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SEMPRE VAI SER AGORA - Edmir Silveira

Não percebemos a importância do agora 
porque não sabemos ser eternos.
  
 Se soubéssemos,
saberíamos a importância
de cada segundo.
  
 A eternidade se encontra no agora.


________________________________________________________________


sua cultura e seus conhecimentos. 
Acesse, você vai gostar.
https://cultmente.blogspot.com/

 

A ORIGEM DA CONSCIÊNCIA HUMANA - António Damásio

Entrevista com um dos maiores neurologistas da atualidade

No campus da Universidade de Iowa, Estados Unidos, o neurologista português António Damásio gasta boa parte do tempo tentando compreender uma das áreas mais nebulosas do conhecimento: a consciência humana. É difícil encontrar um desafio mais instigante para um cientista, diz Damásio. Afinal, o que poderia ser mais fascinante do que conhecer o modo como conhecemos?
Em seus dois livros, O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência (editados no Brasil pela Companhia das Letras), Damásio descreve como a consciência abriu caminho para uma verdadeira revolução na natureza, tornando possível o surgimento da religião, da moral, da organização social e política, das artes, da ciência e da tecnologia. Ele tenta encontrar as respostas para as questões mais antigas da filosofia pesquisando o que há de mais novo no conhecimento do cérebro. Depois da polêmica em torno da clonagem humana, ele prevê que os debates mais fervorosos da ciência estarão ligados à possibilidade de manipularmos nossas emoções por meio de uma melhor compreensão da mente.

Qual a origem da consciência humana?
A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. É claro que, na natureza, existe uma série de organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Desde que mantenham cuidados básicos, como evitar perigos e adquirir a energia por meio dos alimentos, a vida desses organismos pode ser preservada. Os seres humanos são mais complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planejamento. A consciência surge dessa necessidade.

Existe uma primeira forma de consciência?
Uma forma de consciência inicial aparece quando o homem sente que ele é um ser em si mesmo. É difícil encontrar uma palavra, em português, para definir o processo. Chamo essa consciência de self. É ela que faz que não sejamos um robô, uma máquina manipulável. Podemos guiar a imaginação e conduzir a criatividade por meio dessa consciência. Para compreendermos o que é a dor, o sofrimento, e também o prazer das outras pessoas, precisamos antes ter uma idéia de quem somos. E a consciência self é fundamental para que possamos respeitar os outros.

Como o estudo da consciência pode melhorar a vida das pessoas?
Grande parte do sofrimento humano é causado por conflitos das pessoas consigo mesmas. Quando conhecemos mais a natureza biológica do homem, encaramos esses problemas com outro olhar. Se conhecemos os mecanismos que acionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como cada pessoa é e evitar certos problemas. Pense nos conflitos religiosos, políticos e de grupos sociais. É claro que há bases econômicas para eles mas acredito que a compreensão das emoções pode ajudar a mudar a maneira pela qual as pessoas tentam resolver essas disputas. Entender a tendência para a violência, para a competição ou o funcionamento do medo é fundamental para o autocontrole. Posso soar otimista, mas acredito que, quando admitirmos que nossa razão é influenciada por essas emoções, o mundo poderá tornar-se melhor.

A compreensão detalhada da consciência não pode nos tornar mais céticos ao descobrirmos, por exemplo, que há, no cérebro, uma região responsável pelo amor ou outra pela fé?
Mesmo que venhamos a compreender a mente com mais profundidade, será muito difícil desvendar mistérios como a origem do universo ou o que faz com que nos apaixonemos por outra pessoa. É possível que nunca cheguemos a desvendar essas questões talvez nosso cérebro não tenha capacidade para compreender certos enigmas...

Como a crença em Deus...
Exatamente. Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. Elas podem até deixar de acreditar em milagres. Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure.
A cada ano surgem um novo antidepressivo e drogas que provocam emoções artificiais.

Você acredita que, no futuro, teremos uma droga que possa acabar com as emoções ruins?
Acho que sim. É uma questão importante, que precisaremos discutir cada vez mais. Imagine uma superpopulação tomando Prozac diariamente. Esse grupo de pessoas alteraria um sistema natural e poderia causar diversos problemas é claro que alguns problemas seriam resolvidos, mas as conseqüências da proliferação dessa medicação poderiam levar à ruína de uma sociedade. Tem que haver mais investigação sobre como essas drogas serão usadas. É claro que as pessoas deprimidas devem ser tratadas, mas pode ser um erro tomar o medicamento apenas para inibir a timidez e impulsionar a vida social. A ciência precisa trazer mais informações para que esses temas não sejam discutidos pela simples opinião ou intuição de algumas pessoas.

