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ZYGMUNT BAUMAN - 30 anos de orgia consumista nos deixaram com a sensação de urgência sem fim.

 A frouxidão de nossa era está novamente 
sob escrutínio do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Criador do conceito de modernidade líquida, que acusa a fragilidade das relações atuais, ele se volta às angústias destes “dias de interregno”: quando os velhos jeitos de agir já não servem, mas os novos não foram inventados. “Trinta anos de orgia consumista resultaram em um estado de emergência sem fim”, diz – e indica uma saída: “O que pensávamos ser o futuro está em débito conosco. Para superar a crise, temos de ‘voltar ao passado’, a um modo de vida imprudentemente abandonado”

Zygmunt Bauman presenciou os principais acontecimentos do século 20 e na virada do milênio criou uma teoria que levaria seu nome para além do campo da sociologia e o tornaria um escritor best-seller – sobre a liquidez da sociedade, das relações, do nosso tempo. Um dos principais pensadores da modernidade, este polonês prestes a completar 91 anos não perde um debate, e tudo que o inquieta é transformado em livro. Ele está lançando agora Babel – Entre a Incerteza e a Esperança.

Babel fala do interregno – termo usado por Bauman e pelo jornalista Ezio Mauro, seu interlocutor na obra – em que estamos vivendo. Um tempo entre o que não existe mais e o que não existe ainda. De incertezas e instabilidade. Para eles, não há, no momento, movimento político que ajude a minar o velho mundo e esteja preparado para herdá-lo. Um período em que testemunhamos uma guinada conservadora geral, a instalação do medo devido a ameaças terroristas constantes – a ponto de um grupo de espanhóis confundir uma flashmob com um ataque e entrar em pânico – e as crises diversas – econômica, política, migratória, e, sobretudo da democracia que, depois de muito esforço para derrotar ditaduras, ainda precisa lutar diariamente por sua supremacia e para provar sua legitimidade, como apontam os autores. […]

O interregno em que estamos vivendo e o que acontece depois

“Como medir a relativa excelência do nosso estilo de vida? Em que aspectos, por quais critérios? E quem são os “nós” cuja vida queremos analisar? Entre os diferentes setores da sociedade nem o ritmo e nem as direções tomadas são coordenadas (pense no fabuloso crescimento da renda e da riqueza dos 1% que estão no topo da hierarquia social frente à estagnação ou mesmo piora do nível de vida dos restantes 99%, e a outrora confiante classe média se juntando ao ‘proletariado’ ortodoxo para formar uma nova categoria, do ‘precariado’ – notória pela posição social frágil e suas perspectivas indefinidas). No geral, podemos dizer que 15 anos depois da publicação de Modernidade Líquida, a nova era, ainda incipiente e pouco percebida em meio a 30 anos de orgia consumista, de gastar dinheiro não ganho e de viver o pouco tempo que resta em novos bairros já moribundos está chegando à sua total fruição: estamos vivendo à sombra de suas consequências.

E isso significa incerteza existencial, medo do futuro, uma perpétua ansiedade e uma sensação de urgência sem fim, com a primeira geração do pós-guerra sentindo a queda do nível de bem-estar social conseguido por seus pais e, na vida pública, a perda total de confiança na capacidade dos governos cumprirem suas promessas e o dever de proteger os direitos dos cidadãos e atender aos seus interesses. O fim desta confiança engendra, por outro lado, um ambiente em que ‘ninguém assume o controle’, em que os assuntos do estado e seus sujeitos estão em queda livre, e prever com alguma certeza que caminho seguir, sem falar em controlar o curso dos acontecimentos, transcende a capacidade humana individual e coletiva. O ‘interregno’ significa que velhas maneiras de agir não dão mais resultado, contudo, as novas ainda precisam ser encontradas ou inventadas. Ou: tudo pode acontecer, mas nada pode ser feito e visto com certeza”. […]

Sobre a virada conservadora do mundo

“A probabilidade dos fenômenos foi sugerida – na verdade, inferida – pelos sintomas que se acumulam da cada vez mais ampla separação, beirando o divórcio, do poder (ou seja, a capacidade de realizar as coisas) e da política (a capacidade de decidir quais coisas necessitam ser feitas). Essas duas condições indispensáveis para uma ação efetiva até mais ou menos 50 anos atrás caminhavam de mãos dadas no Estado-nação, mas se separaram e seguiram destinos diferentes: enquanto o poder em grande medida ficou ‘globalizado’ – e se tornou ‘extraterritorial’, livre de controles, direção e orientação por instituições políticas – a política permaneceu como antes, local, confinada ao território do Estado e impotente diante da influência importante dos poderes que não se submetem a controles e que são os que importam na escala global.

