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DESCUBRA AS MENTIRAS QUE O SEU CÉREBRO CONTA PARA VOCÊ

Você não toma as próprias decisões - e boa parte do que vê não é real. É apenas uma ilusão criada pelo seu cérebro, que passa pelo menos 4 horas por dia enganando você. Conheça os truques que ele aplica - e saiba o que realmente acontece dentro da mente.

Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta semana...CONTINUAR LENDO.

VOCÊ CONSEGUE VIVER SEM DROGAS LEGAIS? - Eliane Brum

Como Pedro descobriu que tinha se tornado uma
“máquina humana” – ou um “bombado psíquico”. 
E como sua história fala do nosso tempo e de muitos de nós.

Pedro – o nome é fictício porque ele não quer ser identificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e é reconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quem tem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumas economias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos de um ano. 

Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos do primeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos, a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que é mais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bons amigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quem sabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentido porque ele criou um sentido para ela.


Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matérias sobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algo que pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (um antidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (um hipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacos andam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão. E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer alguma coisa sobre o nosso tempo.

Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo, anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou. Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferência sem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queria conversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentia um medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente de carro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. 

Ele mesmo pediu indicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentia que estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo que receita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é do humano é uma mera disfunção química do cérebro.


O psiquiatra era sério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivo ou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto. Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitou um antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o paciente repetia que precisava trabalhar. 

A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias, segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefe compreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duas semanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Com a ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir com a mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele já voltara a ser o profissional brilhante.


Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamento rigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo do psiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatra concordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo. Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.

Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo. Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentia muito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por ele não pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estava maravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado. 

Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça. Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer as coisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedro passaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele.


E, toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido por alguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.


Algumas semanas depois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar – e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultório psiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempre tinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou a achar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Que mal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela o questionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilar de tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar no sofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia o Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro e dizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Não tem problema nenhum”.

Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estava muito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumas pílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzido tanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário sem precisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendia pensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. 

Pedro não tinha mais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário na sua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulher alguma. “Efeito colateral do antidepressivo”, conformou-se.


Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema, os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava no mesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com a família, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. 

Pedro constatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na sua vida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado uma coleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro, Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguia ignorar.


Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida que não podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa parte das pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu só consigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou um bombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempo para elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto. É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. 

Às vezes tenho experiências maravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembro delas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmo porque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmo porque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então eu ficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano para que ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia que podia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastaria aumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos. 


Aos poucos, porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algo errado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você toma três comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, eu esteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E, com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, pelo prolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. 


Eu sei que muita gente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas. Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E os médicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios para ajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo. De repente, percebi que eu era uma máquina humana. 


E que eu estava usando remédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o mais maluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimo comigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas como depressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para ter coragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo de morrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergar que estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso é normal.”


Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. “Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. 

Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. 


Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. 


Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. 


É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo.


Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.”


Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções de Ano-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícil que já enfrentou. 

“Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos e vou parar até março. 

Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons para conseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e uma rotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que seja possível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempo para sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dos pequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. 
Sei que vai ter um custo, sei que vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vai valer a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bem sucedida. Quero só uma vida humana.”

Torço por Pedro, torço por nós.

COMO VENCER OS FANTASMAS DO FINAL DO ANO - Christian Ingo Lenz Dunker

A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos

Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear.

Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.

Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.

Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.

DISCURSOS VAZIOS

Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca. Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação. Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediato e preferencial de tal prática.

O segundo tipo de discurso que mimetiza a experiência, na loucura de final de ano, é usado pelos “experts”. Aqui o falso coletivo é composto pela exclusão daqueles que “não sabem como é bom”. A conversa é feita para deixar claro que quem dela participa tem gosto ou saber diferenciado, inacessível aos mortais, e possui vivências mais preciosas que o tornam alguém especial. Surgem as “elevadas” considerações sobre a qualidade do vinho servido, a respeito dos charutos fumados, dos últimos eventos culturais freqüentados, conversas sobre os bens adquiridos e a superioridade do sistema aeroportuário de outros países ou ainda sobre as inenarráveis qualidades daquele prato degustado no sofisticado restaurante da moda. Os comentários giram em torno das curiosas discussões sobre a qualidade insubstituível do bacalhau de antigamente ou se detêm nas queixas a respeito da imperícia culinária do anfitrião. A tirania do gosto, envolta num discurso universitário que pode ser tediosamente descritivo, assume a perspectiva professoral de autoridade constituída. Resta, nesses casos, só a aparência de que se compartilha algo.

