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NOSSAS TRILHAS SONORAS - Nelson Motta

Talvez essa nostalgia seja o combustível da onda de sucesso 
dos musicais de teatro sobre Cazuza, Tim Maia, Renato Russo, Raul...

Você não acha que a música brasileira de hoje está pior do que nunca? Ouço essa pergunta há muitos e muitos anos, geralmente vinda de gente com mais de 40, nostálgica do tempo em que era jovem — e se sentia moderna. Envelhecer é da vida, mas ficar antigo é insuportável… rsrs.

Alguns acham que a música popular de massa, como fenômeno tipico do século XX, à medida em que foi aumentando a quantidade de autores e consumidores, foi diminuindo em qualidade artística, se avaliada por critérios técnicos absolutos, acima do tempo e da história. Uma discussão chata e inútil diante da infinidade de músicas de alta qualidade de todos os estilos, antigos e modernos, de todos os lugares, que foi e continua sendo digitalizada e está à disposição de qualquer um. Para quem gosta de música o melhor presente é viver na era da internet.

Trilha sonora de nossa história pessoal e coletiva, a música acompanha nossas vidas e expressa nossos sentimentos, os gostos e desgostos de cada um. Atualmente, com a quantidade torrencial que é produzida e divulgada a cada segundo, fica cada vez mais difícil encontrar excelência musical no meio de tanto lixo sonoro, mas ela está lá. Não é preciso citar tantos novos nomes de talento, nem dizer que os mais velhos continuam produzindo em alto nível. É melhor ouvir do que reclamar.

Talvez essa nostalgia seja o combustível da onda de sucesso dos musicais de teatro sobre Cazuza, Tim Maia, Renato Russo, Raul Seixas, Clara Nunes, Luiz Gonzaga, e de vários em produção sobre artistas de diversos estilos e gerações. Se a base de um musical é a qualidade das canções, o repertório de sucessos originais desses artistas é insuperável. No Brasil, ou na Broadway.

Hoje, a maioria do publico que lota os teatros é de 40 para cima, mas cada vez mais jovens são atraídos pelos musicais — e são os mais entusiasmados com as velhas novidades.

Mas o musical, pela própria natureza absurda de sua linguagem, de contar uma história cantando e dançando, não pode ser uma biografia, é só fantasia e magia teatral, com o poder de criar beleza e emoção com a memória e a imaginação.

MÚSICA, DANÇA E SILÊNCIO - Nelson Motta

Quando o velho gramofone deu lugar aos novos tocadiscos, na virada dos anos 20, a festa começou. O lugar do gramofone era a sala de casa, onde as famílias se reuniam para ouvir ópera e música clássica. Com as vitrolas e os discos de galalite, muito mais práticos e com melhor qualidade sonora, a música gravada se tornou popular. E foi para as ruas, para os salões e para galpões transformados em pistas de dança, onde, atrás das cortinas, tocavam as “orquestras invisíveis”. Daí para as raves e os bailes funk foi um pulo.

A partir dessas ilusões sonoras as festas viraram trabalho para muita gente, se tornaram um negócio, um hábito de consumo de receita infalível: música, bebida e dança para todos os gostos e bolsos. Da favela aos clubes chiques, dos bares bagaceiros aos salões elegantes, a indústria festeira cresce sempre, até mesmo em tempos de crise, quando há pouco a celebrar, e por isso mesmo ela é mais urgente.

E como não há festa sem música, é desse encontro de interesses que vive e cresce a musica dançante. É nas pistas da noite que acontecem as modernas formas da ancestral “dança do acasalamento” dos documentários de National Geographic. Muita gente diz que ama a dança pela dança e a ela se entrega com paixão, mas desde os cabarés, os dancings, as boates, discotecas, danceterias, raves e bailões, ela e a música não são a principal motivação das festas.

São o cenário, a oportunidade e a trilha sonora para ver e ser visto, para dar uns beijos, ficar com, ou pegar alguém.

Se para dançar a música é uma solução, para fazer ambiente é um problema.

Como bem disse Chico Buarque, se ela é boa, distrai a atenção e atrapalha a conversa, e se é ruim … então para que ouvir? A cada salto tecnológico, a música adquiriu novas funções. Hoje está em toda parte, no ar, nas ruas, nos celulares e laptops. E o silêncio nunca foi tão valorizado.

Apesar de todo o meu esforço e de muitas horas de trabalho, sorry leitores, mas sinceramente acho que esta crônica ficou meio boba. Quanto sacrifício para não falar, provavelmente impropérios e grosserias, sobre as paixões eleitorais.
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O INÍCIO DO FIM DOS MEIOS SUJOS - Nelson Motta

Os doadores estão cabreiros e tirando o deles da reta, os tesoureiros das campanhas, à beira de um ataque de nervos: as caixas 1 e 2 estão à míngua. O primeiro mensaleiro não só foi condenado como recebeu histórica descompostura dos ministros Cezar Peluso e Celso de Mello, como um delinquente com a marca da indignidade e o estigma da desonestidade.

Independentemente de condenações ou absolvições individuais, é um grande avanço para a democracia o Supremo Tribunal Federal firmar jurisprudência sobre a criminalização do uso político do caixa 2 - sejam quais forem os meios e os fins - e começar a acabar com um dos mais nefastos e antidemocráticos vícios da política brasileira, lastreado no cinismo do "todos fazem" e na promiscuidade com os doadores.

