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O FOGO QUE NOS TRANSFORMA - Rubem Alves

Como o milho duro, que vira pipoca macia, 
só mudamos para melhor quando passamos pelo fogo: 
as provações da vida.

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens, para que eles venham a ser o que devem ser.
 
O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, mas que, pelo poder do fogo, podemos, repentinamente, voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. O milho de pipoca que não passa pelo fogo, continua a ser milho de pipoca. 
 
Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira.
O fogo é quando a vida nos lança em uma situação que nunca imaginamos.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho,
ficar doente, perder um emprego, ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão -
sofrimentos cujas causas ignoramos.

Há sempre o recurso dos remédios que apagam o fogo. Sem fogo, o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela,
lá dentro, ficando cada vez mais quente, pense que a sua hora chegou: "vou morrer".
De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Mas subitamente, a transformação acontece: pum! - e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Mas existem pessoas PIRUÁS que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.

Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém.

Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás, que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

A SOMBRA - André Albuquerque

Fui acordado naquela madrugada pela música que conhecíamos tão bem, trilha sonora do nosso amor inesquecível, vinda da janela à frente, atravessando a cortina iluminada pela tênue luz amarela, revelando a silhueta esguia a insinuar-se para mim.

Sabia que era você, mesmo depois de trinta anos continuava bela e desejável como sempre. Podia vê-la sentada, apoiando os calcanhares ligeiramente afastados sobre o parapeito daquela janela. Suas mãos deslizavam por entre as coxas dizendo em carícias que eu ainda morava ali. Pude sentir o gosto de seu sexo em minha boca e seus dedos molhados percorreram meus lábios como quisessem escrever, eu te amo. Solidão, amargura e rancores apagaram as luzes, não mais pude vê-la, só o choro ecoava pela janela de seu quarto. Não sei por que te abandonei um dia, privação dos sentidos, medo talvez... A verdade é que se passaram trinta anos assim, num piscar de olhos. 


Curiosamente, meu reflexo no espelho não acompanhou esse período, continuo jovem como sempre, com a mesma irreverência no olhar que a fez apaixonada por mim. No dia seguinte decidi segui-la, acompanhar sua rotina, descobrir você. Há alguns passos atrás observava seu andar contido, que tentava esconder aquela outra mulher que conhecemos tão bem. Poderia até adivinhar a lingerie que usava sob a saia comportada, provavelmente vermelha, mínima, de puta. Às vezes, parecia olhar sobre os ombros como estivesse a minha procura. Ao entrar naquela loja de calçados escondi-me do lado de fora, de maneira que só eu pudesse observá-la. Percebi que ainda gostava dos scarpins salto médio, couro legítimo e levemente afilado nas pontas. Mulher de bom gosto se conhece pelos pés, das unhas até aos sapatos. Foi quando em um descuido proposital no cruzar de pernas você confirmou minhas suspeitas: vermelha, mínima, de puta.


Mais uma vez aquela música me chamava às janelas de seu quarto agora se mostravam completamente abertas. Pude vê-la vestindo um penhoar transparente que revelava a silhueta nua daquela fantástica mulher de cinquenta. Então a cena se repetia calcanhares na janela, pernas displicentemente afastadas me convidando para entrar. 


Seu desejo então veio ao meu encontro e quando percebi não havia mais distâncias entre nós, o que conhecia como meu espaço agora se transformava naquele lugar que antes observava. Da mesma forma, já era difícil distinguir minha própria geografia, vi-me estimulando meu órgão feminino enquanto aquele, que há pouco considerava ser eu, manipulava o membro rijo de desejo à minha frente. Pude sentir o prazer fluindo do meu corpo como o único fragmento daquele amor antigo, o prazer que me trazia de volta a sua vida e depois a arremessava em um vazio profundo, vazio esse que corroia a alma, me fazendo lembrar o quanto fui nocivo, mas que ainda entendia como ninguém seus pensamentos. 


Alguns dias depois te vi de mãos dadas nas ruas, cabelos grisalhos e sapatos bem engraxados compunham a imagem do homem formal ao seu lado. Gestos suaves ao abrir a porta do carro se diferenciavam daquele que a mandava subir na garupa e arrancava para um lugar qualquer. Este homem que te leva para casa não sabe os caminhos de seu corpo... Mesmo assim vou continuar por perto, atenderei ao chamado nostálgico de seu olhar. Sei que irá deixar a porta de sua casa entreaberta, para que eu possa me esconder naquele lugar que reservou carinhosamente para mim. Pude então observar aquele homem a colocar Billie Holiday na vitrola, girar elegantemente a taça de vinho e sorver o bouquet.


