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SOMOS UM POVO FÚTIL? - Heloísa Seixas

Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes.

“No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua.”

Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de carnaval. 

“É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa.”

Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos black blocks, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.

Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. 

Sempre fui contra isso. Mas, desta vez — depois de visitar 11 museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros —, alguma coisa aconteceu comigo.

Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. 

Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o Facebook — sem escalas.

Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória — e a História — de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. 

Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.

Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos — refiro-me à nossa classe média —, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. 

E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. 


Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação — em todos os sentidos.

Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.

MARTHA MEDEIROS -- A IMPONTUALIDADE DO AMOR



Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.

A BONDADE, A INTERNET E O FUTURO QUE DESEJAMOS CONSTRUIR - Edmir Silveira

Para mim, existe um sentimento que sintetiza 
a verdadeira evolução humana: a bondade.

Em qualquer de suas formas, sempre me emociona profundamente quando me deparo com ela. E são muitas suas formas. A bondade não escolhe ocasião, não precisa. Pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Para os cientistas a cooperação foi a maior responsável pela evolução humana. E ser gregário, seria uma característica muito mais necessária do que opcional. Com certeza, por milhares de anos o foi. Mas, há poucos séculos, pelo menos, não é mais.

Hoje, ao contrário, ser gregário é que é difícil já que a solidão é, sem sombra de dúvida, o maior fantasma do ser humano.

A necessidade do sucesso profissional e econômico impõe a todos um egoísmo exacerbado que passou a ser visto como normal e até admirado. Se olharmos em volta, ninguém mais tem vergonha de admitir que não pensa em mais em ninguém a não ser em si mesmo. Perdemos a vergonha. Qualquer um já ouviu, um sem número de vezes, a frase quase imoral:
 - Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu...e se tiver um quarto...

O conceito vigente é esse, até agora. Estamos andando sobre o fino fio que separa o egoísmo da indiferença cruel com que se olha o outro. Desumanizados. E o pior é que passeia impune pelo ambiente profissional,  “amizades”, relacionamentos amorosos e até nas famílias. Ser egoísta virou normal.

O antídoto para o egoísmo, que é o maior inimigo da felicidade, é essa bela característica humana: a bondade.

A bondade é mágica. Ao mesmo tempo em que é gerada por um ato de amor de quem dá gera amor em quem recebe e volta para quem acabou de dar. A bondade é o amor que se multiplica. Como nossas células. Uma bondade gera duas que gera quatro...

E, existe um lugar, virtual, onde isso já pode ser visto e vivenciado e que é, desde a invenção da roda, a maior revolução da história da humanidade: a internet. 

Um veículo de comunicação sem limites e capaz unir toda a humanidade de uma maneira jamais imaginada. E o que acontece através das mídias sociais é ainda mais maravilhoso e promissor. 

Temos visto muitas coisas que jamais veríamos se não fosse essa ferramenta fantástica.  Reencontros entre amigos de infância que jamais se reencontrariam de outra forma, pais reencontrando filhos e filhos reencontrando pais.


E como é emocionante poder rever uma paixão de infância! Por alguns instantes, revivemos cada sentimento esquecido. É como passar a vida a limpo. É como viajar numa máquina do tempo. 

É como se cada um de nós pudesse ver aquela parte final do filme que conta a história da nossa própria vida e que, quando estão passando os créditos, entram cenas adicionais e um narrador conta como cada personagem da nossa história está hoje: 
- Fulano se tornou um músico de grande sucesso, Sicrano é um médico no interior do país, Beltrana casou e mudou e nunca mais foi vista, até ontem, quando todos se reencontraram na mídia social da moda...

Porque, mais do que nunca, quem procura, acha. Porque no mundo virtual podemos viajar para onde quisermos em nossas memórias.


É emocionante reencontrar pessoas que fizeram parte de nossas histórias e que jamais reencontraríamos se não fosse a internet. E através desses reencontros, reencontramos, também, a nós mesmos.


Hoje, em vez de imaginar como seria reencontrar aquela pessoa a quem você gostaria muito de revelar uma coisa que não falou quando tinha 14 anos, você pode procurá-la no mundo virtual, reencontrá-la no mundo real e passar a limpo qualquer coisa mal resovida. Ou tão bem resolvida que dá vontade de reencontrar de novo. Ou seja, o passado, hoje, pode ser revisitado através das pessoas que fizeram parte dele.


Mas, a revolução vai além dos círculos pessoais, denunciando a possibilidade de estarmos no limiar de um grande salto na evolução humana.


Temos visto pessoas se mobilizando por pessoas que jamais conheceram ou conhecerão pessoalmente. Temos visto animais sendo resgatados e protegidos como jamais o foram. Temos visto pessoas que jamais se viram, se ajudando. Sendo encontradas e se encontrando. Se confortando. Compartilhando música, poesia, sexo, filosofia e tudo mais que a criatividade humana puder imaginar.


E, também, compartilhando gentilezas e bons sentimentos. Pessoas compartilhando suas humanidades. Mobilizando-se por causas nobres, valorizando a vida e a dignidade de todos os seres e do próprio planeta.
Se são os primeiros sinais de que o mundo e o ser humano melhor que desejamos ser já começou a se manifestar ou se é apenas mais uma utopia, só o tempo dirá.

