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DESCUBRA AS MENTIRAS QUE O SEU CÉREBRO CONTA PARA VOCÊ

Você não toma as próprias decisões - e boa parte do que vê não é real. É apenas uma ilusão criada pelo seu cérebro, que passa pelo menos 4 horas por dia enganando você. Conheça os truques que ele aplica - e saiba o que realmente acontece dentro da mente.

Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta semana...CONTINUAR LENDO.

JEJUM FAZ CÉLULAS SE COMEREM; E ISSO AS RENOVA, DIZ NOBEL DE MEDICINA.

 

Não é dieta ou regime. Os cientistas estão pesquisando como o jejum ou o corte radical de calorias pode promover o aumento da expectativa de vida. A alimentação equilibrada e rica em nutrientes é fundamental para uma boa saúde. Porém, já é sabido que a privação de alimentos de forma controlada pode ativar mecanismos de autodefesa das células que garantem a elas maior longevidade. É isso que se traduz em benefícios para todo nosso organismo.

Tudo por causa da autofagia. Ela é um mecanismo importante de autolimpeza que existe em todas as células de nosso corpo. Os genes que regulam essa reciclagem de organelas velhas ou malformadas foram identificados por Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de medicina deste ano.

Yoshinori Ohsumi ganhou o Nobel graças a suas descobertas sobre a autofagia, um processo de reciclagem celular.

A redução da autofagia leva ao acúmulo de componentes danificados, o que está associado à morte das células e ao desenvolvimento de doenças. Assim, manter o mecanismo ativo seria uma forma de prevenir problemas futuros.

A autofagia é ativada quando a célula está em situações de estresse. Por exemplo, quando o indivíduo fuma um cigarro ou deixa de se alimentar. Para sobreviver, a célula passa a "comer" partes internas, degradando tudo o que tem de ruim. Quanto mais o mecanismo funciona maior a faxina interna.

“A autofagia não fica ativa o tempo todo. 
Mas a restrição de nutrientes é uma forma de burlar isso"
Luciana Gomes, pesquisadora do Laboratório de Reparo de DNA da USP

"O jejum induz a autofagia, isso é sabido. Também sabemos que a autofagia induz a longevidade. A busca agora é entender a conexão entre a autofagia ativada pelo jejum e a longevidade das células", explica Soraya Smaili, professora livre-docente da Escola Paulista de Medicina. Segundo ela, a maioria dos estudos feitos até hoje foi com animais.

Comer menos calorias também pode aumentar longevidade
Outra forma de ativar a autofagia e propiciar benefícios para o organismo é com a restrição do consumo de alimentos. Para funcionar, a redução de calorias ingeridas deve variar entre 20% e 60%, de acordo com as pesquisas. "Não é o jejum, é a diminuição prolongada de consumo de nutrientes. A autofagia é aumentada", explica Luciana Gomes. A redução ocorreria principalmente no consumo de carboidratos e proteínas.

Contudo, se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. Nesse caso, a célula poderia começar a degradar componentes bons, que funcionam. O ideal seria conseguir estimular a faxina interna em tempo certo, sem excessos. Para isso, os cientistas pesquisam qual seria o tempo de jejum e o nível de redução calórica que garantiriam os efeitos benéficos sem causar prejuízos.

Smaili diz que há estudos feitos em humanos que mostram que o jejum, se bem conduzido e monitorado, traz benefícios a longo prazo. "Não é um jejum prolongado. É de 12 e no máximo 24 horas. E pode ser específico, de alguns nutrientes, como carboidratos e proteínas", afirma.

Durante o jejum, seria importante manter o consumo de água e de sais, para não provocar aumento da pressão arterial ou desidratação. Um soro pode cumprir essa função. E o jejum só poderia ser feito por pessoas saudáveis.

Fazer jejum ou reduzir alimentação, o que você prefere?
Para garantir o aumento da expectativa de vida a longo prazo, o jejum precisaria ser feito de forma periódica. "Não adianta fazer um hoje e outro no ano que vem", diz a farmacóloga da Unifesp.

Já a redução calórica precisaria ser permanente para produzir efeitos. "Como é difícil ter essa disciplina, surgiu a busca para confirmar se jejum intermitente conseguiria levar aos mesmos efeitos", complementa a biomédica da USP.

As pesquisas existentes ainda não possuem resultados que permitam traçar uma indicação de frequência do jejum.

Quanto à restrição calórica, Gomes explica que em testes com animais os melhores resultados ocorreram entre os que foram mantidos em restrição calórica desde o nascimento. O aumento da expectativa de vida chegaria, nesses casos, a 30%.
 

O MARAVILHOSO CÉREBRO EMOCIONAL DAS PESSOAS COM ALTA SENSIBILIDADE (PAS)

Às vezes não é fácil. Em muitas situações é difícil se encaixar em um mundo com tantos altos e baixos, muito barulhento, egoísta e desonesto. Os sentidos das pessoas com alta sensibilidade, ou pessoas altamente sensíveis, (PAS) são tão vulneráveis ​​quanto privilegiados. Elas podem sentir o que os outros não sentem, e o fazem com tanta intensidade que o mundo é mostrado a eles com uma série de realidades que escapam aos outros.

O que realmente faz uma pessoa com alta sensibilidade ser dessa forma? Isso é genético? Por que elas sofrem mais do que os outros? Por que o amor é ao mesmo tempo tão intenso e tão doloroso em seus relacionamentos? Por que desfrutam da solidão e, ao mesmo tempo, se sentem profundamente sós, desde crianças?

Em 2014 foi publicado um estudo interessante realizado na Universidade de Stony Brook (Nova York), cujo objetivo foi explicar as características do cérebro de uma pessoa com alta sensibilidade (PAS) e como ele poderia se diferenciar do das pessoas que não são, ou pelo menos não têm uma abertura emocional tão clara.

Os resultados do trabalho realizado por seis pesquisadores foram publicados na revista “Brain and Behavior”. Trazemos aqui algumas informações. Temos certeza de que você irá se surpreender.

Estima-se que cerca de 20% da população possui as características básicas que definem uma alta sensibilidade. É comum que elas passem grande parte de suas vidas sem saber que pertencem a esse pequeno grupo de privilegiados e que, de alguma forma, têm que viver usando “óculos invisíveis” que os fazem ver o mundo de uma maneira diferente e com um coração mais aberto e vulnerável.

