio trabalho, coisa de simplório amador. Os seus diálogos, por exemplo, eram fracos, banais, nada que chegasse aos pés dos diálogos escritos por Shakespeare, diálogos que traduziam todos os dramas que as pessoas podem viver.
Um dia, e de repente, ocorreu-lhe uma resposta. Um grande tema, era isso o que lhe faltava. Um tema que pudesse ser expresso através de diálogos fortes, transcendentes. Mas que tema poderia ser esse? Na sua própria vida nada acontecia que o motivasse. Era uma vida tranqüila, sem grandes problemas.
Os pais, ele, advogado, ela, médica, não eram ricos, mas podiam sustentá-lo confortavelmente. Moravam numa boa casa, onde ele tinha seu quarto, sua tevê, seu computador.
Nunca passara fome, nem ele nem a irmã mais velha, que aliás era a companheira, a confidente com quem podia contar sempre. Nunca tivera doenças graves, era um jovem atlético (jogava basquete), simpático. Namoradas estavam ao seu alcance à hora que quisesse.
Grandes escritores muitas vezes são pessoas atormentadas, angustiadas. Não era seu caso. E por essa razão, era o que achava, não tinha sobre o que escrever. Faltava-lhe uma tragédia. Então ocorreu o acidente aéreo.
Medonha catástrofe, dezenas de vítimas. Olhando a tevê, ele, como tantos outros, chorou de emoção. Ocorreu-lhe escrever uma história a respeito. Uma história que retratasse a agonia humana numa tragédia como aquela e que a expressasse por meio de diálogos: entre os passageiros, entre os pilotos.
Sem demora, sentou-se ao computador. Mas aí viu, sobre a mesa, o jornal daquele dia, com a transcrição dos últimos diálogos gravados na caixa preta. Ele os leu, ou melhor, releu. Eram palavras simples aquelas, palavras que poderiam fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, mesmo que essa pessoa não escrevesse: ""Desacelera, desacelera!", "Não dá, não dá... Ai, meu Deus!"
Desligou o computador. Nada mais havia a ser dito ou escrito. Nesse momento ocorreram-lhe as palavras daquele distante autor inglês, Shakespeare: o resto é silêncio.

MOACYR SCLIAR - Uma estranha e admirável mulher

A vida de Florence Nightingale, 
a criadora da moderna enfermagem, daria um romance.

Este agosto assinala o centenário de falecimento de uma mulher cuja trajetória foi absolutamente fascinante. Estamos falando de Florence Nightingale (1820 1910), a criadora da moderna enfermagem (por causa dela este é também o Ano Internacional da Enfermagem, uma categoria que merece entusiásticos aplausos), e cuja vida, como se costuma dizer, daria um romance. Era de família próspera; os Nightingale viajavam constantemente pela Europa, o que aliás explica o seu nome: nasceu em Florença, a segunda das duas filhas do casal. Os pais eram pessoas religiosas, gente tradicional: Florence estava destinada a receber uma boa educação, a casar com um cavalheiro de fina estirpe, a ter filhos, a cuidar da casa e da família. Mas logo ficou claro que a menina não se conformaria a esse modelo. Era diferente; gostava de matemática, e era o que queria estudar (os pais não deixaram). Aos 16 anos, algo aconteceu: Deus falou-me escreveu depois e convocou-me para servi-lo. Um episódio que poderia caracterizá-la como uma mística, mas, diz o historiador Lytton Strachey, a moça estava longe de ser uma beata desligada da realidade.

Servir a Deus significava, para ela, cuidar dos enfermos, e especialmente dos enfermos hospitalizados. Naquela época, os hospitais curavam tão pouco e eram tão perigosos (por causa da sujeira, do risco de infecção) que os ricos preferiam tratar-se em casa. Hospitalizados eram só os pobres, e Florence preparou-se para cuidar deles, praticando com os indigentes que viviam próximos à sua casa. Viajou por toda a Europa, visitando hospitais. Coisa que os pais não viam com bons olhos: enfermeiras eram consideradas pessoas de categoria inferior, de vida desregrada. Mas Florence foi em frente e logo surgiu a oportunidade para colocar em prática o que aprendera. Naquela época, Inglaterra e França enfrentavam Rússia e Turquia na guerra da Crimeia. Sidney Herbert, membro do governo inglês e amigo pessoal, pediu-lhe que chefiasse um grupo de enfermeiras enviadas para o front turco, uma tarefa a que Florence entregou-se de corpo e alma: cuidava incansavelmente dos pacientes, percorrendo enfermarias à noite; era a "dama da lâmpada", segundo a expressão do Times de Londres. Florence providenciava comida, remédios, agasalhos, além de supervisionar o trabalho das enfermeiras. Mais que isso, fez estudos estatísticos (sua vocação matemática enfim triunfou) mostrando que a alta mortalidade dos soldados resultava das péssimas condições de saneamento. Seus méritos foram reconhecidos, e ela recebeu uma importante condecoração da rainha Vitória.

