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CRÔNICAS DE HOTEL - Tony Belloto

Histórias passadas em hotéis, 
do Rio de Janeiro a Nova Orleans

Hotel Perpignan, Paris
Pela janela eu via os edifícios ocres do bairro em que vivíamos. Eu tentava desenhar um toureiro no momento em que ele crava a espada na carne suada do touro. Minha mãe entrou chorando no quarto do hotel: “Mataram o Martin Luther King!”, disse, brandindo um jornal enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Hotel Prins Hendrik, Amsterdã
Não saberemos jamais no que pensava Chet Baker quando despencou da janela do hotel para a morte. Podemos supor que se lembrava do céu azul na primavera em Yale, Oklahoma, onde nasceu, muito longe dali. Testemunhas declararam que havia gaivotas sobrevoando o local e que seus guinchos remetiam ao som de um trompete.

Hotel Intercontinental, Bora-Bora
Acordamos de madrugada com o vento rugindo. Uma arraia gigante deslizava sob o chão de vidro da palafita como se fugisse de alguma coisa. Ligamos para a recepção: “É o tufão?”. “Não”, respondeu o recepcionista. “É só o vento.” Quando amanheceu ainda não tínhamos pegado no sono. Ventou forte durante três dias.

Hotel Saint Peter House, Nova Orleans
O investigador González não acreditou no que viu. “Como esse cara conseguiu morrer assim?”, pensou. O cadáver se enrolava como um pretzel debaixo da mesa do quarto número 37. A polícia nunca concluiu se foi homicídio, overdose ou algum tipo de bruxaria. González ficou indiferente quando soube que o morto era Johnny Thunders, ex-guitarrista dos New York Dolls.

Hotel Novo Mundo, Rio de Janeiro
De madrugada, ao voltar para o hotel, reparei mais uma vez na placa comemorativa do milésimo gol de Pelé, que se hospedara ali no dia do jogo histórico. Eu ainda não conseguira dormir quando o sol nasceu sobre o aterro, iluminando os jardins de Burle Marx. Desci para o café. Peninha estava sentado sozinho numa mesa. Ovelha servia-se de ovo mexido.

Hotel Royal, Porto Alegre
O quarto é muito pequeno, chê”, disse a mulher para o poeta Mário Quintana. “Não me conformo que tenham te despejado do Majestic. O quarto lá era muito melhor!”. “Eu moro em mim mesmo”, confortou-a o poeta. “Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder minhas coisas.”

Hotel Chelsea, Nova York
Quem entra no quarto número 100 do hotel não consegue deixar de olhar fixamente para a porta do banheiro. Se a porta estiver fechada, a morbidez e a curiosidade se aguçam. Algumas pessoas não se contêm e correm para abrir a porta. E então imaginam Nancy Spungen morta com a faca de Sid Vicious enterrada no ventre.

Hotel Rio Poty, Teresina
As portas dos quartos estavam abertas quando o sujeito irrompeu pelo corredor gritando: “Cadê o segurança?”. O que dava consistência à indagação é que ele carregava um revólver. Alguns fecharam as portas, eu corri para a varanda. O segurança tinha agredido o sujeito quando este se aproximara da van, depois do show, atrás de autógrafos.

Beat Hotel, Paris
Quando o gato de madame Rachou caiu de uma janela do quarto andar, os hóspedes pensaram que ele encontrara a morte na calçada da rua Git-le-Coeur. William Burroughs, que morava no hotel, levou o gato para seu quarto. O felino estava vivo e tinha apenas quebrado uma perna. Na companhia do escritor, logo se recuperou. Burroughs preferia gatos a humanos.

Hotel Nikkey, São Paulo
Sozinho no quarto do hotel, eu não conseguia pregar o olho. Não podia voltar para casa, sob o risco de ser encontrado por um oficial de Justiça e ter de cancelar minha viagem para Montreux, onde gravaríamos um disco. A programação da TV já tinha acabado. Olhei o bairro da Liberdade, vazio àquela hora da madrugada, e liguei o rádio. Tocava “Sonífera ilha”.

Hotel Marriot, Atlanta
Onde é que você meteu o cinto do papai, garoto?”. Meu filho me olhou com aquela carinha de que não fazia a menor ideia. Já tínhamos revirado o quarto do hotel umas cinco vezes. O quarto não era grande. Meu filho vivia fazendo as coisas sumirem. Eu achava que ele era um mágico em potencial. O cinto nunca foi encontrado.

Hotel Ambos Mundos, Havana
Mais cedo, quando visitamos a casa, lembramos das palavras de García Márquez sobre os sapatos do escritor que a habitara. Lá se podem ver igualmente os chinelos no chão do banheiro. À tarde, no quarto 511 do hotel, onde Hemingway também viveu, nada nos impressionou tanto quanto a visão de seus sapatos pela manhã, nem mesmo a luminosidade de Havana entrando pela janela.