Hoje, os poderes emancipados do monitoramento e da supervisão política enfrentam políticos pé no chão e sofrendo o contínuo, e até agora incurável, déficit de poder. Vivemos uma crise institucional permanente. Os instrumentos de ação coletiva herdados dos nossos ancestrais e cujo fim foi servir à causa da independência de estados territorialmente soberanos não são mais adequados nesta situação de interdependência mundial criada pela globalização do poder”. […]

A ameaça que enfrentamos e a origem da crise

“Uma advertência: ‘crise de democracia’ é uma abreviação, uma noção limitada. Em países com constituições democráticas, a crise de um Estado-nação territorialmente confinado, é culpa (afirmação fácil, mas não muito competente) de seus órgãos e características definidos constitucionalmente, com a divisão de poderes, liberdade de expressão, equilíbrio de poderes, direitos das minorias, para citar alguns. Mas se a democracia está ‘em crise’ é porque o Estado-nação territorialmente soberano (concebido em 1648 pelo Tratado de Westfalia e cuja fórmula é cuius regio eius religio – os súditos obedecem ao governante) está em crise, incapaz de atacar e enfrentar, sem falar em solucionar, problemas gerados pela nova interdependência da humanidade.

Houvesse um governo autoritário ou ditatorial substituindo um regime democrático, os órgãos políticos resultantes não estariam livres da fragilidade dos órgãos de governos democráticos que ele substituiu e pela qual a democracia hoje é acusada. Quero acrescentar que o veredicto atribuído a Winston Churchill (“democracia é o pior dos sistemas políticos, à exceção de todos os outros”) continua verdadeiro até hoje. Para não dar confusão, acho que é aconselhável evitar atribuir responsabilidades pela impotência observada hoje dos Estados territorialmente soberanos e, em vez disso, analisar a incongruência fundamental do nosso tempo ansiando por uma revisão radical das ideias e uma reformulação das formas de coabitação da humanidade na Terra. Segundo Ulrich Beck, essa incongruência deriva do fato de que nós todos, gostemos ou não, já estamos inseridos numa situação cosmopolita, mas não nos preparamos seriamente para a tarefa extremamente urgente de desenvolver e assimilar a consciência cosmopolita”. […]

Sobre nossas utopias e a nossa capacidade de sonhar 

“Acho que uma mudança transcendental é provável. Ao sonharmos com uma sociedade mais acolhedora e uma vida decente e significativa, avançamos gradativamente da utopia (lugar ainda inexistente, mas à espera no futuro) para o que chamo de ‘retrotopia’ (‘volta ao passado’, ao modo de vida que foi exageradamente, irrefletidamente e imprudentemente abandonado). Trato disso no meu novo livro, Retrotopia, a ser publicado pela Polity Books em 2017. Podemos concluir que passado e futuro estão nesse quadro intercambiando suas respectivas virtudes e vícios. Agora é o futuro que parece ter chegado ao tempo de ser ridicularizado, sendo primeiro condenado pela falta de confiança e dificuldade de manejar e que está em débito. E agora o passado é o credor – um crédito merecido porque neste caso a escolha ainda é livre e o investimento é na esperança na qual ainda se acredita.

A esperança é mesmo imortal?

Procuro seguir o preceito de Antonio Gramsci: ser pessimista a curto prazo e otimista a longo prazo. Afinal, esta não é a primeira crise na história da humanidade. De alguma maneira, as pessoas encontraram meios para superá-las no passado. Eles podem (e é essa capacidade que nos torna humanos) repetir a façanha mais uma vez. A única preocupação é: quantas pessoas pagarão com suas vidas desperdiçadas e oportunidades perdidas até que isto ocorra?”.
Tradução de Terezinha Martino
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Vídeo – AMOR, MEDO E FELICIDADE - ZYGMUNT BAUMAN


Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman

Depoimento exclusivo em vídeo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, gravado em sua casa na cidade de Leeds, Inglaterra, no dia 23 de julho de 2011, pela equipe da CPFL e do Fronteiras.

