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SEXO É COLA – Suzana Herculano-Houzel

Escolha com cuidado quem você leva para a cama, 
pois seu cérebro pode se amarrar mais do que você gostaria

Você é convidado a entrar em uma sala desconhecida. No quarto à sua esquerda você vê, à sua disposição, um belo exemplar do sexo feminino com quem você viveu, poucas horas antes, tórridas e repetidas cenas de amor. No quarto à sua direita há uma beldade igualmente atraente, mas que você nunca viu antes. A escolha é toda sua, e ninguém ficará sabendo. Esquerda ou direita?

A cena é um “teste de fidelidade”, e em 80% dos casos, o candidato escolhe a parceira com quem ele havia feito sexo anteriormente. Se os papéis dos sexos se invertem, as fêmeas são ainda mais fiéis ao parceiro anterior, e o escolhem 90% das vezes.

Os candidatos bem que poderiam ser humanos, mas o ser em questão é o arganaz-do-campo (Microtus ochrogaster), um tipo de rato corpulento fortemente social e monogâmico. Arganazes-do-campo vivem em colônias onde os indivíduos vivem agarradinhos. Após o acasalamento, macho e fêmea dividem o mesmo ninho, cuidam juntos da prole, mantêm os filhos adolescentes por perto, preferem a companhia um do outro à de qualquer desconhecido, e os “maridos” tornam-se agressivos em relação a outros machos. Basta uma sessão de sexo e dali para a frente outros candidatos a parceiros serão recusados, no melhor estilo “felizes para sempre” dos contos de fadas.

Em comparação, um primo próximo, o arganaz-montanhês (Microtus montanus), é associal, promíscuo, não busca contato físico com seus semelhantes, e não divide seu ninho. A fêmea cuida sozinha da prole e abandona os filhotes cedo. E novos parceiros serão sempre bem-vindos.

A diferença entre as duas espécies tão próximas está na maneira como seu sistema de recompensa responde ao sexo – mais especificamente, a hormônios liberados no cérebro durante o orgasmo: oxitocina nas fêmeas, e vasopressina nos machos. Indivíduos da espécie monógama possuem numerosos receptores para os hormônios no estriado ventral do sistema de recompensa, que permitem que o sistema seja ativado pelos hormônios liberados no orgasmo. Já o estriado ventral da espécie promíscua é insensível aos hormônios.

O resultado? A ativação do sistema de recompensa pelos hormônios do orgasmo não só estende o prazer do sexo como faz com que o bichinho associe o prazer àquele parceiro em particular, formando um vínculo afetivo com ele (ou ela). Quando o estriado ventral é sensível aos hormônios do orgasmo, o sexo funciona como uma baita cola – e querer estar na companhia do outro, como a gente sabe, é o primeiro passo para a formação de um casal estável.

Mas se o estriado ventral é insensível aos hormônios do orgasmo, como nos arganazes-montanheses, nada feito: o sexo não leva à formação de vínculos afetivos. A não ser que eles recebam uma injeção no cérebro de um vírus que força a expressão de receptores no sistema de recompensa, o que transforma esses animais promíscuos em monógamos. Parece mágica – mas é ciência.

Humanos têm receptores para oxitocina e vasopressina em seu estriado ventral, o que nos coloca no grupo dos arganazes fiéis, ainda que a sensibilidade aos hormônios seja diferente entre indivíduos. De qualquer forma, considerando que nada disso acontece sem uma sessão de sexo, duas conclusões são certas. 

Primeira: escolha com cuidado quem você leva para a cama – porque periga o seu cérebro acabar mais amarrado do que você gostaria. 

E segunda: se você ficar mesmo amarrado, garanta a estimulação frequente do sistema de recompensa do (a) seu (ua) parceiro (a). É a maneira mais certa de assegurar o seu acesso permanente. E a sua exclusividade também…

DESCUBRA AS MENTIRAS QUE O SEU CÉREBRO CONTA PARA VOCÊ

Você não toma as próprias decisões - e boa parte do que vê não é real. É apenas uma ilusão criada pelo seu cérebro, que passa pelo menos 4 horas por dia enganando você. Conheça os truques que ele aplica - e saiba o que realmente acontece dentro da mente.

Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta semana...CONTINUAR LENDO.