Hotel Seventeen, Nova York
De manhã, na fila para o banheiro, vi um junkie desdentado com uma bandana vermelha na cabeça, três garotas punks japonesas — uma delas carregava um estojo de guitarra —, um garoto moreno latino com uma jaqueta de couro e Dorothy, uma senhora alcoólatra que nunca se separava de sua garrafa de gim. “Hi”, eu disse, mas Dorothy tinha o olhar perdido em algum lugar muito longe dali.
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Contos e Crônicas
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KAFKALIFÓRNIA - Tony Belloto

Cenas de uma viagem em família a São Francisco

1. Ao chegar em Los Angeles constatamos que nossas quatro malas sumiram. A empresa aérea americana, com o mau humor típico de seus funcionários, não nos fornece maiores explicações. Abrimos um protocolo. Seguimos no voo de conexão para São Francisco cientes de que só contamos com as roupas do corpo para a primeira fase de nossa viagem de férias. Pela janela do jato avistamos uma nuvem em forma de interrogação. Na minha mochila, atestando uma irônica sincronicidade, um livro de Franz Kafka*.

2. Kafka, o escritor tcheco de língua alemã, é célebre por sua prosa enigmática e perturbadora, sobre a qual o crítico alemão Günther Anders disserta: “A fisionomia do mundo kafkiano parece desloucada (trocadilho entre verrückt, particípio passado de verrücken, ‘deslocar’, e o adjetivo verrückten, que significa ‘louco’). Mas Kafka deslouca a aparência aparentemente normal do nosso mundo louco, para tornar visível sua loucura. Manipula, contudo, essa aparência louca como algo muito normal e, com isso, descreve até mesmo o fato louco de que o mundo louco seja considerado normal.”

3. A falta das malas em nada — ou quase nada — atrapalha os passeios da família pela mais bela e liberal das cidades americanas no primeiro dia da viagem. Lembramos que o santo que nomeia a cidade é o mais desapegado dos santos e que devemos tomar o extravio das malas como uma sugestão de aprimoramento espiritual. O fato de ainda vestirmos as mesmas roupas com que saímos do Rio nos ajuda a vivenciar com mais intensidade as horas passadas na livraria City Lights, onde nasceu o movimento beat e, de certa forma, o movimento hippie. Na imensa loja de discos Amoeba — um supermercado em que só se vende música —, talvez a última grande loja exclusiva de discos do mundo, podemos, com nossas roupas surradas, nos deliciar como monges freaks por corredores lotados de discos. Como uma recompensa à nossa resignação, duas das malas — as malas do casal — aportam no hotel durante a madrugada com a aparência de aves cansadas.

4. Ao acordar de sonhos intranquilos, volto a Kafka, que me espreita da mesa de cabeceira do quarto do hotel: no texto de introdução de “A metamorfose”, o escritor Modesto Carone, também tradutor do livro, cita uma tirada de Roberto Schwarcz sobre a novela perfeita, considerada a obra-prima do tcheco de afiada língua alemã: “É uma história que começa mal e termina pior ainda”.

5. No dia em que partimos de carro pela Highway One em direção a Los Angeles, a terceira mala já retornou à órbita familiar, apesar de inapelavelmente danificada, pois alguém se incumbiu de arrebentar-lhe a trava de segurança. Seu conteúdo, porém, permanece intacto. A quarta mala, entretanto, continua desaparecida em algum ponto do quadrilátero formado, em suas linhas horizontais, por México e Canadá, e pelos oceanos Atlântico e Pacífico nas verticais. As paisagens deslumbrantes da costa californiana são suficientes para afugentar momentaneamente a comparação de nossa família com a família Griswold, de “Férias frustradas”, a comédia de 1983 que mostra a odisseia dos Griswold em busca do Walley Park.

6. O rádio no carro desfila clássicos do rock de todos os tempos. Leões marinhos nos acenam das pedras à beira-mar. Em Big Sur, uma placa no acostamento da estrada nos lembra de que o escritor Henry Miller viveu ali por muitos anos. Esqueço Kafka por algumas horas e me deixo levar pela surf music de Dick Dale. O sol da Califórnia se parece com o sol dos incas.

7. Só em Los Angeles, uma semana após nossa chegada aos Estados Unidos, a quarta mala é devolvida. Estávamos a ponto de começar a preencher o relatório final, aquele que dava a mala como irremediavelmente perdida, quando a última mala adentrou o quarto do hotel com passo claudicante e aspecto de alienígena de Roswell. Comemoramos abraçados, dando pulos. Seria o extravio das malas apenas uma estratégia da companhia aérea para, ao devolvê-las, proporcionar um júbilo não programado aos seus clientes?