Bauman nos motivou a encarar um grande desafio contemporâneo: entender as mudanças que o advento da modernidade líquida produz na condição humana. E esse desafio orienta a agenda de discussões do café filosófico cpfl, programa no qual repensamos os velhos conceitos que costumavam cercar as narrativas de nossas vidas. Aprendemos com Bauman a tratar com rigor conceitual - reconhecendo a fluidez entre os laços, entre os conceitos e os saberes - temas que ainda não haviam conquistado um estatuto acadêmico claro, como o amor, o medo e a felicidade.

Oferecemos a você este vídeo em que Zygmunt Bauman fala de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, entre outros temas.
 
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GEORGE LAKOFF: POR QUE O DISCURSO DO ÓDIO NÃO É LIBERDADE DE EXPRESSÃO

 
A liberdade em uma sociedade livre é para todos. Portanto, a liberdade exclui a imposição da liberdade dos outros. Você é livre para andar na rua, mas não para impedir que outros o façam.

A imposição à liberdade de outros pode vir de forma física imediata e evidente – bandidos vindo atacar com armas. A violência pode ser uma espécie de expressão, mas certamente não é “liberdade de expressão”.

Como a violência, o discurso de ódio também pode ser uma imposição física à liberdade dos outros. Isso porque a linguagem tem um efeito psicológico imposto fisicamente – no sistema neural, com efeitos incapacitantes a longo prazo.

Aqui está o motivo:
Todo pensamento é realizado por circuitos neurais – não flutua no ar. A linguagem ativa neuralmente o pensamento. A linguagem pode, assim, mudar o cérebro, tanto para o melhor quanto para o pior. O discurso de ódio muda o cérebro dos odiados para o pior, criando estresse tóxico, medo e desconfiança – tudo físico, tudo no circuito neural ativo todos os dias. Este dano interno pode ser ainda mais grave do que um ataque com um punho. Ela impõe a liberdade de pensar e, portanto, age livre de medo, ameaças e desconfiança. Ela impõe a capacidade de pensar e agir como um cidadão totalmente livre por muito tempo.

É por isso que o discurso do ódio impõe a liberdade daqueles que são alvo do ódio. Uma vez que ser livre em uma sociedade livre não requer a imposição da liberdade dos outros, o discurso de ódio não se enquadra na categoria da liberdade de expressão.

Discurso de ódio também pode mudar o cérebro daqueles com preconceito leve, movendo-se para o ódio e a ação ameaçadora. Quando o ódio está fisicamente em seu cérebro, então você pensa que odeia e sente ódio, você é movido a agir para realizar o que você fisicamente, em seu sistema neural, pensa e sente.

É por isso que o discurso de ódio não é “mero” discurso. E uma vez que impõe a liberdade dos outros, não é um exemplo de liberdade.

Os efeitos físicos de longo prazo, muitas vezes incapacitantes, do discurso de ódio sobre os sistemas neurais dos odiados não têm status na lei, já que nossos sistemas neurais não têm status em nosso sistema legal – pelo menos não ainda. Essa é uma lacuna entre a lei e a verdade.
George Lakoff é Richard e Rhoda Goldman Distinguished Professor of Cognitive Science e Linguistics na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde leciona desde 1972.

 

O NOVO EROTISMO FEMININO - Roberto DaMatta

Não se pode falar de mulheres sem mencionar os homens, do mesmo modo que não há como discutir juventude sem falar da velhice. Há um novo erotismo feminino, e esse erotismo corresponde a novos modos de ser homem, ser jovem e ficar idoso ou, como se diz com uma boa dose de ironia, de entrar na “melhor idade”. 

Outro dia, em conversa com um amigo da minha geração, falávamos – a propósito do erotismo feminino – dos elos entre mulheres e homens neste Brasil sem inflação, mas com alta corrupção, e com um conjunto de imagens e possibilidades de ser mulher.

No Brasil antigo, as mulheres eram mães, virgens ou prostitutas. Hoje, elas podem o que quiserem, tal como os homens, que, hoje, não podem mais ser definidos em termos de machos ou gays. Inimaginável, dizia meu amigo, essa liberdade de aparências e estilos de vestir-se, comportar-se e trabalhar que temos hoje. Os modelos femininos antigos são trocados nas heroínas centrais do drama da novela Avenida Brasil. 