Estudos realizados na Universidade de Stony Brook revelaram que as pessoas com alta sensibilidade têm um cérebro emocional dotado de grande empatia. São cérebros totalmente orientados à “sociabilidade” e à união com os demais.

O que isto significa?
O que os pesquisadores concluíram foi, basicamente, que os processos cerebrais dessas pessoas mostram um excesso de excitação nas áreas neurais relacionadas às emoções e à interação: elas são capazes de decifrar e intuir os sentimentos daqueles que estão à sua frente mas por sua vez, enfrentam um problema muito básico.

O resto do mundo não tem a mesma empatia, portanto, há um nítido desequilíbrio em relação à essa sensibilidade e a sensibilidade daqueles ao redor, e elas se veem como diferentes.

Para chegar a estas conclusões foram realizados diferentes testes, como exames de ressonância magnética que permitiram estudar os processos cerebrais das pessoas diagnosticadas como PAS e de outras não diagnosticadas. Para fazer isso, elas foram expostas a diferentes estímulos para verificar a atividade bioquímica e as diferentes estruturas que compõem a atividade cerebral.

Os resultados foram muito visíveis em dois aspectos:

Os neurônios espelho
Tenho certeza de que você já ouviu falar de neurônios espelho. Eles cumprem uma função social, sendo encontrados principalmente em seres humanos e primatas. Localizado no córtex frontal inferior do cérebro, perto da área da linguagem, eles estão relacionados, principalmente, à empatia e a nossa capacidade de capturar, processar e interpretar as emoções dos outros.

Em pessoas com alta sensibilidade, a atividade dos neurônios-espelho é contínua e muito notável, desde a infância.

Lobo da ínsula
A ínsula é uma estrutura pequena e alojada profundamente em nosso cérebro. É encontrada no córtex insular que, por sua vez, está relacionada com o sistema límbico, a estrutura base das nossas emoções que nos dá uma visão mais subjetiva e íntima da realidade.

Na verdade, os cientistas deste estudo chamam a ínsula de “sede da consciência”, que reúne grande parte dos nossos pensamentos, intuições, sentimentos e percepções de tudo o que experimentamos a cada momento. E não surpreende saber que, em pessoas com alta sensibilidade, essa estrutura “mágica” tem uma grande atividade em comparação com aquelas não caracterizadas com a alta sensibilidade.

O estudo também conclui que, além de serem mais sensíveis aos estímulos visuais associados a rostos e emoções humanas, elas também têm um limite mais baixo a muitos estímulos físicos, tais como luzes brilhantes ou sons altos, mesmo ativando as estruturas cerebrais relacionadas à dor. Algo curioso, sem dúvida.

As pessoas com alta sensibilidade têm um traço, uma maneira de sentir e compreender o mundo através de um sistema neurossensorial mais fino, nítido. E não é o que eles têm, é o que são.

Por isso devem aprender a viver com o coração e com este dom maravilhoso, porque o sofrimento não é uma obrigação, mas uma opção que não vale a pena escolher.

O CÉREBRO PRECISA SE ‘EMOCIONAR’ PARA APRENDER – Francisco Mora

Francisco Mora - Especialista em Neuroeducação

Especialista em Neuroeducação aposta na mudança de metodologias, mas pede cautela na aplicação da neurociência na educação

“É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos”
Francisco Mora

A neuroeducação, disciplina que estuda como o cérebro aprende, está dinamitando as metodologias tradicionais de ensino. Sua principal contribuição é que o cérebro precisa se emocionar para aprender e, de alguns anos para cá, não existe ideia inovadora considerada válida que não contenha esse princípio. No entanto, uma das maiores referências na Espanha nesse campo, o doutor em Medicina Francisco Mora, recomenda cautela e adverte que na neuroeducação ainda há mais perguntas do que respostas.

Mora, autor do livro Neuroeducación. Solo se puede aprender aquello que se ama (Neuroeducação. Só se pode aprender aquilo que se ama), que já atingiu a marca de onze edições desde 2013, também é doutor em neurociência pela Universidade de Oxford. Começou a se interessar pelo assunto em 2010, quando participou do primeiro Congresso Mundial de Neuroeducação realizado no Peru.

A entrevista é de Ana Torres Menárguez, publicada por El País.

Mora argumenta que a educação pode ser transformada para tornar a aprendizagem mais eficaz, por exemplo, reduzindo o tempo das aulas para menos de 50 minutos para que os alunos sejam capazes de manter a atenção. O professor de Fisiologia Humana da Universidade Complutense alerta que na educação ainda são consideradas válidas concepções equivocadas sobre o cérebro, o que ele chama de neuromitos. Além disso, Mora está ligado ao Departamento de Fisiologia Molecular e Biofísica da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Eis a entrevista:
Por que é importante levar em conta as descobertas da neuroeducação para transformar a forma de aprender?

No contexto internacional há muita fome para ancorar em algo sólido o que até agora são apenas opiniões, e esse interesse se dá especialmente entre os professores. O que a neuroeducação faz é transferir a informação de como o cérebro funciona com a melhoria dos processos de aprendizagem. Por exemplo, saber quais estímulos despertam a atenção, que em seguida dá lugar à emoção, pois sem esses dois fatores nenhuma aprendizagem ocorre. O cérebro humano não mudou nos últimos 15.000 anos; poderíamos ter uma criança do paleolítico inferior numa escola e o professor não perceber. A educação tampouco mudou nos últimos 200 anos e já temos algumas evidências de que é urgente fazer essa transformação. Devemos redesenhar a forma de ensinar.

Quais são as certezas que já podem ser aplicadas?

Uma delas é a idade em que se deve aprender a ler. Hoje sabemos que os circuitos neurais que codificam para transformar de grafema a fonema, o que você lê e o que você diz, não fazem conexões sinápticas antes dos seis anos. Se os circuitos que permitirão aprender a ler não estão formados, se poderá ensinar com um chicote, com sacrifício, sofrimento, mas não de forma natural. Se você começa com seis, em pouquíssimo tempo aprenderá, enquanto que se começar com quatro talvez consiga, mas com enorme sofrimento. Tudo o que é doloroso tendemos a rejeitar, não queremos, enquanto aquilo que é prazeroso tentamos repetir.