Suavemente acariciava sua face e dizia o quanto lhe amava. Porém, seus olhos que conhecia tão bem não me enganaram, trocaria tudo isso por um bom e sonoro tapa na bunda. A meretriz que há trinta anos se esconde sob sua pele surgiu das entranhas. Seu corpo pedia o escracho, a violação extrema, a falta de respeito para com todos os orifícios. Repentinamente materializei-me sobre você e te levei por lugares que só nós conhecíamos. Como no dia em que fizemos amor à frente daquela criança recém-nascida, seus olhinhos nos miravam através do berço de madeira com uma inocência que abençoava toda a libidinagem. Posso ainda ouvir o choro pueril ao misturar-se aos seus gemidos nos embalando a um gozo quase espiritual. Lembrança essa que faz o peso de suas escolhas mais leve e ao mesmo tempo, te deixa a mercê daquele beijo que nunca virá. 


Às vezes penso em te deixar mais uma vez, como se disso eu pudesse ter a certeza. Minha presença impõe uma comparação injusta àqueles que possam te tocar, seres imperfeitos, tão diferentes de mim. Mas sei que há algum tempo vem planejando meu fim, venho percebendo-a diferente, excitante a minha contemplação. Ao mesmo tempo, aquela música nunca mais tocou, tão pouco, conseguia segui-la nas ruas, ao perceber minha presença se esgueirava em outros passos. Não sei exatamente quando começou, o decorrer do tempo vem-se mostrado distante à minha compreensão. De quando em quando você surgia alguns anos mais velha e minha imagem no espelho refletia agora sem brilho. Já nem lembro mais de como eu era, talvez a sombra de um homem que só exista em sua presença, fragmento de um passado de fotos e cartas jogadas no fundo desse baú. 


Foi quando te vi mais uma vez naquela janela, revelando uma mulher no apogeu da maturidade, com todas as rugas que o tempo magistralmente esculpiu. E vestindo aquele mesmo penhoar que a deixava linda e jovem como sempre, me convidou para entrar em sua vida pela última vez. Ao som daquela música que conhecíamos tão bem, pude ver suas mãos a saírem por aquela janela invadindo meu pequeno espaço e carinhosamente me colocarem no colo. As lágrimas então rolaram dos seus olhos sobre minha pele amarelada, desbotando as lembranças daquele primeiro encontro. Por do sol, ondas que batiam em nossos pés descalços, a impressão de nossos corpos pela areia; e em suas mãos a margarida despetalada revelando seu bem querer. E igualmente aquele dia, meu corpo foi caindo de suas mãos em pedaços como pétalas e antes que fosse totalmente desconstruído, pude contemplar pela última vez a lingerie que usava naquela noite em minha homenagem: vermelha, mínima, de puta.

SONETO AZUL - Mário Quintana

 
Quando desperto mansamente agora
é todo um sonho azul minha janela
e nela ficam presos esses olhos
amando-te no céu que faz lá fora.
Tu me sorris em tudo, misteriosa...
e a rua que - tal como outrora - desço,
a velha rua, eu mal a reconheço
em sua graça de menina-moça...
Riso na boca e vento no cabelo,
delas vem vindo em bando...E ao vê-lo
por um acaso olha-me a mais bela.
Sabes eu amo-te a perder de vista...
E bebo então, com uma saudade louca,
teu grande olhar azul nos olhos dela!

O LOBO E O CORDEIRO: VERSÕES - Affonso Romano de Sant'Anna

Dizem que a primeira versão desta fábula é de Demétrios de Phalerum e que Esopo (Grécia), Fedro (Roma), La Fontaine (França) e até Monteiro Lobato (Brasil) apenas a reescreveram. Se abrirmos os jornais essa fábula continua atual. Narro a versão divulgada por La Fontaine e dou minha feroz e mansa contribuição a esse fabulário.

Versão clássica

Dizem que um cordeiro pôs-se a beber num regato de águas limpas. Apareceu por ali um lobo, que parecia estar faminto e, em vez de beber água, foi logo dizendo ao cordeiro:

Como ousas te meter nessa água que é minha? Vou te castigar por isso.

