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PARA QUE, DE FATO, SERVE O SONHO? - Sidarta Ribeiro

Prevalece cada vez mais a noção de que os sonhos são cruciais para a consolidação e reestruturação das memórias.

Para entender para que serve o sonho, necessitamos compreender algo básico: o homem contemporâneo tende a esquivar-­se de todo risco. Em vez de caçadas perigosas e coletas incertas, fazemos visitas regulares ao supermercado. No lugar de turnos de guarda noturna alternados para evitar um ataque traiçoeiro na madrugada, temos a segurança dos muros, portas trancadas e alarmes.

Em lugar de pedras e peles, dormimos sobre colchões anatômicos. Em vez da dificuldade de encontrar parceiros sexuais férteis que não sejam parentes próximos, apenas o risco de levar um não de uma pessoa desconhecida numa festa ou bar.

Se os sonhos alguma vez foram es­senciais para nossa sobrevivência, já não o são. Isso não quer dizer, entretanto, que os sonhos não mais desempenhem um papel cognitivo. Para esclarecer que papel é esse, é preciso em primeiro lugar desconstruir a noção de que os sonhos refletem algum tipo de processamento neuronal aleatório.

Embora regiões profundas do cérebro de fato promovam durante o sono REM um bombardeio elétrico aparentemente desorganizado do córtex cerebral, há bastante evidência de que os padrões de ativação cortical resultantes desse processo reverberam memórias adquiridas durante a vigília.

Mesmo que não soubéssemos disso, bastaria um pouco de reflexão e introspecção para refutar a teoria aleatória dos sonhos. A ocorrência múltipla de um mesmo sonho é um fenômeno detectável, ainda que ocasional, na experiência da maior parte das pessoas.

Pesadelos repetitivos são sintomas bem estabelecidos do transtorno de estresse pós-traumático, que acomete indivíduos submetidos a eventos excessivamente violentos. Dada a imensa quantidade de conexões neuronais existentes no cérebro, seria impossível ter sonhos repetitivos se eles fossem o produto de ativação ao acaso dessas conexões.

Além disso, sonho e sono REM não são o mesmo fenômeno e sequer têm bases neurais idênticas. Temos certeza disso porque existem pacientes neurológicos que perdem a capacidade de sonhar mas não deixam de apresentar o sono REM.

Nesse caso, as regiões lesionadas, descritas por Mark Solms, são circuitos relacionados com a motivação para receber recompensas e evitar punições. Essas estruturas utilizam o neurotransmissor dopamina para modular a atividade de regiões relacionadas à memória, emoção e percepção.

Sonhar com algo na vigília é o mesmo que desejar – e é exatamente de desejo que são feitos os sonhos. Curiosamente, são os níveis de dopamina que, em experimentos com camundongos transgênicos, regulam a semelhança entre os padrões de atividade neural observados durante o sono REM e a vigília. Portanto, a ideia de que psicose é sonho, ridicularizada por décadas, também encontra apoio na neuroquímica moderna.

E ainda, ao contrário da teoria de que os sonhos são subproduto do sono sem função própria, prevalece cada vez mais a noção de que o sono e o sonho são cruciais para a consolidação e a reestruturação de memórias. Ambos os processos parecem ser dependentes da reverberação elétrica de padrões de atividade neural que ocorrem enquanto dormimos e representam memórias recém-adquiridas.

Essa reverberação se beneficia da ausência de interferência sensorial durante o sono e resguarda o processamento mnemônico de perturbações ambientais. A reverberação é favorecida também pela ocorrência de oscilações neurais durante o sono sem sonhos, chamadas de ondas lentas.

Os pesquisadores Lisa Marshall, Jan Born e colaboradores da Universidade de Lübeck, na Alemanha, demonstraram que é possível aumentar a taxa de aprendizado realizando estimulação elétrica de baixa frequên­cia durante o sono de ondas lentas.

Em contrapartida, como venho demonstrando junto com outros grupos de pesquisa desde 1999, o sono REM parece ser fundamental para a fixação de longo prazo das memórias em circuitos neuronais específicos. Esse processo depende da ativação de genes capazes de promover modificações morfológicas e funcionais das células neurais. Tais genes são ativados durante a vigília quando algum aprendizado acontece e voltam a ser acionados durante os episódios de sono REM subsequentes.