Qual é a principal mudança que o sistema de ensino atual deve sofrer?

Hoje estamos começando a saber que ninguém pode aprender qualquer coisa se não estiver motivado. É necessário despertar a curiosidade, que é o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária. Presta-se atenção àquilo que se destaca. Estudos recentes mostram que a aquisição de conhecimentos compartilha substratos neuronais com a busca de água, alimentos e sexo. O prazeroso. Por isso é preciso acender uma emoção no aluno, que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e memória. As emoções servem para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz.

Quais estratégias o professor pode usar para despertar essa curiosidade?

Ele deve começar a aula com algum elemento provocador, uma frase ou uma imagem que seja chocante. Romper o esquema e sair da monotonia. Sabemos que para um aluno prestar atenção na aula não basta exigir que ele o faça. A atenção deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neurociência estão começando a desvendar. Métodos associados à recompensa, e não à punição. Desde que somos mamíferos, há mais de 200 milhões de anos, a emoção é o que nos move. Os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem.

O senhor alertou em várias ocasiões para a necessidade de ser cauteloso em relação às evidências da neuroeducação. Em que ponto o senhor está?

A neuroeducação não é como o método Montessori, não existe um decálogo que possa ser aplicado. Ainda não é uma disciplina acadêmica com um corpo ordenado de conhecimentos. Precisamos de tempo para continuar pesquisando porque o que conhecemos hoje em profundidade sobre o cérebro não é totalmente aplicável ao dia a dia em sala de aula. Muitos cientistas dizem que é muito cedo para levar a neurociência às escolas, primeiro porque os professores não entendem do que você está lhes falando e segundo porque não há literatura científica suficiente para afirmar em quais idades é melhor aprender quais conteúdos e como. Há flashes de luz.

O senhor poderia contar alguns dos mais recentes?

Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na prática, uma vez que esses formatos não serão alterados em breve, os professores devem quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um pesquisador, uma pergunta, um vídeo que levante um assunto diferente… Há algumas semanas, a Universidade de Harvard me encarregou de criar um MOOC (curso online aberto e massivo, na sigla em inglês) sobre Neurociência. Tenho de concentrar tudo em 10 minutos para que os alunos absorvam 100% do conteúdo. Nessa linha irão as coisas no futuro.

Em seu livro Neuroeducação: Só se pode aprender aquilo que se ama, o senhor adverte sobre o perigo dos chamados neuromitos. Quais são os mais difundidos?

Há muita confusão e erros de interpretação dos fatos científicos, o que chamamos de neuromitos. Um dos mais generalizados é que utilizamos apenas 10% da capacidade do cérebro. Ainda se vendem programas de computador baseados nisso e as pessoas acreditam que poderão aumentar suas capacidades e inteligência para além de suas próprias limitações. Nada pode substituir o lento e difícil processo do trabalho e da disciplina quando se trata de aumentar as capacidades intelectuais. Além disso, o cérebro utiliza todos os seus recursos a cada vez que se depara com a resolução de problemas, com processos de aprendizagem ou de memória.

Outro neuromito é o que fala do cérebro direito e esquerdo e que as crianças deveriam ser classificadas em função de qual dos dois cérebros é mais desenvolvido nelas. Ao analisar as funções de ambos os hemisférios em laboratório, constatou-se que o hemisfério direito é o criador e o esquerdo é o analítico – o da linguagem e da matemática. Extrapolou-se a ideia de que há crianças com predominância de cérebros direitos ou esquerdos e criou-se o equívoco, o mito, de que há dois cérebros que trabalham de forma independente, e que se tal separação não for feita na hora de ensinar as crianças, isso as prejudica. Essa dicotomia não existe, a transferência de informações entre os dois hemisférios é constante. Se temos talentos mais próximos da matemática ou do desenho, isso não se refere aos hemisférios, mas à produção conjunta de ambos.

A neuroeducação está influindo em outros aspectos do ensino?

Há um movimento muito interessante que é o da neuroarquitetura, que visa à criação de escolas com formas inovadoras que gerem bem-estar enquanto se aprende. A Academia de Neurociências para o Estudo da Arquitetura, nos Estados Unidos, reuniu arquitetos e neurocientistas para conceber novos modos de construir. Novos edifícios nos quais, embora seja importante seu desenho arquitetônico, a luz seja contemplada, assim como a temperatura e o ruído, que tanto afetam o rendimento mental.

*Originalmente publicado em El País Brasil.

MELATONINA: O HORMÔNIO DO SONO E DA JUVENTUDE

A melatonina sempre despertou muito interesse no meio científico. Além de ser responsável pelos nossos ciclos de sono e vigília, ela também é a chave para o funcionamento do nosso relógio biológico. Na verdade, para muitas pessoas é aqui que se encontraria o tão buscado segredo para impedir o envelhecimento, para frear a deterioração e atingir idades mais avançadas gozando de um melhor estado físico e psicológico.

Uma coisa dessas pode parecer à primeira vista pouco mais que uma quimera, uma coisa impossível. No entanto, o neuroendocrinologista Walter Perpaoli nos explica no seu livro “O milagre da melatonina” que suas pesquisas no departamento de Medicina da Universidade de Richmond (Virgínia) estão apresentando bons resultados em nível laboratorial.

“A melatonina é o hormônio da serenidade,
do equilíbrio interno e da juventude.”
-Walter Pierpaoli-

Vale dizer que ainda precisaremos esperar algumas décadas para obter resultados mais conclusivos, mas isso não impediu que desde então a febre pela melatonina aumentasse ainda mais desde que as indústrias farmacêuticas enxergaram nela uma mina de ouro. Sabe-se que nos Estados Unidos, por exemplo, chegam a ser produzidos mais de 20.000 frascos de melatonina sintética por dia.

Muitas das pessoas que a consomem não o fazem apenas para regular um pouco melhor seus ciclos de sono. Foi demonstrado que a melatonina diminui na puberdade e que na chegada dos 40 anos nosso corpo reduz sua síntese de forma bastante drástica. Portanto, o segredo para conservar um pouco mais a nossa juventude estaria – aparentemente – em repor esse déficit de melatonina.

