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12 de jul. de 2020

QUANDO A OVELHA NEGRA É A PESSOA MAIS SAUDÁVEL DA FAMÍLIA - Marcel Camargo

É muito difícil encontrar um parâmetro do que possa ser considerado normal ou não. Para alguns, a normalidade está atrelada a comportamentos padronizados socialmente; para outros, tem a ver com preceitos religiosos, e por aí vai. Fato é que, muitas vezes, confunde-se normalidade com calmaria, quietude e obediência, sendo que uma coisa não necessariamente depende da outra.

Quantas vezes nós mesmos não temos uma impressão errada sobre alguém que se veste de uma forma totalmente peculiar, ou possui um corte de cabelo diferente, alguém que, aparentemente, foge ao que é considerado normal? Ou sobre alguém que abraça as causas em que acredita de uma maneira efusiva, brigando por elas sempre que necessário, até mesmo empunhando cartazes e saindo às ruas?

Pois é, a aparência não tem nada a ver com a essência humana, mas parece ser tão difícil entender isso.

Difícil porque o mundo de hoje se baseia naquilo que se vê, naquilo que se ostenta, nas grifes que se vestem, no poder de compra, no tanto que se consome. Com isso, torna-se cada vez mais difícil enxergar o essencial de cada um, aquilo que a pessoa realmente possui dentro de si e consegue viver, praticar, sem machucar ninguém pelo caminho

É o que fazemos que importa, não o que falamos e aparentamos por aí.

E, nos núcleos familiares, não raro se tomam como ovelhas negras justamente as pessoas que contestam, que ousam, que enfrentam o que, embora já esteja estabelecido há muito tempo por várias gerações, trata-se de algo que precisa ser mudado, oxigenado, a fim de se quebrar uma falsa base da zona de conforto que se perpetua há anos. Porque ninguém é obrigado a manter um casamento fracassado ou a se vestir seguindo a moda, somente porque sempre foi assim entre os familiares.

Os ousados é que promovem avanços que abrem novos caminhos a muita gente sem coragem.

Portanto, é preciso muita cautela ao julgar alguém que já foi julgado, pelas pessoas ou pelos familiares, como sendo uma ovelha negra, visto que somente a convivência e o tempo é que mostram realmente o que cada um é de fato.

Muitas vezes, apenas se trata de alguém que não se sujeitou a regras e comportamentos ditos como normais, sabe-se lá por quem ou por quê, e resolveu viver de acordo com as batidas do próprio coração.

Trata-se, enfim, de alguém que não se permitiu ser aceito pelos outros em troca da própria felicidade.
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9 de jul. de 2020

CÉREBRO COMPORTA NO MÁXIMO 150 AMIGOS, DIZ ESTUDO.

Ter amigos só traz benefícios. Quanto mais, melhor. Mas há um limite. Um estudo feito na Universidade de Oxford comparou o tamanho do cérebro humano, mais precisamente do neocórtex (área responsável pelo pensamento consciente), com o de outros primatas. 

Ele cruzou essas informações com dados sobre a organização social de cada uma das espécies ao longo do tempo. E chegou a uma conclusão reveladora: 150 é o máximo de amigos que uma pessoa consegue ter ao mesmo tempo.


Para que você mantenha uma amizade com alguém, precisa memorizar informações sobre aquela pessoa (desde o nome até detalhes da personalidade dela), que serão acionadas quando vocês interagirem. Por algum motivo, o cérebro não comporta dados sobre mais de 150 pessoas. Os relacionamentos que extrapolam esse número são inevitavelmente mais casuais. Não são amizade. 

Outros pesquisadores foram além e constataram que, dentro desse grupo de 150, há uma série de círculos concêntricos de amizade: 5, 15, 50 e 150 pessoas, cada um com características diferentes.