O cordeiro, respeitosamente chamando o outro de vossa majestade, pediu que o lobo não se irritasse, pois, afinal, o lobo é que estava na parte de cima do riacho, o cordeiro, mais abaixo, e não poderia turvar a água.

O lobo ficou ainda mais furioso e alegou que, além do mais, o cordeiro andava falando mal dele há um ano.

Como? disse o cordeiro surpreso, se há um ano eu nem havia nascido.
Ah, então foi seu irmão.
Mas eu não tenho irmão…
Então foi algum dos seus, o pastor, os cães e, de qualquer forma, eu vou me vingar.
E assim dizendo, deu um bote no cordeiro, carregou-o para o fundo da floresta e o devorou.

Segunda versão

Um cordeiro estava bebendo água, porém na parte alta de num riacho, quando, de repente , mais abaixo, apareceu um lobo, que começou também a beber da mesma água.

O lobo virou-se para o cordeiro e disse:

Você está emporcalhando a água que estou bebendo.
Mas eu cheguei aqui primeiro, disse o cordeiro, você é que se meteu aí embaixo.
Vocês cordeiros não aprendem nunca. Já tive que comer seu pai e sua mãe por causa disso, no ano passado.
Por que você não bebe a sua água e me deixa beber a minha em paz?, disse o cordeiro.
É, vocês cordeiros não leem as fábulas antigas, não estudam história.
E assim dizendo, deu um bote, arrastou o cordeiro para o fundo da floresta e o devorou.

Terceira versão

Um lobo chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de cima e começou a beber água, pois estava meio cansado.

Mal começou a beber, notou que outro lobo se aproximava, instalando-se na parte de baixo do riacho, onde começou a beber água.

Iam bebendo, cada um do seu jeito. A água corria, matava-lhes a sede e era abundante.

Mas o lobo que estava abaixo começou a achar que o lobo que estava acima estava sujando sua água.

Incomodado, o lobo olhou o outro:

Você bem que podia ir beber longe daqui, meu velho, porque esse riacho é meu.
Sem essa, “ brother,” vê como fala, porque não sou nenhum cordeiro.

E a conversa foi ficando tensa, cada vez mais agressiva, até que os dois se atacaram e se estraçalharam mortalmente. (ARS)

Quarta versão

Um cordeiro chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de baixo começou a beber água.

Estava ali tranquilo quando, na parte de cima do mesmo riacho, surgiu um outro cordeiro que começou a beber da mesma água.

Não se sabe quem começou a implicar com quem. Ambos se achavam com direito à água. Não teve jeito, atracaram-se e se feriram mortalmente.
E ambos eram cordeiros.

DEVOLVE - Mário Lago


Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi

Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci

Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.

A MULHER QUE PERDEU SEU AMOR - Arthur da Távola


A mulher que perdeu o seu amor é alguém de quem amputaram o ar e ela não morreu. Carrega a marca da amputação no ritmo da respiração e num certo modificar do olho. Fica pesado, mais manso e lento, nega-se a olhar o mundo, a rir, a ver cores. A mulher que perdeu o seu amor é alguém cujo riso virou soluço e a recordação faz-se suspiro.

A mulher que perdeu o seu amor é alguém com óculos de ver eclipse na alma. Fica com olhar de rinoceronte em olho de cambaxirra.
Estranho e lindo esse ar sofrente de que ficam todas as mulheres que perderam seu amor. É marca que as acompanha como ruga ou expressão, pelo resto da vida. Marca irreversível, chaga, cicatriz, verruga espiritual. Podem amar de novo, melhor até. Mas jamais deixará de doer uma pontinha daquele sentimento feito impossível e daquela esperança fermentada.

A mulher que perdeu o seu amor sofre mais do que a que (ainda) não pôde viver o seu amor. Esta vive a dor do que não tem. Aquela, vive a dor de já não ter. Quem não tem e quem ainda não tem sofre menos do que quem já não tem.O terrível é que a perda do amor é o preço inevitável e doloroso do pedágio pago para a estrada do conhecer-se.

A mulher que perdeu seu amor é alguém que melhora depois, pois se descobre, abre a cabeça, os músculos, os poros. Começa a entender a vida, a ficar mais livre, a punir-se menos e a saber que vale algo.

Passado o luto moral, a fase da fossa, a fossa da fase, o fechado pra balanço, o balanço vem. A ferro e fogo, à amargura e desvario, mas vem. E traz uma visão melhor de si mesma e de tudo o que é e representa. Instala-se um saudável egoísmo e muito mais altruísmo, paradoxalmente.