NEUROCIENTISTAS MOSTRAM QUE A PAIXÃO PODE DURAR DÉCADAS - Suzana Herculano-Houzel

gonçalo viana (ilustração

Pesquisas neurocientíficas mostram 
que é possível sentir-se encantado
 pela mesma pessoa por décadas
Você já se imaginou vivendo 10, 20 ou 50 anos com a mesma pessoa? Sentindo sempre o mesmo prazer em sua companhia, o mesmo conforto em seus braços? Se a perspectiva parece interessante, agradeça ao seu cérebro (e se não lhe agrada, a culpa é dele, também). De certa forma, é curioso que laços afetivos fortes, como os amorosos, sejam tão importantes para nossa espécie. Tecnicamente, viver em sociedade, ou mesmo em pares, não é obrigatório para a sobrevivência de nenhum animal – vide tantos mamíferos, aves e outros bichos que procuram um par somente para o acasalamento e imediatamente depois seguem cada um o seu caminho.
Se gostamos de formar pares a ponto de investir boa parte de nossa energia, tempo e esforços cognitivos em convencer um belo exemplar do sexo interessante de que nós somos a pessoa mais sensacional e desejável na face da Terra, é porque o sistema cerebral humano, como o de outros animais sociais, é capaz de atribuir um valor positivo incrível à companhia alheia. Isso é função do sistema de recompensa, conjunto de estruturas no centro do cérebro especializadas em detectar quando algo interessante acontece, premiar-nos com uma sensação física inconfundível de prazer e satisfação e ainda associar esse prazer com o que levou a ele – o que pode ser uma ação, uma situação, um objeto ou... alguém.
Conforme o prazer se repete na companhia dessa pessoa, o valor positivo que atribuímos a ela é reforçado (enquanto torcemos para que o mesmo aconteça no cérebro dela, associando um valor cada vez mais positivo à nossa própria companhia, claro). É o que fazemos no período de namoro, quando conversas interessantes, passeios agradáveis, boa música, boa comida e carinho oferecem prazeres que vão sendo associados à companhia do outro. Se rola sexo, então, melhor ainda: o prazer do orgasmo funciona como uma cola extraordinária para o sistema de recompensa, que atribui (corretamente!) a satisfação incrível àquela pessoa específica (mas é verdade que isso não funciona tão bem em alguns cérebros...).
Com a repetição, o sistema de recompensa vai aprendendo a ficar ativado não apenas em resposta, mas também em antecipação à presença daquela pessoa. Esse prazer antecipado é a motivação, que nos dá forças para alterar compromissos, abrir espaço na agenda e ficar acordado madrugada adentro. Essa é a paixão, estado de motivação enorme em que se faz tudo em nome de mais tempo na presença do ser amado.
Quando vira amor? Essa questão é complicada, mas existe ao menos uma definição operacional curiosa: passado o ardor da paixão, descobre-se que se ama alguém quando pensar em uma vida sem ela causa angústia sincera e profunda. O amor é esse laço que faz seu cérebro achar que sua felicidade está vinculada à presença e à felicidade do outro e que fazê-lo feliz dá novo sentido à sua vida. Nesse estado, desejar o casamento é apenas natural.
Se é para sempre? Depende de vários fatores, alguns deles fora de nosso alcance, como ser traído (e não apenas sexualmente). A boa notícia da neurociência sobre a longevidade dos relacionamentos amorosos é que eles não estão necessariamente fadados ao esgotamento: é, sim, possível se sentir apaixonado décadas a fio pela mesma pessoa. E não é mero acaso de sorte: você pode fazer sua parte. É uma questão de continuar inventando e descobrindo novos prazeres a dois. Tudo para manter o sistema de recompensa do outro interessado em você...

SOFRER POR ANTECIPAÇÃO - Suzana Herculano-Houzel


[...] Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles viveria eternamente no presente.

Dizem os livros didáticos que o sistema nervoso serve para "detectar estímulos e responder a eles".

Pode ser -mas isso até amebas e bactérias fazem, e com uma célula só. Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles, ainda que de forma coordenada e organizada, viveria eternamente no presente, incapaz de enxergar para frente ou para trás no tempo, e não teria a menor capacidade de reviver experiências do passado, fazer planos para o futuro -nem de sofrer por antecipação.