Como resultado, memórias evocadas por reverberação elétrica durante o sono de ondas lentas são consolidadas por reativação gênica durante o sono REM. Essa reativação cíclica das memórias em diferentes fases do sono e da vigília vai paulatinamente fortalecendo os caminhos neurais mais importantes para a sobrevivência do indivíduo, enquanto as memórias inúteis são gradativamente esquecidas.

Experimentos eletrofisiológicos e moleculares mostram ainda que as memórias migram de um lugar para outro do cérebro, sofrendo importantes transformações com o passar do tempo.

Meu laboratório tem mostrado que áreas do cérebro envolvidas na estocagem temporária de informações, como o hipocampo, apresentam reverberação elétrica e reativação gênica apenas durante os primeiros episódios de sono após o aprendizado.

Em contraste, áreas do córtex envolvidas na armazenagem duradoura das memórias apresentam persistência desses fenômenos por muitos episódios de sono após a aquisição de uma nova memória.

MEMÓRIA, SONO, SONHOS E PESADELOS - Sidarta Ribeiro

Neurocientista da Universidade de Nova York deve voltar à China se Estados Unidos cortarem os investimentos em pesquisas; no Brasil, redução foi de 50%

Os genes ativados por atividade neuronal foram descobertos nos anos 1980. Estes genes respondem tão rapidamente a um estímulo que isso lhes valeu o nome de genes imediatos. Vários desses genes medeiam mudanças morfológicas nos dendritos e axônios neuronais. 

Tais mudanças no formato, tamanho e quantidade de sinapses são capazes de criar memórias duradouras. 

Por essa razão, em meados dos anos 1990 foram iniciados experimentos para verificar se os efeitos positivos do sono sobre a memória seriam causados pela ativação de genes imediatos durante o sono.

Os primeiros experimentos couberam aos neurocientistas Giulio Tononi e Chiara Cirelli, com resultados opostos à hipótese: os genes imediatos pareciam ser desativados pelo sono. Isso levou os pesquisadores a propor que o fortalecimento sináptico ocorre exclusivamente durante a vigília, sendo função do sono enfraquecê-la, o que impediria a saturação e propiciaria a ocorrência de mais aprendizado na vigília seguinte. 

Essa teoria foi chamada de hipótese da homeostase sináptica do sono, pois o excesso de fortalecimento sináptico durante a vigília seria equilibrado pelo enfraquecimento sináptico generalizado durante o sono.

Mas isso não é tudo. Em 1995 iniciei experimentos semelhantes aos de Tononi e Cirelli, mas com duas diferenças importantes. 

Em primeiro lugar, implantei eletrodos nos cérebros dos animais para separar escrupulosamente as duas fases principais do sono, i.e., o sono de ondas lentas e o sono REM. 

Em segundo lugar, comparei animais expostos a estímulos novos com animais não expostos. Os resultados mostraram que o sono de ondas lentas efetivamente desativa genes imediatos, independentemente da experiência prévia do animal. 

O sono REM, por outro lado, tem efeitos distintos dependendo da experiência prévia do animal. Em animais não expostos o sono REM desativa genes imediatos, mas em animais expostos o sono REM ativa os mesmos genes. 

Esses resultados foram publicados em 1999 e desde então vários laboratórios diferentes observaram efeitos compatíveis com a noção de que o sono REM ativa genes imediatos e fortalece sinapses em alguns neurônios mas não em outros, criando memórias persistentes através de um processo que chamei de entalhamento sináptico.

Por quase duas décadas as duas teorias se confrontaram, com uma longa série de publicações de cada lado, mas atitudes opostas quanto ao campo adversário. Enquanto a teoria de entalhamento sináptico se apoiou nos estudos de Tononi e Cirelli para atribuir ao sono de ondas lentas o papel de enfraquecimento sináptico, a teoria da homeostase sináptica ignorou as evidências contrárias, não deixando lugar para o sono REM nem para o aprendizado durante o sono. 

Foi somente em 2014 que Tononi e Cirelli citaram pela primeira vez as publicações inconsistentes com sua teoria, mas mesmo assim sob o argumento de que a ativação de genes imediatos é uma evidência indireta...