No entanto, os benefícios desse hormônio vão muito além de impedir o aparecimento de uma ou outra ruga ou dos cabelos brancos, já que seu papel na nossa saúde e no equilíbrio psicológico é simplesmente incrível.

O que é a melatonina?

A melatonina ou o N-acetil-5-metoxitriptamina é um hormônio sintetizado a partir do triptofano que é produzido na glândula pineal. Ao mesmo tempo, é interessante saber que não são apenas as pessoas e os animais que possuem esse sofisticado e precioso elemento biológico, já que ele também está presente nas bactérias, nos fungos e em algumas algas. É, por assim dizer, o segredo da vida.

Por outro lado, e para que a melatonina possa ser produzida normalmente, o corpo precisa receber os diferentes padrões de luz e sombra que ocorrem ao longo do dia. Essa combinação entre o estímulo luminoso que chega pela retina, os pinealócitos na glândula pineal e o núcleo supraquiasmático do hipotálamo são os elementos que orquestram a síntese.

Sabe-se, por exemplo, que por volta das 20 horas nosso nível de melatonina começa a subir. Ele vai aumentar de forma progressiva até mais ou menos 3 horas da manhã, momento em que nossa temperatura corporal costuma ser mais baixa. É o que os cientistas chamam de “tempo biológico zero”. A partir desse momento, o nível de melatonina decai de novo.

Como curiosidade, vale dizer que se conseguiu isolar a melatonina da glândula pineal há pouco tempo. Foi em 1958 que se descobriu a importância desse hormônio no nosso ritmo circadiano. Desde então, a ciência tem se aprofundado ainda mais, estudando seu papel na depressão, na obesidade e nas doenças neurodegenerativas.

Qual é a sua relação com o sono?

Patrícia tem 52 anos e há alguns meses tem sofrido de insônia. Como a maioria de nós já ouviu e leu em várias fontes, “a melatonina nos ajuda a dormir”. Assim, sem pensar, vamos à farmácia e compramos um frasco para ver como isso funciona. Não é preciso receita médica para comprar melatonina, fazer isso nas farmácias é simples, econômico e à primeira vista parece ser o “remédio perfeito”.

No entanto… Será que é mesmo verdade que a melatonina pode nos ajudar a acabar com a insônia?

Bem, é importante entender que a melatonina, na realidade, induz ao sono, mas não nos mantém nesse estado.  Ou seja, quando Patrícia tomar sua primeira cápsula de melatonina às 23 horas é muito provável que ela durma, mas certamente vai acordar após algumas horas.

Os suplementos de melatonina na realidade podem ser muito úteis para lidar com as mudanças de fuso horário, assim como para nos ajudar com aqueles turnos de trabalho em que frequentemente não temos outra opção senão dormir de dia para trabalhar à noite.

Também é muito eficaz para pessoas com déficits visuais.

Além disso, foi demonstrado que também é útil para reduzir a dor associada a diferentes tipos de dores de cabeça.

Paralelamente, vale levar em consideração outro aspecto importante sobre esses suplementos de melatonina. Geralmente cada comprimido contém entre 3 e 10 miligramas de melatonina, quando na realidade nosso organismo já reage com meio miligrama.

Regular a melatonina para dormir bem.

Os únicos estudos que apoiam a eficiência do uso da melatonina sintética para tratar da insônia o fazem quando a pessoa sofre do que se conhece como síndrome do atraso das fases do sono (SAFS). Trata-se de um transtorno no ritmo circadiano que provoca insônia, mudanças de temperatura, problemas hormonais e de atenção.

A melatonina nas pessoas que sofrem de estresse.

A melatonina pode ser uma bênção para pessoas que costumam levar uma vida com alto nível de estresse e que, além disso, devido ao trabalho, são obrigadas a passar muitas horas em ambientes onde há apenas luz artificial. Vamos pensar por exemplo nos médicos, nas enfermeiras, nos auxiliares de enfermagem ou em qualquer operário que trabalhe durante longos turnos, perdendo a noção do dia ou da noite.

Há muitas pessoas que, devido à pressão do trabalho acabam dormindo muito pouco e comendo mal. Esse estilo de vida provoca uma queda preocupante do nível de melatonina. Com isso, surge o risco de depressão e de outras doenças associadas.

Ao mesmo tempo, uma pequena quantidade de melatonina liberada no nosso corpo faz com que nosso ritmo circadiano se altere ainda mais. O sistema imunológico se enfraquece e passamos a não ter mais um dos melhores antioxidantes biológicos que possuímos, que é capaz de reparar o dano celular e frear o envelhecimento precoce.
Estresse do dia a dia

Se nos encontramos em alguma dessas situações, é vital consultar um médico sobre a pertinência de utilizar a melatonina sintética ou se é melhor a nos limitarmos a melhorar nossa dieta e ajustar um pouco melhor nosso estilo de vida.

Melatonina contra o envelhecimento e os processos degenerativos

Assim como afirmamos no início do artigo, à medida que vamos nos tornando mais velhos, a melatonina para de ser produzida na mesma quantidade. No entanto, essa baixa não se traduz apenas em uma produção noturna um pouco mais deficiente ou em abrir caminho a um envelhecimento progressivo.

Há um dado que não podemos menosprezar: esse hormônio também sincroniza os ritmos dos nossos neurotransmissores cerebrais. Assim, o que experimentamos ao longo do tempo é uma perda das nossas capacidades cognitivas, como a atenção ou a memória.

Paralelamente, a falta de melatonina contribui para o aparecimento de algumas doenças como o Alzheimer ou o Parkinson.

Isso explica o fato de muitos profissionais da saúde recomendarem aos seus pacientes com mais de 55 anos o consumo de complementos à base de melatonina com o objetivo de prevenir – e até mesmo reverter – o processo neurodegenerativo associado ao dano mitocondrial que a queda da melatonina provoca.

Esse é um dado interessante que é conveniente considerar.

Como podemos melhorar nossos níveis de melatonina de maneira natural?

É muito provável que, após ler todos esses benefícios associados à melatonina, nossa primeira reação seja ir até uma farmácia e comprar um frasco. Devemos ressaltar que isso não é recomendado. São os médicos que devem recomendar ou não o uso da melatonina, assim como a dose e o intervalo da administração. Não podemos nos esquecer de que cada pessoa precisa de uma dose específica e é só assim que poderemos perceber sua eficiência.

