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A ORIGEM DA CONSCIÊNCIA HUMANA - António Damásio

Entrevista com um dos maiores neurologistas da atualidade

No campus da Universidade de Iowa, Estados Unidos, o neurologista português António Damásio gasta boa parte do tempo tentando compreender uma das áreas mais nebulosas do conhecimento: a consciência humana. É difícil encontrar um desafio mais instigante para um cientista, diz Damásio. Afinal, o que poderia ser mais fascinante do que conhecer o modo como conhecemos?
Em seus dois livros, O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência (editados no Brasil pela Companhia das Letras), Damásio descreve como a consciência abriu caminho para uma verdadeira revolução na natureza, tornando possível o surgimento da religião, da moral, da organização social e política, das artes, da ciência e da tecnologia. Ele tenta encontrar as respostas para as questões mais antigas da filosofia pesquisando o que há de mais novo no conhecimento do cérebro. Depois da polêmica em torno da clonagem humana, ele prevê que os debates mais fervorosos da ciência estarão ligados à possibilidade de manipularmos nossas emoções por meio de uma melhor compreensão da mente.

Qual a origem da consciência humana?
A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. É claro que, na natureza, existe uma série de organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Desde que mantenham cuidados básicos, como evitar perigos e adquirir a energia por meio dos alimentos, a vida desses organismos pode ser preservada. Os seres humanos são mais complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planejamento. A consciência surge dessa necessidade.

Existe uma primeira forma de consciência?
Uma forma de consciência inicial aparece quando o homem sente que ele é um ser em si mesmo. É difícil encontrar uma palavra, em português, para definir o processo. Chamo essa consciência de self. É ela que faz que não sejamos um robô, uma máquina manipulável. Podemos guiar a imaginação e conduzir a criatividade por meio dessa consciência. Para compreendermos o que é a dor, o sofrimento, e também o prazer das outras pessoas, precisamos antes ter uma idéia de quem somos. E a consciência self é fundamental para que possamos respeitar os outros.

Como o estudo da consciência pode melhorar a vida das pessoas?
Grande parte do sofrimento humano é causado por conflitos das pessoas consigo mesmas. Quando conhecemos mais a natureza biológica do homem, encaramos esses problemas com outro olhar. Se conhecemos os mecanismos que acionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como cada pessoa é e evitar certos problemas. Pense nos conflitos religiosos, políticos e de grupos sociais. É claro que há bases econômicas para eles mas acredito que a compreensão das emoções pode ajudar a mudar a maneira pela qual as pessoas tentam resolver essas disputas. Entender a tendência para a violência, para a competição ou o funcionamento do medo é fundamental para o autocontrole. Posso soar otimista, mas acredito que, quando admitirmos que nossa razão é influenciada por essas emoções, o mundo poderá tornar-se melhor.

A compreensão detalhada da consciência não pode nos tornar mais céticos ao descobrirmos, por exemplo, que há, no cérebro, uma região responsável pelo amor ou outra pela fé?
Mesmo que venhamos a compreender a mente com mais profundidade, será muito difícil desvendar mistérios como a origem do universo ou o que faz com que nos apaixonemos por outra pessoa. É possível que nunca cheguemos a desvendar essas questões talvez nosso cérebro não tenha capacidade para compreender certos enigmas...

Como a crença em Deus...
Exatamente. Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. Elas podem até deixar de acreditar em milagres. Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure.
A cada ano surgem um novo antidepressivo e drogas que provocam emoções artificiais.

Você acredita que, no futuro, teremos uma droga que possa acabar com as emoções ruins?
Acho que sim. É uma questão importante, que precisaremos discutir cada vez mais. Imagine uma superpopulação tomando Prozac diariamente. Esse grupo de pessoas alteraria um sistema natural e poderia causar diversos problemas é claro que alguns problemas seriam resolvidos, mas as conseqüências da proliferação dessa medicação poderiam levar à ruína de uma sociedade. Tem que haver mais investigação sobre como essas drogas serão usadas. É claro que as pessoas deprimidas devem ser tratadas, mas pode ser um erro tomar o medicamento apenas para inibir a timidez e impulsionar a vida social. A ciência precisa trazer mais informações para que esses temas não sejam discutidos pela simples opinião ou intuição de algumas pessoas.

Chegaremos, um dia, a manipular tão bem as áreas do cérebro que poderemos reproduzir com uma pílula a sensação de voar ou de passear numa montanha russa?
É bem provável que isso seja possível. E, sem dúvida, para a sociedade esse será um assunto tão polêmico quanto o da clonagem genética. Vamos ter que decidir o que deve e não deve ser permitido exatamente como na regulamentação da indústria do cinema e da televisão. Há um ponto em que tanto a criação artística quanto a científica precisam ser filtradas pela sociedade. Mas não podemos deixar que um burocrata decida isso. Quanto mais informações forem divulgadas no futuro, inclusive por meio desta revista, mais condições a sociedade terá para tomar suas decisões.

Que outro tipo de realidade virtual poderá ser criada, no futuro, manipulando o cérebro?
Prefiro não especular, tudo ainda não passa de teoria.

O estudo da consciência humana é um campo da ciência à espera de um novo Newton?
O problema da consciência é um tema complexo, que tem sido mal abordado. É evidente que é necessário avançar muito mais. Acho que meu livro O Mistério da Consciência traz alguns avanços importantes sobre o assunto, mas não devemos ter a ingenuidade de acreditar que tudo está resolvido. Há imensos problemas à espera de mais investigação e trabalho. Nos próximos dez ou 20 anos, talvez seja possível resolver boa parte deles.

Como escrever sobre assuntos tão complexos para o público leigo?
Os temas sobre os quais escrevo são importantes demais para ficarem restritos aos cientistas. Escrever sobre o pâncreas ou o fígado pode ser atraente apenas para os médicos, mas o público tem interesse quando falamos da mente, do pensamento, da emoção e do sentimento. É fantástico o retorno que tenho recebido dos leitores dos meus livros em todo o mundo. Interessados em arte, literatura e cinema dizem que essa pesquisa os ajuda a compreender melhor o que fazem nas suas próprias áreas.

ENCONTRADOS RESTOS DE UMA NOVA ESPÉCIE HUMANA, NAS FILIPINAS.

Descoberto o ‘Homo luzonensis’, 
um misterioso hominídeo que viveu há 67.000 anos



A descoberta obriga a mudar mais uma vez os livros, pois a lista de membros do gênero Homo que habitavam a Terra naquele período passa dos cinco conhecidos (neandertais, denisovanos, hobbits de Flores, erectus e sapiens) para seis...CONTINUAR LENDO.