O ladrão em causa própria, seja de galinhas ou de verbas públicas, dá prejuízos pontuais a pessoas físicas ou jurídicas, ou ao Estado, que podem ser ressarcidos se o criminoso for condenado. Usar dinheiro sujo para fraudar o processo eleitoral, manipular a vontade popular, corromper políticos, comprar vantagens para seu partido para impor a sua crença, provoca irreparáveis danos para toda a sociedade. Porque desmoraliza a democracia, institucionaliza a impunidade e interfere de forma decisiva e abusiva nos direitos dos cidadãos. O ladrão ideológico é mais nocivo que o profissional.

É por isso que em países civilizados, com maior tradição jurídica que o Brasil, como a Itália, a Alemanha e a Inglaterra, a motivação política é considerada como fator agravante de um crime. Porque o produto do delito servirá para manipular processos eleitorais e atentar contra as instituições democráticas, roubando direitos de toda a sociedade.

Lá, o caixa 2 já derrubou primeiros-ministros, governadores e prefeitos. Aqui, ainda é usado como atenuante, como uma bizarra sequela da ditadura, quando a luta pela liberdade justificava tudo.

A atitude de tolerância zero que a maioria dos ministros do STF está tomando com o caixa 2 vai melhorar muito o comportamento dos políticos, não por ética ou espírito público, mas por medo da Justiça e da cadeia.
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OS DESAVERGONHADOS - Nelson Motta

O errado e o malfeito, a incompetência e o desleixo, a estupidez e a má fé, são próprios da condição humana. A diferença está entre os que se envergonham e os desavergonhados. No Japão civilizado, a vergonha é o pior castigo para uma pessoa e sua família, mais temida do que as penas da lei.

 Homens públicos se suicidam por pura vergonha. Embora seja só meio caminho para não errar de novo, o sentimento de vergonha ajuda a civilizar. Já os que não se envergonham, nem por si nem pelos outros, são determinantes para que suas sociedades sejam as que mais sofrem com a corrupção, a criminalidade e a violência, independente de sua potência econômica ou regime político. Em brilhante estréia no Blog do Noblat, o professor Elton Simões analisou pesquisas internacionais sobre as relações entre o sentimento de vergonha social e familiar e a criminalidade. 


Nas sociedades em que a violência e o crime são vistas como ofensas à comunidade, e não ao Estado, em que a noção de ética antecede a de direito, em que o importante é fazer o certo e não meramente o legal, há menos crime, violência e corrupção, e todo mundo vive melhor – por supuesto, o objetivo de qualquer governo. Nas sociedades evoluídas e pacificas, como o Japão, a principal função da Justiça é restaurar os danos e relações entre as pessoas, e não punir ofensas ao Estado e fabricar presos. “ Existe algo fundamentalmente errado em uma sociedade quando as noções de legalidade ou ilegalidade substituem as de certo ou errado. 


Quando o sistema jurídico fica mais importante do que a ética. Nesta hora, perdemos a vergonha “, diz o professor Simões. Como os políticos que, antes de jurarem inocência, bradam que não há provas contra eles. Ou que seu crime foi antes do mandato. 


Não por acaso, no Brasil, onde a falta de vergonha contamina os poderes e a administração pública - apesar de todo nosso progresso econômico e avanços sociais - a criminalidade, a violência e a corrupção crescem e ameaçam a sociedade democrática. Não há dinheiro, tecnologia leis ou armas que vençam a sem-vergonhice. Só o tempo, a educação e lideres com vergonha.

PAU E CIRCO - Nelson Motta

Após sete anos, das 167 intervenções urbanas prometidas, 
só 68 estão prontas e 88 atrasadas, e Lula explicou:
 ‘Vai levar alguns séculos para a gente virar uma Alemanha’

‘Macaco que muito mexe quer chumbo”  é um velho e sábio ditado mineiro sobre os perigos da superexposição e do exibicionismo, mas certamente nem passou pela cabeça de Lula e Ricardo Teixeira quando fizeram o diabo para trazer a Copa do Mundo para o Brasil, imaginando os benefícios políticos e comerciais e esquecendo os riscos e consequências de se colocar no centro das atenções do mundo como sede de um evento dessa grandeza. E veio chumbo grosso.

Recebidas como ofensas ao país, as críticas internacionais foram respondidas com bravatas grandiosas e apelos ao patriotismo paranoico, como se os estrangeiros só revelassem as mazelas e precariedades que estamos cansados de conhecer por maldade, inveja e má-fé, ou talvez por tenebrosas conspirações para atrapalhar a nossa Copa. É reserva de mercado: só nós podemos nos esculachar.

Mas, depois de sete anos, das 167 intervenções urbanas prometidas, só 68 estão prontas e 88 atrasadas, e Lula explicou tudo: “Vai levar alguns séculos para a gente virar uma Alemanha.”

O complexo de vira-latas também se caracteriza pela incapacidade de reconhecer erros, de responder a críticas e de tentar disfarçar o sentimento de inveja e inferioridade com a força bruta de hipérboles, bravatas e rosnados. Quando Nelson Rodrigues disse que a vitória na Copa de 1958 nos livrou do complexo de vira-latas, ao contrário de Dilma, não entendi que havíamos nos tornado cão de raça ou mesmo cachorro grande, mas que nos livrávamos do complexo porque nos assumíamos como vira-latas bons de bola.

Sim, a vira-latice étnica e cultural é uma de nossas características mais fortes, para o bem e para o mal, e isso não há Copa nem metáfora genial que mude. Nesse sentido, ninguém é mais vira-latas do que os americanos, que também são os cachorros grandes do mundo.

Outra expressão atual da vira-latice é a ostentação, como o novo estilo de funk que celebra a riqueza e o exibicionismo, com orgulho e sem vergonha. É a trilha sonora perfeita para o Brasil ostentação da propaganda oficial que nos mostra no melhor dos mundos e fazendo a Copa das Copas.