No início de 2017, o neurocientista Wenbiao Gan e sua equipe na Universidade de Nova York publicaram na revista Nature Neuroscience os resultados de experimentos inovadores, em que utilizaram microscopia avançada para medir sinapses específicas no cérebro de camundongos. 

Os resultados mostraram evidências diretas do fortalecimento de sinapses pelo sono REM após exposição a novo aprendizado. Entrei em contato com o Dr. Gan para parabenizá-lo pela pesquisa e estamos planejando uma colaboração.


Numa das conversas que tivemos, Gan disse que pretende regressar à China se Trump realmente vier a cortar o orçamento da pesquisa. Aqui o governo reduziu o orçamento da ciência e tecnologia em quase 50% e não se vê luz no fim do túnel. 

Pesquisar no Brasil é um sonho, mas sofrer ataque tão brutal à ciência tem sido um pesadelo.

SETE PERGUNTAS DO NOSSO TEMPO - Sidarta Ribeiro

Sidarta Ribeiro entrevista o advogado Emilio Figueiredo, participante da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas.

Como está a discussão sobre lega-lização de drogas no contexto da crise penitenciária? Há boas iniciativas parlamentares?

Emilio Figueiredo: A emergência da barbárie no sistema prisional brasileiro fez o debate da reforma da política de drogas tomar novo fôlego em 2017. O debate já vinha forte, com o extermínio de jovens pobres sob o argumento da repressão ao “tráfico” e o uso terapêutico da maconha por crianças com epilepsia de difícil controle. Hoje, a única iniciativa parlamentar inovadora é o Projeto de Lei 7270/2014 do deputado Jean Wyllys, que descriminaliza todas as drogas e regula o ciclo da maconha. Os demais projetos se resumem a piorar a lei de drogas.

Qual a proposta do Growroom para a legalização da maconha?

Emilio Figueiredo: O Growroom construiu uma proposta de regulação da maconha na qual todos os usos da cannabis são previstos, desde o cultivo doméstico até o industrial, passando pelo cultivo coletivo associativo, religioso, medicinal e comercial. Também há previsão de criação de um regime tributário específico para a maconha e de um observatório para análise de dados sobre os efeitos da regulação.

Qual a importância da maconha para o narcotráfico?

Emilio Figueiredo: Maconha é a droga ilícita mais consumida e uma das substâncias que o Poder Público deixa para o monopólio de pessoas à margem da lei. Além disso, a maconha não tem dose letal e dificilmente causa intoxicação, o que torna o mercado consumidor perene.

O que aprendemos com a experiência do Uruguai?

Emilio Figueiredo: A força do cultivo doméstico e das associações, conhecidas como cannabis social clubs, e a sua eficiência para suprir o mercado. Atualmente, são 5.446 cultivadores cadastrados e 27 clubes em funcionamento, mas, passados três anos da legalização, as empresas ainda não conseguiram colocar a maconha para vender nas farmácias.

Como impedir que a legalização aumente a ocorrência de outros crimes?

Emilio Figueiredo: No Brasil há o bordão de que o país não está pronto para a legalização, que os traficantes irão cometer outros crimes. Primeiro, o Brasil não está em guerra, mas os hospitais do Rio, por exemplo, estão prontos para ferimentos de fuzil. Segundo, os que hoje participam do mercado ilícito só continuarão na ilicitude se não forem incluídos no processo de legalização. Para isso, a legalização deve ser feita com uma função social e não mercadológica, buscando o protagonismo das comunidades que fizeram a resistência à proibição, a inclusão social de pessoas hoje envolvidas com o mercado ilícito que não tenham cometido crimes de sangue e a reparação dos danos históricos da guerra às drogas.

O que falta para a Marcha da Maconha atingir as periferias das grandes metrópoles?

Emilio Figueiredo: A marcha é um evento cosmopolita, realizado em diversas cidades do mundo. No Brasil é feita há 15 anos e desde 2011 a reunião é assegurada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje, há forte participação da periferia em São Paulo, Recife e Fortaleza. Creio que para atingir mais periferias a Marcha da Maconha deve garantir a segurança dos participantes e deixar claro que a periferia é parte interessada fundamental no debate da legalização, portanto deve participar das marchas.

Quais devem ser as bases para uma regulamentação de drogas eficaz e racional?