Mas, se a bondade continuar a contagiar a humanidade como está parecendo e continuar a se alastrar, através da internet e de suas inimagináveis evoluções e desdobramentos, o futuro da humanidade será lindo.

Podemos estar presenciando um momento crucial na evolução humana. E fazer o bem e se preocupar com o outro é o principal sinal.


Se nada interromper essa tendência, no futuro, cada ser humano se tornará o guardião que cuidará e protegerá todos os outros seres. Semelhantes ou não.

VOCÊ NÃO ME CURTIU! - Cláudia Penteado

As redes sociais criaram tantas 
questões que, de certa forma, 
complicaram nossa vida. 
Curtir ou não curtir, eis mais uma questão

Em um texto recentemente publicado neste espaço, o jornalista Marcelo Zorzanelli queixava-se da aparente indecisão da mulher amada, que por vezes lhe dava sinais de total desprezo, para em seguida reacender suas esperanças ao sinalizar algum afeto através de comentários num post ou um “curti” no Instagram.  Penalizada com sua história, não pude deixar de refletir a respeito dessa nova moeda de troca de afetos entre as pessoas que circula exclusivamente no mundo virtual, “lugar” onde muita gente passa boa parte do tempo nos tempos atuais. Só quem frequenta – com afinco – as redes sociais é capaz de entender. “Curtir um post” no Facebook tornou-se prova de atenção – aquela que as pessoas muitas vezes não obtém no mundo concreto, nessa era de tamanho distanciamento e desconexão física.

A tecla Curtir ganhou status  e pode funcionar – para o bem e para o mal – como um link  entre o virtual e o concreto. Pode gerar brigas conjugais, despertar paixões, aprofundar amizades, gerar inimizades.

Uma amiga provocou uma crise no casamento porque passou a analisar as mulheres que curtiam os posts do marido. E pior: os posts que o cônjuge curtia. Todas as ações do marido no Facebook passaram a ter um significado oculto. Quem é aquela loura que compartilhou seu post hoje? – perguntava ela durante o jantar, entre uma garfada e outra. Por que você curtiu aquela foto sem graça daquela sua estagiária? – indagava durante o café da manhã, provocando um mal-estar que se estendia durante vários dias. Um belo dia ele tomou a decisão de abandonar não a minha amiga, mas o Facebook – para manter saudável o casamento.

Uma amiga terapeuta me conta de uma cliente obcecada pela tecla curtir: tornou-se uma espécie de balizador para todas as suas relações pessoais. Os amigos próximos que não curtem um determinado post seu passam semanas “na geladeira”. Só sai quem curtir algo seu novamente. Caso contrário, ela mal consegue lhes dirigir a palavra ao vivo, especialmente no escritório. Faz insinuações irônicas para testar se os amigos viram seus posts – tudo para provar para si mesma que os tratantes deliberadamente tomaram a decisão de não curtir suas intervenções virtuais. Só abandona o olhar torto mediante alguma nova curtida.  Se a grande amiga não curtiu seu último post, inicia-se uma cadeia de pequenas vinganças online: nada de curtir algo que ela postar. Pronto. Compartilhar, então, nem pensar! Que vingança poderia ser pior?

O compartilhamento, aliás, é um assunto ainda mais delicado no mundo das redes sociais. Que prova de admiração maior pode haver no Facebook do que compartilhar um post? Outra cliente adolescente da minha amiga terapeuta passou a travar uma espécie de batalha velada com o namorado. Ai dele se não compartilhar seus melhores posts. Sofrerá retaliações seríssimas e crises de mal humor intermináveis.

Outra cliente interessou-se por um rapaz que compartilhou e curtiu, incansavelmente, todos os seus posts, diariamente, durante um mês inteiro. Ficou comovida com tanta atenção. Passou a curtir e compartilhar seus posts também, em retribuição, já que suas fotos e comentários sobre alimentação orgânica e retiros de ioga até que eram bacanas. As curtidas e os compartilhamentos mútuos intensificaram cada vez mais a relação, até o dia em que decidiram encontrar-se pessoalmente.  A coisa não fluiu. Decidiram manter a relação no plano virtual. E ela tornou-se vegetariana – mas apenas no Facebook.

Hoje, a tecla curtir não passa mais despercebida. É moeda valiosa entre pessoas e também para empresas e marcas no Facebook, nos blogs, no Instagram, no Pinterest. Não surpreende que o Facebook não tenha lançado, até hoje, a falada tecla “Não Curti”. Esta certamente geraria ainda mais conflitos, inimizades, retaliações – e manipulações por parte de pessoas ou empresas interessadas em prejudicar desafetos ou concorrentes, algo tão comum no mundo concreto. Porque no fundo, o que vivemos no ambiente virtual é apenas um simulacro do mundo físico. Com um agravante: não é preciso mostrar a cara.