Isso tudo não quer dizer que Florence fosse, pelos padrões habituais, uma mulher feliz. Para começar, não havia, em sua vida, lugar para ligações amorosas. Cortejou-a o político e poeta Richard Milnes, Barão Houghton, mas ela rejeitou-o. Ao voltar da guerra, algo estranho lhe aconteceu: recolheu-se ao leito e nunca mais deixou o quarto. É possível, e até provável, que isso tenha resultado de brucelose, uma infecção crônica contraída durante a guerra; mas havia aí um óbvio componente emocional, uma forma de fuga da realidade. Contudo - Florence era Florence - mesmo acamada, continuou trabalhando intensamente. Colaborou com a comissão governamental sobre saúde dos militares, fundou uma escola para treinamento de enfermeiras, escreveu um livro sobre esse treinamento.

MOACYR SCLIAR - O amor à distância

Os brasileiros estão ficando cada vez mais móveis. Nascem em uma cidade, estudam em outra cidade, arranjam trabalho (quando arranjam trabalho) numa terceira, numa quarta, numa quinta cidade. Uma situação que repercute nas amizades, na relação com parentes e até na vida dos casais. Não é raro hoje que homem e mulher passem algum tempo, às vezes um longo tempo, separados. No caso de gente jovem, esta situação pode resultar de vestibular: o rapaz vai cursar a faculdade num lugar, a moça em outro. Curiosamente, problemas também surgem quando os dois fazem vestibular para uma mesma faculdade. A Folha de São Paulo publicou uma matéria a respeito, mostrando os conflitos que emergem quando o casalzinho está disputando uma vaga. Um psicoterapeuta foi ouvido a respeito e acabou confessando que ele próprio terminara um relacionamento quando, ao contrário da namorada, passara no vestibular: “Eu não tinha com quem comemorar.”

***
Mesmo quando os dois podem comemorar juntos, a perspectiva de uma separação geográfica não é agradável. Verdade que no passado, quando a comunicação e as viagens eram difíceis, isto era ainda pior. Freqüentemente a paixão dependia da correspondência, do correio. Cartas de amor acabaram fazendo história, e isto foi o que aconteceu com os tristemente famosos amantes do século doze, Abelardo e Heloísa.

Pedro Abelardo era um famoso professor de filosofia e teologia em Paris. Entre seus alunos, estava a bela e brilhante Heloísa, por quem o mestre apaixonou-se perdidamente: "... nossa paixão não omite qualquer dos graus do amor e se orna de tudo aquilo que o amor pode inventar de raro." Chegaram a ter um filho, casaram secretamente, mas o tio de Heloísa, o cônego Fulbert, era contrário à união e ameaçou os dois. Abelardo levou a amada para uma abadia; pensando que ele tivesse abandonado a sobrinha, Fulbert contratou bandidos que atacaram e emascularam Abelardo. Definitivamente separado de Heloísa, ele tornou-se monge. Os dois mantiveram uma longa correspondência, que até hoje nos impressiona pela intensidade da paixão.

***
Será que o e-mail susbtitui as cartas de amor? Será que Abelardo e Heloísa passariam à História usando a linguagem típica das mensagens eletrônicas, tipo “Naum esqueci de vc”? E onde está o papel, manchado de lágrimas? E a trêmula caligrafia?

Não adianta chorar pelo leite derramado (nem pelo pranto derramado). Vivemos novos tempos e temos de nos adaptar a eles. O importante é que as pessoas continuam se querendo. A tecnologia e os hábitos mudam. O amor, mesmo à distância, continua igual.

MOACYR SCLIAR - Mantendo a forma

Não é raro encontrar casais que se propõem a seguir um programa de exercícios físicos em conjunto, seja para passar mais tempo lado a lado, seja para ter uma companhia agradável durante a atividade. No entanto, conciliar preferências, aptidões e objetivos não é fácil. Um quer definir os músculos, o outro, apenas ganhar um pouco mais de condicionamento físico. Ao lado de uma pessoa extremamente competitiva, está outra que só quer relaxar no final do dia. Quando mal resolvidos, os conflitos podem desestimular e levar ao abandono da prática.