DESCOBERTA INCRÍVEL: CÉLULAS DOS FILHOS ESTÃO ALOJADAS NOS CÉREBROS DAS MÃES

Os avanços tecnológicos estão ajudando a entender a complexidade biológica da reprodução humana.

Descobertas recentes confirmam que o “milagre da vida” envolve questões que vão muito além da gestação de uma criança no útero materno...CONTINUAR LENDO.

SENSAÇÃO DE DÉJÀ VU. O QUE A CIÊNCIA JÁ SABE?

Déjà vu é matéria de discussão, filmes, livros, mistérios. Mas o que é exatamente déjà vu? “É o sentimento que você já fez exatamente a mesma coisa antes – já esteve naquele lugar ou já realizou aquela atividade em particular – quando você sabe que não fez”, explica a especialista no assunto, Anne M. Cleary.


Segundo Cleary, nem todo mundo experimenta a sensação, mas a maioria das pessoas sim. Talvez seja um curto-circuito no cérebro. Ou uma memória distante que escorregou para o presente. Ou as duas coisas e algo mais. Seja qual for o caso, o déjà vu não é apenas um sentimento estranho e irrelevante na vida: a melhor compreensão do fenômeno quase certamente levará a uma melhor compreensão de como nosso cérebro funciona.


Akira O’Connor, que estuda déjà vu na Universidade de St. Andrews, na Escócia, afirma que os jovens, da adolescência a meados dos 20 anos, experimentam mais déjà vu. Pessoas cansadas também têm a sensação com mais frequência, como aqueles que viajam muito. Mesmo com muitos mais anos armazenados em seus bancos de memória, as pessoas mais velhas não são tão propensas a déjà vu.


Quando a maioria de nós sente um déjà vu, achamos um pouco esquisito ou mesmo significativo – quem nunca pensou que poderia ser uma lembrança de uma vida passada?

A maioria simplesmente continua com seu dia. Outros não são tão sortudos: algumas pessoas sofrem de déjà vu, uma sensação de já ter vivido antes.


“Parece louco, até divertido, mas na realidade é extremamente inquietante e muda drasticamente o comportamento das pessoas”, conta O’Connor. “As pessoas acham que experimentam a sensação mais fortemente com novas experiências. Como eles acham essa situação inquietante, tendem a evitar a novidade, com a triste consequência de que podem retirar-se do mundo para um pequeno universo de familiaridade, assistindo reprises de filmes e programas de TV o tempo todo porque isso lhes traz menos angústia”, explica.


Não há nenhum tratamento para pessoas com essa condição, que é muitas vezes relacionada com problemas de memória e envelhecimento.

Mas como pode ter um tratamento se não há nem uma compreensão clara do que causa o déjà vu e sentimentos relacionados a ele?


Cleary afirma que algumas possíveis causas da sensação estranha incluem erros na forma como o cérebro processa o mundo que nos rodeia ou breves disfunções neurológicas, como uma atividade cerebral espontânea que desencadeia um sentimento inadequado de familiaridade, ou uma pequena convulsão. Também, múltiplas causas podem trabalhar juntas.


Por enquanto, os pesquisadores estão encontrando novas maneiras de analisar o déjà vu. Cleary está usando realidade virtual para ver se pode acionar o sentimento nas pessoas e descobrir exatamente o que em uma “cena” faz o déjà vu acontecer. Já se sabe que visão não é necessária, pois pessoas cegas têm déjà vu também.


“Os pesquisadores precisam descobrir o que causa a desconexão entre o sentimento de que algo é familiar, e saber que esse algo não pode ser familiar”, diz O’Connor. “Quero entender quais partes do cérebro estão associadas com o sentimento de familiaridade e quais partes estão associadas com o saber que algo deve ou não deve evocar memórias”, conta.
Por Natasha Romanzoti

BEBER MAIS DE SETE LATAS DE CERVEJA POR SEMANA REDUZ EXPECTATIVA DE VIDA – Clarissa Pains

Estudo com 600 mil pessoas de 19 países 
mostra que limites recomendados 
de consumo vão além do ‘saudável’

Cinco taças de vinho ou sete latas de cerveja tipo pilsen tradicional por semana. Deveria ser essa a quantidade máxima de ingestão de bebidas alcoólicas para evitar risco de doenças cardiovasculares, conclui um estudo liderado por pesquisadores britânicos e publicado nesta quinta-feira na revista científica “The Lancet”.

Ao analisar dados de quase 600 mil pessoas de 19 países, os autores observaram que aquelas que bebem mais do que 100g de álcool semanalmente — o que equivale a essas sete latas de cerveja pilsen — têm uma expectativa de vida significativamente mais baixa que as que bebem menos que isso. Para quem bebe entre 100g e 200g, a expectativa é de morrer seis meses antes do que se esperaria, e esse índice só se agrava à medida que o consumo de álcool aumenta. Entre as pessoas que bebem mais de 350g por semana, há uma redução de até cinco anos na expectativa de vida.

A partir desses dados, uma das principais interpretações trazidas pelo estudo é que os limites de álcool recomendados mundo afora deveriam ser reduzidos. As diretrizes em países como Itália, Portugal e Espanha, por exemplo, são quase 50% mais altas do que os 100g usados como referencial na pesquisa. Nos EUA, o limite recomendado para homens é quase o dobro: 196g por semana, ou dez taças de vinho. Já para mulheres, devido a diferenças metabólicas, a recomendação é de até 98g por semana.

No Brasil, não existe uma recomendação oficial do quanto de álcool seria aceitável ingerir para não aumentar a possibilidade de doenças. Especialista na área, a professora Zila Sanchez, do Departamento de Mecina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) explica que esse tipo de diretriz existe basicamente em países ricos. Ela ressalta que a falta de uma definição sobre a quantidade de ingestão de álcool aceitável aqui dificulta estudos acadêmicos sobre o assunto e prejudica as orientações dos médicos no dia a dia do sistema de saúde.

— Do ponto de vista de ciência do álcool no Brasil, ter uma diretriz oficial de quantos gramas representam uma dose e de quantos gramas são recomendados semanalmente faria uma diferença brutal para as pesquisas, porque padronizaria os estudos. Hoje, temos grande dificuldade de comparar estudos feitos dentro do país, porque cada um se baseia em uma medida internacional diferente. Do ponto de vista de saúde pública, ter uma diretriz também faz todo o sentido, porque o médico pode conversar melhor com o paciente sobre o assunto — afirma a pesquisadora.