O curioso é que esses círculos já haviam sido mencionados por filósofos como Confúcio, Platão e Aristóteles – e também estão presentes em várias formas de organização humana. Na Antiguidade clássica, 5 já era considerado o número máximo de amigos íntimos que alguém poderia ter. Tirando o futebol, 12 a 15 pessoas é a quantidade de jogadores na maioria dos esportes coletivos.

Cinquenta é o número médio de pessoas nos acampamentos de caça em comunidades primitivas (como os aborígenes da Austrália, por exemplo). Cento e cinquenta é o tamanho médio dos grupos do período neolítico, dos clãs da sociedade pré-industrial, das menores cidades inglesas no século 11 e, até hoje, de comunidades camponesas tradicionais como os amish (que dividem uma comunidade em duas quando ela ultrapassa as 150 pessoas). 


Os 150 podem, inclusive, ser a chave do sucesso profissional. Como no caso da Gore-Tex, uma empresa têxtil americana que se divide (e abre uma nova sucursal) cada vez que seu número de funcionários passa de 150 pessoas. A vantagem disso é que todos os empregados se conhecem, têm relações amistosas e cooperam melhor.


 “As coisas ficavam confusas quando havia mais de 150 pessoas”, explicou o fundador da empresa, William Gore, numa entrevista concedida alguns anos antes de morrer, em 1986. E a aposta nesse modelo de organização deu certo. A Gore-Tex virou uma multinacional com US$ 2,5 bilhões de faturamento anual – e é apontada pela revista Fortune como um dos 100 melhores lugares para trabalhar desde que esse ranking começou a ser compilado, em 1984.


Mas, mesmo com tantos exemplos práticos, ninguém sabe explicar por que nosso limite de amizades é de 150 pessoas. Para os cientistas, foi como o cérebro conseguiu construir e administrar o que viria a se tornar, ao longo do tempo, o bem mais importante da espécie humana: a rede social.


Amizade, um círculo finito.
O cérebro comporta no máximo 150 amigos, divididos em grupos:


Íntimos
5 amigos – São os íntimos, com quem você mais fala – e não hesitaria em ligar de madrugada ou pedir dinheiro emprestado. Para Aristóteles, 5 era o número máximo de amigos verdadeiros.


Grupo de empatia
15 amigos – São pessoas bastante importantes para você – se alguma delas morresse amanhã, você ficaria muito triste. Este grupo pode incluir gente do trabalho ou amigos de amigos.


Número típico
50 amigos – É o número de amizades mantidas pela maioria das pessoas, e também o tamanho médio dos agrupamentos humanos primitivos (como bandos de caça).


Limite
150 amigos – Máximo que o cérebro consegue administrar ao mesmo tempo. São as pessoas cujos nomes, rostos e características você consegue memorizar e acionar caso seja necessário.
Fonte: BBC Brasil
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PESQUISA RELACIONA ANSIEDADE E INTELIGÊNCIA

Pessoas nervosas são mais inteligentes que as demais. A afirmação é polêmica e foi feita por cientistas do Suny Downstate Medical Center, em Nova York. Depois de examinar o QI de portadores de distúrbios da ansiedade, como síndrome do pânico, transtorno pós-traumático e medo de lugares fechados, a equipe do psiquiatra Jeremy Coplan concluiu que esses indivíduos têm um coeficiente de inteligência maior comparando-se ao restante da população. De acordo com os cientistas que participaram do estudo, nos humanos, inteligência e preocupação evoluíram juntas.

Além de testar o QI de 16 pessoas extremamente ansiosas, os pesquisadores realizaram o exame de imagem, que revela as conexões dos neurônios. Eles descobriram que os preocupados têm menor concentração de colina, um nutriente regulador do metabolismo presente na massa branca do cérebro. “A preocupação nos deixa mais alertas, algo que garante a sobrevivência. No processo evolutivo, a ansiedade, portanto, pode ter sido um benefício”, diz Coplan. “No cérebro dos indivíduos ansiosos que investigamos, além do QI mais alto constatamos que o metabolismo funciona de maneira diferente. Essas duas características — ansiedade e inteligência —, portanto, estão relacionadas”, diz.