A mulher que perdeu o seu amor é um paralítico que sai pra luta e nela se cura. Se o amor era a deliciosa cegueira, a perda dele ensina a ver no escuro. A ler nos solavancos do ônibus da vida, a aprender a lição das greves interiores, entender que é preciso melhorar mesmo sabendo que nunca mais será igual.

Mistura de vítima e ressureta , a mulher que perdeu seu amor é alguém muito lindo, porque é um ser com a delicadeza de sentir feita carne no açougue existencial, no qual pendura as suas verdades e ofertas: ali aquela angústia; no outro gancho, a lembrança daquela tarde; na vitrine aquele sorriso e a lembrança do momento em que se descobriu amando; no frigorífico aquela delicadeza interior não-entendida ou aquela falta de medo de sofrer; no gancho maior aquela capacidade de se entregar inteira.A mulher que perdeu o seu amor é linda não por sofrer, mas porque sofre por ter sabido ser feliz...

A mulher que perdeu o seu amor é uma mergulhadora preocupada com a beleza e a entrega do salto sem a preocupação de saber se há água embaixo. A capacidade de amar o salto e o vôo fá-la merecedora de ternura e admiração. Enamorada, ela fica pássaro. Abandonada, ela vira gente melhor. Terrível disjuntiva!

Ah, se fosse possível dizer para cada mulher que perdeu o seu amor que mesmo sofrendo assim, valeu a pena! Que a dor vai passar e com cicatrizes ela será melhor e mais bonita amanhã, amará melhor o seu amor, aquém redescobrirá sem hipnose e a quem valorizará ainda mais porque capaz de o sentir e viver sem cobrar, exigir ou sofrer.

Ah, se fosse possível nada lhe dizer e apenas oferecer o ombro para que no ninho dele se sinta protegida e segura, porque a mulher que perdeu seu amor é a criança em busca dos pais, da casa. É a menina fugindo do bicho-papão que existe e assusta, mas que some e se dissolve se há proteção sincera. Por uma estranha disposição do carinho humano, a mulher que perdeu o seu amor é sempre chamada por diminutivo ou pelo apelido carinhosos por quem a consola. Ela fica criança na ante-sala do amadurecer.

A mulher que perdeu o seu amor é , por fim, alguém que descobre seu erro e delírio para crescer no acerto doloroso de se saber incompleta e imperfeita, por isso mais mulher.

Ela era melhor e saiu perdendo. Piorou. Mas ficou pior para sair ganhando, logo, melhorou graças à piora, nessa eterna dialética do ser no sentido da integração. A mulher que perdeu o seu amor é o enigma encarnado.

A mulher que perdeu o seu amor traz, ademais, essa grande lição de vida: é capaz de contemplar o nunca mais, de frente e , ainda e uma vez, dizer-se, sonhando: pode ser.

E sempre pode. Tudo começa outra vez.

Para ficar com a própria verdade talvez seja necessário perder um amor que não corresponda a verdade profunda do ser.

Sugestão da leitora e amiga Laura Rito. Muito obrigado!

O AMOR SE ESCONDE – EdmirSilveira


Te reconheço, 
antes de te conhecer, em meus desejos.

Feita de tudo,
carne, veludo
Alegria nua

 Faz tudo fazer sentido 
O Cheiro, o som da voz, 
o toque na pele, gosto de desejo.

Reconheço pelo olhar, pelos cabelos todos
Reconheço pelo cheiro do couro cabeludo
Reconheço cada parte inteira em cada novo corpo.
Te redescobrindo sempre. Me apaixonando sempre.

De repente some,
Desaparece sem aviso,
Deixando no vazio
 A casca do amor.

Sempre reaparecendo de novo e de novo,
Sempre perfeita, sempre diferente
Outro nome, Outro corpo, outros cabelos, outros olhos
E permaneces só por enquanto
Enquanto sou feliz. Enquanto amo. Enquanto vivo.

Amo todos os seus nomes, seus corpos e suas vozes.

Mas,
Estou cansado de te perder.

TEMPO, TEMPO, TEMPO... - Fernanda Torres

Duas horas e quarenta minutos. No relógio. Foi quanto eu levei para completar a terceira sessão de depilação definitiva.

O dia não havia começado promissor.

