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COMO FUNCIONA A BIBLIOTERAPIA, A CURA PELA LEITURA – Juliana Domingos de Lima

Clínica em Portugal passa a oferecer atendimento 
com biblioterapeutas, que receitam livros para seus pacientes

Em atividade desde o dia 1º de março de 2016, a clínica lisboeta The Therapist oferece vários tipos de tratamentos alternativos, da medicina chinesa à naturopatia (que engloba homeopatia, nutrição e massagens terapêuticas). Em meio a eles, foram abertas as primeiras consultas de biblioterapia no país.

As sessões de biblioterapia são feitas com orientação e prescrição de leituras, segundo o site da clínica. Uma consulta custa € 60 por pessoa, algo em torno de R$ 200. Para que o tratamento aconteça, o terapeuta precisa ter acesso aos problemas do paciente e aos seus hábitos de leitura, dos autores e gêneros que está lendo no momento, para, a partir dessas informações, criar um plano de leitura personalizado.

Segundo uma reportagem do jornal português “Público”, as consultas são particularmente úteis para adolescentes. Elas os ajudam a aprender a ler e a estudar, a tirar um proveito maior dos livros e a descobrir o prazer da leitura, também como uma maneira de encontrar respostas para suas angústias.

O biblioterapeuta e “reading coach” da The Therapist, César Ferreira, disse em entrevista que, embora cada caso seja único, os dois dos livros mais prescritos por ele são “O cavaleiro preso na armadura”, de Robert Fisher, e “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway.

A biblioterapia tem sido utilizada em hospitais, penitenciárias, asilos, no tratamento de problemas psicológicos de pacientes de diversas faixas etárias, assim como de pessoas com deficiência física, doentes crônicos e dependentes.

Como a biblioterapia ajuda os pacientes apesar do ar de novidade trazido pela clínica, a biblioterapia vem sendo estudada pelo menos desde meados do século 20.

O estudo “A Leitura Como Função Terapêutica: Biblioterapia”, da professora da Universidade Federal de Santa Catarina Clarice Fortkamp Caldin, reúne definições dadas ao método terapêutico por pesquisadores de diversas épocas, desde os anos 1940.

Os componentes da atividade de leitura descritos pelo estudo como “biblioterapêuticos” são a catarse, o humor, identificação, a projeção e a introspecção que ela proporciona.

Nas definições de “biblioterapia” apresentadas, alguns dos objetivos e potencialidades do tratamento citados são permitir ao leitor verificar que há mais de uma solução para seu problema, adquirir um conhecimento melhor de si e das reações dos outros, alcançar um entendimento melhor das emoções e afastar a sensação de isolamento.

Para César Ferreira, quando o paciente é capaz de assumir o papel das personagens do livro e consegue trazer a história e o aprendizado para a sua própria vida, a terapia cumpriu seus objetivos.

“Trata-se de viver a ‘jornada do herói’, como menciona Joseph Campbell. Todos nós somos heróis. E a biblioterapia ajuda-nos a sentir isso”, afirmou. Para receitar uma leitura, muitos fatores têm de ser equacionados, desde o desafio psicológico a ser ultrapassado pelo paciente até sua capacidade de leitura, o tipo de leitor que é, seu estilo de aprendizagem e limitações físicas, como por exemplo, um eventual problema de visão.

Na clínica portuguesa, a consulta funciona em três fases: a fase do diagnóstico, a do plano de leitura orientado (o que ler, como ler, como aplicar) e a da “transformação”, em que o paciente já identifica os frutos do processo.

Quem são os biblioterapeutas
“Os principais requisitos para um biblioterapeuta incluem, além da formação específica, competências de análise de comportamentos humanos, de hábitos de leitura, de técnicas de rentabilização de leituras e uma grande capacidade em pesquisar e recuperar livros verdadeiramente transformadores”, explicou César Ferreira.

O trabalho, segundo ele, consiste em encontrar o livro certo no momento certo para o paciente.

ADMIRAÇÃO, INVEJA E AMOR - Flávio Gikovate

A busca de destaque social através do sucesso em alguma área de atividade (que é a forma usual da manifestação adulta do exibicionismo e que chamamos de vaidade) teria por finalidade atenuar a sensação de desamparo, solidão e insignificância, sensações geradoras de brutal desespero, especialmente para aquelas pessoas que, em virtude de sua inteligência, são mais conscientes destas propriedades da condição humana. 

Apenas algumas observações serão suficientes para demonstrar que este caminho não leva a parte alguma, a não ser uma relativa neutralização da sensação de insignificância que, ainda assim, necessita permanentemente de reforços derivados de novos feitos, capazes de chamar a atenção das outras pessoas.