Emilio Figueiredo: O respeito ao fato social de que pessoas usam drogas, a tolerância entre aqueles que usam ou não usam drogas, o reconhecimento de que é possível o uso das drogas hoje proibidas para o bem-estar, e a primazia da redução de danos para o uso de qualquer droga, seja lícita ou ilícita.

Sidarta Ribeiro - neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.

PILEQUE HOMÉRICO - Sidarta Ribeiro

Lembrar que Trump será detentor dos códigos nucleares dos Estados Unidos evoca um episódio sinistro de Black Mirror, um pesadelo em animação suspensa

Acordei confuso e assustado, sem saber ao certo que dia era, com a sensação esquisita de teto baixo, luz mortiça e cheiro de mofo. O desconforto da ressaca de uma festa que não valeu a pena, o constrangimento de ter esquecido como exatamente chegamos aqui.

Torto como se o tempo houvesse esquentado, fervido, derretido e voltado a endurecer bem deformado.

Um gosto estranho de 1988 na boca, déjà-vu tolo e cafona que nem por isso é menos letal. Quem diria em 2013 que a gente ia se dar tão mal?

Recapitulando: em poucas décadas haverá mais idosos do que jovens no Brasil. A hora de investir em educação e saúde é agora, para que o povo do futuro seja são e safo. Mesmo assim, o governo resolveu sustar por 20 anos os novos investimentos estatais. A mutilação já começou.

Não haverá, por exemplo, novas bolsas de residência médica em 2017. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e a Agência Espacial Brasileira (AEB) foram subordinados a uma “Coordenação Geral de Serviços Postais e de Governança e Acompanhamento de Empresas Estatais e Entidades Vinculadas”, no quarto escalão de um novo ministério chamado MCTIC.

Está sendo rapidamente desmontada no Brasil a rede de geração de conhecimentos e formação de pessoal altamente qualificado construída a duras penas desde os anos 1950. Esse verdadeiro cavalo de pau na qualificação do povo brasileiro deixará marcas profundas.

Sinal dos tempos desse porre cavalar da experiência humana, em toda parte o pessimismo impera. Donald Trump conquistou a presidência dos Estados Unidos isolado de quase todo o sistema de representação política, mas em contato direto com a massa furiosa que o elegeu. Escrupulosamente despido ao longo da campanha, despojado de todas as máscaras exceto a da intolerância, Trump usou e abusou da retórica de violência, discriminação e intimidação.

Apesar disso – ou por causa disso – recebeu das urnas o poderosíssimo mandato de chefe do mundo. Lembrar que Trump será detentor por no mínimo quatro anos dos códigos nucleares dos Estados Unidos evoca um episódio sinistro de Black Mirror, um necrofilme de Tom Burton, um pesadelo em animação suspensa do século 21. Só nos resta torcer para que o líder novato seja mais playboy do que cowboy.

Mas nem tudo são espinhos nesse estranho novo tempo. Até no espesso retrocesso há brechas por onde brotam sementes do futuro. Em decisão histórica, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) posicionou-se claramente a favor da descriminalização da maconha. Ainda em novembro, oito estados americanos, inclusive a imensa Califórnia, aprovaram o uso medicinal ou recreativo da cannabis. A legalização e regulamentação da planta em todo o planeta tornou-se uma meta efetivamente possível, cada vez mais provável, necessária, urgente. Afinal, para curar esse pileque homérico do mundo será preciso flores. Muitas flores.

Mudanças na experiência de linguagem afetam todas as funções psicológicas: memória, atenção, emoção e percepção. Quarto: fazer uma afirmação envolvendo a noção de “ressignificação”, conceito linguístico, amplamente apropriado pela psicanálise, é empregar uma noção externa às ciências do cérebro, realizando uma autocontradição flagrante entre o que se quer dizer e os meios argumentativos empregados para tal.

Tolice vem do latim, stultos, ou seja, “obtuso, lento e embotado”. Obtuso é aquele que incorre em falta de rigor, como se vê em juízos genéricos sobre áreas tão extensas como psicanálise e neurociência. Lentidão é atraso e fixação no passado, talvez em algum ponto entre 1924 e 1993.



Embotado é aquele que perdeu o fio, a sensibilidade ou a energia, deixando de ler as últimas pesquisas científicas. Izquierdo, deixe de ser tolo e “ressignifique” sua entrevista, agindo como um cientista de verdade.

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