Às 9 da matina daquela sexta-feira, eu já me encontrava sentada na cadeira da dentista. Acreditei que na segunda consulta concluiria a contenção da arcada inferior, algo que eu estava adiando havia mais de ano com a ajuda de um aparelho de dentes que eu esqueci no avião. Reagi com espanto à notícia de que o fio pré-moldado não se encaixava corretamente. Tentei negociar uma forma de me livrar de uma terceira visita ao 7º andar da Siqueira Campos, mas foi em vão.

Meu destempero deixou as duas doutoras discretamente boquiabertas. Como explicar que não sobra tempo? Que, fora o trabalho e a família, a idade aumenta a necessidade de rotinas de saúde e beleza, o que congestiona ainda mais a vida curta?

A dermatologista, eficientíssima, que se esmerou por duas horas e quarenta no comando do incinerador de pelos a laser, contou que, certa vez, receitou uma lista de cuidados para um senhor que sofria de uma coceira causada por ressecamento cutâneo. Ao ler o tratado, o paciente deu uma pausa e respondeu com mesura que, para executar o protocolo a contento, teria de acordar às 4 da matina, todos os dias, antes de ir trabalhar. “E isso é uma coisa que, vamos combinar, não vai acontecer.”

Quanto mais vivido o cidadão, mais revisões ele deve fazer. É difícil dar conta. Quando eu era jovem, tinha medo de ir mal na prova da escola. A maturidade me trouxe um receio ainda pior, o de ser reprovada no exame de sangue.

Embora frívolos, os cuidados cosméticos não ficam a dever em termos de obrigatoriedade.

É possível ser hippie até os 30 anos, depois complica. Se você é mulher, complica muito. Os cabelos brancos são um divisor de águas, o momento decisivo de se tornar, ou não, uma mulher bem tratada. Para sê-lo, saiba que uma boa parte da sua passagem na Terra será gasta com cutículas e raízes aparentes.

Sempre fugi de salão de beleza. Fico exasperada com o tempo gasto em cortar, pintar, fazer unha, escova… Talvez por executar esse ritual constantemente na minha profissão eu tenha desenvolvido essa aversão quando estou à paisana, mas desconfio que não aguentaria mesmo se fosse veterinária ou cozinheira.

Fora o tédio, a aplicação da tintura provoca queda na autoestima. É um terrível efeito colateral. Nenhuma mulher deveria ser vista com o cabelo empastelado de amônia, perfume e pigmento, é feiíssimo. Para dar resultado, fica-se uma boa hora diante do espelho nesse estado monstruoso e exalando um cheiro meio bom, meio ruim. É um exercício de desapego digno de um monge budista. Igualmente humilhantes são as sessões depilatórias.

No fim da interminável recauchutagem, a sensação de égua tratada realmente não tem preço, mas o custo em segundos é incalculável.

Quando optei por não me deixar largar, criei a ilusão de que conseguiria ocupar as tardes nos salões de maneira produtiva. Carreguei computador e livros e me instalei na bancada. Pra quê?

Não conheço cristão que resista à tara por revistas de moda e fofoca no cabeleireiro. É a literatura ideal, não tem outra. Curiosamente, em ambientes menos fúteis, como as antessalas dos especialistas em medicina, também impera esse tipo de publicação. É corpo são e mente em compasso de espera.

Talvez por ter me exasperado mais do que queria na dentista, enfrentei sem muxoxo as duas horas e quarenta de gelo, ar refrigerado e agulhadas lancinantes poros adentro. A promessa de me livrar da intimidade excessiva com moças que eu mal conheço, munidas de cera quente, me segurou na maca.

Sigo resignada. Não tem jeito. É daí para pior. Otimizar é a palavra de ordem.

Juntei o check-up do ginecologista com o do clínico geral. É tanto teste que eu nem sei quanto tempo vão demorar para me virar do avesso. Faço uma escova razoável em mim mesma e já não queimo o pescoço quando piloto o baby liss.

Eu me esmero na tentativa de executar breves paradas no boxe, seguidas de uma longa corrida.

SER ARTE - Edmir Silveira

 
livres, Notas soltas
Sentido, beleza, 
forma, conteúdo


Músicas, perfumes, areias movediças,
Rimas, cantos, ilusões
Feitiços, agonias, respiração

Poesia, verdade, 
Momento, eternidade
Voos, balés, revoluções

Paixão faminta, transformação
Soma, artes e labirintos,
Nem pergunta, nem resposta

A Vida, a alma e a imensidão.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...