Cientificamente, a quantidade de álcool é sempre medida em gramas, e é possível ingerir uma quantidade grande de álcool em apenas poucas doses de bebida, porque depende do teor alcoólico de cada uma. Por exemplo, uma cerveja tem, em média, 5% de álcool; já o vinho, em torno de 13%; e o whisky, por volta de 40%.

Também não se deve beber tudo de uma vez
Embora o estudo traga como relativamente livre de risco uma ingestão de sete latas de cerveja por semana, Zila alerta para a diferença entre beber uma lata por dia e beber todas as sete de uma só vez.

Segundo ela, ingerir essa quantidade de álcool em um intervalo de apenas duas horas em uma festa, por exemplo, é “o pior padrão de consumo”. E esse padrão tem até nome: binge drinking. O que o caracteriza é, no caso dos homens, a ingestão de cinco ou mais latas de cerveja em um período de duas horas, e, no caso das mulheres, quatro ou mais latas no mesmo período.

— O binge drinking, já muito estudado, é entendido como o pior padrão de consumo de álcool, porque a pessoa que o pratica começa a se envolver em atividades nas quais não se envolveria se não estivesse intoxicada, como brigas com pessoas bem mais fortes ou relacionamento sexual inseguro. Então, não se pode achar que é a mesma coisa beber uma latinha por dia e encher a cara no final de semana. Esse é um comportamento de risco — diz Zila.

O estudo na “The Lancet” mostra que o álcool aumenta o risco de qualquer tipo de doença cardiovascular: acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, doença hipertensiva fatal e aneurisma aórtico fatal. O risco só declina em relação a infarto do miocárdio. Para David Sullivan, da Escola Médica da Universidade de Sydney, que não participou do estudo, a resposta sobre como as pessoas devem agir fica clara ao se colocarem essas informações na balança.

— Não adianta proteger contra infarto e gerar todas as outras doenças cardiovasculares possíveis — pontua. — Quando as duas tendências são consideradas juntas (taxa de consumo de álcool e taxa de doenças cardiovasculares), qualquer benefício do álcool é eliminado para ingestões de mais de 100 gramas por semana.

Para mulheres, o consumo de álcool é ainda mais perigoso — justamente por isso os países que têm diretrizes costumam diferenciar as recomendações de acordo com o gênero. Isso se explica porque, entre outros aspectos, as mulheres produzem uma quantidade menor da enzima responsável por degradar o álcool. Em decorrência disso, uma mesma dose de bebida ingerida por uma mulher faz com que ela fique, em média, com 30% a mais de concentração alcoólica no sangue do que um homem ficaria.

De acordo com Jason Connor, do Centro de Pesquisas para Abuso de Substâncias na Juventude da Universidade de Queensland, na Austrália, o estudo traz informações robustas que são capazes de influenciar o modo como países lidam com o tema.

— Os níveis de consumo recomendados nesse estudo serão, sem dúvida, descritos como implausíveis e impraticáveis pela indústria do álcool e outros opositores das advertências de saúde pública sobre o álcool. No entanto, os resultados devem ser amplamente divulgados e precisam provocar um debate público e profissional informado — comenta o especialista.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), são registradas anualmente 3,3 milhões de mortes resultantes do consumo excessivo do álcool. Isso representa seis mortes a cada minuto. A faixa etária mais preocupante é a dos 20 aos 39 anos, dentro da qual aproximadamente 25% do total de mortes são atribuídos ao álcool. A meta da OMS é que os países reduzam em 10% o consumo abusivo de álcool até 2020.

Uma crítica feita por vários pesquisadores à abordagem do estudo é a falta de dados relacionados à incidência de câncer por causa do álcool. Ainda segundo a OMS, hoje já se sabe que as bebidas alcoólicas estão relacionadas a 10% dos cânceres de intestino grosso e 8% dos cânceres de mama, por exemplo.
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CIÊNCIA COGNITIVA NA SALA DE AULA - Daniel T. Willingham

Professores precisam de fontes confiáveis para diferenciar 
modas e falácias de métodos comprovados

A maioria dos professores concordaria que é importante que os alunos se lembrem do que leem. Mas uma das coisas mais comuns em escolas e faculdades é vê-los debruçados sobre livros, marca-textos na mão, destacando passagens pertinentes – que geralmente acabam incluindo a maior parte da página. No final do semestre eles se preparam para as provas, voltando aos livros e relendo os blocos amarelos do texto.

Pesquisas mostraram que destacar e reler textos estão entre as maneiras menos eficazes de os alunos se lembrarem do conteúdo que leram. Uma técnica muito melhor é fazer uma dinâmica em grupo. Em um estudo, alunos que leram determinado texto uma vez e tentaram lembrá-lo em três ocasiões tiveram notas 50% maiores nas provas que alunos que leram um texto e depois o releram três vezes. E ainda assim muitos professores insistem em encorajar – ou pelo menos em não desencorajar – as técnicas que a ciência provou ineficazes.

Esse é apenas um sintoma do fracasso geral de integrar o conhecimento científico na escola. Muitas ideias comuns sobre educação desafiam princípios de cognição e aprendizagem. Um erro comum, por exemplo, é pensar que o ensino de conteúdo é menos importante que o de habilidades de pensamento crítico ou estratégias de resolução de problemas. Pesquisadores sabem há muito que crianças devem aprender as conexões entre letras e sons e que se beneficiam mais quando essa instrução é planejada e explícita. Mas alguns programas de leitura, mesmo os usados em grandes distritos escolares, só ensinam isso se o professor considerar necessário.

É fácil dizer que os professores devem se esforçar mais para acompanhar a ciência, mas ensinar já é uma profissão muito trabalhosa. E é difícil para um não especialista separar pesquisas científicas da avalanche de falação e pseudociência. Vendedores de panaceias caras e supostamente baseadas em pesquisas científicas fazem lobby de produtos que podem ter validade científica mas ainda não foram profundamente testados. Teorias de aprendizagem matemática, por exemplo, sugerem que jogos de tabuleiro lineares (mas não circulares) aumentam a prontidão matemática em pré-escolares, mas a ideia precisa de testes em grande escala.

Como os educadores devem saber quais práticas adotar? Uma instituição que consulte pesquisas e as resuma poderia resolver o problema. A medicina fornece um precedente: médicos praticantes não têm tempo para se manter atualizados com as dezenas de milhares de artigos de pesquisa publicados anualmente, capaz de sugerir uma mudança de tratamento. Em vez disso, eles confiam em sumários respeitáveis de pesquisas, publicados todo ano, que concluem se as evidências acumuladas apoiam mudanças na prática médica. Professores não têm nada semelhante a essas revisões competentes: eles estão por conta própria.