Na trama, um vingador – espécie de Conde de Monte Cristo de saias –, a personagem Nina, tem como projeto de vida ajustar contas com sua oponente, Carminha. E ambas, cada qual a seu modo, representam a mulher que atrai pela liberdade e seduz pelo fingimento.

Nina tem a mobilidade dos homens e anda de lambreta, algo que combina com suas calças compridas e cabelos cortados. Carminha só anda em automóvel de quatro portas, usa joias caras e se desveste lentamente como manda o figurino clássico de quem usa vestido, sutiã e calcinha, nos quadros de um “striptease” tradicional. 

Carminha corresponde ao modelo da mulher brasileira tradicional, que vai à igreja, ajuda os pobres e faz o papel de “dona de casa” e mãe exemplar. Mas ela faz isso com homens diferentes, e a novidade da novela é precisamente esse duplo papel que distingue e iguala Nina e Carminha, ambas sendo duas pessoas em uma, do mesmo modo que as empregadas lindas e oprimidas pelo preconceito da novela Cheias de charme surgem como cantoras, mostrando um talento que a sociedade inibia.

No fundo, concordamos, meu amigo e eu, todas atraem e têm seu erotismo, mas as que vestem o modelo das domésticas que viram cantoras surgem como mais previsíveis (elas querem ascender socialmente), ao passo que Carminha e Nina atraem por uma duplicidade que as torna imprevisíveis. “La donna è mobile”: é volúvel como uma pena ao vento, conforme dizia o grande Giuseppe Verdi em seu Rigoletto.

Se olharmos bem, vemos que, em todos os casos, o erotismo feminino só se realiza quando surgem os homens. Tufão tem Carminha como “esposa fiel”ou “mulher da casa”, mas quem conhece o outro lado dessa figura – seu lado de “mulher da vida e da rua” – é Max, o parceiro que experimenta sua dimensão hipócrita, abusiva e lúbrica. Eis o retorno da mulher como mãe e como prostituta, atuando no fundo de um drama inovador. Fica somente faltando a virgem – que, entretanto, como nota meu amigo, está presente na Suelen, que vai se transformando de uma maravilhosa “periguete” numa incrivelmente linda mocinha, digna do amor de um jovem enrolado por todas essas imagens e modelos, além de se revelar uma brilhante empresária. Aí está um papel profissional que escapa inteiramente dos lugares tradicionais oferecidos às mulheres nas sociedades tradicionais.

A pureza da virgindade, que se misturava a uma candura que nosso mundo globalizado tem banido como ingenuidade e tolice, ainda dá audiência. E surge na inocência das empregadinhas cantoras cheias de charme, a denunciar de modo bem-humorado a saia justa de um papel social e de um emprego que é uma sobrevivência da escravidão: a empregada doméstica que pode tudo, menos competir com a patroa. Algo impossível quando seu papel é realizar aquilo que suas patroas ainda fazem: serviços domésticos.

Ao final desse diálogo, meu amigo e eu chegamos a um ponto revelador. As sociedades não se transformam com a mesma velocidade dos padrões estéticos, das moralidades, das tecnologias e das modas que elas mesmas produzem, mas – mesmo assim – mudam. É justamente nesse diálogo do novo com o antigo que se alteram e alternam, o que mostra a importância da literatura, do teatro, da televisão e do cinema. Os papéis sociais tradicionais femininos e masculinos – e de jovem ou de velho – surgem claramente, mas nos rituais e momentos solenes. Na missa, ninguém duvidará da castidade de um padre; na família, ninguém acusa a mãe de ser uma depravada; na rua, um velho pedinte ganha mais esmolas que um jovem; na sala de aula, o papel de professor obriga a seguir certas normas; e, numa balada, ninguém pedirá uma periguete em casamento. As noivas continuam casando de branco mesmo quando não são mais virgens. Eis a pergunta que o novo erotismo feminino coloca: o que é a virgindade, se tudo tem sempre uma primeira (e uma última) vez?