Portanto, e antes de se automedicar, sempre está nas nossas mãos estimular a produção de melatonina de maneira natural através de algumas simples estratégias.

Na medida do possível, e se nossas obrigações diárias permitirem, é bom viver em harmonia com os ciclos de luz. Um erro que a maioria das pessoas comete é deixar as noites sobrecarregadas com a luz artificial dos aparelhos eletrônicos, como o computador, o tablet, o celular… Tudo isso afeta a nossa glândula pineal.

Ao mesmo tempo, é importante que nossa dieta seja rica em um tipo de aminoácido muito especial: o triptofano. Graças a ele sintetizaremos quantidades adequadas de melatonina e também de serotonina.

Esses são alguns dos alimentos: 
A gema do ovo.
Banana, abacaxi, abacate e ameixa.
O chocolate amargo é bom para elevar o nível de triptofano para sintetizar melatonina de forma neutra.
Alga spirulina.
Agrião, espinafre, beterraba, cenoura, aipo, alfafa, brócolis, tâmaras.
Oleaginosas (amêndoas, nozes, pistache, castanha de caju…).
Sementes (gergelim, abóbora, girassol).
Cereais integrais.
Levedura de cerveja.
Leguminosas (grão-de-bico, lentilha, feijão, soja…)
Chocolate produz melatonina

Para concluir, assim como vimos, a melatonina é muito mais que um hormônio que regula nosso ciclo de sono e vigília. Também é a molécula da juventude, do bem-estar psicológico e, por sua vez, a ponte que nos une aos ritmos naturais do nosso planeta para viver em sintonia com ele.
Um aspecto da vida que aparentemente estamos esquecendo.

Referências bibliográficas: 
Lewis, Alan (1999). Melatonin and the Biological Clock. McGraw-Hill 
Pierpaoli, Walter (1996) El milagro de la melatonina. Barcelona: Unrano 
Buscemi N, Vandermeer B, Pandya R, Hooton N (2004), Melatonin for treatment of sleep disorders. McGraw-Hill
Turek FW, Gillette MU (2004). Melatonin, sleep, and circadian rhythms. Lancet

O CÉREBRO ENTENDE A REJEIÇÃO COMO DOR FÍSICA - Universidade de Michigan

Igualar rejeição à dor física é algo comum em nossa linguagem social – você leva um fora num bar, seus amigos dizem “Essa doeu!” e você experimenta a ferroada dessa sensação.

Mas as duas dores também têm uma conexão neurológica. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Michigan descobriram que nosso cérebro responde à rejeição social liberando analgésicos naturais da mesma maneira que faz quando encara a dor física.

Quando uma pessoa sente dor física, seu cérebro libera substâncias químicas chamadas opioides (ou opiáceos) nos espaços entre os neurônios, amortecendo os sinais da dor. A equipe de Michigan descobriu que é possível estimular a mesma área do cérebro, conhecida como sistema receptor de opioides, fazendo as pessoas sentirem que foram rejeitadas num site de encontros.

Os pesquisadores fizeram 18 voluntários visualizarem perfis pessoais falsos – com fotos e interesses – e levaram os voluntários a selecionar algumas pessoas inexistentes com quem gostariam de sair. Depois, enquanto os voluntários passavam por uma tomografia, eles ficavam sabendo que as pessoas que eles tinham escolhido não estavam tão a fim deles.

 “Os voluntários visualizavam os perfis falsos (esquerda) e os seus próprios (direita). Enquanto passavam por uma tomografia cerebral que rastreava a resposta de opioides de seus cérebros, os voluntários ficavam sabendo que as pessoas que eles tinham escolhido não gostavam deles (como na última linha dessa imagem).”

Mesmo estando claro antes do teste que esses perfis não eram de pessoas reais, a falsa rejeição já era o suficiente. As tomografias feitas enquanto as fantasias românticas dos voluntários eram esmagadas, mostraram a liberação de opioides no corpo estriado ventral, amídala, tálamo medial e substância cinzenta periaquedutal – áreas do cérebro que também estão envolvidas na dor física.

“Este é o primeiro estudo a se aprofundar no cérebro humano para mostrar que o sistema opioide é ativado durante a rejeição social”, disse David T. Hsu, pesquisador e professor assistente de psiquiatria.

Não somente isso, como parte da maneira pela qual o cérebro lida com a dor e parte de seu sistema de recompensa, a liberação de opioides também acompanhou a notícia de que uma pessoa inexistente estava interessada nos participantes. Sim, eram opiniões de pessoas que nunca existiram e, ainda assim, garantiram uma reação neurológica.

Os testes também descobriram correlações químicas entre certos traços de personalidade. Parece que as pessoas que logo se levantam depois de cair de um cavalo são aquelas que recebem uma dose saudável de opioides quando caem. “Indivíduos que pontuaram alto no traço de resistência de um questionário de personalidade tendiam a ser capazes de liberar mais opioides durante a rejeição social, especialmente na amídala”, disse Hsu.

Quando mais opioides liberados em outras áreas, como o córtex cingulado pregenual, menos o participante relatava ter ficado perturbado por causa da rejeição.

Ao determinar como lidamos com a dor no cérebro, os cientistas esperam chegar a drogas e tratamentos mais eficazes para pessoas que sofrem de desordens sociais, ou aquelas que não conseguem se recuperar de rejeições.

“É possível que aqueles com depressão ou ansiedade social sejam menos capazes de liberar opioides em situações sociais difíceis e, portanto, não se recuperam tão rapidamente ou completamente de uma experiência social negativa. De maneira similar, esses indivíduos liberam menos opioides durante interações sociais positivas e, portanto, podem não se beneficiar tanto com apoio social”, disse Hsu.

Os resultados do estudo podem ser lidos na íntegra na publicação Molecular Psychiatry. Além disso, o estudo também provou que, por mais que os relacionamentos pela internet tentem nos isolar da dor da rejeição, ainda sentimos o golpe de um fora – mesmo sabendo que a pessoa que rejeita não existe. Olhando pelo lado positivo, se você precisar daquela dose básica de opioides, só o fato de saber que uma pessoa fictícia gostou de você já é o suficiente.
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OS EFEITOS SAUDÁVEIS DE MOMENTOS DE SOLIDÃO E SILÊNCIO?