O Departamento de Educação dos Estados Unidos (DOE, em inglês) tentou, no passado, levar rigor científico ao ensino. A câmara What Works, criada em 2002 pelo Instituto de Ciências Educacionais do DOE, avalia currículos, programas e materiais de sala de aula, mas seus padrões são estritos e professores não têm participação no processo de verificação, tampouco na avaliação – e isso é crucial. Cientistas podem analisar pesquisas, mas professores entendem de educação. O propósito dessa instituição seria o de produzir informações que possam ser usadas para modelar ensino e aprendizagem.

É importante também que ideias fornecidas por uma instituição venham da ciência básica. Muitos professores precisam perder as noções de que crianças têm “estilos de aprendizagem” diferentes e que cérebro de menino é melhor em atividades espaciais que o de menina. Pode-se dizer que o trabalho de levar informações científicas precisas sobre cognição e aprendizagem a professores seja responsabilidade de faculdades de educação, estados, distritos e organizações profissionais de professores, mas essas instituições mostraram pouco interesse na função. Um conselho nacional de revisão neutro seria a resposta mais simples e rápida para um problema que é um grande obstáculo para a melhoria em muitas escolas.


EXERCÍCIOS FÍSICOS DEIXAM NOSSO CÉREBRO MAIS INTELIGENTE – Entrevista com o Neuropsiquiatra de Harvard John Ratey

Exercícios frequentes são mais potentes que remédio

Os exercícios nos deixam mais inteligentes. Quem afirma é o neuropsiquiatra John Ratey, professor da Harvard Medical School e autor do livro “Corpo ativo, mente desperta” (Editora Objetiva). Em entrevista ao GLOBO, ele diz que os exercícios são mais importantes que qualquer remédio para as funções cerebrais:
Fabricamos novas células cerebrais todos os dias e os exercícios ajudam mais que qualquer outra atividade.

1 - O que atraiu seu interesse para esta área?
JOHN RATEY: Inicialmente os exercícios eram vistos como menos potentes que as drogas antidepressivas, mas hoje sabemos que são tão bons quanto e, em alguns casos, até melhores que os remédios. Sempre fui um atleta e percebi em mim a importância dos exercícios para manter meu cérebro, humor e motivação nos melhores níveis.

2 - Como os exercícios melhoram as funções cerebrais?
RATEY: Os exercícios regulam ansiedade e níveis de estresse, além de otimizar o aprendizado de três maneiras: melhoram os sistemas de atenção, a memória, a capacidade de aprendizado e a habilidade de perseverar e superar as frustrações que o processo de aprendizado eventualmente produz; criam o ambiente certo para nossas cem bilhões de células nervosas, fabricando mais neurotransmissores e receptores para registrar novas informações; e promovem o surgimento de novas células no cérebro, um processo chamado neurogênese.

3 - Então a atividade física regular também nos deixa mais inteligentes?
RATEY: Sim. O exercício otimiza as chances de aprendizado ao nos deixar mais prontos para aprender, ao fazer com que o cérebro esteja preparado para se desenvolver e talvez até adicionando novas células nervosas às áreas envolvidas com a memória e o aprendizado. Mas é especialmente importante por aumentar a liberação do fator neurotrófico BNDF, um verdadeiro fertilizante para o cérebro por encorajar nossas células nervosas a crescerem, que é a maneira como aprendemos.

4 - Os exercícios estão ganhando respeito como uma opção de tratamento?
RATEY: As pessoas estão gradualmente reconhecendo o fato de que a atividade física é uma terapia auxiliar útil para desordens mentais e médicas. Hoje o primeiro tratamento para a depressão ou a ansiedade são exercícios regulares. Há dez anos a Câmara dos Comuns do Reino Unido disse que os exercícios deveriam ser o tratamento primário para a depressão, então eles estão na mente das pessoas e começando a ter aceitação na comunidade médica.

5 - Os exercícios também podem aliviar o estresse?
RATEY: Sim, tanto em termos de diminuir a resposta a situações de estresse quanto aumentando a resistência ao estresse. À medida em que a pessoa melhora o condicionamento, é preciso uma ameaça maior para disparar seu alarme de estresse, pois a atividade física muda a neuroquímica do cérebro, assim como trabalha no nível celular para proteger as próprias células do estresse.

6 - Quais são os melhores exercícios?
RATEY: É muito bom juntar artes marciais com dança, como na brasileira capoeira. A questão é aumentar os batimentos cardíacos e mantê-los altos por um tempo, adicionando complexidade e coordenação que vão desafiar mais áreas do cérebro, estimulando a liberação de fatores neurotróficos e desenvolvimento. Outras atividades que ganharam popularidade, como a ioga, também ajudam a desafiar o corpo e a mente, provocando mudanças magníficas no cérebro.
Ana Lúcia Azevedo – O Globo

A LOUCURA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE - Willian Vieira

Transtornos mentais sempre existiram, mas o tratamento como doença  é tão recente quanto a guilhotina. Saiba como a loucura já foi encarada.

Na Antiguidade grega, a loucura tinha um caráter mitológico que se misturava à normalidade. Num tempo em que a noção de passado era vaga, a escrita inexistia e os deuses decidiam tudo, o "louco" era uma espécie de ponte com o oculto. De sua boca, vinham informações quentinhas lá de cima, e não se tinha dúvida: eram eles, os deuses, que decidiam que tipo de loucura a pessoa teria. Isso até Hipócrates, o pai da medicina, estragar a festa do panteão, lá por volta do século 4 a.C.

"Se a voz dele (o doente) ficar mais intensa, comparam-no a um cavalo e então se afirma que Poseidon é o responsável", ironizava. "Um absurdo", pensava ele, que finalmente separou doença mental de deuses e mitos. Hipócrates sistematizou então a teoria dos humores. Era a bílis que afetava o comportamento e causava a loucura, fosse melancolia ou mania - ou seja, loucura calma ou agressiva. Confusão ainda maior estava em crer que o pânico era causado pelo deslocamento do cérebro, por sua vez aquecido pela bílis vinda pela corrente sanguínea.
Platão também deu seu pitaco no século 5 a.C. - e desde então, até o século 19, a filosofia foi a linha mestra para entender a loucura. Sua teoria das 3 mentes (a racional, a emotiva e a instintiva) pregava: se uma delas se desequilibrasse, surgia a desordem mental. Claro, o que para eles causava o desequilíbrio eram as glândulas, e não o cérebro. A coisa muda pouco com os romanos. Galeno (130 d.C.) incrementou a hipótese da boa e velha bílis: a amarela causaria a mania (alegre, furiosa ou homicida), e a negra, a melancolia. Assim, com poucas variações, a relação entre corpo e mente virou a base para compreender a loucura - o que seria retomado durante o Renascimento, após um longo intervalo em que Deus (dessa vez, um só) voltou com força total: a Idade Média.