Chegaremos, um dia, a manipular tão bem as áreas do cérebro que poderemos reproduzir com uma pílula a sensação de voar ou de passear numa montanha russa?
É bem provável que isso seja possível. E, sem dúvida, para a sociedade esse será um assunto tão polêmico quanto o da clonagem genética. Vamos ter que decidir o que deve e não deve ser permitido exatamente como na regulamentação da indústria do cinema e da televisão. Há um ponto em que tanto a criação artística quanto a científica precisam ser filtradas pela sociedade. Mas não podemos deixar que um burocrata decida isso. Quanto mais informações forem divulgadas no futuro, inclusive por meio desta revista, mais condições a sociedade terá para tomar suas decisões.

Que outro tipo de realidade virtual poderá ser criada, no futuro, manipulando o cérebro?
Prefiro não especular, tudo ainda não passa de teoria.

O estudo da consciência humana é um campo da ciência à espera de um novo Newton?
O problema da consciência é um tema complexo, que tem sido mal abordado. É evidente que é necessário avançar muito mais. Acho que meu livro O Mistério da Consciência traz alguns avanços importantes sobre o assunto, mas não devemos ter a ingenuidade de acreditar que tudo está resolvido. Há imensos problemas à espera de mais investigação e trabalho. Nos próximos dez ou 20 anos, talvez seja possível resolver boa parte deles.

Como escrever sobre assuntos tão complexos para o público leigo?
Os temas sobre os quais escrevo são importantes demais para ficarem restritos aos cientistas. Escrever sobre o pâncreas ou o fígado pode ser atraente apenas para os médicos, mas o público tem interesse quando falamos da mente, do pensamento, da emoção e do sentimento. É fantástico o retorno que tenho recebido dos leitores dos meus livros em todo o mundo. Interessados em arte, literatura e cinema dizem que essa pesquisa os ajuda a compreender melhor o que fazem nas suas próprias áreas.

DESCUBRA AS MENTIRAS QUE O SEU CÉREBRO CONTA PARA VOCÊ

Você não toma as próprias decisões - e boa parte do que vê não é real. É apenas uma ilusão criada pelo seu cérebro, que passa pelo menos 4 horas por dia enganando você. Conheça os truques que ele aplica - e saiba o que realmente acontece dentro da mente.

Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta semana...CONTINUAR LENDO.

VOCÊ CONSEGUE VIVER SEM DROGAS LEGAIS? - Eliane Brum

Como Pedro descobriu que tinha se tornado uma
“máquina humana” – ou um “bombado psíquico”. 
E como sua história fala do nosso tempo e de muitos de nós.

Pedro – o nome é fictício porque ele não quer ser identificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e é reconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quem tem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumas economias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos de um ano. 

Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos do primeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos, a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que é mais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bons amigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quem sabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentido porque ele criou um sentido para ela.


Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matérias sobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algo que pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (um antidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (um hipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacos andam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão. E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer alguma coisa sobre o nosso tempo.

Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo, anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou. Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferência sem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queria conversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentia um medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente de carro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. 

Ele mesmo pediu indicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentia que estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo que receita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é do humano é uma mera disfunção química do cérebro.


O psiquiatra era sério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivo ou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto. Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitou um antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o paciente repetia que precisava trabalhar. 

A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias, segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefe compreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duas semanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Com a ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir com a mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele já voltara a ser o profissional brilhante.


Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamento rigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo do psiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatra concordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo. Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.

Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo. Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentia muito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por ele não pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estava maravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado. 

Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça. Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer as coisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedro passaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele.


E, toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido por alguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.


Algumas semanas depois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar – e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultório psiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempre tinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou a achar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Que mal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela o questionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilar de tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar no sofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia o Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro e dizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Não tem problema nenhum”.

Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estava muito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumas pílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzido tanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário sem precisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendia pensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. 