APARENTEMENTE eles não tinham problema algum na vida: formavam um casal moderno, bem equilibrado, levavam uma vida confortável num excelente apartamento onde recebiam com frequência os numerosos amigos. Ele, advogado bem sucedido, ela, professora universitária de prestígio internacional, consideravam-se ambos realizados do ponto de vista profissional. Ah, sim, e não tinham problemas financeiros.
Mas algo os incomodava: o sedentarismo. Nenhum dos dois praticava atividade física. Frequentadores habituais de bons restaurantes, tanto ele como ela estavam com vários quilos a mais, o que a ambos aborrecia. Por outro lado, tinham de reconhecer que faltava-lhes persistência: começavam a fazer exercícios, mas acabavam desistindo. Um amigo aconselhou-os a exercitarem-se juntos, o que lhes pareceu uma boa ideia.
Mas foi aí que começaram os conflitos. Eles, que não discordavam em nada, descobriram que, nessa área, suas preferências não podiam ser mais divergentes.
Ela queria correr, ele queria caminhar; ela achava que meia hora de exercício por dia era suficiente, ele falava em uma hora ou mais. A certa altura decidiram matricular-se em uma academia e foi pior. Ela queria que ele ficasse a seu lado na esteira, ele preferia a bicicleta ergométrica diante da tevê. As discussões e as brigas se sucediam.
O amigo, a quem falavam sobre essas desavenças, disse que eles talvez necessitassem de uma pessoa que os orientasse, e que servisse, por assim dizer, como conciliadora. Ele conhecia um ótimo personal trainer; quem sabe eles o procuravam?
A sugestão não poderia ter sido pior. O personal trainer era um jovem atlético, bonito, simpático -mas, para o gosto dele, atlético demais, bonito demais, simpático demais. Começou a achar que a mulher estava interessada no rapaz. Mais discussões, mais brigas e eles acabaram por se separar.
Obviamente não havia nada entre ela e o personal, de modo que ficaram sozinhos, cada um em seu apartamento. Um dia, porém, e por acaso, encontraram-se numa festa. Voltaram a se falar, saíram juntos e terminaram a noite no apartamento dela.
Retomaram a vida conjugal e, segundo ele, num novo patamar: estão praticando intensivamente um tipo especial de atividade física, obrigatoriamente feita em conjunto, e para a qual nenhum equipamento é necessário, a não ser uma cama (e às vezes o chão também serve). Dado o entusiasmo dos dois, o gasto calórico é apreciável. Talvez por causa disso, ambos estão delgados e elegantes. Paixão emagrece. E deixa a pessoa em forma. Em forma emocional, pelo menos.

MOACYR SCLIAR - A corrente da vida

Mulher é presa após engolir corrente de ouro em joalheria. Uma dona-de-casa de 52 anos foi presa após engolir uma corrente de ouro numa joalheria do centro do Rio. Ela foi indiciada por tentativa de furto. Uma radiografia confirmou que a corrente está em seu estômago. Quando expelir a peça, a mulher será encaminhada à cadeia. Segundo a polícia, Fátima Carceiro foi a uma joalheria e pediu para ver jóias. Enquanto tirava peças da vitrine, o vendedor percebeu o sumiço de uma corrente. Ele desconfiou e chamou a polícia. Fátima admitiu o furto. Cotidiano