Idade Média
Vade retro, Satanás
Em se tratando de loucura, estereótipos sobre a Idade Média se encaixam como uma luva bem pouco cirúrgica: nada de bílis amarela ou negra nem de cérebro deslocado, mas o Capeta em carne e osso. As referências que se cristalizaram sobre o período vêm dos textos de santo Agostinho e são Tomás de Aquino, os maiores pensadores religiosos da Idade Média. Ambos pregaram a vida perfeita, moralmente sã, tudo direitinho, segundo a Bíblia. Qualquer coisa que se fizesse de errado era pecado.
Para santo Agostinho, o que separava o homem do animal era o dom da razão. Se o homem a perdesse, logo se reduzia a um animal, a punição divina para a alma pecadora. Bastava um comportamento estranho (um transtornozinho de personalidade ou um episódio psicótico dos bravos) e o cara era imediatamente taxado como possuído pelo demônio. A loucura não era um problema psiquiátrico porque, afinal, ainda não existia a psiquiatria. A mente era um conceito filosófico, moral. E, nessa época, a moral provinha de Deus.
A depressão de nossos dias era especialmente "má", digna de entrar na lista de pecados capitais: a "acedia", um tipo de "preguiça" que distanciava a pessoa do amor e da misericórdia de Deus. Uma indolência sem fim, causada por uma quantidade tão grande de pecados que arrependimento algum serviria para absolvê-los. Afinal, a acédia comprometia a alma a ponto de não sobrarem mais forças para as penitências, muito menos para as obras de Deus.
Se a pessoa fosse endemoniada, o que fazer com o pecador? Havia as práticas inquisitoriais padrão, mas também era comum trancar os loucos em um navio e mandá-los para outra cidade, exilados. Os loucos sumiam e isso era considerado perfeitamente normal.

Séculos 17 e 18
Perda da razão
O Renascimento veio, as ditas trevas anticientíficas ficaram para trás e, conforme o Iluminismo chegava, os loucos continuaram a se dar mal - só que agora de forma mais racional. A loucura sai do mundo das forças naturais ou divinas e se torna a falta da razão. Surge a noção de alienação das faculdades mentais - memória, razão e imaginação -, dessa vez com causas internas, e não pela ação da bílis ou de demônios.
Quer dizer que tudo melhorou? Não. Com o fim da lepra, esvaziaram-se os leprosários espalhados por toda a Europa. Que ideia poderia fazer então mais sentido do que rebatizá-los de "hospitais gerais" e mandar para lá todos os que não conseguissem seguir as normas estabelecidas pela razão? Mendigos, loucos, inválidos. Todos iam para o mesmo saco, expostos ao público para mostrar o que acontecia com quem se afastasse da razão. Afinal, a medicina ainda engatinhava em relação aos males da mente, e, equanto isso, a filosofia virava escrava da razão. A lógica era simples: quem pensa chega à razão, e a razão leva à virtude. Já o "louco", desprovido de razão, cai no vício. Torna-se a falta de controle, o perigo. Para evitar o escândalo de ter um louco em casa, famílias pediam a internação de seus parentes.
Uma vez irracional, o louco era visto e tratado como um animal. A descrição de um manicômio francês pelo filósofo Michel Foucault em A História da Loucura na Idade Clássica dá conta disso. "As loucas acometidas por um acesso de raiva são acorrentadas como cães à porta de suas celas e separadas das guardiãs e dos visitantes por um corredor defendido por uma grade de ferro; através dessa grade é que lhes entregam comida; por meio de ancinhos, retira-se parte das imundícies que as cercam."

Século 19
A doença mental
O medo de ser internado chegou ao auge nas vésperas da Revolução Francesa. Bastava sua família zangar-se com você ou seu vizinho decidir aumentar sua propriedade para denunciá-lo como louco. Protestos de internos mentalmente saudáveis inconformados em viver com os insanos também pipocavam. Mas junto à Revolução Francesa veio a revolução psiquiátrica: em 1793, o médico francês Philippe Pinel transformou a loucura de uma questão de ordem social para uma questão médica. Agora, a ciência a veria como uma doença que deve ser curada.
O tratamento de Pinel se baseava em vigiar constantemente o comportamento do interno. Qualquer desvio deveria ser imediatamente comunicado - e punido. Era quase pavloviano, como educar um cachorro nos dias de hoje. Depois de um tempo, muitos pacientes de fato mudavam de comportamento.
Assim nascia uma ciência ocupada em estudar a cognição e as emoções. Na Alemanha, Wilhelm Wundt fundava o primeiro laboratório de psicologia, enquanto os americanos tomavam a frente na pesquisa da psiquiatria. Mas a próxima grande virada viria em 1886, quando Sigmund Freud pariu a psicanálise e, em 1900, quando publicou a Interpretação dos Sonhos, no qual analisa distúrbios de personalidade com base na sexualidade vivida durante a infância.
Só que tudo isso acabou virando uma bagunça: psiquiatria, psicologia e psicanálise se intercambiavam para tratar transtornos mal definidos e pouco conhecidos. E a maior vítima continuava sendo o "louco", que, se por um lado podia ser tratado, passou a ser visto sob o estigma da doença.