MARTHA MEDEIROS - O medo de errar

A gente é a soma das nossas decisões

É uma frase da qual sempre gostei, mas lembrei dela outro dia num local inusitado: dentro do súper. Comprar maionese, band-aid e iogurte, por exemplo, hoje requer expertise. Tem maionese tradicional, light, premium, com leite, com ômega 3, com limão, com ovos “free range”. Band-aid, há de todos os formatos e tamanhos, nas versões transparente, extratransparente, colorido, temático, flexível.

Absorvente com aba e sem aba, com perfume e sem perfume, cobertura seca ou suave. Creme dental contra o amarelamento, contra o tártaro, contra o mau hálito, contra a cárie, contra as bactérias. É o melhor dos mundos: aumentou a diversificação. E com ela, o medo de errar.

Assim como antes era mais fácil fazer compras, também era mais fácil viver. Para ser feliz, bastava estudar (magistério para as moças), fazer uma faculdade (Medicina, Engenharia ou Direito para os rapazes), casar (com o sexo oposto), ter filhos (no mínimo dois) e manter a família estruturada até o fim do dias. Era a maionese tradicional.

Hoje, existem várias “marcas” de felicidade. Casar, não casar, juntar, ficar, separar. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher. Ter filhos biológicos, adotar, inseminação artificial, barriga de aluguel – ou simplesmente não tê-los.

Fazer intercâmbio, abrir o próprio negócio, tentar um concurso público, entrar para a faculdade. Mas estudar o quê? Só de cursos técnicos, profissionalizantes e universitários, há centenas. Computação Gráfica ou Informática Biomédica? Editoração ou Ciências Moleculares? Moda, Geofísica ou Engenharia de Petróleo?

A vida padronizada podia ser menos estimulante, mas oferecia mais segurança, era fácil “acertar” e se sentir um adulto. Já a expansão de ofertas tornou tudo mais empolgante, só que incentivou a infantilização: sem saber ao certo o que é melhor para si, surgiu o medo de crescer.

Todos parecem ter 10 anos menos. Quem tem 17, age como se tivesse 7. Quem tem 28, parece ter 18. Quem tem 39, vive como se fossem 29. Quem tem 40, 50, 60, mesma coisa. Por um lado, é ótimo ter um espírito jovial e a aparência idem, mas até quando se pode adiar a maturidade?

Só nos tornamos verdadeiramente adultos quando perdemos o medo de errar. Não somos apenas a soma das nossas escolhas, mas também das nossas renúncias. Crescer é tomar decisões e, depois, conviver pacificamente com a dúvida. Adolescentes prorrogam suas escolhas porque querem ter certeza absoluta – errar lhes parece a morte.

Adultos sabem que nunca terão certeza absoluta de nada, e sabem também que só a morte física é definitiva. Já “morreram” diante de fracassos e frustrações, e voltaram pra vida. Ao entender que é normal morrer várias vezes numa única existência, perdemos o medo – e finalmente crescemos.

FERNANDA TORRES – Macumba

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.

MARTHA MEDEIROS - Amor ou Amizade? Os dois.


No finalzinho da entrevista que Pedro Bial deu à Marília Gabriela, quando foi questionado sobre relacionamentos, ele deu uma lição que serve para todo mundo: trate seu amor como você trata seu melhor amigo. Sei que isso parece falta de romantismo, mas é o conselho mais certeiro.

Não era você que estava a fim de uma relação serena e plenamente satisfatória? Taí o caminho. Vamos tentar elucidar como isso se dá na prática. Comecemos pelo exemplo que o próprio Bial deu: você foi convidado para o casamento de uma prima distante que mora onde Judas perdeu as botas, você tem que ir porque ela chamou você pra padrinho. Como é que os casais costumam combinar isso?
"Não tem como escapar, você vai comigo e pronto". Ou seja, um põe o outro no programa de índio e nem quer saber de conversa. É assim que você convidaria seu melhor amigo? Não. Você diria: "Putz, tenho uma roubada pela frente que você não imagina. Me dá uma força, vem comigo, ao menos a gente dá umas risadas...".
Ficou bem mais simpático, não ficou? Como esta, tem milhões de situações chatas que você pode aliviar, apenas moderando o tom das palavras.

Pro seu marido: "Você nunca repara em mim, não deu pra notar que cortei o cabelo? Será que sou invisível?" Mas pra sua melhor amiga: "Ai, pelo visto meu cabelo ficou medonho e você está me poupando, né? Pode dizer a verdade, eu agüento".

Pra sua mulher: "Você já se deu conta da podridão que está este sofá? Não dá pra ver que está na hora de trocar o tecido?" Mas pra sua melhor amiga: "Deixa a pizza por minha conta, eu pago, assim você economiza pra lavar o sofá. A não ser que este seja um novo estilo de decoração..."

Risos + risos+ risos.

Manere. Trate seu amor como todas as pessoas que você adora e que não são seus parentes. Trate com o mesmo humor que você trata seu melhor amigo, sua melhor amiga. Até porque, caso você não tenha percebido, é exatamente isso que eles são.

"Grandes Realizações são possíveis quando se dá importância aos pequenos detalhes"

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...