Não consegui deixar de pensar nisso no dia mais longo da minha vida: terça-feira passada, quando meu pai tinha uma cirurgia cardíaca marcada para contornar três coronárias muito obstruídas.
Meu cérebro há semanas vinha se torturando com o risco da cirurgia, desde quando os médicos decidiram que nem três fileirinhas de stents resolveriam o assunto. 

Imaginava, apesar de meus protestos pré-frontais, todo tipo de catástrofe que poderia acontecer durante a cirurgia -do choque anestésico ao coração não voltar a bater-, e várias vezes sofri por antecipação o anúncio da morte do meu pai, com os requintes de como passá-lo aos netos, para quem o avô é Deus.

Meu plano para o dia da cirurgia era trabalhar normalmente no laboratório, para passar o tempo. Tolinha.

Acordei pensando que meu pai já devia estar entubado, com o tórax aberto. Experimentei levantar, mas descobri que apenas andava desnorteada pela casa, querendo que meu marido decidisse por mim se deveria comer, me vestir ou beber água.

Acabei arranjando um trabalho repetitivo para fazer no computador, que durou até a noite, quando minha mãe ligou dizendo que havia acabado e estava tudo bem. Chorei de alívio, e meus pensamentos catastróficos cessaram.

A neurocientista de plantão explica. Mesmo sem aviso dos sentidos sobre a cirurgia, a muitos quilômetros de distância, meu cérebro possui um hipocampo capaz de projetar para o futuro combinações de suas memórias sobre meu pai e cirurgias, que influencia o hipotálamo a fazer o corpo sofrer de acordo.
Eu vivo, lembro do que vivi e faço previsões para o futuro. Se elas não são boas, sofro desde já -e tiro vantagem do aviso sobre o quanto amo meu pai para aproveitar bastante os dias ao seu lado.

Para mim, portanto, o sistema nervoso é aquele que, entre outras coisas, dota os animais de passado e futuro.

E, agora que meu pai está bem de novo, me permite até voltar a curtir o presente com ele.

PREGUIÇA: AS DIFERENÇAS ENTRE A BOA E A RUIM - Suzana Herculano-Houzel

Falta de motivação pode ser existencial e depressiva, levando a questionar de que adianta a vida. Mas também pode ser temporária e saudável, ajudando o cérebro a descansar

Falta de motivação é algo que todo mundo conhece: aquele estado em que a inércia a ser vencida é enorme, e seu cérebro não vislumbra nenhuma recompensa no horizonte que faça o esforço valer a pena. Nem toda falta de motivação é igual, contudo; ela existe em várias versões.

A versão braba é a falta de motivação existencial. “No final, todo mundo morre mesmo”, como observa o personagem principal em um de meus filmes favoritos do Woody Allen. Sejamos racionais: se o fim é inexorável, para que adianta a vida, então? Sair da cama, pensando assim, não valeria o esforço. Se no entanto levantamos a cada novo dia, ou é porque encontramos um argumento lógico que justifique a empreitada, ou é porque... não é a lógica racional que nos move.

De fato, não é. Somos literalmente movidos pela sensação de prazer e satisfação, nada racional, que nosso próprio cérebro se dá como prêmio quando faz algo que dá certo – e pelo prazer e satisfação que ele antecipa como retorno pelas suas possíveis ações futuras. Quem cuida disso é o sistema de recompensa e motivação do cérebro, informado pela dopamina que sinaliza o sucesso real ou esperado. Todos os animais com um cérebro razoavelmente organizado tem algo parecido, com neurônios dopaminérgicos que, ao dar valor positivo a qualquer coisa que funcione, impulsionam os movimentos – e acabam dando também um sentido para a vida.

Essa versão braba de falta de motivação costuma nos visitar em instantes de reflexão existencial, mas em geral é momentânea, esquecida assim que o cérebro se lembra de alguma tarefa premente, de preferência prazerosa. Ao menos, isso é o que o cérebro saudável consegue fazer; a versão duradoura, crônica, da falta de motivação existencial é, justamente, sinal de doença, chamada depressão. Em depressão, um estado de dificuldade de ativação das estruturas do sistema de recompensa, o cérebro não encontra nem satisfação interna suficiente para suas ações, nem consegue vislumbrar prazeres em seu futuro que façam o esforço valer a pena – apesar de amplas evidências do contrário. A falta de motivação da depressão não é uma escolha; é resultado de um distúrbio que deixa o cérebro preso à evidência racional de que nada vale a pena.