Se a intenção inicial das pessoas que buscam o destaque é, através dos seus desempenhos, acima da média, obter admiração e o amor dos que lhe são próximos, o resultado na prática é bastante diverso deste. 


O sentir-se amado pode efetivamente representar uma importante atenuação do desamparo original, sendo um remédio eficaz para o desespero que deriva da consciência da solidão, de modo que seria legítimo buscar esta solução, ainda mais que ela estaria na mesma direção da que determina o prazer erótico ligado ao sucesso. 

O que perturba esta solução, aparentemente muito boa porque resolve os dois anseios – afetivo e erótico –, é que a admiração determina o surgimento da inveja e não do amor.

Amor e inveja derivam da mesma fonte: a admiração. Porém, na prática, a inveja é a emoção que mais frequentemente se manifesta, especialmente quando as diferenças entre as pessoas são mais marcadas. 


Para que a admiração resultasse em amor seria necessário que as pessoas em geral estivessem relativamente bem consigo mesmas, de modo a não se sentirem humilhadas, agredidas, pelas competências especiais das outras.

Acredito que a maioria das pessoas que buscam o destaque social só percebem muito tardiamente que seu sucesso desperta muito mais frequentemente a inveja do que o amor; e, mais, que vive esta constatação surpreendente como profundamente decepcionante e geradora de uma grave crise íntima. Não é fácil aceitar que o resultado de tanto esforço e dedicação a uma causa qualquer – desde as mais nobres até o simples sucesso material – seja a hostilidade sutil, manifestada principalmente pelas pessoas mais chegadas, amigos e familiares. 


E agora o que fazer? Abandonar tudo e iniciar uma nova vida? Com que forças? E para onde dirigir essas energias, se o resultado de uma mudança de rota pode ser o mesmo, ou seja, a inveja?

Na maior parte das vezes, não há mais como haver uma reversão do processo, principalmente porque as pessoas já estão muito habituadas às gratificações eróticas derivadas do sucesso social. A vaidade funciona, nestes casos, como um vício qualquer: o indivíduo percebe que ela lhe é nociva – por causa da inveja que sua condição desperta – mas não consegue mais abrir mão dos prazeres que dela advém. 


O sentir-se hostilizado agrava a sensação de solidão e desamparo, o que costuma determinar um agravamento do desespero, agora acrescido de revolta contra as pessoas invejosas. 

O desespero e a revolta geram uma energia ainda maior, que é usada na direção de se obter um destaque mais acentuado, que agrava a solidão. A inveja é um sinal da admiração e do destaque obtido, de modo que passa a ser buscada ativamente, apesar da mágoa íntima que possa causar. 


Para continuar a ser admirado e destacado, terá que se comportar cada vez mais de acordo com o que o grupo social valoriza – ainda que já tenha percebido seu caráter absolutamente ilusório e, na prática, insatisfatório. 


Desta forma o grau de liberdade individual se torna mínimo, ao mesmo tempo que o indivíduo fica cada vez mais sozinho, apenas se gratificando – em doses cada vez maiores, como em qualquer vício – dos prazeres eróticos ligados ao exibicionismo.

UM ENCONTRO COM LACAN - DOCUMENTÁRIO



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TRAUMAS DA PERDA - Anette Kersting

No Brasil, em média, duas em cada dez crianças morrem ainda na barriga da mãe, em decorrência de aborto espontâneo. Mães e pais que passam por essa situação sofrem durante longo tempo, pois embora não tenham tomado seus bebês nos braços, desenvolvem com eles uma relação íntima de afeto

“Estou na cozinha e de repente começo a sangrar. No entanto, hoje ao meio-dia ainda estava tudo bem no ultrassom. Tudo acontece muito rápido: meu marido chama a ambulância e vejo a poça de sangue embaixo de mim; tenho um pressentimento terrível. Acho que meu filho não vive mais. Fico desesperada. Quando os enfermeiros me deitam na maca, fico calma – tudo parece irreal. 

No hospital, todos que me atendem parecem agitados. Um médico me examina com um instrumento de metal gelado. A ultrassonografia confirma o que eu já sabia, mas insistia em não acreditar: meu bebê está morto. É preciso fazer logo uma curetagem. O médico diz que eu ainda poderei ter muitos filhos. Mas meu bebê está morto. Ele não pode ser substituído por nada nem por ninguém. Nunca.” (Depoimento de paciente do Hospital da Universidade de Münster que sofreu um aborto.)

A morte do filho antes do nascimento joga a maioria das mães e pais em uma profunda crise. Se os médicos supunham há 30 anos que o melhor para os casais seria esquecer o evento o mais rápido possível, hoje – graças à psicologia e à psicanálise – se sabe que as reações à perda de um filho antes do nascimento só se diferenciam fracamente das que ocorrem em outros casos de luto. No entanto, sua magnitude raras vezes é percebida por aqueles que rodeiam as pessoas que passam por essa situação e, não raro, os homens encontram ainda menos espaço para viver sua tristeza. 