Século 20
Faca ou pílula?
No século 20, a ciência deu um enorme salto nos tratamentos médicos de doenças mentais. O início foi bizarro (leia ao lado): comas induzidos, lobotomia, eletrochoques. Isso melhorou um pouco na década seguinte, com o desenvolvimento de sedativos para acalmar pessoas com quadros psicóticos e estimulantes para "levantar" depressivos. Começava a era da psicofarmacologia.
Em 1950, foi sintetizado o primeiro remédio específico: a clorpromazina, que acalma o paciente psicótico sem deixá-lo grogue. Isso fez com que, em vez da mesa de cirurgia, bastasse ir para a farmácia, evitando muitas lobotomias. Em 1959, veio o antidepressivo e, um ano depois, o ansiolítico benzodiazepínico. A eficácia desses medicamentos transformou a psiquiatria - e a indústria farmacêutica.
"Com os antipsicóticos, os pacientes deixariam de passar 30 anos num manicômio para ficar só 30 dias. Ou seja, eram tratados e devolvidos à sociedade, que teve de aprender a lidar com eles de outras formas", diz Renato del Sant, psiquiatra e professor da USP.
O último grande capítulo dos medicamentos viria em 1986: a fluoxetina (Prozac), ainda hoje usada contra transtornos como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome do pânico e bulimia. No cérebro, a substância impede a reabsorção de serotonina, neurotrasmissor associado ao bem-estar. Por ter menos efeitos colaterais que seus concorrentes, o Prozac virou sinônimo de uma geração inteira de pessoas menos "depressivas", a tal Geração Prozac, que virou até nome de filme.
Mas a psiquiatria passou também por sérias críticas. Primeiro, por se apoiar às vezes apenas em medicamentos. "Por causa da força da indústria farmacêutica, a psiquiatria passou a tratar o cérebro como se fosse um fígado e o ser humano como um grande camundongo, que só tivesse funções bioquímicas, e não um contexto social", afirma Del Sant. Outra crítica foi escancarada em 1972 num estudo de David Rosenhan, professor da Universidade de Stanford.
Nele, 8 voluntários sadios se consultaram em diferentes hospitais psiquiátricos alegando ouvir vozes - a única mentira que contaram. Mesmo assim, 7 deles foram diagnosticados com esquizofrenia e internados até 52 dias em hospitais incapazes de reconhecer os falsos pacientes. Conclusão: ainda não sabemos distinguir insanidade de sanidade.

Século 21
Neurociência e genética
Os remédios e o guia DSM revo-lucionaram o modo como transtornos mentais são tratados, mas estão longe de resolver o problema. Só nos EUA, segundo estudo publicado na revista Science em 2010, as perdas econômicas causadas por transtornos mentais passam de US$ 200 bilhões anuais - o equivalente ao PIB de Israel. A luz no fim do túnel pode estar em duas frentes de pesquisa: o estudo do genoma e o mapeamento dos circuitos neurais.
O mapeamento do cérebro tem revelado quais as áreas envolvidas em cada tipo de transtorno. Males como depressão, ansiedade extrema e transtorno obssessivo-compulsivo já foram mapeados - só não se sabe ainda como funcionam e como curá-los. Essa é a promessa para o futuro. Outras pesquisas rastreiam quais circuitos neurais se ativam num dado processo mental: com uso de raios de luz e proteínas, tais circuitos poderiam ser "ligados" e "desligados". Mas só foram testados em bichos.
Outros estudos também identificam genes que podem causar o mau funcionamento de circuitos neurais. Como cada circuito é determinado por milhares de genes, um problema em alguns genes pode trazer uma batelada de sintomas que caracterizam um transtorno.
Mas a relação entre genes e transtornos não é simples. Diferentes problemas genéticos podem acarretar os mesmos sintomas e, consequentemente, um mesmo diagnóstico. Assim, é possível que haja inúmeras causas genéticas para os mesmos transtornos. Como se vê, faltam ainda enormes passos até se encontrar uma cura por terapia genética. Mas ela seria uma revolução para a neurociência e para a psiquiatria.
Enquanto isso, o dia a dia de pacientes mentais tem melhorado. O movimento antimanicomial deu uma grande ajuda para libertar pessoas antes trancafiadas em hospícios. Grandes manicômios brasileiros, famosos por cenas horrendas de gente pelada correndo entre fezes, foram substituídos pelos Centros de Apoio Psicossocial, onde pacientes recebem tratamento, mas não residem mais. Mesmo em casos graves de esquizofrenia, eles passam a maior parte do tempo com a família. É fato que transtornos mentais ainda carregam um estigma pesado. Mas as coisas estão mudando.
Tratamento de choque
No começo, era o caos. Assim que se descobriu que as convulsões conseguiam aliviar alguns sintomas psiquiátricos, nos anos 1930, o eletrochoque tornou-se o tratamento com melhores resultados para diminuir a agressividade de pacientes. Só que os aparelhos eram primitivos, e a aplicação, quase intuitiva. Não se sabia qual corrente elétrica usar, onde aplicar, nem por quanto tempo. E não havia anestesia ou relaxantes: era aplicado a seco, muitas vezes como punição a "maus pacientes". O resultado eram pacientes com memória afetada, apáticos, "abilolados". Mas, sem remédios antipsicóticos, as clínicas psiquiátricas não tinham nenhuma técnica melhor.
Com o tempo, o eletrochoque, hoje chamado de ECT (eletroconvulsoterapia), voltou com tudo, dessa vez humanizado. Primeiro vêm a anestesia e um relaxante muscular. Assim, o paciente não se debate, o que evita as clássicas fraturas e machucados. Batimentos cardíacos, pressão e respiração são monitorados, enquanto duas placas são postas na parte frontal da cabeça do paciente, deitado na maca. Basta uma sessão rápida de 120 volts e ele entra em convulsão, processo acompanhado por eletroencefalograma. O paciente mal se mexe. Meia hora depois, se estiver bem, toma o café no hospital e volta para casa. Em geral, o tratamento é feito com 3 sessões semanais.
Não é que não haja efeito colateral. Problemas de memória podem ocorrer no curto prazo, mas somem após 6 meses. Metade dos casos melhora. O resultado químico é similar ao dos antidepressivos - os choques ajudam a regular a liberação dos neurotransmissores -, com bons resultados para tratar depressão grave quando remédios não adiantam. E, por incrível que pareça, é o tratamento mais seguro nas depressões em gestantes. Isso porque não interfere na formação do feto, como fazem os medicamentos. Idosos que não querem tomar mais remédios do que já precisam também optam por ele. E, segundo os médicos, não é preciso ter medo: não dói nem queima os miolos.

Veja as técnicas mais loucas já adotadas contra a "loucura":

1. MALARIOTERAPIA
O psiquiatra austríaco Julius Wagner-Jauregg observou que pacientes com transtornos mentais, especialmente os decorrentes da sífilis, melhoravam quando tinham febre. Então passou a injetar sangue contaminado de pacientes com malária - a febre alta decorrente faria o resto. Isso rendeu a Jauregg o Nobel de Medicina em 1927.

2. BANHOTERAPIA
O doente era imerso em uma banheira de água gelada. Depois, enrolado em lençóis molhados. Achava-se que o choque térmico aumentaria o "sentimento de corporalidade" em esquizofrênicos. Isso porque é comum o esquizofrênico achar que parte de seu corpo não lhe pertença, o que pode levar a mutilações, como arrancar os olhos.

3. COMA DE INSULINA
Foi introduzido em 1933. Injetavam-se altas doses de insulina no paciente, 6 dias por semana, por até dois anos. Isso derrubava o nível de glicose, levando ao coma. Uma hora depois, o paciente recebia uma dose de glicose. Convulsões eram comuns. Bizarro, mas isso reduzia a "hostilidade" dos pacientes.