Mas existe ainda uma versão temporária, saudável, e curiosamente diária da falta de motivação: aquela que nos visita todos os dias ao final do dia, e que chamamos de preguiça – de levantar do sofá para buscar os óculos, o controle remoto ou um copo d’água. Também esta falta de motivação é resultado da perda de ação dopaminérgica, aqui no entanto causada pela adenosina que se acumula ao longo do dia no cérebro como resultado do seu próprio funcionamento. Com o cérebro encharcado de adenosina, haja dopamina para dar conta de convencer outras partes do seu cérebro de que o esforço de se mexer vale a pena.

Esta preguiça diária e com hora marcada, ao contrário da existencial e da depressiva, é boa: é ela que nos faz sossegar ao fim do dia, aumentando nossas chances de adormecer. E, dormindo, a adenosina é removida, o que permite que, pela manhã, a dopamina volte a exercer seu papel, premiando o cérebro com sensações positivas a cada ação executada ou apenas planejada. 

Assim você acorda pronto para um novo dia, capaz de navegar pela vida enxergando prazeres e satisfações no horizonte – apesar de toda a evidência racional de que a viagem provavelmente é inútil.

POR QUE A GENTE GOSTA DE QUEM NOS FAZ RIR? - Suzana Herculano-Houzel

Graças a risadas, o cérebro libera opioides

Ter oportunidades para rir ao longo do dia pode parecer um bônus, uma pausa bem-vinda no meio de um dia de afazeres. Mas um corpo crescente de evidências indicam que o que leva ao riso faz muito mais do que divertir: reduz o estresse, melhora a capacidade do corpo de combater infecções –e ainda promove laços afetivos entre todos os que compartilham a risada.

Um estudo finlandês recém publicado no "Journal of Neuroscience" mediu a liberação de opioides pelo cérebro de voluntários após estes terem passado 30 minutos assistindo com dois amigos próximos a uma compilação de cenas de comédia, e comparou o nível de opioides com aquele nos mesmos voluntários após 30 minutos de silêncio, sozinhos em um quarto.

Os opioides mais famosos são morfina e heroína, conhecidos pelas sensações de analgesia, relaxamento e prazer que causam –e que tão rapidamente levam ao vício, se intensos e frequentes demais. Se tais substâncias funcionam, no entanto, é justamente porque existem opioides internos, produzidos pelo próprio cérebro, e que provavelmente levam a efeitos semelhantes, ainda que mais brandos.

De fato, hoje se sabe que o efeito placebo, a melhora no bem-estar e redução da dor que acontecem só de se acreditar que se recebeu tratamento (quando o remédio na verdade era apenas água, farinha ou glóbulos de homeopatia sem qualquer princípio ativo), depende da capacidade do cérebro de produzir seus próprios opioides.

Ser acariciado ou abraçado por quem se gosta é uma maneira certeira de fazer o cérebro liberar seus próprios opioides –mas que só tem efeito sobre as duas pessoas envolvidas. Segundo o estudo finlandês, rir em grupo também funciona, e aparentemente surte efeitos no cérebro de todos os envolvidos: a liberação de opioides endógenos aumenta nas partes do cérebro que levam ao bem-estar e ao prazer, e junto com isso vêm não só sensações agradáveis de diversão como também de calma e paz interna. Quanto mais intensas as risadas, mais forte é a ativação do cérebro por seus próprios opioides –e mais intensas as sensações positivas.

De quebra, fica no cérebro um registro da associação entre a companhia do momento e o resultado prazeroso. E assim quem riu conosco, ou nos fez rir, ganha valor especial para nosso cérebro.

Não é à toa que gostamos tanto dos nossos amigos e parceiros bem-humorados, e preferimos sua companhia à de qualquer outra pessoa. Rir faz bem ao cérebro –e ele lembra com carinho especial de quem nos levou ao riso.

SOFRER POR ANTECIPAÇÃO - Suzana Herculano-Houzel

Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles 
viveria eternamente no presente

Dizem os livros didáticos que o sistema nervoso serve para "detectar estímulos e responder a eles".