O terceiro tipo de discurso, com marcado caráter pseudo-experiencial, diz respeito à retórica do planejamento. Neste caso incluímos aqueles para os quais o final do ano não é a suspensão da guerra, mas o seu clímax: a grande batalha. Os ritos se impõem a seus praticantes, parecendo adquirir vida própria – com cartões escritos em grande escala, felicitações por atacado, presentes distribuídos como se atendessem à demanda de uma linha de montagem, práticas filantrópicas executadas milimetricamente, segundo as últimas técnicas de gerenciamento de tempo e de recursos humanos. O objetivo é chegar vivo até o início do próximo ano – mas sem viver a experiência, apenas reduzindo-a a um conjunto de tarefas. Para essas pessoas, aqueles percebidos como fora do circuito estão literalmente atrapalhando. Se a ocupação comandava a vida até aqui, surge um redobramento: a sobreocupação. Preocupados em manter osistema funcionando, esses “mestres de fim de ano” estão permanentemente irritados e atrasados. Sua posição sacrificial os autoriza a se irritar profundamente com os incautos, seu olhar é temido pela culpa que pode provocar. A conversa é reduzida à localização incógnita daquela lata de ervilhas ou à fiscalização do cumprimento de ordens. A prática é, no fundo, uma técnica de esquecimento, espécie de “fuga para frente”. Repetir em vez de lembrar: desta maneira os afetos podem ser retidos e substituídos por ações.

A fofoca, o superentendimento e a sobreocupação são maneiras de nos desviarmos, são estratégias para não recordar, seja porque nos dedicamos a lembrar criticamente dos outros, porque transformamos a lembrança em descrição de acontecimentos passados ou porque substituímos o lembrar pelo fazer. O fato é que esses três discursos -– da histérica (fofoca), do universitário (experts) e do mestre (sobreocupação) – são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir da satisfação esperada no final do ano.

LEMBRAR PARA ESQUECER

O prazer do “retorno para casa” não é um efeito automático e sim fruto de um tipo específico de trabalho psíquico a que a reconstrução da experiência nos convida; trabalho que Freud chamava de elaboração (Ducharbeiten, literalmente “trabalho através de”), ou seja, uma forma muito específica de lembrar que traz consigo o afeto e a integração do que é lembrado no presente, bem como a projeção de um futuro. Lembrar para poder esquecer.

Vejamos então como situações similares podem ser bons provocativos para uma verdadeira experiência. Nesse caso podemos incluir, por exemplo, a épica do lombo seco, o complexo dramático dos bolinhos de bacalhau ou ainda a lírica – ou cômica – entrega dos presentes. Note-se como, nesse caso, aquela travessa fora de moda com cara de Papai Noel é um detalhe imprescindível: sem ela o Natal não seria Natal. O juízo especialista do gosto autorizado é suspenso em prol do valor simbólico rememorativo de um elemento arbitrário.

Fora daquela comunidade, a travessa de plástico seria apenas mais um caso de mau gosto e não um evocador de histórias. Ao contrário da retórica descritiva da exclusão, a épica da experiência é inclusiva. Aquela tia falecida reaparece como modelo a ser seguido, o fracasso retumbante dos fios de ovos daquele ano volta à memória, a face forçada de satisfação daquele namorado em primeira visita natalina é rememorada com graça. Ou seja, torna-se mais importante a história lembrada, o fato de que estávamos juntos, do que o que foi consumido ou quem pagou a conta. A experiência traz outra dimensão do tempo vivido.

Os idosos se tornam mais sábios, as crianças se tornam mais crianças, os adultos interrogam sua própria maturidade. Isso ocorre porque além da própria posição cada qual se reconhece nas demais, avaliando em si mesmo o que poderia ter sido ou o que poderá vir a ser. Como mensagens deixadas em uma garrafa, recolhidas 20 ou 30 anos depois, essas histórias nos devolvem a nossa própria mensagem, agora de forma invertida pelo processo da experiência. Sabe-se que o tempo passa mais devagar para a criança, e teoricamente isso tem relação com o fato de que suas conexões sinápticas estão em formação ou sua capacidade de aprender com a experiência é maior. A experiência lentifica o tempo; a vivência o comprime – é por isso que em uma viagem o caminho de ida parece ser mais longo que o caminho da volta.

A primeira regra de um possível “manual de sobrevivência psíquica de fim de ano”, portanto, deveria contribuir para tornar crítica a consciência de nossa própria loucura − uma experiência trágica ou cômica, não importa, desde que seja digna de ser narrada.  A primeira orientação, portanto, é: passar da vivência à experiência.

Mas por que seria o nosso passado imediato, representado pelo ano que passou, algo a ser tão fortemente evitado? Qual a natureza de sua força traumática? O primeiro erro consiste em subestimar o “adversário”, achar que esse é um período do ano como qualquer outro e como tal deve ser vivido. A insanidade do final de ano se infiltra insidiosamente por meio dos detalhes: pequenos adiamentos, evitações, ansiedade flutuante ou inúmeras atuações desordenadas. É a ação da amnésia, esperada em qualquer evento traumático repetitivo.  Depois vem o súbito encontro com a coisa traumática, o que Freud chamava de Schreck (terror-pânico) e Lacan de “encontro com o Real”. Muitos são seus desencadeantes: o presente misteriosamente “esquecido”; a notícia abrupta de que aquela tia virá mesmo... e com os sobrinhos; a notícia, retinta de alívio e inveja, de que aquele cunhado de fato não virá pois se evadiu para o abrigo antiaéreo da colônia de férias. Sem falar na pergunta decisiva: quem fará o peru desta vez?  Fato é que o fim de ano nos coloca em estado de alta reatividade e atenção prevenida. Comentários banais se transformam em ofensas insuportáveis; como os soldados que voltam do front, somos tomados por uma espécie de “neurose de guerra transitória”.