4. CARDIAZOL
Médicos concluíram que convulsões eram benéficas. Então um psiquiatra húngaro teve em 1934 a ideia de aplicar um estimulante cardíaco que, em altas doses, levava ao ataque epiléptico. Só que, até perder a consciência, a pessoa sofria até 3 minutos de um terror indescritível. A técnica foi derrubada pelo eletrochoque, em 1938.

5. PSICOCIRURGIA
Em 1935, o português António Egas Moniz experimentou cortar as conexões do córtex pré-frontal injetando álcool por um buraco para danificar tecidos cerebrais. Pacientes ficavam totalmente apáticos - e Moniz ganhou o Nobel. A melhoria da técnica - a lobotomia - virou regra em manicômios até os anos 1970.

Corrida maluca
Como o número de transtornos previstos cresceu em 6 décadas.
Como grande parte da ciência hoje, a classificação dos transtornos mentais tem os dois pés fincados na 2a Guerra, quando o governo americano tentava tratar os soldados vindos da batalha com a cabeça bagunçada. Dos 11 milhões de homens e mulheres que serviram à época, 1 milhão foi diagnosticado com algum transtorno psiquiátrico. Com base nesses casos, o Exército concluiu em 1946 um manual que classifica 47 transtornos mentais. A Associação Americana de Psiquiatria (APA) pegou o texto, deu um tapinha e o publicou em 1952 como Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais - o DSM, sigla inglesa. Nascia o guia definitivo dos transtornos mentais.

Em quase 6 décadas, o DSM abandonou a psicanálise de Freud para adotar diagnósticos baseados em listas de sintomas. Basta o paciente se encaixar em certo número desses critérios para o psiquiatra enquadrá-lo em um transtorno correspondente. Críticos dizem que isso ignora as causas dos transtornos (a maioria continua desconhecida) e leva à medicalização de quem não é doente - para o bem da indústria farmacêutica. Ao mesmo tempo, o guia atravessou fronteiras e se tornou um padrão global. Queiram ou não os pajés, os sacerdotes taoístas, pretos velhos e exorcistas, agora depressão é depressão, e esquizofrenia é esquizofrenia. 

AFINAL, OS ANIMAIS SÃO OU NÃO CAPAZES DE PENSAR?

Imagine um animal em situação de perigo. Antes de se aproximar do objeto ameaçador, ele apenas observa de longe seus movimentos. Depois, vencido pela curiosidade, se aproxima, não sem saltar para trás em apreensão – e precaução. Quando considera que não há perigo, ganha confiança e volta a agir normalmente.

Esse comportamento certamente parece inteligente. Os humanos poderiam muito bem se comportar de forma similar quando se deparassem com algo estranho e potencialmente perigoso. Mas o que realmente acontece com os animais: um processo de pensamento deliberado ou mero instinto animal?

A questão é antiga. Aristóteles e René Descartes acreditavam que o comportamento animal era governado puramente por reflexos. Já Charles Darwin e o psicólogo William James argumentaram que os animais deveriam ter uma vida mental complicada.

Agora, estamos mais perto do que nunca de resolver esse debate. Uma grande quantidade de relatos de comportamentos animais está fazendo muitos biólogos acreditarem que certas criaturas realmente têm pensamentos rudimentares.

Enquanto isso, as últimas imagens cerebrais de experimentos estão ajudando os cientistas a compreender que tipo de anatomia é necessária para um cérebro pensante.
Embora seja improvável que as vidas mentais dos animais sejam tão complexas quanto a nossa, há muito mais acontecendo em suas cabeças do que se pode imaginar.

Na década de 1970, o zoólogo americano Donald Griffin começou a esquentar esse debate. Ele foi uma das primeiras pessoas a descobrir a “ecolocalização” dos morcegos, e comportamentos tais como a capacidade dos castores de cortar pedaços de madeira para encaixar precisamente nos furos particulares de suas barragens, bem como a capacidade dos macacos de usar suas vozes (chamadas diferentes) para enganar os outros – tudo sugeria que os animais podiam pensar.

Os céticos achavam que isso era muito subjetivo. As observações de Donald perderam credibilidade por ele achar que todos os animais eram conscientes – ele queria provar que, cada vez que qualquer animal fazia qualquer coisa com qualquer ingenuidade, tão primitivo quanto um vaga-lume brilhando no escuro, ele estava consciente.

Hoje, no entanto, apesar do valor do trabalho de Donald, a pesquisa está mais objetiva e sistemática. Mais popular é a ideia de que as experiências mentais de outros animais se encontram em uma espécie de espectro, variando de um tipo primitivo de consciência ao fluxo rico e complexo de pensamentos da mente humana.

A mosca da fruta é o animal perfeito para explorar uma das extremidades desse espectro. Ao longo dos últimos anos, cientistas mostraram que esses insetos têm um pré-requisito essencial para a consciência: ao invés de responder aleatoriamente a tudo à sua volta, eles podem selecionar em que prestam atenção com base em suas memórias.

Por exemplo, as moscas são mais propensas a explorar novos objetos adicionados ao ambiente do que coisas que estiveram lá por um tempo. Quando os pesquisadores reduziram a capacidade da mosca da fruta de formar memórias, isso prejudicou sua capacidade de atender a novidade, de modo que os insetos responderam mais ao acaso.

Atenção flexível existe, provavelmente, até no mais simples cérebro, o que significa que muitas criaturas, incluindo peixes, anfíbios e répteis, também pode ter esse tipo de consciência. Sendo assim, quais animais, se houver algum, mostram sinais mais avançados de experiência mental?

Os melhores indícios até agora são de animais que exibem formas particularmente complexas de comportamento, como a capacidade de planejar o futuro.

Até recentemente, os cientistas acreditavam que essa característica era unicamente humana. No final de 1990, pesquisadores descobriram que o pássaro gaio-azul pode usar memórias específicas de acontecimentos do passado para fazer planos para os tempos à frente.

Em 2006, pesquisadores descobriram que essa capacidade se estendia aos beija-flores. Eles podem se lembrar da localização de certas flores e quão recentemente estiveram em um local, e usar essas informações para orientar seu comportamento futuro.

Desde então, os estudos sugerem que primatas, ratos e polvos mostram alguma aptidão para o planejamento futuro, também.

O problema é se esse comportamento é flexível. Se não, o ato pode ser apenas um instinto evoluído, por mais complexo que pareça ser. Por exemplo, corvos conseguem usar uma ferramenta “antiga” para um novo uso (um galho para verificar objetos potencialmente perigosos foi usado mais tarde para pegar comida dentro de um tubo).