Pode ser -mas isso até amebas e bactérias fazem, e com uma célula só. Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles, ainda que de forma coordenada e organizada, viveria eternamente no presente, incapaz de enxergar para frente ou para trás no tempo, e não teria a menor capacidade de reviver experiências do passado, fazer planos para o futuro -nem de sofrer por antecipação.

Não consegui deixar de pensar nisso no dia mais longo da minha vida: terça-feira passada, quando meu pai tinha uma cirurgia cardíaca marcada para contornar três coronárias muito obstruídas.
Meu cérebro há semanas vinha se torturando com o risco da cirurgia, desde quando os médicos decidiram que nem três fileirinhas de stents resolveriam o assunto.

Imaginava, apesar de meus protestos pré-frontais, todo tipo de catástrofe que poderia acontecer durante a cirurgia -do choque anestésico ao coração não voltar a bater-, e várias vezes sofri por antecipação o anúncio da morte do meu pai, com os requintes de como passá-lo aos netos, para quem o avô é Deus.

Meu plano para o dia da cirurgia era trabalhar normalmente no laboratório, para passar o tempo. Tolinha.

Acordei pensando que meu pai já devia estar entubado, com o tórax aberto. Experimentei levantar, mas descobri que apenas andava desnorteada pela casa, querendo que meu marido decidisse por mim se deveria comer, me vestir ou beber água.

Acabei arranjando um trabalho repetitivo para fazer no computador, que durou até a noite, quando minha mãe ligou dizendo que havia acabado e estava tudo bem. Chorei de alívio, e meus pensamentos catastróficos cessaram.

A neurocientista de plantão explica. Mesmo sem aviso dos sentidos sobre a cirurgia, a muitos quilômetros de distância, meu cérebro possui um hipocampo capaz de projetar para o futuro combinações de suas memórias sobre meu pai e cirurgias, que influencia o hipotálamo a fazer o corpo sofrer de acordo.

Eu vivo, lembro do que vivi e faço previsões para o futuro. Se elas não são boas, sofro desde já -e tiro vantagem do aviso sobre o quanto amo meu pai para aproveitar bastante os dias ao seu lado.

Para mim, portanto, o sistema nervoso é aquele que, entre outras coisas, dota os animais de passado e futuro.

E, agora que meu pai está bem de novo, me permite até voltar a curtir o presente com ele.

SONO: UMA FAXINA NOTURNA - Suzana Herculano-Houzel

O sono não é apenas “o outro” estado de funcionamento do cérebro,
 mas uma necessidade básica 
para que o cérebro trabalhe direito enquanto acordado

Dormimos cerca de oito horas por noite, todas as noites (ou quase). E se não dormimos, as consequências são imediatas: fadiga mental, dificuldade de encontrar as palavras, de fazer contas de cabeça, de se manter atento, de tomar decisões. Fica óbvio que o sono não é apenas “o outro” estado de funcionamento do cérebro, mas uma necessidade básica para que o cérebro trabalhe direito enquanto acordado da próxima vez. Até mesmo consolidar o aprendizado do dia – ou seja, transferir informações de maneira duradoura para a memória – depende de sono naquela noite.

Mas nada disso explica por que dormimos. Por que é mandatório dormir, a ponto de a insônia completa e permanente acabar sendo letal a humanos, camundongos e até mesmo moscas?

Foi apenas no final de 2013 que a neurociência finalmente teve uma forte candidata a resposta, vinda do laboratório da Dra. Maiken Nedergaard, nos EUA: o sono parece ser a oportunidade do cérebro para que metabólitos (quer dizer, produtos do metabolismo normal do cérebro) potencialmente tóxicos sejam eliminados, permitindo às células começar um novo dia limpas, ao invés de nadando em suas próprias excreções.

O interesse inicial da equipe de Maiken Nedergaard não era o sono em si, mas estudar o espaço intersticial do cérebro: o volume situado do lado de fora das células, por onde circula o líquido que banha as células e “lava” embora tudo aquilo que elas excretam, inclusive os tais metabólitos. Para estudar o espaço intersticial, a equipe injetava um corante que se espalhava por esse espaço no cérebro de camundongos acordados sob o microscópio, com seu cérebro exposto por uma janela implantada no crânio.