Pedro não tinha mais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário na sua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulher alguma. “Efeito colateral do antidepressivo”, conformou-se.


Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema, os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava no mesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com a família, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. 

Pedro constatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na sua vida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado uma coleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro, Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguia ignorar.


Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida que não podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa parte das pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu só consigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou um bombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempo para elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto. É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. 

Às vezes tenho experiências maravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembro delas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmo porque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmo porque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então eu ficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano para que ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia que podia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastaria aumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos. 


Aos poucos, porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algo errado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você toma três comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, eu esteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E, com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, pelo prolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. 


Eu sei que muita gente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas. Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E os médicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios para ajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo. De repente, percebi que eu era uma máquina humana. 


E que eu estava usando remédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o mais maluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimo comigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas como depressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para ter coragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo de morrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergar que estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso é normal.”


Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. “Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. 

Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. 


Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. 


Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. 


É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo.


Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.”


Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções de Ano-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícil que já enfrentou. 

“Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos e vou parar até março. 

Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons para conseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e uma rotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que seja possível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempo para sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dos pequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. 
Sei que vai ter um custo, sei que vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vai valer a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bem sucedida. Quero só uma vida humana.”

Torço por Pedro, torço por nós.

COMO VENCER OS FANTASMAS DO FINAL DO ANO - Christian Ingo Lenz Dunker

A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos

Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear.

Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.

Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.

Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.

DISCURSOS VAZIOS

Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca. Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação. Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediato e preferencial de tal prática.

O segundo tipo de discurso que mimetiza a experiência, na loucura de final de ano, é usado pelos “experts”. Aqui o falso coletivo é composto pela exclusão daqueles que “não sabem como é bom”. A conversa é feita para deixar claro que quem dela participa tem gosto ou saber diferenciado, inacessível aos mortais, e possui vivências mais preciosas que o tornam alguém especial. Surgem as “elevadas” considerações sobre a qualidade do vinho servido, a respeito dos charutos fumados, dos últimos eventos culturais freqüentados, conversas sobre os bens adquiridos e a superioridade do sistema aeroportuário de outros países ou ainda sobre as inenarráveis qualidades daquele prato degustado no sofisticado restaurante da moda. Os comentários giram em torno das curiosas discussões sobre a qualidade insubstituível do bacalhau de antigamente ou se detêm nas queixas a respeito da imperícia culinária do anfitrião. A tirania do gosto, envolta num discurso universitário que pode ser tediosamente descritivo, assume a perspectiva professoral de autoridade constituída. Resta, nesses casos, só a aparência de que se compartilha algo.

O terceiro tipo de discurso, com marcado caráter pseudo-experiencial, diz respeito à retórica do planejamento. Neste caso incluímos aqueles para os quais o final do ano não é a suspensão da guerra, mas o seu clímax: a grande batalha. Os ritos se impõem a seus praticantes, parecendo adquirir vida própria – com cartões escritos em grande escala, felicitações por atacado, presentes distribuídos como se atendessem à demanda de uma linha de montagem, práticas filantrópicas executadas milimetricamente, segundo as últimas técnicas de gerenciamento de tempo e de recursos humanos. O objetivo é chegar vivo até o início do próximo ano – mas sem viver a experiência, apenas reduzindo-a a um conjunto de tarefas. Para essas pessoas, aqueles percebidos como fora do circuito estão literalmente atrapalhando. Se a ocupação comandava a vida até aqui, surge um redobramento: a sobreocupação. Preocupados em manter osistema funcionando, esses “mestres de fim de ano” estão permanentemente irritados e atrasados. Sua posição sacrificial os autoriza a se irritar profundamente com os incautos, seu olhar é temido pela culpa que pode provocar. A conversa é reduzida à localização incógnita daquela lata de ervilhas ou à fiscalização do cumprimento de ordens. A prática é, no fundo, uma técnica de esquecimento, espécie de “fuga para frente”. Repetir em vez de lembrar: desta maneira os afetos podem ser retidos e substituídos por ações.

A fofoca, o superentendimento e a sobreocupação são maneiras de nos desviarmos, são estratégias para não recordar, seja porque nos dedicamos a lembrar criticamente dos outros, porque transformamos a lembrança em descrição de acontecimentos passados ou porque substituímos o lembrar pelo fazer. O fato é que esses três discursos -– da histérica (fofoca), do universitário (experts) e do mestre (sobreocupação) – são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir da satisfação esperada no final do ano.