O pesquisador, cujo estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, usa o exemplo dos judeus ashkenazi, conhecidos por ter uma inteligência bem acima da média da população. Oriundo da Europa, esse grupo étnico, ao qual pertencia Albert Einstein, sofreu perseguições intensas no último milênio, incluindo a inquisição espanhola e o Holocausto comandado por Adolf Hitler. “É um povo que, obviamente, passou por períodos sucessivos de ansiedade, onde a vida deles era constantemente colocada em risco. Essas pessoas têm uma mutação genética que resulta em uma doença devastadora, chamada de síndrome de Tay-Sachs. A mesma variante também pode estar ligada, segundo pesquisas recentes, a uma atividade neural mais intensa, o que leva ao aumento da inteligência”, afirma.

Crítica Especialista em distúrbios da ansiedade, a psicóloga Linda J. Metzger, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, tem sérias dúvidas sobre a conclusão do estudo de Coplan. “É certo que o medo foi importante na evolução da humanidade. Ainda hoje, sabemos que uma dose de preocupação é essencial para que as pessoas não se arrisquem demais. Daí a correlacionar a ansiedade extrema à inteligência, creio que são necessários estudos mais amplos”, diz. Ela lembra que o excesso de medo é um problema grave, com sérias consequências sociais e até econômicas. “As fobias fazem com que muitas pessoas percam sua vida produtiva e o tratamento desse problema requer gastos no sistema de saúde”, diz.

Coplan concorda que a ansiedade aguda é algo preocupante, mas defende seu estudo. “Preocupar-se pouco pode ser problemático também, tanto para os indivíduos quanto para a sociedade. Algumas pessoas são incapazes de reconhecer o perigo, mesmo quando ele é iminente, e creio que isso chega a ser algo pouco inteligente. Se pessoas assim assumem uma posição de liderança, elas acabam influenciando a população em geral, no sentido de acharmos que nunca há motivo para nos preocupar. Em algumas situações, como o estouro da bolha estatal que vivenciamos nos Estados Unidos, a falta de preocupação da sociedade teve consequências sérias”, argumenta.
Paloma Oliveto‏
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6 de jul. de 2020

COISAS QUE AS PESSOAS MENTALMENTE SAUDÁVEIS EVITAM.

Ser mentalmente saudável inclui ter hábitos e atitudes saudáveis para consigo mesmo e com os outros.

Pessoas mentalmente saudáveis têm maior controle sobre suas emoções, atitudes e pensamentos. Seu comportamento é direcionado para bem-estar próprio e daqueles ao seu redor. Por isso veja aqui se você se encontra no lado certo da moeda.

Pessoas mentalmente mais sadias evitam:

Achar que alguém irá completá-las

Esse tipo de pessoas não depende de outros para sentirem-se completas, pelo contrário, procuram ser completas antes de procurar alguém para se relacionar. Pessoas saudáveis não se ressentem da solidão e adoram a própria companhia. Gostam tanto que querem dividir sua companhia com alguém especial.

Sentir-se vítimas das circunstâncias

Pessoas mentalmente saudáveis se recusam a sentar e reclamar da vida e das pessoas. Ao contrário, estão tão ocupadas construindo suas próprias vidas que não têm tempo para reclamar ou lamentar. Veem os outros como companheiros em um mundo que nem sempre é justo ou fácil.

Envolver-se em excesso nos problemas alheios

Os mentalmente saudáveis não se envolvem nos problemas dos outros simplesmente para compartilhar sua dor. Eles se compadecem, e até podem chorar junto – por um tempo. Em seguida buscam ver em que podem ajudar, e o fazem. Porém, sabem que absorver o problema do outro não ajudará ao outro e será péssimo para si mesmo.

