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A PROCURA - André Albuquerque

Ao abrir os olhos percebi que era dia, na verdade bem cedo, mais ou menos entre cinco e seis da manhã. Desconfiei disso pois a rua era silenciosa e as lojas não haviam erguido as portas. Senti que chovia e a chuva molhava o meu rosto que repousava sobre o paralelepípedo molhado. Meu rosto formigava, aliás todo o meu corpo formigava. Além da chuva que caia gelada em minhas costas, podia sentir também a presença de outra substância, esta, mais viscosa e quente que a outra, brotando pelo orifício feito em minha têmpora. Não sentia dor, mas sim uma enorme aflição por não conseguir me mover. Em um esforço sobre-humano girei os olhos para ver o que acontecia à minha volta. Conseguia perceber então a grande quantidade de sangue que se misturava à massa cinzenta que se espalhava ao meu redor. Em um reflexo primitivo quis ingenuamente catar toda aquela gosma e tapar o buraco feito em minha cabeça. Aos poucos, podia ouvir alguns passos a minha volta, falatórios, sirenes e de repente um saco preto sobre meu corpo, mas ainda podia ouvi-los do lado de fora.

Não me lembro o que aconteceu, tão pouco o meu nome ou endereço, a última coisa gravada em minha retina foi aquele garoto que me olhava assustado e corria pra bem longe. As vozes vindas de fora falavam que ouviram quatro tiros vindos desse lugar que me encontro.

Conseguia ver somente alguns detalhes sobre minha pessoa, via por exemplo que segurava com a mão esquerda uma maleta, que deixava escapar uma papelada sobre o chão molhado, a abotoadura que se prendia a camisa social sob o paletó preto e a generosa aliança de ouro em meu dedo anelar. Sentia também um volume sob meu peito como se tivesse caído sobre uma pedra ou coisa assim. Um pouco acima da minha cabeça, mais precisamente sobre minha massa encefálica, boiava um óculos de grau com as lentes quebradas. Não conseguia ver a parte posterior do meu corpo, mas podia sentir que segurava alguma coisa metálica com a outra mão. E misturando-se àquela papelada uma foto em desfoque me chamou atenção, nesta, uma jovem mulher beijava um homem na boca. Lentamente algumas lembranças começaram a surgir em preto e branco, flashes me fizeram acreditar que pudesse ser aquele homem.

Então alguns detalhes dessa mulher começaram a surgir em minha mente, assim como seu cheiro, o belo sorriso, os lábios quentes em meus ouvidos, o toque de sua pele. Repentinamente vi sua imagem esguia correndo em desalinho sob a chuva, os postes iluminando o asfalto molhado, o pânico estampado em seu olhar e aquele homem sem rosto seguindo seus passos bem de perto. Era como se eu montasse um quebra-cabeça incompleto e contra o relógio, mas pude ter a certeza de conhecer aquela mulher e entender que corria perigo. Reparei também, um pouco abaixo dos meus olhos, um cartão de visitas respingado de sangue, nele, o logotipo sob a forma de lupa me fez lembrar daquele homem atrás da mesa. Ainda posso ver aquele homem gordo à minha frente, seu óculos escuro a esconder propositalmente o olhar, a gravata em desalinho, os pés cruzados sobre a mesa e nas mãos aquele envelope de papel pardo o qual me entregava. Naquela hora tive uma vontade súbita de mata-lo, sei que tentava separar-me de minha mulher, sim, minha mulher, posso sentir isso agora. Lembro-me do dia que a conheci naquela casa noturna, seu olhar predatório por detrás do copo de Vodka me abateu como uma presa fácil. Lembro-me de ter aberto o envelope e visto aquela foto, a foto na qual a beijava na boca, porém o ódio invadiu meu peito repentinamente.

Precisava de uma arma pra acabar com a vida daquele sujeito, uma arma compacta que coubesse na manga do paletó, de preferência automática para disparar um tiro após o outro. Estranhamente senti minha perna vibrando e além das vibrações ouvia um alarme ecoando pelo bolso da calça, estava na hora do remédio, posso lembrar agora. Tomava regularmente um antidepressivo, o celular me avisava diariamente. Paroxetina 50mg, o suficiente para deixar um homem broxa. Foi o primeiro tiro que levei, direto em minha honra. A insegurança me fazia vasculhar suas coisas, a mensagem em seu celular naquele dia me deixou confuso, lembro-me do tom ameaçador daquele texto ainda nublado em minha mente, “vou te matar de todas as formas”, é só do que me lembro.

Mas qual seria o motivo da ameaça, algum segredo sobre o passado que a deixava vulnerável? Aquele homem gordo por detrás da mesa me cobrou caro pelo envelope e provavelmente a extorquia por isso.

De repente uma onda de frio começava a varrer meu corpo, lá da ponta dos pés ela se propagava lentamente afogando aos poucos qualquer esperança de vida. Ironicamente, lembrei-me da sensação da impotência e dos momentos ao lado daquela mulher, seu corpo quente procurando o prazer sobre o meu corpo inerte, a paralisia dos meus desejos, a angústia infinita em seu olhar e o barulho do silêncio que atravessava a noite. Inesperadamente, algumas lembranças começaram a brotar na minha cabeça vindas lá da infância. Posso ver agora em meu colo aquela bolinha branca de pelo suja de sangue dando seus últimos suspiros, o animal de estimação que tanto amava agonizava à minha frente. Minhas mãos de criança igualmente sujas de sangue cavavam a pequena sepultura no quintal de casa, enquanto às lágrimas se misturavam a cada punhado de terra retirado, cerimônia de uma só testemunha, segredo que mantive até hoje. Preferi assim à vê-lo ir embora, pelo menos saberia sempre onde encontra-lo.

Aos poucos, as coisas começavam a fazer sentido, a imagem daquele homem sem rosto ficava nítida à minha frente, a última peça do quebra-cabeça havia se encaixado, a minha própria fisionomia na pele do assassino. Depois de receber a prova da traição das mãos do homem que contratei, decidi segui-la bem de perto, acabar de vez com tudo aquilo e com quatro tiros selei nosso destino, três direto em seu peito e um bem na minha cabeça. Logo depois pude ver a imagem daquele garoto que me olhava assustado e corria pra bem longe, imagem da criança que fui um dia, criança essa que deixei enterrada também, junto ao medo de vê-la novamente. Sei que agora é noite ou bem cedo, desconfio disso, pois as luzes começaram a se apagar, meu corpo parecia escoar para dentro dos bueiros com as águas da chuva e seu corpo sob o meu era duro como pedra. Não sei se retiraram aquele saco preto que nos cobria pois agora tudo estava definitivamente escuro, mas você estava ali no meu colo como aquele bichinho de estimação que tanto amava. E como naquele dia, preferi que fosse assim à vê-la indo embora para sempre, pelo menos sei que apesar de toda inércia de meu corpo, pude proporcionar o último suspiro de sua vida.

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