LEMBRAR PARA ESQUECER

O prazer do “retorno para casa” não é um efeito automático e sim fruto de um tipo específico de trabalho psíquico a que a reconstrução da experiência nos convida; trabalho que Freud chamava de elaboração (Ducharbeiten, literalmente “trabalho através de”), ou seja, uma forma muito específica de lembrar que traz consigo o afeto e a integração do que é lembrado no presente, bem como a projeção de um futuro. Lembrar para poder esquecer.

Vejamos então como situações similares podem ser bons provocativos para uma verdadeira experiência. Nesse caso podemos incluir, por exemplo, a épica do lombo seco, o complexo dramático dos bolinhos de bacalhau ou ainda a lírica – ou cômica – entrega dos presentes. Note-se como, nesse caso, aquela travessa fora de moda com cara de Papai Noel é um detalhe imprescindível: sem ela o Natal não seria Natal. O juízo especialista do gosto autorizado é suspenso em prol do valor simbólico rememorativo de um elemento arbitrário.

Fora daquela comunidade, a travessa de plástico seria apenas mais um caso de mau gosto e não um evocador de histórias. Ao contrário da retórica descritiva da exclusão, a épica da experiência é inclusiva. Aquela tia falecida reaparece como modelo a ser seguido, o fracasso retumbante dos fios de ovos daquele ano volta à memória, a face forçada de satisfação daquele namorado em primeira visita natalina é rememorada com graça. Ou seja, torna-se mais importante a história lembrada, o fato de que estávamos juntos, do que o que foi consumido ou quem pagou a conta. A experiência traz outra dimensão do tempo vivido.

Os idosos se tornam mais sábios, as crianças se tornam mais crianças, os adultos interrogam sua própria maturidade. Isso ocorre porque além da própria posição cada qual se reconhece nas demais, avaliando em si mesmo o que poderia ter sido ou o que poderá vir a ser. Como mensagens deixadas em uma garrafa, recolhidas 20 ou 30 anos depois, essas histórias nos devolvem a nossa própria mensagem, agora de forma invertida pelo processo da experiência. Sabe-se que o tempo passa mais devagar para a criança, e teoricamente isso tem relação com o fato de que suas conexões sinápticas estão em formação ou sua capacidade de aprender com a experiência é maior. A experiência lentifica o tempo; a vivência o comprime – é por isso que em uma viagem o caminho de ida parece ser mais longo que o caminho da volta.

A primeira regra de um possível “manual de sobrevivência psíquica de fim de ano”, portanto, deveria contribuir para tornar crítica a consciência de nossa própria loucura − uma experiência trágica ou cômica, não importa, desde que seja digna de ser narrada.  A primeira orientação, portanto, é: passar da vivência à experiência.

Mas por que seria o nosso passado imediato, representado pelo ano que passou, algo a ser tão fortemente evitado? Qual a natureza de sua força traumática? O primeiro erro consiste em subestimar o “adversário”, achar que esse é um período do ano como qualquer outro e como tal deve ser vivido. A insanidade do final de ano se infiltra insidiosamente por meio dos detalhes: pequenos adiamentos, evitações, ansiedade flutuante ou inúmeras atuações desordenadas. É a ação da amnésia, esperada em qualquer evento traumático repetitivo.  Depois vem o súbito encontro com a coisa traumática, o que Freud chamava de Schreck (terror-pânico) e Lacan de “encontro com o Real”. Muitos são seus desencadeantes: o presente misteriosamente “esquecido”; a notícia abrupta de que aquela tia virá mesmo... e com os sobrinhos; a notícia, retinta de alívio e inveja, de que aquele cunhado de fato não virá pois se evadiu para o abrigo antiaéreo da colônia de férias. Sem falar na pergunta decisiva: quem fará o peru desta vez?  Fato é que o fim de ano nos coloca em estado de alta reatividade e atenção prevenida. Comentários banais se transformam em ofensas insuportáveis; como os soldados que voltam do front, somos tomados por uma espécie de “neurose de guerra transitória”.