Como não retomar a ideia de pureza, de consistência, de fidelidade e de lealdade quando as escolhas são tão amplas e baseadas na individualidade? Pensar que esses papéis são determinantes não é um erro. O erro é imaginar que eles não podem ser combinados e exercidos, dentro de certos limites, por uma mesma pessoa. Carminha, Nina, Suelen e as empregadinhas cantoras são exageros sem os quais não há drama ou comédia. Na vida real e neste nosso mundo pós-moderno, uma maior liberdade tem também conduzido a uma maior consciência das inconsistências.

O mulatismo moderno, que nos leva a morar em 
muitos países, a gostar de muitos gêneros musicais e artísticos, que nos leva a ver novelas e Shakespeare, futebol e ópera, a comer caviar e adorar feijão com farofa, ou a ser um híbrido de periguete com virgem-mãe, não nos exime das responsabilidades que esses gostos ou escolhas demandam de cada um de nós. É aí que está o nó da vida social e, quem sabe, da sabedoria.

PARA QUE SERVE A CELEBRIDADE? - Roberto DaMatta

Quero começar com uma nota sobre a celebrização como um problema e como um valor. A ultima besteira aprontada pelo jovem cantor Justin Bieber, que minhas netas mais novas idolatram (ou idolatravam), ajuda e, intrigantemente, coincide com o que elaborei na semana passada sobre esse tema.

Uma sociologia da modernidade avançada, globalizada e marcada pelo hiperconsumo não pode deixar de meditar sobre a celebrização e o sucesso como paradoxos. Pois como distinguir e buscar a fama que inevitavelmente leva as pessoas para cima ou para baixo numa sociedade fundada num individualismo igualitário que horizontaliza?

Deste ponto de vista, a celebrização traz à tona a hierarquia (ou um centro desejado) como um valor implícito ou até mesmo envergonhado num sistema que, idealizadamente, se pensa como descentralizado porque é feito de iguais. A celebrização revela também como o sistema oscila entre a ênfase no individual (ou nas suas peças ou partes) e em como essas partes se relacionam entre si formando um tecido ou uma totalidade. A regra é salientar a parte, mas a celebrização não nos deixa esquecer o todo. Talvez essa seja sua principal função e ela está contida na pergunta: por que ele (ou ela) e não eu?

Não se trata, como bem viu Tocqueville, de achar que o regime igualitário suprima a excelência ou a singularidade extraordinária que dimensionam o ideal da aristocracia; mas de ter suficiente lucidez para compreender que a igualdade não suprime a gradação; e que a ênfase no individuo ou na parte não acabam com o todo. O numero um em alguma esfera das artes não liquida os elos entre as pessoas. As coletividades humanas são reconhecidamente humanas, justamente porque preservam essas dimensões.

Há o momento da celebrização e o momento em que ela, como o Justin Bieber condenado, revela o jovenzinho banal, igualzinho aos nossos filhos e netos.

Num mundo igualitário, o processo de celebrização legitima a crença de que todos são iguais e alguns se diferenciam pelo talento. É o caso especifico do esporte e das artes musicais e cênicas, mas isso não exclui paternalismos, favores, preferências e familismos que marcam todos os campos, sobretudo o do poder.

O que chama a atenção hoje em dia é o acasalamento às vezes patológico entre uma hiperdistinção (caso de alguns astros da música popular e do esporte) e uma espécie de autoflagelação por meio do uso abusivo da liberdade. Um menino que fica milionário aos 15 anos e vive numa sociedade que lhe garante o espaço de ser feliz a seu modo corre o risco de ser engolido e, eventualmente, morto pelo seu tão desejado sucesso!

Como naquela famosa capa da “New Yorker”, comentada nesta coluna, na qual os Oscars comiam como sobremesa os artistas premiados. Afinal, se os cavalos não são domados, eles acabam nos guiando.

Para que serve então a celebridade? Ela agencia uma diferenciação num mundo que se deseja construído de iguais. Os seus perigos são claros: toda pessoa célebre tem uma superespecialização que se confunde com um dom. O famoso é a tela na qual as pessoas comuns projetam os que lhes falta. Os mitos das celebridades insistem em dizer como elas foram pessoas simples e pobres antes de obterem a tão desejada fama. O astro é, entre outras coisas, um especialista no que faz e um modelo do que faz. Daí a tendência a confundir o seu papel público com a sua intimidade. A suposição de uma excepcionalidade em tudo se desfaz e decepciona quando ocorre um desvio entre a figura que aparece no palco e a figura que surge — bêbado, burro, arrogante, desonesto, corrupto e, acima de tudo, infeliz como todo mundo — na vida real. Isso é acentuado pela nossa busca de coerência, a qual inventou sua tecnologia.