O experimento devia ser um tanto monótono para os animais, pois estes acabavam adormecendo. Foi o que levou à descoberta. Com o animal acordado, o corante injetado ficava apenas na superfície do cérebro. Mas, para a surpresa dos pesquisadores, assim que o animal adormecia, era como se uma torneira de corante houvesse sido aberta: o líquido agora se espalhava rapidamente pelo espaço intersticial.

Investigando o fenômeno inesperado, a equipe demonstrou que a circulação de líquido pelo espaço intersticial é mínima no cérebro acordado, quando o espaço interesticial é reduzido. Mas a transição para o sono leva a uma expansão de 60% desse espaço, o que aumenta enormemente a circulação de líquido. Na prática, o resultado é que a remoção de toxinas produzidas pelo funcionamento das células essencialmente só ocorre durante o sono; no cérebro acordado, com pouca circulação de líquido, elas vão se acumulando.

Ao menos um desses metabólitos, aliás, é forte candidato justamente a fator causador do sono: adenosina, produzida e liberada por neurônios e células gliais durante o funcionamento do cérebro acordado. Quanto mais adenosina se acumula, mais difícil fica se manter acordado, motivado e atento – e maior é a sensação de sonolência. É fácil pensar em como o cérebro, acordado, fica gradualmente prejudicado conforme se acumulam os produtos tóxicos do seu próprio funcionamento, como a própria adenosina. Quanto mais tempo se passa acordado, mais difícil é continuar acordado – e mais forte, portanto, é a tendência a adormecer.

Dormir parece ser a solução para o problema: um estado transitório, mas obrigatório, repetido todos os dias após um certo número de horas acordado, acumulando lixo. Dormir limpa o cérebro, levando embora adenosina e o que mais houver se acumulado. E assim você acorda pronto para... começar tudo de novo.
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A PAIXÃO PODE DURAR DÉCADAS - Suzana Herculano-Houzel

Pesquisas neurocientíficas mostram que é possível 
sentir-se encantado pela mesma pessoa por décadas

Você já se imaginou vivendo 10, 20 ou 50 anos com a mesma pessoa? Sentindo sempre o mesmo prazer em sua companhia, o mesmo conforto em seus braços? Se a perspectiva parece interessante, agradeça ao seu cérebro (e se não lhe agrada, a culpa é dele, também). De certa forma, é curioso que laços afetivos fortes, como os amorosos, sejam tão importantes para nossa espécie. Tecnicamente, viver em sociedade, ou mesmo em pares, não é obrigatório para a sobrevivência de nenhum animal – vide tantos mamíferos, aves e outros bichos que procuram um par somente para o acasalamento e imediatamente depois seguem cada um o seu caminho.

Se gostamos de formar pares a ponto de investir boa parte de nossa energia, tempo e esforços cognitivos em convencer um belo exemplar do sexo interessante de que nós somos a pessoa mais sensacional e desejável na face da Terra, é porque o sistema cerebral humano, como o de outros animais sociais, é capaz de atribuir um valor positivo incrível à companhia alheia. Isso é função do sistema de recompensa, conjunto de estruturas no centro do cérebro especializadas em detectar quando algo interessante acontece, premiar-nos com uma sensação física inconfundível de prazer e satisfação e ainda associar esse prazer com o que levou a ele – o que pode ser uma ação, uma situação, um objeto ou... alguém.

Conforme o prazer se repete na companhia dessa pessoa, o valor positivo que atribuímos a ela é reforçado (enquanto torcemos para que o mesmo aconteça no cérebro dela, associando um valor cada vez mais positivo à nossa própria companhia, claro). É o que fazemos no período de namoro, quando conversas interessantes, passeios agradáveis, boa música, boa comida e carinho oferecem prazeres que vão sendo associados à companhia do outro. Se rola sexo, então, melhor ainda: o prazer do orgasmo funciona como uma cola extraordinária para o sistema de recompensa, que atribui (corretamente!) a satisfação incrível àquela pessoa específica (mas é verdade que isso não funciona tão bem em alguns cérebros...).

Com a repetição, o sistema de recompensa vai aprendendo a ficar ativado não apenas em resposta, mas também em antecipação à presença daquela pessoa. Esse prazer antecipado é a motivação, que nos dá forças para alterar compromissos, abrir espaço na agenda e ficar acordado madrugada adentro. Essa é a paixão, estado de motivação enorme em que se faz tudo em nome de mais tempo na presença do ser amado.