Subitamente começamos a agir como se fôssemos vítimas de nosso próprio destino. Não importa se o mártir se oferece ou é convocado, o pânico lhe parece uma nuvem flutuante prestes a explodir. O pânico foi um sentimento bastante estudado pelos teóricos da guerra, principalmente pelo fato de que é um sentimento coletivo e contagioso, instabiliza a ordem e sugere que não há mais ninguém no comando. A ruptura entre a linha de frente e os generais interrompe a cadeia simbólica necessária para a guerra e torna difuso quem é e onde está o inimigo – o adversário confunde-se agora com qualquer um. Daí a solução do pânico em medo. Diferentemente do que acontece em situações de pânico, na de medo temos um objeto, sabemos o que temer. Nesse caso está em questão o medo do futuro. Esse é o terceiro momento da loucura de final de ano: irritabilidade difusa, explosões despro---porcionais de raiva, dramáticas efusões afetivas além de decisões intempestivas.

Essa desorientação de referências pode surgir sob a forma do afeto inverso ao pânico, ou seja, o tédio. Apesar de aparentemente opostos, pânico e tédio têm a mesma gramática, em ambos há uma suspensão da orientação simbólica do sujeito. Há ainda no tédio uma espécie de fuga para fora da cena, de descolamento do sujeito em relação a sua própria experiência, como se a pessoa se sentisse estranha, sem lugar diante de tanta “felicidade” no ar. Para o entediado tudo parece artificial, repetitivo e sem graça, pois apesar de ele estar ali, não se sente naquele lugar.Ele está ou gostaria de estar em outro local.

Assim como o pânico evolui para o medo, o tédio evolui para a melancolia. De fato, a loucura de final de ano admite a figura do melancólico, que se sente excluído e se recrimina por isso. Como dizia o poeta Nerval, o melancólico é antes de tudo um realista, acha que percebe as coisas como realmente são. Vê na troca amorosa de presentes apenas mais uma manobra da lógica do capital; nos amigos que o procuram, apenas uma operação de networking; nas iniciativas solidárias, apenas o alívio para a culpa dos mais favorecidos. A crua verdade, certamente. Mas não toda ela.

No fim do ano estabelece-se, portanto, esta tríade composta pela ansiedade da expectativa, pelo terror maníaco ou traumático e pela ressaca moral carregada de decepção e tédio melancólico. Se quisermos contribuir para a sobrevivência subjetiva nesse tempo de fraternidade compulsória, devemos examinar mais de perto as tarefas psíquicas que o momento apresenta.

CONTABILIDADE DE SONHOS

Comecemos pelo fato de que o final de ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso. Sentimo-nos improdutivos. De repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta. Todavia, saber que isso acontece é diferente de realizar essa informação.  Se o tempo passou num instante e se compreendemos que esse tempo se foi, é então o momento de concluir. A maneira mais simples – e mais pobre – de fazer isso é planejar. Formal ou informalmente colocamos o ano transcorrido em certos crivos: metas, realizações, fracassos, decepções, empates, honrosos ou não.

Esta espécie de ajuste de contas com o passado geralmente nos convida a um exercício de objetivação da experiência. Fatos, datas e resultados surgem como métricas espontâneas que nos permitem, de forma simples e rápida, saber se estamos em débito ou crédito com nossos sonhos. Atenção, aqui vem o engano. A contabilidade reduz processos a produtos. Como simples vivência, aquela longa batalha com a trigonometria transforma-se apenas em um “passei de ano” e cumpri minha obrigação. A densa experiência representada pelo término de um namoro torna-se apenas mais um fracasso na lista de tantos outros. Cria circularidades: “A vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada... afinal eu mereço”. Ou “Consegui aquilo que queria este ano? Também vou comer a tal porção extra de rabanada, afinal... eu mereço”. Ou seja, independentemente do resultado, fracasso ou sucesso, a prática da contabilidade empobrece nossa experiência, sentimo-nos vazios depois de fazê-la, com ou sem rabanadas adicionais. Ela só nos diz se estamos no positivo ou no negativo, escondendo, por efeito de método, se foi um fracasso interessante ou um sucesso sem graça.

A segunda regra é, portanto, desconfiar dos poderes da contabilidade e evitar o cálculo neurótico do gozo.