Tentar agradar a todos

Isso é impossível. Jesus Cristo é perfeito e nunca agradou a todos. Tentar fazer isso é atentar contra a própria sanidade mental. Além de, claro, não ter a mínima necessidade de se fazer. Pessoas mentalmente sãs buscam apenas serem justas e cuidadosas com os outros.

Repetir sempre os mesmos erros

Aprender com os erros e não os repetir é fundamental para o bem-estar emocional e equilíbrio de qualquer um e os mentalmente saudáveis sabem disso, por isso assumem a responsabilidade por seu comportamento e não culpam os outros ou as circunstâncias por seus erros e os corrigem tão logo os tenham cometido.

Ser imediatista

Não trocam o sucesso em longo prazo por prazeres momentâneos. Sabem esperar, têm paciência e não acham que tudo deve ser quando querem e do modo que querem, como crianças mimadas. Entendem a relação causa/consequência e a lei da colheita.

Reclamar

Esse tipo de pessoa sabe que reclamar nunca resolveu nenhum problema. São apenas afirmações para si mesmo de que você não é capaz de resolver um problema ou que é uma vítima involuntária – pensamentos que tiram o poder individual. Ao invés disso, analisam o problema, meditam sobre ele, buscam as soluções e se não puderem resolver tudo, aceitam isso.

Permanecer em relacionamentos não saudáveis

Pessoas mentalmente mais saudáveis não têm relacionamentos descartáveis. Elas entendem que todo relacionamento é construído pelas pessoas envolvidas nele. Elas fazem sua parte e até além da sua parte para manter seus relacionamentos e valorizar a pessoa envolvida. Porém, se todos os seus esforços não estão conseguindo fazer com que seu relacionamento seja saudável, elas não se culpa. Elas não se tornan um avestruz que enfia a cabeça na areia. Elsa simplesmente saem do relacionamento doente.

Há muitas atitudes que pessoas mentalmente mais sadias fazem e que beneficiam a elas mesmas e aos outros. Não têm medo de ser o que são e se orgulham em sê-lo. Tomam suas próprias decisões, cuidam de suas próprias vidas e tornam o mundo um lugar melhor com sua presença.

Nota: Lembre-se, se você se sente perdido em um desses itens, procure ajuda. Na vida seguimos em busca do equilíbrio, mas todos nós podemos nos desestabilizar. A melhor atitude é aquela de sempre tentar perceber os deslizes que nos adoecem e retomar a estrada que nos mantém bem e mais saudáveis.
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O MEDO DA FELICIDADE – Flávio Gikovate

Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.

Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.

Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.

Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.

O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.

O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!

Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.

Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.

Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.

Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank. Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.

A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.

Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.

Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade. Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.

A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.

Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente. Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.

Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado. Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!
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5 de jul. de 2020

O HOMEM QUE FOI COLOCADO NUMA GAIOLA - Isadora Tabordes

 Certa noite, o soberano de um país distante estava de pé à janela, ouvindo vagamente a música que vinha da sala de recepção, do outro lado do palácio. Estava cansado da recepção diplomática a que acabara de comparecer e olhava pela janela, cogitando sobre o mundo em geral e nada em particular. 

Seu olhar pousou num homem que se encontrava na praça, lá embaixo – aparentemente um elemento da classe média, encaminhando-se para a esquina, a fim de tomar um bonde para a casa, percurso que fazia cinco noites por semana, há muitos anos. 

O rei acompanhou o homem em imaginação – fantasiou-o chegando a casa, beijando distraidamente a mulher, fazendo sua refeição, indagando se tudo estava bem com as crianças, lendo o jornal, indo para a cama, talvez se entregando ao ato de amor com a mulher, ou talvez não, dormindo, e levantando-se para sair novamente para o trabalho no dia seguinte.

E uma súbita curiosidade assaltou o rei, que por um momento esqueceu o cansaço.

“Que aconteceria se conservassem uma pessoa numa gaiola, como os animais do zoológico”?