Corvídeos podem até ser capazes de adivinhar o comportamento de outra ave. Por exemplo, experiências constataram que os corvos tomam medidas para proteger alimentos de outros corvos que poderiam tê-los visto escondendo-os, mas ficam despreocupados com corvos presos atrás de um obstáculo que teriam bloqueado a sua visão (e assim não teriam visto onde eles esconderam a comida). Em outras palavras, eles têm uma “teoria da mente” básica, que não é possível sem algum tipo de processo de pensamento.

Algumas outras criaturas também devem ter essa capacidade; não surpreendentemente os primatas estão entre essa elite. Se os chimpanzés roubam comida, por exemplo, são extremamente silenciosos se outro membro do grupo estiver ao alcance de sua voz. Mais impressionante ainda, eles parecem ser capazes de adivinhar como outro pode ter agido no passado.

Durante uma caça à comida, os chimpanzés tentam adivinhar onde seus concorrentes poderiam ter procurado primeiro, para que eles possam procurar em locais menos óbvios. Baleias, ursos e cães ainda não provaram suas habilidades neste tipo de tarefa, mas não deixam de mostrar alguns sinais de empatia que sugerem que eles também devem ter uma vida mental relativamente avançada.

No entanto, ainda falta uma característica importante do pensamento humano nos animais, chamada de “metacognição”: a habilidade de monitorar e controlar memórias e percepções, permitindo-nos pensar, por exemplo, “eu sei que eu sei isso” ou “eu não tenho certeza de que estou certo”, ou ainda sentir que o nome de alguém está na ponta de sua língua.

A importância disso para o pensamento humano é comparável ao uso da linguagem e das ferramentas. Evidência de metacognição em outros animais, portanto, seria uma grande prova da existência da mente animal.

Alguns cientistas começaram a explorar o assunto no início de 2000. Por exemplo, em um experimento, um grupo de macacos observou uma imagem e, depois de um tempo, tiveram que tentar selecionar a imagem de um grupo de quatro. Para quem acertasse, o prêmio era um amendoim.

Em um fluxo de experiências, no entanto, os macacos poderiam perder a chance de ganhar o amendoim, em troca de um prêmio garantido – um alimento processado de macaco menos desejável. Os cientistas suspeitam que os macacos deixavam “passar” essa opção quando não tinham certeza da resposta.

Ele estava certo. Macacos que tinham a oportunidade de “passar” para a frente desempenharam muito melhor nos testes do que 0s do experimento “tudo-ou-nada”. Isto sugere que, quando dada a oportunidade, eles eram totalmente capazes de avaliar a sua confiança na tarefa, fornecendo evidências convincentes para a metacognição no macaco.

Novas pesquisas sugerem que eles são parte de um conjunto selecionado com essa capacidade. Os chimpanzés, como os macacos, demonstraram metacognição, mas os macacos-prego, embora inteligentes em outras áreas, parecem cair nesse obstáculo. Os resultados para os golfinhos não são claros, mas já ficou certo que criaturas como o pombo não estão à altura do desafio.

Descobrir se outras espécies inteligentes como os golfinhos e, talvez, os corvos, possuem metacognição é crucial para nosso entendimento da mente.

Os cientistas precisam saber se a metacognição desenvolveu apenas uma vez, na linha dos primatas (que leva a macacos e humanos), ou se a característica se desenvolveu repetidamente e convergentemente, com picos de sofisticação cognitiva, em golfinhos, corvos, macacos e pessoas. Se esse for o caso, mudaria toda a nossa compreensão da evolução do cérebro dos primatas.

Muitos cientistas, entretanto, continuam achando que os humanos estão em um nível completamente diferente e muito maior de pensamento. Os chimpanzés, por exemplo, simplesmente não entendem conceitos físicos abstratos, como peso, gravidade e transferência de força.

Tente colocar uma banana perto da gaiola um chimpanzé e fornecer-lhe algumas ferramentas para alcançar seu potencial lanche. Ele estará tão propenso a tentar usar um material desajeitado e mole quanto um objeto rígido para alcançar a banana.

Ou seja, os chimpanzés podem raciocinar sobre coisas diretamente perceptíveis, mas somente os seres humanos têm um nível superior de pensamento que não depende apenas de estímulos sensoriais, permitindo-os formar conceitos mais abstratos, como gravidade ou força.

Esses cientistas céticos são minoria, mas continuam achando que os animais não têm consciência. Como Descartes, eles chegaram à conclusão de que a linguagem é essencial para o pensamento. Isso porque mesmo um comportamento engenhoso – que não envolva linguagem – pode ser feito sem estar consciente (veja os humanos dirigindo um carro sem nem pensar nisso). Os comportamentos que eles não concebem fazer inconscientemente são os que envolvem o uso de linguagem.

Um dos problemas nessa área é que os estudos de comportamento só podem chegar a um cerrto ponto: você poderia mostrar um animal como uma mosca colocando chapéu e vestindo roupas, e ainda algumas pessoas poderiam dizem que é apenas uma série de reflexos.

Por essa razão, alguns pesquisadores estão tentando novas abordagens que possam resolver o argumento de uma vez por todas. Imagens do cérebro é uma das possibilidades mais promissoras.

Por exemplo, pesquisadores usaram ressonância magnética funcional para estudar assinaturas de consciência do cérebro humano. Eles descobriram que existe um padrão similar de atividade neural cada vez que nos tornamos conscientes da mesma imagem de uma casa ou de um rosto, mas não processamos a informação da imagem inconscientemente. O trabalho sugere que o pensamento consciente não depende de qualquer região exclusivamente humana do cérebro, ou seja, não há nenhuma razão anatômica para dizer que o pensamento é exclusivo das pessoas.

Outro trabalho neurocientífico revelou alguns pré-requisitos importantes para a consciência que podem estar presentes em alguns animais. Conexões neurais que permitem que o tálamo transmita informações de sentidos para o córtex, por exemplo, parecem ser vitais para a percepção consciente. Outros mamíferos além de nós possuem tal conexão, por isso, eles têm pelo menos substratos para a consciência. Provavelmente podemos dizer o mesmo sobre as aves, o que parece se encaixar com as conclusões dos estudos comportamentais.

Algumas pessoas nunca vão se convencer do pensamento animal, já que acham que não há dados que possam responder a essa pergunta. Já outros estão otimistas com a procura dos equivalentes animais ao tálamo e córtex para resolver de vez o argumento. O que você acha?
Por Natasha Romanzoti [NewScientist]

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