Macaco que muito mexe…

NEUSINHA BRIZOLA, UMA GAROTA DO BARULHO - Nelson Motta

Louca por sexo e drogas, 
Neusinha era puro rock and roll

Filha de uma bela e rica dama da elite gaúcha e de um popular e carismático líder socialista, foi criada como uma princesa, e, além de uma graça de garota, era muito inteligente e meio doidinha, e divertidíssima. Neusinha Brizola entrou em cena em 1982, quando seu pai Leonel foi eleito governador do Rio de Janeiro, e se tornou uma estrela fugaz do Rock Brasil com o seu hit “Mintchura”, marqueteada por Paulo Coelho, antes de se tornar escritor de sucesso.

Como Paulo escreveria anos depois, o universo conspirava a favor de Neusinha e de sua lenda pessoal. Não que fosse uma grande cantora, mas cantava o suficiente para começar uma boa carreira de roqueira com atitude anárquica e humor debochado, que fazia enorme sucesso nos programas populares de televisão, nas suas entrevistas bombásticas e nos escândalos que protagonizava. Louca por sexo e drogas, Neusinha era puro rock and roll. Tinha tudo para ser o que quisesse.

De princesinha à exilada política, drogada desde os 13 anos, mãe aos 21, amiga de Cazuza e Andy Warhol, amante de mafiosos e traficantes, junkie de heroína em Amsterdã, Neusinha viveu uma vida vertiginosa, entre o poder e a marginalidade, prisões e fugas, escândalos e brigas com o pai, e pagou caro, com muito sofrimento e humilhação no inferno das drogas. Mas voltou das trevas como uma avó querida e careta, sem deixar de ser doidona, e sem nunca perder o humor, nos 56 anos que viveu. E como viveu!

Debilitada por seus excessos e pela hepatite C, e sentindo que o fim se aproximava, Neusinha chamou Fábio Fabricio Fabretti e Lucas Nobre para contar tudo em uma biografia onde não esconde nada e se mostra uma personagem fascinante, inteligente e hilariante, mas também trágica e patética, devassa e destrutiva, narrado na primeira pessoa sem vergonha e sem piedade, num testemunho dramático, e cômico, do poder devastador das drogas.

Com uma protagonista que supera qualquer ficção, em momentos e cenários históricos, com personagens importantes da política e da música brasileira nos anos 80, entre gargalhadas e lágrimas, “Neusinha Brizola sem mintchura” é sensacional.

NELSON MOTTA - O lado escuro da Internet.

 O avô do Jabor era uma figuraça. Quando o neto lhe contava entusiasmado uma boa novidade, o velho logo o advertia: “Cuidado, Arnaldinho, nada é só bom”. Sim, tudo também tem um lado ruim, o das coisas boas é que vão ter fim.

A máxima do velho antecipava o irônico paradoxo da era digital: nunca na história desse planeta houve algo tão bom para aproximar as pessoas - e nada que as dividisse tanto – como a internet, onde todos se encontram e cada um pode mostrar, escondido pelo anonimato, o seu pior.

Chico Buarque, que um dia já foi chamado de maior unanimidade do Brasil, disse que sempre acreditou que era amado, até descobrir, na internet, que era odiado.

Qualquer assunto ou pessoa que vá ao ar tem logo dois lados trocando insultos e acusações, dividindo o que poderia ser multiplicado. No pesadelo futurista, a diversidade e a diferença são soterradas pela ignorância e o ódio irracional que impedem qualquer debate produtivo, assim como os black blocks impedem qualquer manifestação pacifica.

Na ultima semana li vários editoriais de jornais e artigos de diversas tendências sobre o mesmo tema: a internet como geradora e ampliadora de um virulento e empobrecedor Fla x Flu, ou pior, de um PT x PSDB em que todos saem perdedores. E como disse o Pedro Dória: só vai piorar. Todas as paixões e excessos que são permitidos, e até divertidos e catárticos, nas discussões de futebol, só produzem discórdia, mentiras e mais intolerância no debate político e cultural.

Simpatizantes de qualquer causa ou ideologia só leem os que dizem o que eles querem ouvir, nada aprendem de novo, chovem no molhado. Mas até esse lado ruim também tem um lado bom, de revelar as verdades secretas, expondo os piores sentimentos de homens e mulheres, suas invejas e ressentimentos, sua malignidade, que nenhum regime político pode resolver. Sem o crescimento da consciência individual, como melhorar coletivamente?

Como Freud explicaria no seu Facebook, os comentários odiosos revelam mais sobre quem comenta do que sobre o odiado. Ou como já dizia a minha avó, a boca fala ( e agora digita ) as abundâncias do coração.

REMÉDIOS E VENENOS - Nelson Motta

No início do século XX, a indústria farmacêutica propagandeava as virtudes do ópio e da cocaína, puros e em vários remédios, para diversas finalidades, que eram consumidos livremente pela população, de crianças a idosos. Mas assim como não há registros da eficácia curativa dos remédios, também não há notícias de intoxicações e overdoses, e a ideia de dependente de drogas não existia.

Aracy de Almeida contava que, nos anos 30, se reunia com Noel Rosa, Mário Reis e outros artistas na Taberna da Glória e, quando a noite avançava e o cansaço chegava, mandavam um moleque à farmácia buscar um bujãozinho de cocaína da Merck suíça , que era vendido legalmente no Brasil até 1937.