Subitamente começamos a agir como se fôssemos vítimas de nosso próprio destino. Não importa se o mártir se oferece ou é convocado, o pânico lhe parece uma nuvem flutuante prestes a explodir. O pânico foi um sentimento bastante estudado pelos teóricos da guerra, principalmente pelo fato de que é um sentimento coletivo e contagioso, instabiliza a ordem e sugere que não há mais ninguém no comando. A ruptura entre a linha de frente e os generais interrompe a cadeia simbólica necessária para a guerra e torna difuso quem é e onde está o inimigo – o adversário confunde-se agora com qualquer um. Daí a solução do pânico em medo. Diferentemente do que acontece em situações de pânico, na de medo temos um objeto, sabemos o que temer. Nesse caso está em questão o medo do futuro. Esse é o terceiro momento da loucura de final de ano: irritabilidade difusa, explosões despro---porcionais de raiva, dramáticas efusões afetivas além de decisões intempestivas.

Essa desorientação de referências pode surgir sob a forma do afeto inverso ao pânico, ou seja, o tédio. Apesar de aparentemente opostos, pânico e tédio têm a mesma gramática, em ambos há uma suspensão da orientação simbólica do sujeito. Há ainda no tédio uma espécie de fuga para fora da cena, de descolamento do sujeito em relação a sua própria experiência, como se a pessoa se sentisse estranha, sem lugar diante de tanta “felicidade” no ar. Para o entediado tudo parece artificial, repetitivo e sem graça, pois apesar de ele estar ali, não se sente naquele lugar.Ele está ou gostaria de estar em outro local.

Assim como o pânico evolui para o medo, o tédio evolui para a melancolia. De fato, a loucura de final de ano admite a figura do melancólico, que se sente excluído e se recrimina por isso. Como dizia o poeta Nerval, o melancólico é antes de tudo um realista, acha que percebe as coisas como realmente são. Vê na troca amorosa de presentes apenas mais uma manobra da lógica do capital; nos amigos que o procuram, apenas uma operação de networking; nas iniciativas solidárias, apenas o alívio para a culpa dos mais favorecidos. A crua verdade, certamente. Mas não toda ela.

No fim do ano estabelece-se, portanto, esta tríade composta pela ansiedade da expectativa, pelo terror maníaco ou traumático e pela ressaca moral carregada de decepção e tédio melancólico. Se quisermos contribuir para a sobrevivência subjetiva nesse tempo de fraternidade compulsória, devemos examinar mais de perto as tarefas psíquicas que o momento apresenta.

CONTABILIDADE DE SONHOS

Comecemos pelo fato de que o final de ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso. Sentimo-nos improdutivos. De repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta. Todavia, saber que isso acontece é diferente de realizar essa informação.  Se o tempo passou num instante e se compreendemos que esse tempo se foi, é então o momento de concluir. A maneira mais simples – e mais pobre – de fazer isso é planejar. Formal ou informalmente colocamos o ano transcorrido em certos crivos: metas, realizações, fracassos, decepções, empates, honrosos ou não.

Esta espécie de ajuste de contas com o passado geralmente nos convida a um exercício de objetivação da experiência. Fatos, datas e resultados surgem como métricas espontâneas que nos permitem, de forma simples e rápida, saber se estamos em débito ou crédito com nossos sonhos. Atenção, aqui vem o engano. A contabilidade reduz processos a produtos. Como simples vivência, aquela longa batalha com a trigonometria transforma-se apenas em um “passei de ano” e cumpri minha obrigação. A densa experiência representada pelo término de um namoro torna-se apenas mais um fracasso na lista de tantos outros. Cria circularidades: “A vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada... afinal eu mereço”. Ou “Consegui aquilo que queria este ano? Também vou comer a tal porção extra de rabanada, afinal... eu mereço”. Ou seja, independentemente do resultado, fracasso ou sucesso, a prática da contabilidade empobrece nossa experiência, sentimo-nos vazios depois de fazê-la, com ou sem rabanadas adicionais. Ela só nos diz se estamos no positivo ou no negativo, escondendo, por efeito de método, se foi um fracasso interessante ou um sucesso sem graça.

A segunda regra é, portanto, desconfiar dos poderes da contabilidade e evitar o cálculo neurótico do gozo.