Quando vira amor?
Essa questão é complicada, mas existe ao menos uma definição operacional curiosa: passado o ardor da paixão, descobre-se que se ama alguém quando pensar em uma vida sem ela causa angústia sincera e profunda. O amor é esse laço que faz seu cérebro achar que sua felicidade está vinculada à presença e à felicidade do outro e que fazê-lo feliz dá novo sentido à sua vida. Nesse estado, desejar o casamento é apenas natural.

Quando é para sempre?
Depende de vários fatores, alguns deles fora de nosso alcance, como ser traído (e não apenas sexualmente). A boa notícia da neurociência sobre a longevidade dos relacionamentos amorosos é que eles não estão necessariamente fadados ao esgotamento: é, sim, possível se sentir apaixonado décadas a fio pela mesma pessoa. E não é mero acaso de sorte: você pode fazer sua parte. É uma questão de continuar inventando e descobrindo novos prazeres a dois. Tudo para manter o sistema de recompensa do outro interessado em você...

MEMÓRIAS DE VIAGEM - Suzana Herculano-Houzel

Se é possível alimentar o cérebro com boas lembranças, por que enfrentar horas de viagem para revisitar um local? Porque queremos repetir o que foi bom

Janeiro é mês de férias e viagens, ainda mais com a abundância de ofertas especiais de agências de turismo enquanto o ano letivo não começa. Mas para que viajar? Por que se dar ao trabalho de encarar aviões, aeroportos, ônibus e estradas para ver ao vivo o que já vimos em fotos, filmes, e agora tão facilmente no YouTube? Ou, pior ainda, por que revisitar um lugar que você já conhece?

Considere, por exemplo, minha opção de destino: um parque nacional no sul do Chile, o Torres del Paine, aonde fui mais de 20 anos atrás, com amigos da faculdade. As fotos das formações geologicamente distintas – torres, cornos, cumes, montanhas arredondadas em um único maciço – são extraordinárias, e posso vê-las em qualquer livro ou site de viagens. Tenho também minhas próprias fotos de anos atrás, e memórias não faltam: da surpresa de ver um iceberg (azul!) pela primeira vez, flutuando lago abaixo, ao susto com o estrondo de paredes de gelo se desprendendo do glaciar, passando por horas infindáveis em ônibus, caronas dentro e fora de caminhões e nuvens nunca dantes avistadas.

Se posso alimentar meu cérebro com imagens lindas, em fotos e na memória, por que então enfrentar três aviões seguidos e quatro horas de ônibus só para rever e reviver o que já vivi?

Primeiro, justamente porque foi bom. Meu sistema de recompensa, parte do cérebro que sinaliza para todas as outras quando faço algo que dá certo e gera sensações positivas, atribuiu valores extremamente favoráveis a tudo o que vivi no sul do Chile anos atrás. Por causa disso, todas as minhas memórias de lá trazem esse valor positivo associado a elas. Evocá-las traz à tona também essas emoções positivas. E como a motivação nada mais é do que essa lembrança de como algo foi bom atrelada à antecipação de como pode ser bom de novo... minhas memórias positivas me motivam a revisitá--las. Queremos fazer de novo aquilo que foi bom. 

Assim é que continuamos procurando nossos amigos e frequentando nossos restaurantes favoritos – e querendo voltar à Disney, à Austrália ou àquele mesmo cantinho de sempre da praia, de novo e de novo e de novo.

No meu caso em particular, também quero revisitar o Paine em busca de novas memórias. Gosto das minhas, tanto que quero voltar lá – mas quero, agora, ter recordações deste lugar que incluam meu marido. Somos feitos de memórias dos eventos que nos constroem, e nossa individualidade vem da história de vida de cada um (sobreposta, é claro, à biologia do cérebro que é ponto de partida e base ao longo do tempo). Quero que meu cérebro tenha a oportunidade de associar meu marido, e minhas experiências positivas com ele, também a este que é para mim um dos lugares mais belos do mundo.

E sim, quero fotos novas, tiradas por mim (e com uma câmera melhor!). Fotos tiradas pelos outros são só fotos, por mais que perfeitas: uma evocação puramente visual, pobre em detalhes e em comparação a todas as evocações sensoriais, emocionais e contextuais de uma lembrança real vivida no mesmo lugar. Minhas fotos, ao contrário, são minhas: um apoio externo à memória que meu cérebro completa com a lembrança do vento frio no rosto, da máquina pendurada na árvore, do sabor do almoço do dia, do alívio de tirar as botas, e de todas as outras maravilhas não fotografadas.