Depois do desastre da proibição do álcool nos Estados Unidos, que não diminuiu o consumo e fez crescer o crime organizado com o tráfico de bebida, em 1933, no fundo da Grande Depressão, o Congresso liberou geral. Ópio e cocaína nas farmácias, álcool e maconha nos bares e clubes. Seis anos depois, com a economia melhor e sob pressões religiosas, veio a nova proibição. Mas Drug addict Não era uma expressão corrente, embora todas estivessem ao alcance de todos.

Drogas sempre existiram, mas quando e como o consumo abusivo virou uma epidemia comportamental? Talvez nos anos 60, quando os hippies promoveram a cultura do LSD e da maconha, que eram associados ao ócio e à improdutividade, ao comportamento antissocial e à sensualidade pagã. A reação conservadora veio com Nixon e a guerra às drogas , que Reagan transformou em política de Estado, com os resultados desastrosos que se conhece e que fizeram tantos países repensar essa estratégia. Hoje a venda de maconha medicinal é livre em vinte estados americanos. Como no inicio do século XX.

No Uruguai, ela será comercializada pelo Estado, a preços populares (um terço da cotação atual na rua), mas sujeita a inúmeras, e inúteis, restrições. Estrangeiros não podem comprar, só fumar, e os locais têm cota mensal de 40 gramas, mas podem vender a um amigo. Só 30% da população apoiam, mas o tabu foi quebrado e a experiência deles será uma pesquisa valiosa para nós.

PATRULHAS SEXUAIS - Nelson Motta

Em alguns estados mais puritanos chegam a expor em outdoors
 os nomes e fotos imensas de homens, a maioria casados, 
que foram flagrados com prostitutas

A nova lei é dura e as multas são pesadas. Cerca de 70% da população desaprovam, mas a Assembleia Nacional decidiu que trocar sexo por dinheiro vai ser ilegal na França e o Estado vai punir o que as mulheres e os homens fazem com seu corpo. Como o flagrante tem que ser com o ato consumado, e pago, agora falta uma Polícia Sexual.

As feministas se dividiram entre a liberdade e a dignidade: umas acreditam que as mulheres só se prostituem à força, que são escravas sexuais exploradas e degradadas por traficantes de pessoas, o que é verdade, mas não para todas; outras fazem por livre vontade, porque gostam, e se consideram benfeitoras dos homens, e mulheres, por lhes vender prazer e felicidade, o que também é verdade desde que o mundo é mundo.

Mas não é novidade. Nos Estados Unidos, à exceção do estado de Nevada, onde fica Las Vegas, a prostituição é criminalizada em todo o país, com multas e cadeia para quem compra ou vende sexo. Na repressão, usam até policiais gatonas que se fingem de prostitutas para abordar um cidadão na rua e lhe oferecer um programa, e assim que ele aceita, lhe exibem a carteira da policia e dão voz de prisão. Sim, a cilada moral é vista como uma ação legal pela Justiça, mas o resultado não é o aumento da proteção às mulheres, mas do índice nacional de hipocrisia.

Em alguns estados mais puritanos chegam a expor em outdoors os nomes e fotos imensas de homens, a maioria casados, que foram flagrados com prostitutas. Enquanto isso, milhares de sites oferecem mulheres, homens e transexuais para qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer preço, e profissionais ironizam a concorrência de amadoras, que trocam sexo por viagens, carros e joias ou por casa, comida e cartão de crédito, ou um emprego público. Seja no varejo ou no atacado, julgamentos são inúteis: cada um dá o que tem.

Além das piadas e da inviabilidade de sua aplicação, tornar ilegal a prostituição na França é um atentado contra o imaginário coletivo nacional. O que seria da cultura francesa sem os dramas e comédias, as óperas e os romances, os filmes, peças e quadros que elas inspiraram?

O LADO ESCURO DA FORÇA - Nelson Motta

Qualquer assunto ou pessoa que vá ao ar tem logo dois lados 
trocando insultos e acusações, dividindo o que poderia ser multiplicado

O avô do Jabor era uma figuraça. Quando o neto lhe contava entusiasmado uma boa novidade, o velho logo o advertia: “Cuidado, Arnaldinho, nada é só bom.” Sim, tudo também tem um lado ruim, o das coisas boas que vão ter fim. A máxima do velho antecipava o irônico paradoxo da era digital: nunca na história deste planeta houve algo tão bom para aproximar as pessoas — e nada que as dividisse tanto — como a internet, onde todos se encontram e cada um pode mostrar, escondido pelo anonimato, o seu pior.

Chico Buarque, que um dia já foi chamado de maior unanimidade do Brasil, disse que sempre acreditou que era amado, até descobrir, na internet, que era odiado. Qualquer assunto ou pessoa que vá ao ar tem logo dois lados trocando insultos e acusações, dividindo o que poderia ser multiplicado. No pesadelo futurista, a diversidade e a diferença são soterradas pela ignorância e o ódio irracional, que impedem qualquer debate produtivo, assim como os black blocks impedem qualquer manifestação pacifica.

Na última semana li vários editoriais de jornais e artigos de diversas tendências sobre o mesmo tema: a internet como geradora e ampliadora de um virulento e empobrecedor Fla x Flu, ou pior, de um PT x PSDB em que todos saem perdedores. E como disse o Pedro Dória: só vai piorar. Todas as paixões e excessos que são permitidos, e até divertidos e catárticos, nas discussões de futebol só produzem discórdia, mentiras e mais intolerância no debate politico e cultural. Simpatizantes de qualquer causa ou ideologia só leem os que dizem o que eles querem ouvir, nada aprendem de novo, chovem no molhado.