 O “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por outra circunstância: o encontro com parentes e amigos – ou o não encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de confraternização e reencontro, o período tem potencial altamente explosivo, especialmente se acrescido de contabilidade negativa. Neste caso, ao refazer a memória e a história coletiva, em vez de reafirmação e comemoração de um destino comum, a tendência será encontrar um culpado altamente disponível: o outro.

Quer porque nosso balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias, quer porque elas sejam atribuídas diretamente às vicissitudes de nossos próprios laços familiares, a insatisfação flutuante encontra terreno fértil para se transformar em culpa. A culpa é sempre uma decorrência do fato de que não estamos à altura de nossos desejos, ou seja, que na verdade não nos empenhamos como deveríamos ou gostaríamos para torná-los realizáveis. Além disso, é sempre um subterfúgio preferível à angústia. Assim, este sentimento de traição encontra logo um depositário. Em vez de refletir sobre a pergunta capital: “Será que, neste ano, realmente agi em conformidade com meu desejo?”, substituimos a reflexão pela resposta rápida: “É claro que não, afinal o outro não me deixou”. E não importa quem seja o outro: o marido ou a mulher, os filhos, o chefe, a empresa ou a situação econômica e política do país.

O fragmento de satisfação da qual me sinto frustrado é imediatamente imputado a esse outro, segundo as próprias fantasias fundamentais. Foi ele quem raptou aquele pedacinho que faltou para a realização de meu próprio desejo. Ao mesmo tempo é o outro que nos lembra que estamos em falta, a começar pelo fato de que não o encontramos há tempos – aliás, esqueci dos amigos? Isso dá margem tanto a comparações depressivas quanto à pirotecnia exibicionista nos conhecidos excessos de fim de ano.

Quando adaptamos nossos desejos a uma imagem e transformamos qualquer objetivo e bobagens em metas, a fantasia que se articula neles sofre uma curiosa mutação. Passa de sua função regulatória, como horizonte semi-indeterminado de aspirações, para a condição de obrigação compulsória. Se escolhemos querer, estamos então obrigados a continuar querendo. É assim que nos tornamos prisioneiros e escravos de nossos próprios desejos, de tal forma que rapidamente eles se tornam um fardo.

Logo, terceira regra, não convém fazer desejos caberem em metas.

APLAUSOS E CASA EM ORDEM

Não há loucura de final de ano sem os banquetes. Lautos e exagerados, eles são pretexto tanto para o encontro comemorativo como para o remorso com relação àqueles que estão excluídos. Excluídos são tanto os que se encontram privados de nossa companhia quanto aqueles que já se foram e que, como fantasmas, benévolos ou malévolos, retornam nessa hora. Aqui entra em jogo outro fenômeno próprio da loucura de final de ano: a interpassividade. Todos nós conhecemos aquele truque de televisão que consiste em utilizar risos artificiais ou aplausos de auditório em comédias medíocres. Alguém levanta uma placa e todos riem no momento em que devem rir, aplaudem quando ordenado ou vaiam.

Um similar nacional deste truque são as carpideiras. Profissionais do choro, elas desempenham a função de alguém que “chora por nós”, assim como a claque de auditório “ri por nós”. O resultado é que mesmo diante de uma comédia chata sentimos que afinal nos divertimos um pouco, quando na verdade “alguém se divertiu por nós”.  Aplique-se o conceito à loucura de fim de ano. Precisamos mostrar boa vontade porque afinal “mamãe acha isso tão importante”, ou então “as crianças acreditam em Papai Noel” – logo não podemos decepcioná-las. Ou seja, há alguém que “acredita por nós” e, para não desfazer o truque, nos comportamos como se acreditássemos.

Mas aqui há um efeito inesperado. A crença não é apenas um sentimento interno e individualizado que experimentamos em nosso íntimo. A crença é uma prática. Como dizia Pascal: ajoelha e reza, a crença virá por si mesma. Portanto, quando praticamos desengajadamente os rituais exigidos pela loucura de fim de ano, em nome de “alguém que acredita por nós”, como se estivéssemos excluídos e a salvo do consumismo, da hipocrisia e da ganância segregatória, estamos de fato acreditando. O que se demonstra pela conhecida situação na qual as crianças continuam a acreditar em Papai Noel, mesmo que não acreditem, pois, afinal, quem quer decepcionar os adultos? O problema da crença interpassiva é que ela impede que nos apropriemos de nossas próprias crenças – a ponto de criticá-las ou reinventá-las.

Portanto, quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério, eles são mais importantes e eficazes do que você pensa.