 O “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por outra circunstância: o encontro com parentes e amigos – ou o não encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de confraternização e reencontro, o período tem potencial altamente explosivo, especialmente se acrescido de contabilidade negativa. Neste caso, ao refazer a memória e a história coletiva, em vez de reafirmação e comemoração de um destino comum, a tendência será encontrar um culpado altamente disponível: o outro.

Quer porque nosso balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias, quer porque elas sejam atribuídas diretamente às vicissitudes de nossos próprios laços familiares, a insatisfação flutuante encontra terreno fértil para se transformar em culpa. A culpa é sempre uma decorrência do fato de que não estamos à altura de nossos desejos, ou seja, que na verdade não nos empenhamos como deveríamos ou gostaríamos para torná-los realizáveis. Além disso, é sempre um subterfúgio preferível à angústia. Assim, este sentimento de traição encontra logo um depositário. Em vez de refletir sobre a pergunta capital: “Será que, neste ano, realmente agi em conformidade com meu desejo?”, substituimos a reflexão pela resposta rápida: “É claro que não, afinal o outro não me deixou”. E não importa quem seja o outro: o marido ou a mulher, os filhos, o chefe, a empresa ou a situação econômica e política do país.

O fragmento de satisfação da qual me sinto frustrado é imediatamente imputado a esse outro, segundo as próprias fantasias fundamentais. Foi ele quem raptou aquele pedacinho que faltou para a realização de meu próprio desejo. Ao mesmo tempo é o outro que nos lembra que estamos em falta, a começar pelo fato de que não o encontramos há tempos – aliás, esqueci dos amigos? Isso dá margem tanto a comparações depressivas quanto à pirotecnia exibicionista nos conhecidos excessos de fim de ano.

Quando adaptamos nossos desejos a uma imagem e transformamos qualquer objetivo e bobagens em metas, a fantasia que se articula neles sofre uma curiosa mutação. Passa de sua função regulatória, como horizonte semi-indeterminado de aspirações, para a condição de obrigação compulsória. Se escolhemos querer, estamos então obrigados a continuar querendo. É assim que nos tornamos prisioneiros e escravos de nossos próprios desejos, de tal forma que rapidamente eles se tornam um fardo.

Logo, terceira regra, não convém fazer desejos caberem em metas.

APLAUSOS E CASA EM ORDEM

Não há loucura de final de ano sem os banquetes. Lautos e exagerados, eles são pretexto tanto para o encontro comemorativo como para o remorso com relação àqueles que estão excluídos. Excluídos são tanto os que se encontram privados de nossa companhia quanto aqueles que já se foram e que, como fantasmas, benévolos ou malévolos, retornam nessa hora. Aqui entra em jogo outro fenômeno próprio da loucura de final de ano: a interpassividade. Todos nós conhecemos aquele truque de televisão que consiste em utilizar risos artificiais ou aplausos de auditório em comédias medíocres. Alguém levanta uma placa e todos riem no momento em que devem rir, aplaudem quando ordenado ou vaiam.

Um similar nacional deste truque são as carpideiras. Profissionais do choro, elas desempenham a função de alguém que “chora por nós”, assim como a claque de auditório “ri por nós”. O resultado é que mesmo diante de uma comédia chata sentimos que afinal nos divertimos um pouco, quando na verdade “alguém se divertiu por nós”.  Aplique-se o conceito à loucura de fim de ano. Precisamos mostrar boa vontade porque afinal “mamãe acha isso tão importante”, ou então “as crianças acreditam em Papai Noel” – logo não podemos decepcioná-las. Ou seja, há alguém que “acredita por nós” e, para não desfazer o truque, nos comportamos como se acreditássemos.

Mas aqui há um efeito inesperado. A crença não é apenas um sentimento interno e individualizado que experimentamos em nosso íntimo. A crença é uma prática. Como dizia Pascal: ajoelha e reza, a crença virá por si mesma. Portanto, quando praticamos desengajadamente os rituais exigidos pela loucura de fim de ano, em nome de “alguém que acredita por nós”, como se estivéssemos excluídos e a salvo do consumismo, da hipocrisia e da ganância segregatória, estamos de fato acreditando. O que se demonstra pela conhecida situação na qual as crianças continuam a acreditar em Papai Noel, mesmo que não acreditem, pois, afinal, quem quer decepcionar os adultos? O problema da crença interpassiva é que ela impede que nos apropriemos de nossas próprias crenças – a ponto de criticá-las ou reinventá-las.