Mas até esse lado ruim também tem um lado bom, de revelar as verdades secretas, expondo os piores sentimentos de homens e mulheres, suas invejas e ressentimentos, sua malignidade, que nenhum regime político pode resolver. Sem o crescimento da consciência individual, como melhorar coletivamente?

Como Freud explicaria no seu Facebook, os comentários odiosos revelam mais sobre quem comenta do que sobre o odiado. Ou, como já dizia a minha avó, a boca fala (e agora digita) as abundâncias do coração.

O FIM, O INÍCIO E O MEIO - Nelson Motta

Somos amigos há muitos anos, e um dia ela me disse 
em tom de piada gentil: ‘Quando eu crescer quero ser você.’ 
Nanda querida, a sério, quando envelhecer quero ser você

Como diria Nelson Rodrigues, fiquei besta. O primeiro livro de Fernanda Torres, “Fim”, é o início brilhante de uma carreira de escritora e já a coloca entre os melhores da sua geração literária. Sim, ela mesma, que há tanto tempo brilha nos palcos e nas telas, que corta cana toda semana no Projac para divertir o público de “Tapas e beijos”, a Nanda que alegra os amigos com sua inteligência e seu humor.

Atriz consagrada em 35 anos de carreira, Nanda começou a dar pinta de outros talentos em suas crônicas na “Folha de S.Paulo” e na “Veja Rio”, conquistando leitores, exercitando seus instrumentos de expressão e se fortalecendo para o voo mais alto e arriscado de um romance. E que romance! Tão audacioso que seu tema é a morte de cinco velhos de Copacabana que formavam uma turma na juventude, mas narrada na primeira pessoa por cada personagem, formando um tecido de suas memórias, sentimentos e delírios, em que várias verdades se entrelaçam para contar o mais importante da vida de cada um: seu fim.

O tema seria pesado e indigesto, os velhos chatos, ranzinzas, neuróticos, doentes, devassos, vulgares e banais, mas nas mãos de Nanda se transformam em personagens ricos e fascinantes em sua grandeza e pequenez, que nos fazem rir e chorar com suas memórias de vida e, sim, de morte. Numa sucessão vertiginosa de dramas e comédias sem fronteiras, uma história puxa outra num fluxo narrativo em que os velhos e suas mulheres e amantes se alternam como narradores e personagens, como afetos e desafetos, como jovens e velhos.

Nelson aconselhava os jovens a envelhecerem rapidamente. Mas de onde Nanda tirou tanta sabedoria, experiência e velhice para escrever essas histórias? E com um estilo tão seco e elegante, tão econômico e contundente, de frases curtas e precisas, sem gastar uma palavra em vão, com um timing de comédia e um ritmo que hipnotiza o leitor. É o melhor livro brasileiro que li desde “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes.

Somos amigos há muitos anos, e um dia ela me disse em tom de piada gentil: quando eu crescer quero ser você. Nanda querida, a sério, quando eu envelhecer quero ser você.

DILEMAS BRASILEIROS - Nelson Motta

Muitos professores são contra premiações por desempenho, 
mas assim nivelam os piores, os mais ausentes e incompetentes 
aos melhores e  mais dedicados

Para o bem e para o mal, as sociedades que mais crescem, enriquecem e progridem são as mais competitivas, onde impera a meritocracia e são oferecidas condições para que mais gente concorra para a excelência profissional nas ciências, nas artes e na tecnologia, na busca de inovações, de novos produtos e serviços. Assim como a vida real, a competição social é dura, implacável e muitas vezes injusta, muitos caem pelo caminho, muitos espertos e desonestos se dão bem, mas toda a sociedade se beneficia com o progresso. Exemplos são desnecessários.

Há também quem veja a recompensa aos méritos individuais como simples darwinismo social, corrida de ratos engendrada pelo capitalismo, conspiração contra a dignidade, a unidade e os interesses dos trabalhadores e suas corporações. Um exemplo: muitos professores são contra premiações por desempenho, mas assim nivelam os piores, os mais ausentes e incompetentes aos melhores, mais dedicados e eficientes, em nome da solidariedade corporativa, em prejuízo dos alunos e da competitividade internacional do país.

Tão difícil quanto harmonizar os direitos à informação e à privacidade é equilibrar a competitividade e a solidariedade. Não é preciso ser nenhum professor DaMatta para ver que um de nossos maiores problemas é que os brasileiros — individualistas, malandros e sentimentais, habituados a misturar o publico ao privado e à cultura do compadrio e da boca livre — têm enorme dificuldade em escolher entre uma e outra, querem os benefícios das duas, mas sem pagar o preço.

Enquanto o Brasil for uma sociedade de mercado, nosso grande conflito estará na distribuição equitativa dos benefícios da sociedade competitiva. Enfraquecer os fortes não beneficia os fracos, prejudica a todos. Mas não fortalecer os fracos enfraquece toda a sociedade moralmente e atrasa o seu progresso material.

O Brasil de Dilma vive um estranho dilema em que os defensores da competitividade, que faz crescer toda a sociedade, são os liberais e conservadores, e os que privilegiam a solidariedade corporativa, que atrasa a vida do país, e dos seus cidadãos, os progressistas.

NELSON MOTTA - Boca livre cultural

“O Conselheiro come“ é o título de uma crônica antológica de João Ubaldo Ribeiro sobre um escritor que não consegue trabalhar para atender os pedidos de entrevistas, depoimentos, prefácios, teses de mestrado e avaliações de textos, que lhe consomem muito tempo e esforço sem lhe render um tostão ou qualquer benefício. O título é uma citação da esposa do Conselheiro Ruy Barbosa, tentando explicar aos solicitantes que o marido precisava ganhar algum dinheiro com seu trabalho para pagar suas contas.