TEMPO DE SOLIDÃO

Findo o ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Aqui, a insanidade de fim de ano porta o grão de verdade contido em cada forma de loucura. A loucura que afinal nos torna humanos ao oferecer o limite de nossa liberdade, segundo a tese de Lacan. Quem começou confiando na contabilidade fatalmente será presa fácil do dispositivo das promessas de ano-novo. Feitas com base em metas e objetivos, são facilmente derrubadas ao primeiro contato com o cotidiano real. Elas redundam na decepção com nosso presumido poder de praticar a liberdade. Isso já aparece de forma muito inicial na forma como depositamos, nesse período, a expectativa de que poderemos, enfim, colocar a casa em ordem.

O tempo de férias é rapidamente mobilizado para a resolução de questões em atraso. É preciso resolver o passado para criar um novo futuro, sem pendências. Essa fantasia de renascimento se apóia na ancestral prática cultural de comemorar a mudança de ciclo das estações. O solstício e o equinócio correspondem a momentos de passagem, logo de potencial desequilíbrio, entre um modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice. Durante muito tempo, aprendemos a simbolizar a transição compartilhando, rememorando e reescrevendo a história conforme certos dualismos primários.

A festa, o fim do ano (mas também, em menor escala, o fim de semana e o fim do dia) são exemplos, mais ou menos coletivos, desses “pontos de suspensão”. Nossa época, entretanto, não aceita muito bem que tal ponto, justamente onde se anuncia algo de nossa liberdade, esteja sujeito a tamanha coerção social. Isso ajuda a entender por que, apesar do espírito de confraternização, a loucura de fim de ano nos convoca tão facilmente para a expe-riência da solidão. No fundo, desconfiamos do destino coletivo que comemoramos e sabemos que, mais que um desígnio, o destino é uma tarefa profundamente solitária.

A quinta regra de sobrevivência psíquica inspira-se na sabedoria bíblica que reza guardar sábados e festas. O mandamento não diz gozar ao máximo sábados e festas, nem mesmo penitenciar-se ou culpar-se em sábados e festas, apenas guardar. Guardar significa manter uma certa distância, cuidar ao longo do tempo, manter a atenção... para com nossa própria loucura.

Para muitos a insanidade do final de ano assume dimensão sagrada, mística ou religiosa. Seria possível criticar a teoria da experiência supondo que ela é, no fundo, uma forma de saudosismo e de valorização regressiva do passado, como um mero escapismo das dificuldades do presente. Afinal não vivemos mais nem os ciclos dos agricultores sedentários, nem as aventuras dos marinheiros viajantes.

Os ciclos das bolsas de valores nos afetam mais que tempestades ou secas. Neste sentido é anacronismo imaginar que a verdadeira experiência seria uma espécie de reatualização do tipo de laço que supomos presente nas antigas comunidades orgânicas. Melhor seria olhar para essa força simbólica da cultura sem tentar resgatar a essência de um passado que talvez nunca tenha existido. Como na história do pai que ao morrer diz aos filhos que há um tesouro enterrado em suas terras. Em busca do tesouro os filhos reviram a propriedade, não encontrando mais que raízes e troncos, além de decepção. Todavia, como efeito deste trabalho, naquele ano a terra se mostrou mais fértil do que nunca, produzindo assim o tesouro que o pai prometera.

Aqui o truque é simples: em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo produzassim um tesouro que não estava lá. É pelo mesmo princípio pelo qual uma ficção pode produzir efeitos reais que se opera a transferência no tratamento psicanalítico. Boa parte da loucura de fim de ano se aviva com a promessa de um passado essencial que nos colocaria em linha com um futuro previsível, geralmente anunciado nos pedidos e promessas de ano-novo.

Portanto, sexta recomendação: encontre a repetição produtiva, caso contrário achará apenas tocos, raízes e mais algumas minhocas.     

No fundo, a loucura de final de ano apenas potencializa a loucura que já estava lá, encoberta pela nuvem do esquecimento e da ocupação. Erasmo de Roterdã, pensador do século XVI, tinha uma classificação muito atual da loucura. Dizia haver dois tipos: a loucura louca e a loucura sábia. A primeira é aquela que desconhece que os assuntos humanos são uma comédia de representações na qual cada um diz uma coisa, pensa outra e age de acordo com uma terceira. Louco louco é aquele que toma o teatro humano pelo valor, esperando dele o que ele não pode dar. O louco sábio, ao contrário, é aquele que tem conhecimento de que toda loucura é louca e, sem se isentar dos assuntos humanos e de sua estrutura trágica e cômica, olha de frente para a verdade do teatro que a ele se apresenta. Não para desmascará-lo como hipocrisia mentirosa, sob a qual se esconderia a sórdida verdade essencial, mas para habitá-lo como espaço possível de liberdade e criação.

A sétima regra de sobrevivência psíquica em tempos de loucura de fim de ano, a regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura. Guardá-la com carinho é suficiente.

SENSAÇÃO DE DÉJÀ VU. O QUE A CIÊNCIA JÁ SABE?