Do outro lado do universo das celebrizações para cima, há o conjunto de empregados e de inferiores que congrega as “celebridades para baixo”. Os garçons, engraxates, motoristas, porteiros e empregados em geral que fazem a nossa comida, lavam a nossa roupa, vigiam nosso lar e nos protegem do mundo. Esses fornecedores de amor, atenção e carinho preenchem um espaço que não ocupamos e passam a impressão de que vivem apenas para o que fazem. Para muitos, ver a empregada namorando é tão surpreendente quanto descobrir que a sua celebridade favorita tem um péssimo caráter.

Esse time de empregados: secretários, assessores e subdiretores que, na política, desculpam-se pelos seus superiores quando a Fifa ou Comité Olímpico Internacional ou uma chuvarada revela como nada está pronto e há um atraso crônico e insuportável na infraestrutura nacional.

No Brasil, as autoridades não pedem desculpas. No máximo, elas dãodesculpas por meio dos seus “peles” ou asseclas. As obras que jamais ficam prontas em tempo e o cara de pau ministro diz que as empreiteiras precisam ser mais responsáveis. Mas quem contrata essas empresas?

Se as celebridades não podem ser escusadas dos seus delitos, o mesmo deve ocorrer com a autoridade que, na maioria dos casos, lamentavelmente torna-se uma celebridade pelo que não fez; ou, pior que isso, pela sua inestimável contribuição ao atraso do país.

VÍDEO PALESTRA - SOMOS JULGADOS EM SEGUNDOS E POR 2 CRITÈRIOS





A professora de Harvard Business School, Amy Cuddy vem estudando as primeiras impressões ao lado dos colegas psicólogos Susan Fiske e Peter Glick por mais de 15 anos, e descobriu padrões nessas interações. Em seu novo livro, “Presença”, Cuddy diz que as pessoas respondem rapidamente a duas perguntas quando elas te encontram pela primeira vez: Posso confiar nesta pessoa? Eu posso respeitar esta pessoa? A psicologia se refere a estas dimensões como cordialidade e competência, respectivamente, e, idealmente, você quer ser percebido tendo ambos.

Curiosamente, Amy Cuddy diz que a maioria das pessoas, em um contexto profissional, acredita que a competência é o fator mais importante. Afinal, eles querem provar que são inteligentes e talentosos o suficiente para lidar com o seu negócio. Mas fora do ambiente de trabalho somos julgados em segundos e por estes dois critérios:

Os dois critérios
Mas, na verdade a cordialidade e a confiabilidade, são os critérios mais importante na forma como as pessoas avaliam você. “De uma perspectiva evolucionária, diz Cuddy, é mais crucial para a nossa sobrevivência saber se uma pessoa merece a nossa confiança”. Faz sentido quando você considera que para os homens das cavernas era mais importante descobrir se seu companheiro estava lá para matá-lo e roubar todos os seus bens ou se ele era competente o suficiente para construir um bom fogo com você.

A competência é altamente valorizada mas é avaliada apenas depois que a confiança. Cuddy diz que ela é avaliada apenas depois que a confiança é estabelecida. E, que se concentrar demais em exibir as habilidade, o tiro pode sair pela culatra.

Cuddy diz que estudantes de MBA estão muitas vezes tão preocupados em parecer inteligentes e competentes que isso pode levá-los a ignorar eventos sociais, não pedir ajuda, e geralmente parecer inacessível.

“Uma pessoa calorosa, confiável que também é forte e habilidosa provoca admiração.  Porém, só depois que você estabelece a confiança é que suas habilidades se tornam um dom e não uma ameaça”.

Estes overachievers podem se frustrar ao não receberem a oferta de emprego porque ninguém os conheceu melhor e confiar neles como pessoas é bem difícil.