Assim como o Conselheiro e João Ubaldo, no Brasil, muitos profissionais bem sucedidos de diversas categorias são assediados por amigos, conhecidos ou estranhos para trabalhar para eles, de graça por supuesto. Alguns são pressionados a ouvir discos e a ler livros, crônicas, peças de teatro, teses de mestrado, e pior que tudo, poemas, que não gostariam de ler nem muito bem pagos.

Os verdadeiros amigos entendem eventuais recusas, os profissionais compreendem os motivos, mas muitos não tem noção, esperam que você pare tudo que está fazendo para ajudá-los no trabalho de conclusão de curso. De tanto atender pedidos para depoimentos em vários documentários, de Paulo Francis à Bossa Nova, de Wilson Simonal aos Mutantes, de Raul Seixas a Cartola, dos Dzi Croquettes a Tim Maia, acabei merecendo uma gozação do critico de cinema André Miranda como “o ator de documentários em maior atividade no momento.” Achei muito engraçado e oportuno, porque passou a me servir de álibi infalível para recusar novos depoimentos sobre os mais diversos temas: “Não dá, já fiz tantos que estou ficando ridículo como “ator de documentários”, vou queimar o teu filme, tenta o João Ubaldo.” Valeu, André.

O pior é o tempo perdido, que poderia ser gasto descansando, trabalhando ou se divertindo com sua família e seus amigos, dado de graça para um estranho. E os jornalistas que pedem para escrever um depoimento sobre João Gilberto ? Ou uma lista dos 100 maiores discos da MPB, comentados. Querem que você faça o trabalho deles. E nem imaginam o tempo e o esforço que me custam para escrever uma pequena crônica como esta.

NELSON MOTTA - O poder do capacete

Qualquer pessoa que exerce atividade de risco usa capacete. De metal, de fibra ou de plástico, sempre coloridos, eles protegem pilotos de carros, motos e aeronaves, operários de usinas, minas, fábricas e construções, além de militares, policiais e bombeiros. É um símbolo forte de trabalho, de ação e de perigo, e até mesmo de coragem, porque pressupõe os riscos de quem o usa.
Depois do cocar de penas que os caciques indígenas oferecem aos caciques políticos, e que eles hesitam em colocar na cabeça pela crença de que traz má sorte, é com o capacete de segurança que eles ficam mais engraçados, visitando obras, fábricas e usinas.
Até o fechamento desta edição, não havia registro de nenhum caso de um político que tenha sido salvo de algum dano na cabeça pelo capacete. Aliás, jamais aconteceu qualquer acidente com alguém nessas inaugurações e visitas.
O pessoal que pega no pesado nas obras e corre riscos reais é que precisa usar, mas, quando os caciques os visitam, tudo vira um teatrinho, sem nenhuma atividade que possa provocar riscos ou sustos. Mesmo assim eles não dispensam o capacete, apesar do paletó e da gravata. E ficam todos com aquela cara ... reparem só.
Respeitáveis homens públicos, grandes estadistas, líderes carismáticos, ninguém resiste ao ridículo com aquele penico colorido encarapitado no cocuruto, sempre parecendo não lhes caber direito na cabeça. Talvez o problema não seja o tamanho dos capacetes, que os há para cabecinhas e cabeçorras, mas a falta de prática dos usuários. Mulheres então, coitadas ...
Estas são imagens clássicas dos políticos no poder, lançando, tocando e inaugurando as suas obras.
Não há campanha eleitoral sem elas. Não há politica no Brasil sem ele, o capacete.

NELSON MOTTA - O Novo Mercado Sexual

O jogo virou, de antigas oprimidas dos anos 60, chamadas por John Lennon de “o crioulo do mundo” em “Woman is the Nigger of the World”, as mulheres avançaram pelas trilhas abertas pelo feminismo e hoje são presidentes, secretárias de Estado, ministras, comandantes de jatos, de batalhões militares e de grandes grupos econômicos, jogando futebol, dirigindo filmes e dando aulas de todos os assuntos, elas estão em toda parte, até na frente de combate. Mas continuam reclamando. 

Pesquisas recentes mostram que nos Estados Unidos, onde elas têm mais poder, dinheiro, independência e liberdade do que nunca, as mulheres estão mais insatisfeitas agora do que nos anos 60, porque com tantas opções, escolher ficou muito mais difícil. E como Freud já sabia, nunca se sabe o que quer uma mulher. 

Até o sonho da maternidade balança, algumas já admitem que seria melhor não ter tido filhos, ou que foram eles que destruíram a sua felicidade. São muitas as Marias hoje em dia, da clássica “Maria-Gasolina”, com sua atração irresistível por carros, à moderna “Maria-Chuteira”, que acompanhou a evolução sócio-patrimonial dos jogadores de futebol. 

Agora a antropóloga Miriam Goldenberg fala do florescimento nos meios universitários da “Maria-Apostila”, que manda recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo “Vai ao barzinho hoje ? Se for, vou sem calcinha”. Competindo para ver quem pega mais professores, as “Maria-Lattes”, como a famosa plataforma de currículos acadêmicos, valorizam tanto a quantidade quanto a qualidade. 

As mulheres passivas, à espera do chamado dos homens, estão saindo de cena. Estamos na era da periguetes, das roupas curtas e justas em corpos sarados, partindo para o ataque e invertendo os papéis de gênero, intimidando e provocando desconforto nos homens. Embora ainda continuem esperando um telefonema no dia seguinte. 