"SENHOR" delegado, antes de mais nada, e ao contrário de outras pessoas acusadas que clamam inocência, quero lhe dizer que admito minha transgressão. Mais: sempre soube que acabaria presa. É um destino que está no meu nome. Quem se chama Carceiro, senhor delegado, dificilmente escapará ao cárcere, não é mesmo?
Isto posto, quero dizer que não estou arrependida. Ao contrário, sinto-me perfeitamente tranquila. Fiz o que queria fazer. Há muito tempo eu cobiçava esta corrente de ouro, senhor delegado. Era a joia da minha vida, feita por um artista joalheiro especialmente para mim. Prova disso é que ficou exposta um tempão e ninguém a levou. A corrente de ouro estava à minha espera.
Mas havia um problema: eu não tinha dinheiro para comprá-la. Essa desigual distribuição de renda, o senhor sabe... Uma coisa que precisa ser corrigida, e decidi tomar a iniciativa neste sentido. Resolvi apossar-me da corrente. Não foi difícil: entrei na joalheria, pedi para ver pulseiras, anéis, colares. E a corrente. Enquanto o vendedor tirava uma joia da vitrine eu, mais que depressa, engoli a corrente. Engoli sem água, em seco, e olhe que uma corrente não é um comprimido qualquer. Mas é que a corrente queria ser engolida, sabe? Queria, por assim dizer, pular para dentro de mim.
Agora: tive um pequeno azar. Eu esperava que o vendedor, tendo colocado tanta coisa sobre o balcão, não desse falta da corrente. Mas era um obsessivo esse vendedor. Sabia de cada joia da loja, e assim imediatamente perguntou pela corrente. Chamou a polícia e aqui estou. Muito contente, senhor delegado. Fiz o que podia fazer. Eu não sou daquelas pessoas que escondem dinheiro na cueca, em primeiro lugar porque não tenho contato com certos políticos e porque não uso cueca, só calcinha, que não serve para essas coisas. Depois, engoli algo que vale a pena. Não foi um panetone vagabundo, desses que os políticos distribuem no Natal. Foi uma corrente de ouro. Que está dentro de mim, quietinha e feliz.
Por pouco tempo, acha o senhor. E é aí que o senhor se engana, senhor delegado. Porque sofro de prisão de ventre: posso passar dias sem evacuar. Isto, que sempre foi um transtorno, agora revela-se um benefício, permitindo que eu fique mais tempo com a minha corrente. Se e quando ela sair, não será mais a mesma corrente. Algo dela, uma pequena partícula que seja, terá se desprendido e terá sido incorporada a meu organismo. Eu e a corrente seremos uma coisa só, senhor delegado. A corrente da vida levou-me à vitória, deu-me uma recompensa que ninguém jamais me arrebatará."

MOACYR SCLIAR - A noite em que os hotéis estavam cheios


O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.

Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.

E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!

O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:

O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?

O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.

Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.

O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.

No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.

O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:

Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.

O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.

Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.

MOACYR SCLIAR - Lágrimas e testosterona

Atenção, mulheres, está demonstrado pela ciência: chorar é golpe baixo. As lágrimas femininas liberam substâncias, descobriram os cientistas, que abaixam na hora o nível de testosterona do homem que estiverem por perto, deixando o sujeito menos agressivos. Os cientistas queriam ter certeza de que isso acontece em função de alguma molécula liberada — e não, digamos, pela cara de sofrimento feminina, com sua reputação de derrubar até o mais insensível dos durões. Por isso, evitaram que os homens pudessem ver as mulheres chorando. Os cientistas molharam pequenos pedaços de papel em lágrimas de mulher e deixaram que fossem cheirados pelos homens. O contato com as lágrimas fez a concentração da testosterona deles cair quase 15%, em certo sentido deixando-os menos machões. (Publicado no caderno Ciência, 7 de Janeiro de 2011)


Ele vivia furioso com a mulher. Por, achava ele, boas razões. Ela era relaxada com a casa, deixava faltar comida na geladeira, não cuidava bem das crianças, gastava de mais. Cada vez porém, que queria repreendê-la por urna dessas coisas, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente perdia o ânimo, derretia. Acabava desistindo da briga, o que o deixava furioso: afinal, se ele não chamasse a mulher à razão, quem o faria? Mais que isso, não entendia o seu próprio comportamento. Considerava-se um cara durão, detestava gente chorona.

Por que o pranto da mulher o comovia tanto? E comovia-o à distância, inclusive. Muitas vezes ela se trancava no quarto para chorar sozinha, longe dele. E mesmo assim ele se comovia de uma maneira absurda.

Foi então que leu sobre a relação entre lágrimas de mulher e a testosterona, o hormônio masculino. Foi urna verdadeira revelação. Fina! mente tinha uma explicação lógica, científica, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas diminuíram a testosterona em seu organismo, privando-o da natural agressividade do sexo masculino, transformando o num cordeirinho.

Uma idéia lhe ocorreu: e se tomasse injeções de testosterona? Era o que o seu irmão mais velho fazia, mas por carência do hormônio.

Com ele conseguiu duas ampolas do hormônio. Seu plano era muito simples: fazer a injeção, esperar alguns dias para que o nível da substância aumentasse em seu organismo e então chamar a esposa à razão.

Decidido, foi à farmácia e pediu ao encarregado que lhe aplicasse a testosterona, mentindo que depois traria a receita. Enquanto isso era feito, ele. de repente caiu no choro,um choro tão convulso que o homem se assustou: alguma coisa estava acontecendo?

É que eu tenho medo de injeção, ele disse, entre soluços. Pediu desculpas e saiu precipitadamente. Estava voltando para casa. Para a esposa e suas lágrimas.

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