Não é nenhuma contradição: os momentos de solidão, de silêncio e desconexão são necessários para motivar o nosso impulso vital com mais autenticidade. É como pressionar um botão de reinicialização onde cada peça se encaixa com mais sentido, onde encontramos a clareza mental para entender melhor as pessoas, para colocar filtros, definir prioridades e objetivos pessoais.

Miles Davis foi um tos trompetistas e compositores de jazz mais conhecidos da história. Uma vez, quando alguns músicos jovens pediram conselhos a ele sobre como conseguir seu nível de maestria e originalidade, Davis lhes deu uma resposta que eles nunca mais iriam esquecer: “Se não existissem os silêncios, a música não seria o que é.”

“O valor de um homem é medido
pela quantidade de solidão que ele consegue suportar”
-Friedrich Nietzsche-

Ele também lhes indicou que a vida é como uma partitura, onde se pode encontrar o ritmo combinando momentos de atividade com momentos de solidão, silêncio e reflexão. Somente assim podemos encontrar a inspiração e a melodia escondida dentro de nós, que não poderíamos ouvir de outra forma.

É, sem dúvida, um conselho sábio e óbvio. No entanto, por mais lógico que possa parecer, nem sempre o colocamos em prática de forma eficaz. Em nosso mundo atual, por mais curioso que pareça, existe em maior grau um tipo de solidão camuflada e às vezes patológica, sobre a qual nem sempre ouvimos falar.

Nos referimos àquela em que desaparecemos na hiperatividade (buscando uma falsa hiperprodutividade) e na hiperestimulação. Nós passamos o dia trabalhando, conectados às tecnologias, fazendo coisas, cumprindo objetivos, satisfazendo os outros, envoltos no ruído das nossas cidades. E, no entanto, este rumor incessante e essa atividade imparável nem sempre valem as preocupações que nos geram ou o tempo que nos roubam.

Se a isso acrescentarmos o fato de que às vezes nossos relacionamentos nos trazem mais solidão do que felicidade, vamos entender por que cada ano aumentam as taxas de depressão e outros tipos de transtornos de saúde que não podemos negligenciar…

Os momentos de solidão são benéficos para o nosso cérebro

Em primeiro lugar, devemos destacar um fato importante. A solidão que nos beneficia e que se reverte para a nossa saúde física e psicológica é aquela que combina os momentos de solidão e isolamento com a conexão posterior com o mundo, com seu som, sua forma, suas cores e riquezas sensoriais e, acima de tudo, com relações sociais significativas, seja com amigos, com o parceiro, com a família, com colegas de trabalho…

O ser humano não está preparado para viver em completo e permanente isolamento. Um exemplo impressionante é, sem dúvida, a câmara anecoica dos Laboratórios Orfield, em Minneapolis, nos Estados Unidos. É um espaço onde diversas empresas estudam o som de seus produtos: telefones, motocicletas, máquinas de lavar roupa… É uma sala ultra-silenciosa onde 99,99% do ruído é absorvido pelas paredes de aço e fibra de vidro, e onde costumam ser realizados inúmeros experimentos psicológicos.
câmara anecoica

Verificou-se que, em média, ninguém conseguiu estar na câmara anecoica por mais de meia hora. As pessoas muitas vezes saem desesperadas e entram em pânico por não poder resistir a um silêncio tão oco, sufocante e vazio.

Neste espaço, a quietude é tão extrema que é comum ouvir os sons do coração ou a nossa própria circulação sanguínea. Algo para o qual o cérebro não está preparado, algo que vai contra a nossa natureza, a nossa programação genética: afinal, somos seres sociais que precisam se conectar com seu ambiente mais próximo, e quando não temos nenhum estímulo, simplesmente entramos em pânico.

Por outro lado, enquanto o isolamento total afeta o nosso equilíbrio psicológico, o ocasional e delimitado no tempo o beneficia. Os cientistas nos dizem que os momentos de solidão bem distribuídos ao longo do dia são como “descargas elétricas” capazes de nos reiniciar, de nos permitir recuperar energia, o sentido e a inspiração.

Programe seus momentos de solidão para melhorar a saúde

Vivemos em uma sociedade que adora a independência, mas que no entanto está cada vez mais alienada, sobrecarregada e acelerada. O avanço das novas tecnologias facilita que estejamos mais conectados do que nunca. Nossas cidades estão cada vez mais superpopuladas.

Além disso, estamos cada vez mais cercados por luz artificial, somos menos ativos fisicamente porque temos a oportunidade de fazer muitas coisas sem pedir mais pulsações para o nosso coração.

Os médicos, neurologistas e psicólogos nos dizem que nossos cérebros estão se “conectando” de forma muito diferente de como se conectavam há 100 anos. Recebemos tantos estímulos ao longo do dia e por tantas frentes que é quase “vital” que gerenciemos um pouco melhor todo esse caos sensorial. Necessitamos de calma, necessitamos de silêncio e de solidão de vez em quando para integrar toda essa corrente de informações. O objetivo não é outro senão encontrar um sentido.

No entanto, há quem não saiba e, pior, há quem sinta um medo quase atávico de permanecer um dia consigo mesmo em solidão para conversar, para refletir. Esse encontro pode ser quase tão aterrador como ficar meia hora na câmara anecoica dos Laboratórios Orfield.

Porque assim como nesse espaço pode-se ouvir os sons do próprio corpo, os momentos de solidão em lugares mais confortáveis podem trazer o vazio do próprio ser, os medos, as angústias, os nós dos assuntos pendentes e a nudez de uma infelicidade não reconhecida.

Vamos ser corajosos, vamos programar alguns momentos de solidão para que possamos tomar um café com nós mesmos e deixar que a mente se aclare, que as marés de preocupação se acalmem para ver as nossas verdadeiras necessidades. Vamos tornar a solidão escolhida e pontual o nosso autêntico bálsamo.
Fonte: A mente é maravilhosa

POR QUE A GENTE GOSTA DE QUEM NOS FAZ RIR? - Suzana Herculano-Houzel

Graças a risadas, o cérebro libera opioides

Ter oportunidades para rir ao longo do dia pode parecer um bônus, uma pausa bem-vinda no meio de um dia de afazeres. Mas um corpo crescente de evidências indicam que o que leva ao riso faz muito mais do que divertir: reduz o estresse, melhora a capacidade do corpo de combater infecções –e ainda promove laços afetivos entre todos os que compartilham a risada.