Nas pesquisas de Miriam ficou claro que, com essa troca de papéis, os homens estão apavorados. E as mulheres, desesperadas. Assim como na economia, a lei da oferta e da procura vale para o mercado sexual: quando a oferta cresce, a procura amolece. 

NELSON MOTTA - A política, segundo Tim Maia

Sempre que perguntada, a maioria da população brasileira tem se manifestado contra a liberação do aborto, da maconha e do casamento gay, e a favor da pena de morte e da maioridade penal aos 16 anos. Sem duvida são posições conservadoras, ou “de direita”, como diz o Zé Dirceu, e, no entanto, são esses que elegem os governos e as maiorias parlamentares ditas “de esquerda” hoje no Brasil. Como harmonizar o conservadorismo na vida real com o progressismo na política ?
Talvez Tim Maia tivesse razão quando dizia que, “no Brasil, não só as putas gozam, os cafetões são ciumentos e os traficantes são viciados, os pobres são de direita”. Uma ingratidão com a esquerda que lhes dá o melhor de si e luta pelo seu bem estar. Mas tanto a maioria dos velhos pobres como dos novos, da antiga classe média careta e da nova mais careta ainda, e, claro, as elites, acreditam em Deus, na família e nos valores tradicionais, e rejeitam ideias progressistas. Discutir, apenas discutir as suas crenças, é considerado suicídio eleitoral.
Quando Abraham Lincoln, em 1862, promulgou a Homestead Law, a lei da reforma agrária nos Estados Unidos, assegurando a cada cidadão o direito de requerer uma propriedade de até 4 mil metros quadrados de terra do Estado, pagando 1 dólar e 25 centavos, criou milhões de pequenos proprietários rurais – que deram origem às grandes maiorias conservadoras de hoje, que ganharam sua bolsa-terra e não querem mudar mais nada. Uma ação politicamente progressista gerou milhões de novos reacionários.
Um século e meio depois, no Brasil, a nossa “nova classe média”, que tem casa, carro, crédito, viaja de avião, e é eleitoralmente decisiva, parece ser ainda mais conservadora do que a “velha”. A ascenção social exige segurança e instituições sólidas, quer conservar o que conquistou e reage a mudanças que ameacem suas conquistas. Como Tim Maia, querem sossego. Então por que não param de falar em esquerda e direita como se fosse de futebol e tentam entender o que está acontecendo ?
Como disse o ex - comunista Ferreira Gullar, “ no meu tempo ser de esquerda dava cadeia, hoje dá emprego. “

NELSON MOTTA - Harmonias e dissonâncias

Todos gostam de música, muitos fazem dinheiro com ela, ninguém imagina a vida sem ela, mas como os seus criadores podem viver do seu trabalho? O assunto interessa não só aos compositores, porque envolve liberdade de associação e de expressão, quando se discute se o Estado deve participar da arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil.

Aqui, a arrecadação é feita por um escritório central, o Ecad, criado, administrado e controlado por sociedades privadas de autores musicais, como a UBC, a Sicam e outras. O Ecad cobra direitos dos que usam as músicas para ganhar dinheiro com elas (rádio, TV, shows, festas, publicidade, clubes ) e os repassa às sociedades, que os distribuem entre seus autores, proporcionalmente à quantidade de execuções públicas de cada música no período monitorado.

É um sistema correto e efetivo, que dá a cada um a sua parte pela utilização comercial de sua criação. Nos Estados Unidos e na Europa funciona muito bem. Se aqui há falhas, falcatruas ou ineficiência, o problema é de gestão e fiscalização, e deve ser resolvido entre o Ecad e as sociedades que representam os compositores, intermediados pela Justiça. O Estado não entende nada disso, e já morde 25% de impostos sobre direitos autorais sem tocar uma nota.

Quando se canta o velho refrão de uma sociedade arrecadadora estatal, ouvem-se cabide de empregos, aparelhamento partidário, altos custos e burocracia.

No mundo moderno, as sociedades de autores são empresas comerciais, que fazem tudo para ganhar o máximo de dinheiro para seus associados.

Como qualquer empresa, competem no mercado, buscam eficiência administrativa, novas tecnologias, prestam contas, são auditadas, podem ser processadas e liquidadas legalmente. O que é que o Estado tem a ver com isso? Pode soar como pleonasmo ou redundância, mas é uma evidência: quem tem a autoridade é o autor, quem criou é que decide o que se faz ou se deixa de fazer com a sua criação. Cabe à Justiça julgar os conflitos com base na legislação (que precisa ser modernizada), e ao Estado garantir os direitos e o cumprimento da lei. Já é muito.

NELSON MOTTA - O Novo Velhismo

Nunca imaginei que iria ficar velho. 

Para mim, velhos eram aquelas pessoas de mais de 50 anos, de cabeça branca, aposentados na cadeira de balanço, com uma manta sobre as pernas e chinelinhos de lã. Todos os paparicavam e os tratavam como crianças, ninguém os levava a sério. Como se vê, desde pequeno cometo graves erros de avaliação.

Felizmente, ficar velho hoje é muito melhor do que quando eu era criança. Não só pelos avanços da ciência, que prolongaram a vida e melhoraram a sua qualidade, mas pelas evoluções da sociedade e da tecnologia, que nos facilitaram o cotidiano, quebraram preconceitos e permitem a gente de qualquer idade ser produtiva e ter todos os direitos, e deveres, da vida social. Nunca imaginei que minha mãe, hoje com 88 anos, continuaria tomando seu vinhozinho e estaria na internet e fazendo análise. Ela detesta ser chamada de “terceira idade”: não liga de ser velha, mas não gosta de “palhaçadas”.