Déjà vu é matéria de discussão, filmes, livros, mistérios. Mas o que é exatamente déjà vu? “É o sentimento que você já fez exatamente a mesma coisa antes – já esteve naquele lugar ou já realizou aquela atividade em particular – quando você sabe que não fez”, explica a especialista no assunto, Anne M. Cleary.


Segundo Cleary, nem todo mundo experimenta a sensação, mas a maioria das pessoas sim. Talvez seja um curto-circuito no cérebro. Ou uma memória distante que escorregou para o presente. Ou as duas coisas e algo mais. Seja qual for o caso, o déjà vu não é apenas um sentimento estranho e irrelevante na vida: a melhor compreensão do fenômeno quase certamente levará a uma melhor compreensão de como nosso cérebro funciona.


Akira O’Connor, que estuda déjà vu na Universidade de St. Andrews, na Escócia, afirma que os jovens, da adolescência a meados dos 20 anos, experimentam mais déjà vu. Pessoas cansadas também têm a sensação com mais frequência, como aqueles que viajam muito. Mesmo com muitos mais anos armazenados em seus bancos de memória, as pessoas mais velhas não são tão propensas a déjà vu.


Quando a maioria de nós sente um déjà vu, achamos um pouco esquisito ou mesmo significativo – quem nunca pensou que poderia ser uma lembrança de uma vida passada?

A maioria simplesmente continua com seu dia. Outros não são tão sortudos: algumas pessoas sofrem de déjà vu, uma sensação de já ter vivido antes.


“Parece louco, até divertido, mas na realidade é extremamente inquietante e muda drasticamente o comportamento das pessoas”, conta O’Connor. “As pessoas acham que experimentam a sensação mais fortemente com novas experiências. Como eles acham essa situação inquietante, tendem a evitar a novidade, com a triste consequência de que podem retirar-se do mundo para um pequeno universo de familiaridade, assistindo reprises de filmes e programas de TV o tempo todo porque isso lhes traz menos angústia”, explica.


Não há nenhum tratamento para pessoas com essa condição, que é muitas vezes relacionada com problemas de memória e envelhecimento.

Mas como pode ter um tratamento se não há nem uma compreensão clara do que causa o déjà vu e sentimentos relacionados a ele?


Cleary afirma que algumas possíveis causas da sensação estranha incluem erros na forma como o cérebro processa o mundo que nos rodeia ou breves disfunções neurológicas, como uma atividade cerebral espontânea que desencadeia um sentimento inadequado de familiaridade, ou uma pequena convulsão. Também, múltiplas causas podem trabalhar juntas.


Por enquanto, os pesquisadores estão encontrando novas maneiras de analisar o déjà vu. Cleary está usando realidade virtual para ver se pode acionar o sentimento nas pessoas e descobrir exatamente o que em uma “cena” faz o déjà vu acontecer. Já se sabe que visão não é necessária, pois pessoas cegas têm déjà vu também.


“Os pesquisadores precisam descobrir o que causa a desconexão entre o sentimento de que algo é familiar, e saber que esse algo não pode ser familiar”, diz O’Connor. “Quero entender quais partes do cérebro estão associadas com o sentimento de familiaridade e quais partes estão associadas com o saber que algo deve ou não deve evocar memórias”, conta.
Por Natasha Romanzoti

3 MITOS SOBRE OS PSICOPATAS - Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

Cercada de mitos, a psicopatia nem sempre está associada à violência 
e, ao contrário do que se imagina, pode ser tratada.

O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.

Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente.

No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com freqüência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.

Não é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.

Especialistas garantem que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard, analisou um grupo indígena, conhecido como inuíte, que vive no norte do Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz, trapaceia e rouba coisas e (...) se aproveita sexualmente de muitas mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.

O instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R), desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual e prática de furtos).

Três mitos

Apesar das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos.

O primeiro é a crença de que todos os psicopatas são violentos.

Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das pessoas violentas não é psicopata.

Dias depois do incidente da Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém, exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem como extremamente tímido e retraído.

Infelizmente, a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS), caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém, comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.

O segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente são psicopatas.

O terceiro equívoco em relação ao conceito de psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No seriado Família Soprano, dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e, portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.

Embora os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos.

Para conhecer mais:
Without conscience – The disturbing world of the psychopaths among us. Robert D. Hare. Guilford Press, 1999. 

ESTUPIDIFICAÇÃO HUMANA - Isabela Spínola

Este é precisamente o momento em que realizamos que a concentração de poder tem apenas por fim a manipulação de sociedades, pela necessidade de ordem social que o ser humano necessita. Se assim não o fosse, ainda hoje seríamos um neandertal. Quem não chegou a esta fronteira de pré-loucura jamais identificará a manipulação diária de que é alvo.

Algumas das características que os aprendizes de vida possuem, são a certeza de que nunca saberão demasiado, a busca da verdade na sua essência e um acesso ilimitado aos mais diversos e coloridos mundos.