Um estudo finlandês recém publicado no "Journal of Neuroscience" mediu a liberação de opioides pelo cérebro de voluntários após estes terem passado 30 minutos assistindo com dois amigos próximos a uma compilação de cenas de comédia, e comparou o nível de opioides com aquele nos mesmos voluntários após 30 minutos de silêncio, sozinhos em um quarto.

Os opioides mais famosos são morfina e heroína, conhecidos pelas sensações de analgesia, relaxamento e prazer que causam –e que tão rapidamente levam ao vício, se intensos e frequentes demais. Se tais substâncias funcionam, no entanto, é justamente porque existem opioides internos, produzidos pelo próprio cérebro, e que provavelmente levam a efeitos semelhantes, ainda que mais brandos.

De fato, hoje se sabe que o efeito placebo, a melhora no bem-estar e redução da dor que acontecem só de se acreditar que se recebeu tratamento (quando o remédio na verdade era apenas água, farinha ou glóbulos de homeopatia sem qualquer princípio ativo), depende da capacidade do cérebro de produzir seus próprios opioides.

Ser acariciado ou abraçado por quem se gosta é uma maneira certeira de fazer o cérebro liberar seus próprios opioides –mas que só tem efeito sobre as duas pessoas envolvidas. Segundo o estudo finlandês, rir em grupo também funciona, e aparentemente surte efeitos no cérebro de todos os envolvidos: a liberação de opioides endógenos aumenta nas partes do cérebro que levam ao bem-estar e ao prazer, e junto com isso vêm não só sensações agradáveis de diversão como também de calma e paz interna. Quanto mais intensas as risadas, mais forte é a ativação do cérebro por seus próprios opioides –e mais intensas as sensações positivas.

De quebra, fica no cérebro um registro da associação entre a companhia do momento e o resultado prazeroso. E assim quem riu conosco, ou nos fez rir, ganha valor especial para nosso cérebro.

Não é à toa que gostamos tanto dos nossos amigos e parceiros bem-humorados, e preferimos sua companhia à de qualquer outra pessoa. Rir faz bem ao cérebro –e ele lembra com carinho especial de quem nos levou ao riso.

ESTUDOS REVELAM QUE DEPRESSÃO MUDA O RELÓGIO BIOLÓGICO

Durante todo o dia, um relógio faz tique-taque no nosso corpo. Ele acorda-nos de manhã e faz com que possamos dormir de noite. Aumenta e diminui a temperatura do nosso organismo e, nas horas certas, regula a produção de insulina e de outros hormônios.

O relógio circadiano influência até os nossos pensamentos e sentimentos. Psicólogos mediram alguns dos efeitos no cérebro pedindo que pessoas fizessem testes cognitivos em horas diferentes do dia.

Constatou-se que o final da manhã é a melhor hora para fazer tarefas como contas aritméticas de cabeça, que exigem a manutenção de várias peças de informação na mente ao mesmo tempo. Mais tarde é a hora de tentar tarefas mais simples, como procurar por uma letra numa página com rabiscos.

Outra pista sobre o relógio nos nossos cérebros vem de pessoas com condições como depressão e transtorno bipolar. Quem tem esses problemas geralmente sente dificuldade para dormir à noite ou sente-se zonzo durante o dia. Algumas pessoas com demência ficam confusas ou agressivas no final do dia.

“Os ciclos de sono e atividade desempenham um papel importante nas doenças psiquiátricas”, afirma Huda Akil, neurocientista da Universidade de Michigan. 

Ainda assim, os neurocientistas lutam para entender exatamente como o relógio circadiano afeta as nossas mentes. Afinal, os pesquisadores não podem simplesmente abrir o crânio de um sujeito e monitorizar as suas células cerebrais durante cada período do dia.

Alguns anos atrás, Huda Akil e os seus colegas tiveram uma ideia.

A Universidade da Califórnia em Irvine guarda cérebros doados para a ciência. Alguns dos seus antigos donos morreram de manhã, alguns durante a tarde e outros de noite. Huda e colegas questionavam-se se havia diferenças nos cérebros dependendo da hora do dia em que os seus doadores faleceram.

“Talvez seja uma ideia simples, mas ninguém havia pensado nisso.”

Ela e os seus colegas seleccionaram cérebros de 55 pessoas saudáveis cujas causas de morte foram súbitas, como acidentes de viação. De cada cérebro, os pesquisadores fatiaram tecidos de regiões importantes para a aprendizagem, para a memória e para as emoções.

No momento em que cada um morreu, as suas células cerebrais estavam a produzir proteínas de certos genes. Como os cérebros foram preservados rapidamente, os cientistas ainda podiam medir a atividade desses genes na hora da morte. A maioria dos genes que examinaram não revelou nenhum padrão regular de atividades no curso do dia, mas descobriram que mais de mil deles seguiam um ciclo diário. As pessoas que morreram na mesma hora do dia estavam a produzir os mesmos níveis de proteínas daqueles genes.

Os padrões eram tão consistentes que os genes podiam agir como um marcador de tempo.

“Poderíamos perguntar: ‘A que hora do dia essa pessoa morreu?’, e daria para apontar, após uma hora, o momento real da morte”, diz Huda.

Ela e os seus colegas então fizeram a mesma análise nos cérebros de 34 pessoas que tiveram depressões fortes antes de morrer. Dessa vez, descobriram que o mesmo marcador de tempo estava bastante fora da ordem.

“Era como se as pessoas estivessem no horário do Japão ou da Alemanha”, conta.

Huda e os seus colegas publicaram os resultados em 2013, inspirando pesquisadores na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburg a tentar replicá-los. 

“Era uma coisa que antes pensávamos que não poderíamos fazer”, explica a neurocientista Collen A. McClung.Collen e a sua equipa fizeram uma versão ampliada do estudo, examinando 146 cérebros recolhidos no programa de doações da universidade.