Por isso, também, a experiência de rever as fotos de viagens é tão mais significativa para quem esteve lá: rever suas duas mil fotos é um prazer que não tem como ser compartilhado da mesma forma com quem ficou...

DESABAFAR FAZ BEM À SAÚDE - Suzana Herculano-Houzel

          O alívio de falar de si mesmo 
está relacionado a ativação de 
estruturas cerebrais de recompensa

Ah, como é bom ter para quem contar as coisas. Outro dia cheguei em casa com fumacinhas saindo da cabeça, tamanha minha irritação com questões variadas no trabalho, que vim remoendo no caminho. Se meu marido não estivesse em casa, eu teria continuado insistindo mentalmente no assunto por um bom tempo, e só me irritando mais.

Mas não: ele estava aqui, e me ofereceu seus ouvidos e comiseração. Era tudo de que eu precisava: uma oportunidade para meu cérebro finalmente executar o longo programa motor que ele vinha montando havia horas, desfiando e revisando minhas misérias do dia, e botar tudo para fora, em palavras, para então poder sossegar.

Por isso segurar um segredo dá tanto trabalho – e por isso contar é tão bom. Preocupações, assim como segredos, são representações mentais angustiantes, aflitivas, que levam à ativação de uma estrutura do cérebro especializada em antecipar problemas, o córtex cingulado anterior. Ativado, ele, por sua vez, dispara uma série de alarmes, parte da resposta ao estresse da preocupação, que deixam tanto corpo como cérebro tensos. Além disso, já que o cérebro sabe colocar seus pensamentos em palavras, ficamos remoendo a preocupação ou o segredo, ensaiando mentalmente sua versão motora, produzida pela boca. Mas, sem ter com quem desabafar, ou para quem contar, esse programa motor fica só na vontade, e não sai. E assim tem-se um cérebro cada vez mais aflito, que tem de fazer força cognitiva, atenta, para segurar ativamente suas palavras.

Por isso colocar tudo para fora é tão bom: assim o programa motor tão ensaiado é executado e não precisa mais ser segurado pelo seu córtex pré-frontal; assim o cingulado anterior pode soltar um “Ufa!” e desligar os alarmes que ajudavam o resto do cérebro a manter o controle.

Essa é uma das razões pelas quais a psicoterapia pode ser tão boa: o simples desabafo. Claro, amigos, parentes, padres, e às vezes até a pobre da pessoa sentada ao seu lado esperando o ônibus também servem quando tudo o que se precisa é uma oportunidade para despejar as preocupações em palavras.

Falar da gente mesmo é muito bom. Um estudo recente da Universidade Harvard mostrou que, tendo opção entre responder perguntas sobre os gostos e hábitos dos outros, sobre simples fatos, ou sobre si mesmos, os participantes preferiam falar do próprio umbigo – e até pagavam para escolher esta alternativa, e de dentro de um aparelho de ressonância magnética, onde só os pesquisadores viam suas respostas. A preferência por falar de si mesmo está relacionada a uma maior ativação das estruturas do sistema de recompensa, o que gera prazer.

Funciona mesmo quando segredo completo é garantido. Mas, seres sociais que somos, a ativação do sistema de recompensa é especialmente alta quando os voluntários sabem que suas respostas serão ouvidas pelo acompanhante que eles levaram para o estudo. Falar de si é bom, mas falar de si para os outros é melhor ainda.

Não é à toa, portanto, que a liberdade de expressão pessoal e de opinião é altamente valorizada. Não se trata apenas de um construto social ou cultural: o prazer de expressar seus próprios pensamentos e estado de espírito é real, mensurável, e vem lá dos cafundós do cérebro. E quando os próprios pensamentos são aflitivos, o desabafo ainda é um alívio só.

Uma ressalva, contudo: pelas mesmas razões, ficar revisitando e remoendo um mesmo problema meses a fio, ao longo de sessões e mais sessões de terapia, muitas vezes é um tiro no pé. É preciso saber deixar o problema ir embora. 
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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo
A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...