8. A viagem, ao contrário de “A metamorfose”, termina com um final feliz no Havaí. Outros membros da família juntam-se a nós num grande luau afetivo. Para alguém que na adolescência descia de skate as ladeiras da Avenida Ruy Barbosa em Assis, interior de São Paulo, fantasiando que dropava uma onda de Pipeline, conhecer as praias míticas do north shore de Oahu tem o sabor de uma revelação. Nas areias de Waimea, como num cinema transcendental de Caetano Veloso, volto a Kafka interrompendo a leitura de vez em quando para observar as manobras agudas dos surfistas poetas: “Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo”, ensina o mestre tcheco. Aloha.

A LIBERDADE É UMA SÓ - Tony Bellotto

Querer reprimir a liberdade de expressão em nome da 
preservação do direito à privacidade é dar um tiro no pé

O bebê de Salomão
A liberdade é uma só e não pode ser retalhada como o bebê de Salomão, aquele que quase foi repartido a golpe de espada entre as duas mulheres que reivindicavam sua maternidade. Estou ao lado dos que se opõem ao artigo do código civil que prevê para biografias a autorização prévia do biografado. A modificação da legislação no sentido de permitir que biografias sejam publicadas sem necessidade de autorizações é inevitável e natural numa democracia que se aperfeiçoa, e a intenção de suprimi-la não causaria celeuma caso o grupo de artistas que forma o movimento Procure Saber não tivesse se manifestado por sua permanência no código civil.

Édipo
A admiração, o respeito e a gratidão que sinto por Roberto, Erasmo, Djavan, Mautner, Chico, Caetano e Gil são incondicionais. Atribuo a eles grande parte da construção da minha visão de mundo, e pesa-me discordar publicamente de suas posições. O que gera discussão é ver aferrados a uma postura conservadora artistas historicamente comprometidos contra a censura e que sempre se pautaram pelas liberdades e ousadias estéticas e comportamentais. O que não justifica sua vilificação por parte da imprensa, tachando-os — de forma desrespeitosa e ressentida — de “censores” intolerantes. Não se pode resumir uma questão relevante a uma simples queda de braço entre celebridades e jornalistas. Não se trata de uma picuinha. Atentemos para não perder o foco do que está em jogo.

Controle absoluto
O ponto central da discussão é a contraposição entre liberdade de expressão e direito à privacidade. Embora reconheça pontos plausíveis na argumentação do Procure Saber, não concordo que para preservar o direito à privacidade seja admissível relativizar ou cercear a liberdade de expressão. Em democracias mais aprimoradas, liberdade de expressão e direito à privacidade caminham juntos, ao passo que, em regimes intolerantes e totalitários, quanto mais se reprime a liberdade de expressão, mais se restringe o direito à privacidade. Querer reprimir a liberdade de expressão em nome da preservação do direito à privacidade é dar um tiro no pé. O controle absoluto da própria história não ocorre numa sociedade livre e democrática. Controle absoluto, só em regimes totalitários, e sempre como primazia do Estado e não dos indivíduos.

Referendo
Em 2005 justifiquei a um amigo meu voto a favor da comercialização de armas de fogo no Brasil: “A liberdade é uma só.” O amigo não se conformava com o fato de um adepto dos princípios da não violência de Gandhi e não afeito a armas de fogo votar a favor de sua comercialização. Segui com minha justificativa: “Quero viver num país livre em que as pessoas tenham liberdade para fazer, dizer e comprar o que bem entenderem.”

É preciso saber viver
Na minha concepção utópica seriam legalizados drogas, aborto e a eutanásia. Voto e serviço militar deixariam de ser obrigatórios. No meu Brasil idealizado, caberia ao Estado, em vez de punir e reprimir, amparar, informar e regular práticas de direito individual e uso e comercialização de substâncias tóxicas dentro das medidas do bom senso e da lei, como já ocorre com tabaco, álcool e algumas formas permitidas de interrupção de gravidez e morte assistida — desligamento de aparelhos em caso de morte cerebral, por exemplo.

Liberdade exige coragem. Numa sociedade livre algum desapego é recomendável, assim como doses cavalares de tolerância.

Fahrenheit 451”
No romance “Fahrenheit 451”, Ray Bradbury nos apresenta um futuro sombrio em que livros e pensamento crítico estão banidos da sociedade, num mundo em que opiniões próprias são consideradas antissociais. Entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, logo depois da chegada de Hitler ao poder, nazistas organizaram em várias cidades alemãs grandes e festivas queimas de livros. Entre os autores “incinerados” estavam Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Freud, Einstein e Marx. O evento é reconhecido como um dos mais cruéis atentados à liberdade de expressão da História. Livros — mesmo os ruins — simbolizam liberdade de pensamento. Reprimir ou condicionar sua publicação soa como uma ameaça a um princípio fundamental da democracia.
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RACISMO AQUI NÃO!

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