Dependendo do estudo, entre 10% e 30% das crianças morrem ainda antes de nascer. No fundo, isso pode ocorrer em qualquer período de uma gravidez. Até a 16a semana, os médicos falam em aborto precoce, depois; em aborto tardio. Mais da metade de todos os abortos espontâneos ocorre, no entanto, antes do terceiro mês de gravidez. E somente os bebês com peso corporal de 500 gramas que morrem antes ou durante o parto são considerados “crianças nascidas mortas”. Embriões menores não têm registro civil nem direito a enterro.

O estresse psicológico sofrido pelos pais pelo abortamento ou pelo nascimento de um bebê morto já foi muitas vezes estudado cientificamente. Nesses trabalhos, as mulheres geralmente eram focadas de maneira mais intensa que os homens. Em 2005, nosso grupo de trabalho do Hospital da Universidade de Münster estudou os dados de pacientes mulheres que haviam perdido um filho antes do nascimento entre 1995 e 1999. Descobrimos que dois terços delas ainda experimentavam um grande trauma, mesmo quando já haviam se passado dois a sete anos da perda. A intensidade de sua dor pouco se diferenciava dos sentimentos de perda em mulheres cujo abortamento ocorrera havia apenas 14 dias.

Esses resultados não sugerem processos de luto excepcionais ou mesmo patológicos, mas mostram, isso sim, que antes do nascimento já existe uma relação intensa entre mãe e filho. Em comparação com mães de bebês saudáveis, as mulheres que perdem o filho no último trimestre de gravidez enfrentam alto risco de sofrer de depressão. Isso foi comprovado em 2003 por Jesse Cougle e seus colegas da Universidade do Texas, em Austin. Em 2007, nossa equipe finalizou um estudo próprio sobre as sequelas psicológicas de pacientes cuja gravidez teve de ser interrompida por motivos médicos já na fase tardia: quase 17% das mulheres ainda sofriam 14 meses depois de depressão ou ansiedade.

Outro risco frequentemente subestimado diz respeito ao próximo filho gerado após um aborto. Em geral a perda não influencia a probabilidade de a mulher dar à luz um bebê saudável. Mas a gravidez fracassada pode influenciar a ligação da mãe com a criança gestada em seguida, conforme descobriram em 2001 pesquisadores do Departamento de Psiquiatria do Hospital Escola St.George, em Londres. 

Assim, por medo de uma nova perda, quando engravidam outra vez muitas mulheres assumem um relacionamento menos intenso com os filhos que estão gestando. Em comparação com crianças de um grupo de controle, esses bebês apresentam por volta dos 12 meses, em alguns casos, apatia e, em outros, irritação e ansiedade, o que reflete a fragilidade da ligação afetiva com a mãe, podendo surgir mais tarde problemas de autoestima e distúrbios comportamentais.

À primeira vista, poderíamos pensar que os pais desenvolvem uma relação menos estreita com seus filhos que não chegaram a nascer, em comparação às mães. Estudos recentes, porém, contrariam essa suposição. Os psicólogos britânicos Martin Johnson e John Puddifoot observaram, por exemplo, que homens que viram uma imagem de ultrassom de seus filhos e ouviram seu coraçãozinho bater sofriam mais intensamente com a perda do que aqueles que não tinham essas experiências – e lembranças. 

Aparentemente, a existência de exames médicos mais sofisticados estimula a ligação entre pai e filho.

Já em 1995 psicólogos da Universidade de Rochester, no estado americano de Nova York, tentaram descobrir se mães e pais apresentam diferentes sintomas quando não conseguem lidar com a morte de seu bebê. Eles acompanharam 194 mulheres e 143 homens nessa situação e constataram que elas sofriam mais frequentemente de depressão e medos, enquanto mais da metade deles recorria ao álcool.

SOFRIMENTO DIVIDIDO
Um estudo de 2003 coordenado por Kirsten Swanson, da Universidade de Washington, em Seattle, corrobora a conclusão de que, dependendo do sexo, as pessoas lidam de forma diferente com sua dor. Segundo os autores, as mulheres frequentemente têm necessidade de falar sobre a perda; já os homens tendem a se voltar para o trabalho ou a buscar distração em outras atividades.

Swanson investigou também se essas estratégias de superação específicas de cada gênero sobrecarregavam o relacionamento do casal. De fato, muitas vezes ocorrem mal-entendidos, como se surgisse (ou se tornasse mais acentuada) a dificuldade de comunicação. Por exemplo, as mulheres tendem a interpretar o mutismo e o retraimento do parceiro como egoísmo e falta de empatia.