Os pesquisadores publicaram os seus resultados no The Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Encontramos ritmos muito consistentes. Realmente parece uma foto de onde o cérebro estava na hora da morte”, afirma Collen. Huda ficou grata que outra equipa de pesquisadores se tenha esforçado para apoiar o seu resultado. “Existe uma série de coincidências que fazem com que acredite que algo realmente está a acontecer ali”, explica ela.

Mas Collen e os seus colegas também fizeram o que ninguém havia tentado; compararam os padrões da expressão genética do cérebro de jovens e velhos e descobriram diferenças intrigantes. 

Os cientistas esperavam encontrar pistas para explicar por que o ciclo circadiano das pessoas mudava à medida que elas envelheciam. “Quando envelhecem, os seus ritmos tendem a deteriorar-se e a adiantar-se”, diz Collen. 

Ela descobriu que alguns dos genes que estavam ativos nos ciclos diários fortes em pessoas jovens diminuíram naqueles com mais de 60 anos. É possível que alguns idosos parem de produzir as proteínas nos seus cérebros necessárias para manter os ritmos circadianos.

Para sua surpresa, no entanto, os investigadores também descobriram alguns genes que se tornam ativos nos ciclos diários apenas em pessoas de mais idade.

“Parece que o cérebro tenta compensar ligando um relógio extra”, afirma Collen.

Huda imagina que a habilidade do cérebro de forjar um relógio de apoio pode proteger alguns idosos de doenças neurodegenerativas.

“Pode ser a diferença entre a deterioração ou não”, diz ela.

O QUE SE SENTE ANTES DA MORTE? ISSO É O QUE SABEMOS...

A morte é um desses enigmas para os quais é impossível organizar uma resposta definitiva. Aceitar e assimilar a ideia de um final absoluto não é fácil. Por isso se trata de um conceito que provoca medo, apreensão ou curiosidade, em qualquer caso. Embora saibamos pouco sobre ela, trata-se de uma experiência pela qual todos vamos passar inevitavelmente algum dia.

As primeiras respostas relacionadas à morte foram proporcionadas pela religião. Talvez a morte (o ponto a partir do qual ninguém deu depoimento) seja exatamente uma dessas razões pelas quais as religiões nascem e se mantêm ao longo do tempo. Muitas delas aceitam a existência de um espírito que transcende a vida biológica e que está em um mundo paralelo, o qual é invisível, imperceptível, mas que está lá, esperando por nós (ou por quem merecer).

“A morte é algo que não devemos temer, porque enquanto estamos vivos ela não existe, e quando existir, nós não estaremos mais vivos.”
-Antonio Machado-

A ciência também tentou decifrar esse enigma. Embora existam muitos cientistas que possuem crenças religiosas, formalmente a ciência trata o homem como um ser puramente biológico, cuja única existência não vai além das batidas do coração. A física quântica explorou outras perspectivas, como a dos universos paralelos, mas até agora tudo não passa de hipóteses.

A ciência progrediu na compreensão de todos os processos físicos e psíquicos que envolvem a morte. Exatamente para ampliar a compreensão desses aspectos, foi realizado um estudo nos Estados Unidos e os resultados foram muito interessantes.

Uma pesquisa sobre a morte

Muitas pessoas já se perguntaram alguma vez o que se sente antes de morrer. Como acontece esse momento de desprendimento da vida? Dói? Envolve sofrimento? O medo de dar o passo definitivo em direção ao desconhecido nos invade por completo? Realmente vemos toda a nossa vida passar diante dos nossos olhos em um segundo?

Para responder a essas perguntas um grupo de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, liderados pelo professor Kurt Gray, realizou um estudo. Para isso, partiram de dois grupos que estavam vivendo experiências próximas à morte. O primeiro desses grupos era composto por doentes terminais. O segundo era formado por pessoas que estavam presas e condenadas à morte.

Aos membros do primeiro grupo foi pedido que abrissem um blog e que compartilhassem ali seus sentimentos durante um período mínimo de três meses. A publicação deveria conter pelo menos 10 entradas. Paralelamente, foi solicitado algo parecido a um subgrupo de voluntários. Foi pedido que eles imaginassem terem sido diagnosticados com câncer e que escrevessem a respeito desse tema. Quanto ao segundo grupo, formado pelos presos no “corredor da morte”, foram recolhidas suas últimas palavras.

Em ambos os casos se pretendia analisar os sentimentos e as emoções que apareceriam em uma situação de proximidade com a morte. Outro objetivo também era identificar se todo o mundo interno desses indivíduos refletia mudanças com a aproximação do momento final da vida.

Os interessantes resultados do estudo

Uma equipe de psicólogos entrou em ação com a tarefa de analisar as declarações do primeiro grupo, junto com o subgrupo paralelo. Eles elaboraram suas conclusões com base nas palavras que as pessoas usaram para descrever ou fazer referência às suas emoções. A partir disso, eles chegaram a resultados interessantes. O primeiro foi de que os doentes terminais expressaram mais emoções positivas que o grupo de voluntários. Da mesma maneira, quanto mais próximo estava o momento da morte, mais positivas eram as mensagens.

Com os condenados à morte aconteceu algo parecido. Suas declarações finais não estavam baseadas na dor, no arrependimento ou no ódio às autoridades que tinham decretado a pena de morte. Pelo contrário, suas palavras estavam repletas de amor, compreensão e significado afetivo. Em ambos os grupos destacavam-se alusões à religião e à família.

O professor Kurt Gray, chefe da pesquisa, concluiu que “o processo de morte é menos triste e assustador e mais feliz do que se pensa”. Embora a morte em si seja um conceito que gera angústia e medo pela incerteza que a cerca (para além da fé de cada um), na hora de enfrentá-la as pessoas conscientemente tendem a evoluir. Tanto que acabam enxergando a própria morte como algo construtivo e cheio de sentido.

Aparentemente, a capacidade de adaptação do ser humano é gigantesca e se expressa em toda sua plenitude durante os momentos limites, como a morte. Psicológica e fisiologicamente, as pessoas desenvolvem mecanismos que as permitem enfrentar a realidade do fim com sabedoria.

Por isso, Gray afirma, com plena convicção, que “a morte é inevitável, mas o sofrimento não é”.

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