Portanto, quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério, eles são mais importantes e eficazes do que você pensa.

TEMPO DE SOLIDÃO

Findo o ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Aqui, a insanidade de fim de ano porta o grão de verdade contido em cada forma de loucura. A loucura que afinal nos torna humanos ao oferecer o limite de nossa liberdade, segundo a tese de Lacan. Quem começou confiando na contabilidade fatalmente será presa fácil do dispositivo das promessas de ano-novo. Feitas com base em metas e objetivos, são facilmente derrubadas ao primeiro contato com o cotidiano real. Elas redundam na decepção com nosso presumido poder de praticar a liberdade. Isso já aparece de forma muito inicial na forma como depositamos, nesse período, a expectativa de que poderemos, enfim, colocar a casa em ordem.

O tempo de férias é rapidamente mobilizado para a resolução de questões em atraso. É preciso resolver o passado para criar um novo futuro, sem pendências. Essa fantasia de renascimento se apóia na ancestral prática cultural de comemorar a mudança de ciclo das estações. O solstício e o equinócio correspondem a momentos de passagem, logo de potencial desequilíbrio, entre um modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice. Durante muito tempo, aprendemos a simbolizar a transição compartilhando, rememorando e reescrevendo a história conforme certos dualismos primários.

A festa, o fim do ano (mas também, em menor escala, o fim de semana e o fim do dia) são exemplos, mais ou menos coletivos, desses “pontos de suspensão”. Nossa época, entretanto, não aceita muito bem que tal ponto, justamente onde se anuncia algo de nossa liberdade, esteja sujeito a tamanha coerção social. Isso ajuda a entender por que, apesar do espírito de confraternização, a loucura de fim de ano nos convoca tão facilmente para a expe-riência da solidão. No fundo, desconfiamos do destino coletivo que comemoramos e sabemos que, mais que um desígnio, o destino é uma tarefa profundamente solitária.

A quinta regra de sobrevivência psíquica inspira-se na sabedoria bíblica que reza guardar sábados e festas. O mandamento não diz gozar ao máximo sábados e festas, nem mesmo penitenciar-se ou culpar-se em sábados e festas, apenas guardar. Guardar significa manter uma certa distância, cuidar ao longo do tempo, manter a atenção... para com nossa própria loucura.

Para muitos a insanidade do final de ano assume dimensão sagrada, mística ou religiosa. Seria possível criticar a teoria da experiência supondo que ela é, no fundo, uma forma de saudosismo e de valorização regressiva do passado, como um mero escapismo das dificuldades do presente. Afinal não vivemos mais nem os ciclos dos agricultores sedentários, nem as aventuras dos marinheiros viajantes.

Os ciclos das bolsas de valores nos afetam mais que tempestades ou secas. Neste sentido é anacronismo imaginar que a verdadeira experiência seria uma espécie de reatualização do tipo de laço que supomos presente nas antigas comunidades orgânicas. Melhor seria olhar para essa força simbólica da cultura sem tentar resgatar a essência de um passado que talvez nunca tenha existido. Como na história do pai que ao morrer diz aos filhos que há um tesouro enterrado em suas terras. Em busca do tesouro os filhos reviram a propriedade, não encontrando mais que raízes e troncos, além de decepção. Todavia, como efeito deste trabalho, naquele ano a terra se mostrou mais fértil do que nunca, produzindo assim o tesouro que o pai prometera.

Aqui o truque é simples: em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo produzassim um tesouro que não estava lá. É pelo mesmo princípio pelo qual uma ficção pode produzir efeitos reais que se opera a transferência no tratamento psicanalítico. Boa parte da loucura de fim de ano se aviva com a promessa de um passado essencial que nos colocaria em linha com um futuro previsível, geralmente anunciado nos pedidos e promessas de ano-novo.

Portanto, sexta recomendação: encontre a repetição produtiva, caso contrário achará apenas tocos, raízes e mais algumas minhocas.     