Homens, por sua vez, sentem-se muitas vezes indefesos diante da tristeza intensa e explícita de suas parceiras. Para não sobrecarregá-las ainda mais, eles controlam as próprias emoções e evitam falar abertamente sobre elas.

PSICOTERAPIA PELA INTERNET
 Com base em nossa experiência clínica de acompanhamento e tratamento de pais após a perda de um filho, desenvolvemos em 2008 um programa preventivo que inclui cinco sessões de terapia. 

Nos encontros são abordados temas importantes como a retrospecção à época da gravidez e do nascimento, a despedida do filho, a relação do casal e a importância do ambiente social. Para ajudarmos também os pais que moram longe ou não podem participar de uma terapia presencial, buscamos uma alternativa para o atendimento costumeiro, cara a cara. 

Foi assim que desenvolvemos um conceito de tratamento pela internet para pais que haviam perdido um filho durante a gravidez ou pouco após o nascimento: o projeto será patrocinado durante três anos pelo Ministério da Família, Mulheres, Idosos e Adolescentes da Alemanha. Portanto, não há custos para os pacientes. Diferentemente dos tratamentos tradicionais, a terapia on-line permite a comunicação exclusivamente por escrito. 

Obviamente, nessa situação a interação não verbal entre paciente e terapeuta – por meio da postura corporal, o contato visual ou a voz – não ocorre no caso desse método. 

No entanto, essas informações emocionais importantes podem e devem ser destacadas pelo uso de diversas fontes ou variações do pano de fundo na tela. Outra característica dessa forma de terapia são as pausas na comunicação, que devem ser olhadas com atenção pelo profissional. Uma vantagem: o paciente pode refletir com calma sobre as perguntas do terapeuta antes de respondê-las. Costumamos argumentar que, nesse momento, as inibições que talvez impeçam a pessoa de comunicar os pensamentos dolorosos ou que ela considere vergonhosos são eliminadas. 

Reconhecemos, no entanto, que demora pode também levar a mal-entendidos difíceis de ser percebidos na comunicação escrita. Por isso, o terapeuta se orienta pela forma de expressão e estilo do paciente – o que, de fato, nem sempre é fácil. Apesar das dificuldades (e críticas) a respeito da psicoterapia pela internet, a proposta é justamente avaliar se esse tipo de intervenção é eficaz.

Mas há também evidências de que mães e pais se ajudam intuitivamente quando perdem um bebê. Pesquisadores coordenados por Marijke Korenromp, do Centro Médico Universitário, em Utrecht, na Holanda, analisaram inúmeros estudos sobre o comportamento de pais em luto após a interrupção da gravidez por motivos médicos. Surpreendentemente, os parceiros raramente mostraram fases de tristeza intensa concomitantes. 

Os psicólogos holandeses supõem que os pais se alternavam de forma inconscientemente na superação da dor, para que aquele que estivesse especialmente sobrecarregado em um momento fosse apoiado e aliviado de suas tarefas rotineiras nesse período.

Até agora, porém, desenvolveram- se apenas poucos conceitos de tratamento específicos para pais após perdas durante a gravidez, e sua eficácia não foi investigada a fundo. Mas todas as abordagens têm em comum o fato de estimular a comunicação franca entre os membros da família. O principal objetivo da terapia consiste, inicialmente, em fazer com que os afetados tenham consciência de sua perda e formulem seu sofrimento espiritual em palavras para que, por fim, possam se despedir do bebê morto, bem como das expectativas, das esperanças e dos desejos associados a ele. 

De qualquer forma, é fundamental que, independentemente do fato de serem homens ou mulheres, pessoas que passaram pela experiência dolorosa de um aborto (muitas vezes até mesmo de um aborto provocado, que pode deixar sequelas emocionais e culpa) possam ter um espaço de acolhimento. E encontrar um ambiente propício e seguro para viver esse luto, falar sobre sentimentos e frustrações. Ou apenas para chorar.

Causas e sintomas
Em muitos casos, alterações genéticas são responsáveis pela morte do feto. Nesses casos, o bebê não estaria apto a sobreviver e por isso é expelido pelo corpo da mãe. Às vezes, a falta do hormônio progesterona pode provocar o aborto. Nesse caso, o óvulo não se aninha na membrana mucosa do útero. Infecções e doenças maternas também facilitam a morte da criança durante a gestação. Mulheres grávidas de múltiplos têm um alto risco de perder o bebê. Os indícios de um possível aborto vão desde sangramentos vaginais até fortes dores no abdômen e costas. Se esses sintomas surgirem, grávidas devem procurar um médico imediatamente. Muitas vezes, o aborto pode ser evitado com medicamentos ou intervenção cirúrgica.

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