Aprender é uma vontade inata e natural, não se aprende a ter vontade de aprender, é preciso ser curioso, é preciso não se bastar, é preciso constatar, é preciso conhecer, é preciso ver as formas na sua forma original. A fome de conhecimento desemboca num cérebro em contínua expansão, para quem não bastam as verdades comunitárias e colectivas.

Nietzsche, um dos meus aprendizes preferidos, foi para muitos um insano, para outros um génio. Incapaz de lidar com a sua condição de ser emocional, enveredou pela misoginia, passando mais tarde por diversos estados de loucura, pela frustração que lhe causava o não reconhecimento público das suas obras.

Nietzsche dedicou toda a sua vida ao aprendizado, deixando hábeis e preciosos escritos, que apenas traduzem o comportamento humano e o impacto deste na sociedade. Aponta como sendo o exercício mais difícil o auto-conhecimento, não pela carga reflectiva que tal implica, mas antes pela necessidade de superar os nossos próprios limites, para que seja possível identificá-los e assim balizá-los.

As saídas da zona de conforto, são desconfortáveis efectivamente, mas sem passar por elas, nunca saberemos do que somos capazes, e não tendo este conhecimento, nunca nos conheceremos realmente.

O auto-conhecimento está aberto a todos, todavia, apenas os aprendizes lá chegarão. Não por serem melhores, apenas porque são mais curiosos, e esta viagem é sempre traçada na vida de um aprendiz. Cedo ou tarde algum caminho desembocará no auto-conhecimento. O que move os aprendizes na vida é apenas um motor: a busca da essência. Este tema interessa a alguém? Possivelmente não, nem tão pouco é sujeito a juízos de valor a inércia intelectual.

A essência da verdade apenas interessa aos aprendizes, que com o seu espírito inconformista e analítico esmiúçam a fundo qualquer tema que lhe desperte interesse. Este é o patamar onde os conceitos se confundem, e frequentemente duvidamos deles, sendo necessário um mergulho ainda mais profundo nos pântanos do conhecimento.

O homem reduzido à sua essência, é um animal controlado. Questiona-se qual a necessidade de racionalidade, porque não vivemos apenas como os animais irracionais, porque tivemos de dar este uso à nossa racionalidade, qual o objectivo da racionalidade afinal.

Este é seguramente um patamar irreversível e onde identificamos que somos sempre essência pura não formatada sem necessidade física ou mental de produtos massificados (neste ponto recomendo vivamente a leitura de José Saramago no seu "Ensaio de Cegueira").

A zona de perigo (se é que assim poderei chamar) desta constatação
reside apenas no isolamento social que tal pode provocar, podendo chegar já a um estado de pré-loucura nietzschiana. Este é precisamente o momento em que realizamos que a concentração de poder tem apenas por fim a manipulação de sociedades, pela necessidade de ordem social que o ser humano necessita.

Se assim não o fosse, ainda hoje seríamos um neandertal. Quem não chegou a esta fronteira de pré-loucura jamais identificará a manipulação diária de que é alvo.

Um dos grandes pilares que fomentou a manipulação nas sociedades ocidentais, foi sem dúvida a religião católica, que criou raízes há já vinte séculos com seus dogmas e ainda hoje perdura como a grande linha orientadora da consciência humana. Baseada no Cristianismo, surge num contexto político em que se verificava uma necessidade revanchista de fuga ao império romano. A natural defesa pelas minorias, a necessidade humana de mártires comuns, fez com que o cristianismo se propagasse exponencialmente durante os três séculos em que foram perseguidos pelos romanos.

No século IV, os romanos passam a tolerar o Cristianismo, passando a religião católica de uma seita de minorias para uma religião de massas. A decadência do próprio império romano vem a fortalecer as figuras cristãs da época, elegíveis desde logo pelas multidões, passando estas a assumir funções de destaque na sociedade civil.

Faltava dar um corpo e fundamento à igreja cristã, e é a partir deste momento que são fundados os mais profundos pilares comportamentais da sociedade ocidental. Baseada na doutrina da Trindade, e considerando-se mandatados por entidades divinas, dividem a sociedade ao meio, admitindo apenas em raras excepções, a salvação aos seus infiéis. Não existindo à data um código civil baseado em valores emocionais, o cristianismo é rapidamente absorvido como forma de gratificação emocional (boas acções garantem um lugar no paraíso), tendo até hoje perdurado na consciência humana, inibindo-a de qualquer valor divergente implicando tal a punição de consciência no indíviduo.

Actuando como super-ego na consciência humana, a religião actua sobre emoções, constituindo um padrão comportamental já racionalizado e que se transmite através das gerações.

Existe realmente esta necessidade de ordem na vida comunitária, não obstante todo o fanatismo e comércio envolto na matéria. Se a linha de valores cristãos é a mais adequada à nossa sociedade? Não sei responder. Considero ser tão válida como seria outra linha de valores qualquer, na verdade a mina de ouro foi descoberta pelos poucos que perceberam a capacidade de manipulação das massas.