“Se alguém que você está tentando influenciar não confiar em você, você não vai chegar muito longe. Na verdade, você pode até provocar suspeitas porque você parecer apenas um grande manipulador”, diz Cuddy.
Publicado originalmente em Business Insider

AS MENTIRAS QUE A GENTE CONTA E OUVE - Mônica El Bayeh

Mentira é tudo igual? 
Não, mentira é como o vinho. 
Há as suaves e as rascantes.
Há mentiras quase piedosas. Os cabelos de sua amiga, que antes eram louros, agora surgem mais negros do que as asas da graúna. Ficou horrível. Para bruxa, só falta a vassoura. Quando ela pergunta se você gostou – e oferece o endereço do salão – você diz o quê?
Sua mais nova paixão vai estar em determinado lugar. Você dá um jeito de aparecer, fingindo coincidência. Mentira desse tipo pode? Veja bem: mal não fez…
Algumas mentiras funcionam quase como um silicone entre você e o outro. Uma camada protetora no contato. Evita maiores atritos e possíveis queimaduras doloridas. Nesse caso, mentiras silicone são pecado?
Chove muito. Você está de pijama, em casa, vendo O filme. Aquele que você esperou meses para ver na televisão. Pipoca, refri, cobertor. Nada faria você largar o feliz aconchego do seu lar.
Mas… o celular toca. Seu amigo – que briga dia sim, dia não com a namorada – quer desabafar. Hoje é o dia sim. Justo hoje.
Seu filme rolando, amigo falando. Você repete pela milésima vez os mesmos conselhos de sempre. Não há novidade no caso, é crônico.
E seu filme no ápice. Vão matar o mocinho, o que você faz? Mente para o amigo, que no dia seguinte estará certamente de novo feliz ao lado da mesma namorada? Prioriza o filme, afinal, o mocinho está lá sofrendo tanto, também merece sua atenção. Mentir para o amigo pode? É pecado? Escolha sua opção.
Se falar a verdade, vamos combinar, vai melar a situação. Não se dispor a escutar um amigo na hora do sofrimento? Que feio! Que amigo é você? Uma mentira silicone pode ser salvadora em horas de agonia.
E omissão? Vale como mentira também? Já encontrei mais pessoas do que gostaria em condições bem embaraçosas. É constrangedor! Eu finjo que nada vi, olho para o outro lado, saio de fininho. Nunca toco no assunto com nenhuma das partes interessadas. Sou falsa, eu? Nem vi nada.
O que fazer com a mentira?  Questiona, imprensa, vai a fundo e tira a limpo? Ou faz cara de paisagem, deixa passar com um ar de quem nem percebeu, dá um sorrisinho, finge que acreditou, engole esse sapo e deixa seguir o barco?
Muitas mentiras ferem não por serem mentiras em si. Mas pelo que trazem de significação quando são decifradas.
O sujeito aparece online na rede social. Você, apaixonada, chega a ter palpitação. Dedos aflitos para dizer oi. Mas, para você, ele só envia mensagem três horas depois. Ou seja, quando todo mundo já foi dormir e você foi a única que sobrou. Dói? Muito. Você digita pedindo explicação? Ele pode alegar sinal ruim, fora da área de cobertura, qualquer coisa do tipo.
O importante não é o que ele justifica. O que dói é perceber que, em termos de lista de prioridade, o seu nome não vem entre os 100 primeiros. Vale aceitar a mentira e continuar investindo?
Vale o que você resolver. Em termos de amores, vale o que cada um consegue resolver e bancar.
No geral, enfrentamentos são gastos desnecessários de energia. Dizer para um mentiroso que é mentira o que ele diz é enxugar gelo. Se ele sabe que mentiu e você sabe que é mentira, esse assunto já não está resolvido?
Meias verdades também valem como mentira? Claro que não estamos falando de situações graves de dolo, de pessoas sendo prejudicadas, tripudiadas ou humilhadas. Numa comparação grosseira, não estamos pensando em casos de casos de grandes cortes, sangue, sutura. Mas, de arranhões onde um simples band aid resolve.
Só tome cuidado com uma coisa: não trate como pão fresquinho quem te trata como migalha dormida, raspas e restos. Porque, às vezes, no vazio da carência, as pessoas se encolhem, fazem uma promoção afetiva, tipo saldão de balanço, para não ficar sozinhas. E o risco é acabarem achando que só valem aquilo mesmo, que não merecem ou não conseguem nada melhor. Um grande perigo. As pessoas acabam valendo o preço que acham que tem.

TRAIÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL - Luiz Felipe Pondé

Antes, eram as esferas celestes, agora, 
são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros

 Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".

Mas até aí, este pecado de fazer Bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...