Nunca me passou pela cabeça que um dia eu seria capaz de furar filas em aeroportos, bancos e cinemas com a tranqüilidade dos justos, logo eu, que sempre respeitei a lei e sempre detestei e combati todas as formas de privilégio. Mas lamento só ter descoberto que tinha esses direitos aos 63 anos. Mal informado, pensava que eram só para quem tinha mais de 65. Perdi três anos de moleza! Nos aeroportos, furando feliz filas imensas, imagino como se sentem os nossos parlamentares. Assim como eles, mas por motivos diversos, não sinto a menor vergonha. Nem de minha idade e nem dos meus direitos legítimos. Vou logo perguntando: “Qual é a fila dos velhinhos?”

Mas o politicamente correto americano continua criando eufemismos patéticos e denunciando “preconceitos” contra gente que já viveu mais. Não querem mais que nos chamem de “cidadão sênior”, porque ninguém chama alguém de menos de 60 de “cidadão júnior”. Nem “idoso” eles aceitam. O correto é dizer “adulto mais velho” ou, singelamente, “homem” ou “mulher”. Depois do racismo, do sexismo e do pobrismo, o velhismo. Além de tentar nos tirar o orgulho de havermos sobrevivido até aqui, querem nos obrigar ao ridículo. 

NELSON MOTTA - Os meios justificam os fins

Ao contrário da política, em que os fins que justificam os meios, na arte são os meios que possibilitam os fins. Sem o microfone, o mundo jamais teria ouvido a música suave e refinada de João Gilberto e Chet Baker. A amplificação elétrica liberou os cantores da força bruta do volume e permitiu que usassem seu talento no que mais importa musicalmente: timbre e afinação, ritmo e harmonia, estilo e sentimento. 

Da mesma forma, não poderia existir rock and roll sem a guitarra elétrica. Inventada nos anos 30, a guitarra se adaptou bem ao jazz e ao blues, que nasceram e se desenvolveram acústicos, e fez história nas mãos de Django Reinhart e B.B.King. No rock, não, o som e a fúria das guitarras, os altos volumes como um dado estético, são a sua base rítmica, harmônica e ideológica, a sua energia vital, a sua razão de ser. Ironicamente, décadas depois, velhos roqueiros gravariam versões acústicas de seus sucessos elétricos.

Assim como não haveria rock and roll sem o som estridente das cordas de aço da guitarra, não existiria bossa nova sem o som macio das cordas de violão de nylon, criadas nos anos 50, e tocadas pela magia de João Gilberto. 

No samba tradicional o som metálico do violão não era empecilho para os ritmos, acordes e dedilhados dos seus mestres, mas para a bossa nova cool, minimalista e moderna, só a suavidade do nylon daria os timbres macios que a batida e o canto de João requeriam. O hip hop e a eletrônica são os novos formatos musicais do século XXI e só puderam existir no mundo digital, com as infinitas possibilidades de combinar timbres, ritmos e acordes, que permitem a um músico tocar uma orquestra inteira sozinho. Bastam talento e uma tomada. 

A fotografia mudou a história da pintura, oferecendo novos meios de expressão visual. Mas um século depois, com recursos digitais ilimitados, os grandes fotógrafos ainda se baseiam na arte dos mestres da pintura. O audiobook, com atores lendo e interpretando romances, também abriu novas possibilidades criativas. Logo haverá uma voz para cada personagem, ruídos de cena, música de fundo … e será reinventado o rádio teatro.

NELSON MOTTA - O remédio como doença

Nos velhos romances de ficção científica uma das grandes fantasias era a criação de drogas sintéticas para tudo, não só para hibernar durante meses em viagens espaciais, mas para aprender, esquecer, lembrar, garantindo a satisfação instantânea das necessidades e vontades do freguês. Como os ficcionistas ainda não conheciam as teorias e patologias das dependências químicas, não imaginavam que esse futurismo farmacológico levaria a uma sociedade de drogados.

O futuro chegou com o relatório da Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes da ONU: o uso abusivo de remédios tarja preta cresce rapidamente no mundo todo, e o número de viciados em medicamentos já supera o de usuários de cocaína, heroína e ecstasy juntos. Só nos Estados Unidos são mais de 6 milhões de dependentes de analgésicos, tranquilizantes, anfetaminas e antidepressivos. Michael Jackson é a sua mais famosa vítima.

Não sentir dor, olvidar memórias sofridas, controlar a ansiedade, a depressão, o medo, buscar por todos os meios o bem estar, a alegria, o prazer, ou simplesmente dormir, são anseios ancestrais da humanidade que a química moderna tornou acessíveis, ou quase, a todos. Hoje as farmácias virtuais vendem remédios roubados ou falsificados para qualquer um, como se fossem vitaminas. Em muitos países, receitas médicas são moeda corrente, fora de qualquer controle.

Os remédios viraram uma doença da sociedade moderna. A mesma droga que cura, em excesso, mata. No Brasil, os dados são nebulosos, mas pela quantidade assombrosa de farmácias espalhadas pelo País desconfia-se que por aqui a coisa esteja preta como uma tarja. Mais do que a repressão quase impossível, faltam educação e informação pública e privada sobre o uso e abuso de remédios, que está fazendo mais vítimas do que as drogas ilegais.

Mas nem tudo está perdido para os velhos leitores de ficção científica. Para eles, a melhor surpresa, que nem os autores mais visionários profetizaram, é a pílula da potência sexual. Alguns até imaginavam futuras drogas eróticas e afrodisíacas, mas ninguém pensava nesse pequeno, ou grande, detalhe básico.

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