Os membros alfa da sociedade rapidamente teriam de enveredar por caminhos onde pudessem comandar as suas alcateias, a religião terá sido apenas uma via para atingir um fim. Nos dias de hoje, a tendência é a de baixar a fasquia ainda mais. Foram substituídos valores morais por valores líquidos, e a experiência em sabotagem social é sem dúvida superior, e na actualidade comandada por dois grandes exércitos: poder político e mediático.

O acesso total a informação não filtrada e de fraca qualidade intelectual, exponencia a estupifidicação humana, na medida em que não propicia o crescimento intelectual, despromovendo assim as capacidades e liberdades individuais. Receio que as próximas gerações, apresentem uma percentagem inferior de neurónios, pelo seu desuso em crescendo e consequente não replicação via adn.

O que acontecerá ao nosso mapa neurológico dentro de 3 séculos? Isto leva-me a pensar que inevitavelmente as sociedades auto-conduzem-se a este patamar de estupidificação ao ponto de não restar nada. Será desta forma que regressarmos à nossa essência, a tempos pré-históricos, para depois recomeçar de novo. Será esta a explicação para já termos tido civilizações mais evoluídas do que nossa?
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EM QUE MOMENTO NOS TORNAMOS NÓS MESMOS? - Jéssica Maes

Pare um pouquinho e faça uma comparação entre você mesmo há uma década, e a pessoa que você é agora. As chances são grandes de você achar que, uma década atrás, era alguém muito diferente, que não sabia nada sobre a vida e ainda tinha muito pelo que passar, e que hoje sim você se encontrou e este momento em que vive agora reflete o seu verdadeiro “eu”.

Mas e se fizermos este mesmo exercício de imaginação, só que projetando o futuro? Daqui a dez anos, será que ainda acharemos que nossa versão de 2014 representava a nossa real personalidade? Afinal, em que momento nos tornamos “nós mesmos”?

A equipe de psicologia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, decidiu ir a fundo no assunto. Quando o pesquisador Daniel Gilbert recrutou milhares de adultos para realizar este exercício mental, ele descobriu que as pessoas de todas as idades consideram que as suas personalidades, os valores que possuem e seus gostos evoluíram continuamente ao longo de suas vidas.

Agora imagine você mesmo daqui a dez anos. Se você for como os voluntários do estudo de Gilbert, a imagem que você tem na sua mente, hoje em dia, do seu eu futuro é uma pessoa com pouquíssimas diferenças em relação à pessoa que você é atualmente.

Gilbert e seus colegas Jordi Quoidbach e Timothy Wilson concluíram que as pessoas consideram o presente como um momento decisivo em que, finalmente, elas se tornam a pessoa que elas serão para o resto de suas vidas. Caso contrário, dificilmente alguém faria uma tatuagem, ou postaria uma foto do desenho no Facebook.

Esse fenômeno, chamado de “a ilusão do fim da história” (lembram-se da teoria de Hegel?), é generalizado, e pode levar ao que Quoidbach, atualmente professor na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, na Espanha, chama de decisões “abaixo do ideal”.

Para quantificar este efeito, os pesquisadores pediram a um grupo de participantes do estudo para citar o preço que estariam dispostos a desembolsar para adquirir o ingresso para um show de sua banda favorita, levando em consideração que o concerto só aconteceria dali a dez anos – uma forma de identificar o quanto eles esperavam que seu gosto musical permanecesse igual (ou não).

Um segundo grupo teve a tarefa de colocar um valor no ingresso, agora, para ouvir sua banda favorita de dez anos atrás, o que reflete o quanto os seus gostos já mudaram neste período de tempo. A diferença foi de 129 dólares (cerca de 308 reais), estipulados pelos membros do primeiro grupo, contra 80 dólares (191 reais), preço médio que o segundo grupo considerou gastar. Segundo os pesquisadores, é uma medida de quanto nós nos iludimos sobre a estabilidade de nossas personalidades e nossas preferências.

Em 1976, a jornalista estadunidense Gail Sheehy escreveu o livro “Passages” (traduzido para o português como “Passagens – Crises previsíveis da vida adulta” e lançado aqui no Brasil em 1979), um best-seller muito influente que versa sobre os diversos estágios da vida adulta.

Sheehy se lembra de ter entrevistado advogados na faixa dos 30 e início dos 40 anos que trabalhavam incessantemente, sem reservar tempo suficiente para passar com seus familiares e amigos e em detrimento da própria saúde. Já os profissionais em média dez anos mais velhos tinham uma perspectiva muito diferente sobre o que era importante para suas vidas. Se os viciados em trabalho soubessem que tipo de pessoa se tornariam no futuro, será que eles teriam gastado seu tempo de forma diferente, ou teriam dado preferência a outros aspectos da vida?

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