No dia seguinte, o rei chamou um psicólogo, falou-lhe de sua ideia e convidou-o a observar a experiência. Em seguida, mandou trazer uma gaiola do zoológico e o homem de classe média foi nela colocado.
A princípio ficou apenas confuso, repetindo para o psicólogo que o observava do lado de fora: “Preciso pegar o trem, preciso ir para o trabalho, veja que horas são, chegarei atrasado!”. À tarde começou a perceber o que estava acontecendo e protestou, veemente: “O rei não pode fazer isso comigo! É injusto, é contra a lei!”. Falava com voz forte e olhos faiscantes de raiva.

Durante a semana continuou a reclamar com veemência. Quando o rei passava pela gaiola, o que acontecia diariamente, protestava direto ao monarca. Mas este respondia: “Você está bem alimentado, tem uma boa cama, não precisa trabalhar. Estamos cuidando de você. Por que reclama?”. Após alguns dias, as objeções do homem começaram a diminuir e acabaram por cessar totalmente. Ficava sorumbático na gaiola, recusando-se em geral a falar, mas o psicólogo via que seus olhos brilhavam de ódio.

Após várias semanas, o psicólogo notou que havia uma pausa cada vez mais prolongada depois que o rei lhe lembrava diariamente que estavam cuidando bem dele – durante um segundo o ódio era afastado, para depois voltar – como se o homem perguntasse a si mesmo se seria verdade o que o rei havia dito.

Mais algumas semanas passaram-se e o prisioneiro começou a discutir com o psicólogo se seria útil dar a alguém alimento e abrigo, a afirmar que o homem tinha que viver seu destino de qualquer maneira e que era sensato aceitá-lo. Assim, quando um grupo de professores e alunos veio um dia observá-lo na gaiola, tratou-os cordialmente, explicando que escolhera aquela maneira de viver; que havia vantagens em estar protegido; que eles veriam com certeza o quanto era sensata a sua maneira de agir, etc. Que coisa estranha a patética, pensou o psicólogo. Por que insiste tanto em que aprovem sua maneira de viver?

Nos dias seguintes, quando o rei passava pelo pátio, o homem inclinava-se por detrás das barras da gaiola, agradecendo-lhe o alimento e o abrigo. Mas quando o monarca não estava presente o homem não percebia estar sendo observado pelo psicólogo, sua expressão era inteiramente diversa – impertinente e mal-humorada. Quando lhe entregavam o alimento pelas grades, às vezes deixava cair os pratos, ou derramava a água, e depois ficava embaraçado por ter sido desajeitado. Sua conversação passou a ter um único sentido: em vez de complicadas teorias filosóficas sobre as vantagens de ser bem tratado, limitava-se a frases simples como: “É o destino”, que repetia infinitamente. Ou então murmurava apenas: “É”.

Difícil dizer quando se estabeleceu a última fase, mas o psicólogo percebeu um dia que o rosto do homem não tinha expressão alguma: o sorriso deixara de ser subserviente, tornara-se vazio, sem sentido, como a careta de um bebê aflito com gases. O homem comia, trocava algumas frases com o psicólogo, de vez em quando. Tinha o olhar vago e distante e, embora fitasse o psicólogo, parecia não vê-lo de verdade.
Em suas raras conversas deixou de usar a palavra “eu”. Aceitara a gaiola. Não sentia ira, zanga, não racionalizava. Estava louco.

Naquela noite, o psicólogo instalou-se em seu gabinete, procurando escrever o relatório final, mas achando dificuldade em encontrar os termos corretos, pois sentia um grande vazio interior. Procurava tranquilizar-se com as palavras: “Dizem que nada se perde, que a matéria simplesmente se transforma em energia e é assim recuperada”. 

Contudo, não podia afastar a ideia de que algo se perdera, algo fora roubado ao universo naquela experiência. E o que restava era o vazio”.
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