No fundo, a loucura de final de ano apenas potencializa a loucura que já estava lá, encoberta pela nuvem do esquecimento e da ocupação. Erasmo de Roterdã, pensador do século XVI, tinha uma classificação muito atual da loucura. Dizia haver dois tipos: a loucura louca e a loucura sábia. A primeira é aquela que desconhece que os assuntos humanos são uma comédia de representações na qual cada um diz uma coisa, pensa outra e age de acordo com uma terceira. Louco louco é aquele que toma o teatro humano pelo valor, esperando dele o que ele não pode dar. O louco sábio, ao contrário, é aquele que tem conhecimento de que toda loucura é louca e, sem se isentar dos assuntos humanos e de sua estrutura trágica e cômica, olha de frente para a verdade do teatro que a ele se apresenta. Não para desmascará-lo como hipocrisia mentirosa, sob a qual se esconderia a sórdida verdade essencial, mas para habitá-lo como espaço possível de liberdade e criação.

A sétima regra de sobrevivência psíquica em tempos de loucura de fim de ano, a regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura. Guardá-la com carinho é suficiente.

SENSAÇÃO DE DÉJÀ VU. O QUE A CIÊNCIA JÁ SABE?

Déjà vu é matéria de discussão, filmes, livros, mistérios. Mas o que é exatamente déjà vu? “É o sentimento que você já fez exatamente a mesma coisa antes – já esteve naquele lugar ou já realizou aquela atividade em particular – quando você sabe que não fez”, explica a especialista no assunto, Anne M. Cleary.


Segundo Cleary, nem todo mundo experimenta a sensação, mas a maioria das pessoas sim. Talvez seja um curto-circuito no cérebro. Ou uma memória distante que escorregou para o presente. Ou as duas coisas e algo mais. Seja qual for o caso, o déjà vu não é apenas um sentimento estranho e irrelevante na vida: a melhor compreensão do fenômeno quase certamente levará a uma melhor compreensão de como nosso cérebro funciona.


Akira O’Connor, que estuda déjà vu na Universidade de St. Andrews, na Escócia, afirma que os jovens, da adolescência a meados dos 20 anos, experimentam mais déjà vu. Pessoas cansadas também têm a sensação com mais frequência, como aqueles que viajam muito. Mesmo com muitos mais anos armazenados em seus bancos de memória, as pessoas mais velhas não são tão propensas a déjà vu.


Quando a maioria de nós sente um déjà vu, achamos um pouco esquisito ou mesmo significativo – quem nunca pensou que poderia ser uma lembrança de uma vida passada?

A maioria simplesmente continua com seu dia. Outros não são tão sortudos: algumas pessoas sofrem de déjà vu, uma sensação de já ter vivido antes.


“Parece louco, até divertido, mas na realidade é extremamente inquietante e muda drasticamente o comportamento das pessoas”, conta O’Connor. “As pessoas acham que experimentam a sensação mais fortemente com novas experiências. Como eles acham essa situação inquietante, tendem a evitar a novidade, com a triste consequência de que podem retirar-se do mundo para um pequeno universo de familiaridade, assistindo reprises de filmes e programas de TV o tempo todo porque isso lhes traz menos angústia”, explica.


Não há nenhum tratamento para pessoas com essa condição, que é muitas vezes relacionada com problemas de memória e envelhecimento.

Mas como pode ter um tratamento se não há nem uma compreensão clara do que causa o déjà vu e sentimentos relacionados a ele?


Cleary afirma que algumas possíveis causas da sensação estranha incluem erros na forma como o cérebro processa o mundo que nos rodeia ou breves disfunções neurológicas, como uma atividade cerebral espontânea que desencadeia um sentimento inadequado de familiaridade, ou uma pequena convulsão. Também, múltiplas causas podem trabalhar juntas.


Por enquanto, os pesquisadores estão encontrando novas maneiras de analisar o déjà vu. Cleary está usando realidade virtual para ver se pode acionar o sentimento nas pessoas e descobrir exatamente o que em uma “cena” faz o déjà vu acontecer. Já se sabe que visão não é necessária, pois pessoas cegas têm déjà vu também.


“Os pesquisadores precisam descobrir o que causa a desconexão entre o sentimento de que algo é familiar, e saber que esse algo não pode ser familiar”, diz O’Connor. “Quero entender quais partes do cérebro estão associadas com o sentimento de familiaridade e quais partes estão associadas com o saber que algo deve ou não deve evocar memórias”, conta.
Por Natasha Romanzoti

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