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27 de jun. de 2020

NOSSOS ENCONTROS - Edmir Saint-Clair

Ela sempre me espera em absoluto silêncio.

Ao sentir minha presença sua respiração torna-se mais intensa. Minha pulsação aumenta. Torna minha respiração quase difícil. A saudade aflora forte. Me aproximo devagar e me aconchegando em seu corpo quase sem tocá-la. Nada mais excitante do que o tocar sem tocar. 

O toque anterior ao toque. As sutilezas são a essência do prazer. Não a toco, apenas contorno seu rosto com o meu a nanomilímetros de sua pele, sem tocá-la, afasto seus cabelos com o nariz, até alcançar o pescoço. Sentir seu hálito faz meu cérebro funcionar em outra sintonia, a sensibilidade além da flor da pele.

As sensações do tato, olfato, paladar e audição se misturam e se transformam em uma coisa só. Cheiros, sons, texturas, anima animal. A luta ansiosa e voraz do prazer. A fome. A fome.

Esse aproximar e tocar dos corpos faz desaparecer o espaço entre eles, alma engolindo alma, prazer do corpo. Só o teu prazer me alimenta. Só o teu prazer me sacia. Luta feroz. Meu prazer é te levar até bem perto da morte. E sua fome animal diz que vamos morrer, já sabemos disso. E morremos grudados até o último espasmo. Colados, encaixados como um quebra-cabeça montado.
Nossos encontros são assim.
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18 de jun. de 2020

AMANTES - Poesia - Edmir Saint-Clair

Pintura de Dhiego Rocha

O toque acendeu o sol, dois sóis

Quentes, atraentes, penetrantes,

Somando-se num calor ardente, pendente, arfante



Pele, seda, alma, sussurrante

Atraindo, exalando seu perfume provocante

Fêmea nua, natureza dominante



A carne quente, úmida, envolvente

Sugando, atraindo, desejando urgente,

Acordando o desejo de se completar inteira,

Em cada poro, em cada arfar, em cada instante.



Teu ar, meu ar, arfante, dentro, fora, enebriante

Somos insanos, alucinados, delirantes,

Cabendo juntos no universo latejante

Somos a vida, somos amor, somos amantes.
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2 de abr. de 2020

A IMPLOSÃO DA MENTIRA - Affonso Romano de Sant'Anna


Este poema foi publicado em diversos jornais em 1980. 
Apesar do tempo decorrido, face aos acontecimentos políticos que vimos assistindo nesses últimos tempos, ele permanece atualíssimo.

           A implosão da mentira

             Fragmento 1

                                  Mentiram-me. Mentiram-me ontem
                  e hoje mentem novamente. Mentem
             de corpo e alma, completamente.
               E mentem de maneira tão pungente
               que acho que mentem sinceramente.

               Mentem, sobretudo, impune/mente.
               Não mentem tristes. Alegremente
               mentem. Mentem tão nacional/mente
               que acham que mentindo história afora
               vão enganar a morte eterna/mente.

               Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
               falam. E desfilam de tal modo nuas
               que mesmo um cego pode ver
               a verdade em trapos pelas ruas.

               Sei que a verdade é difícil
               e para alguns é cara e escura.
               Mas não se chega à verdade
               pela mentira, nem à democracia
               pela ditadura.


Fragmento 2

               Evidente/mente a crer
               nos que me mentem
               uma flor nasceu em Hiroshima
               e em Auschwitz havia um circo
               permanente.

               Mentem. Mentem caricatural-
               mente.
               Mentem como a careca
               mente ao pente,
               mentem como a dentadura
               mente ao dente,
               mentem como a carroça
               à besta em frente,
               mentem como a doença
               ao doente,
               mentem clara/mente
               como o espelho transparente.
               Mentem deslavadamente,
               como nenhuma lavadeira mente
               ao ver a nódoa sobre o linho.
                    Mentem com a cara limpa e nas mãos
               o sangue quente.

                  Mentem ardente/mente como um doente
               em seus instantes de febre. Mentem
               fabulosa/mente como o caçador que quer passar
               gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
               a caça é que caça o caçador
               com a armadilha.
              
      E assim cada qual
               mente industrial?mente,
               mente partidária?mente,
               mente incivil?mente,
               mente tropical?mente,
               mente incontinente?mente,
               mente hereditária?mente,
               mente, mente, mente.

               E de tanto mentir tão brava/mente
               constroem um país
               de mentir
                                       —diária/mente.



Fragmento 3

               Mentem no passado. E no presente
               passam a mentira a limpo. E no futuro
               mentem novamente.

               Mentem fazendo o sol girar
               em torno à terra medieval/mente.
               Por isto, desta vez, não é Galileu
               quem mente.
               mas o tribunal que o julga
               herege/mente.

               Mentem como se Colombo partindo
               do Ocidente para o Oriente
               pudesse descobrir de mentira
               um continente.
               Mentem desde Cabral, em calmaria,
               viajando pelo avesso, iludindo a corrente
               em curso, transformando a história do país
               num acidente de percurso.


Fragmento 4

               Tanta mentira assim industriada
               me faz partir para o deserto
               penitente/mente, ou me exilar
               com Mozart musical/mente em harpas
               e oboés, como um solista vegetal
               que absorve a vida indiferente.

               Penso nos animais que nunca mentem.
               mesmo se têm um caçador à sua frente.
               Penso nos pássaros
               cuja verdade do canto nos toca
               matinalmente.
               Penso nas flores
               cuja verdade das cores escorre no mel
               silvestremente.

               Penso no sol que morre diariamente
               jorrando luz, embora
               tenha a noite pela frente.


Fragmento 5

               Página branca onde escrevo. Único espaço
               de verdade que me resta. Onde transcrevo
               o arroubo, a esperança, e onde tarde
               ou cedo deposito meu espanto e medo.

               Para tanta mentira só mesmo um poema
               explosivo-conotativo
               onde o advérbio e o adjetivo não mentem
               ao substantivo
               e a rima rebenta a frase
               numa explosão da verdade.

               E a mentira repulsiva
               se não explode pra fora
               pra dentro explode
                            implosiva.
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O Leblon pré-novelas do Manoel Carlos.

Contos e crônicas.
 O cotidiano do bairro.
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7 de fev. de 2020

O CORAÇÃO QUE RI - Charles Bukowski


A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.
(Tradução de Tiago Nené)


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O Leblon pré-novelas do Manuel Carlos. Contos e crônicas 
onde somos levados a refletir sobre racismo, preconceito, 
  solidão, amizade, descobertas e experiências de criança, 
de adolescente e, por fim, de um jovem adulto. 
A relação com cotidiano do bairro. 
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do Leblon são os palcos dessas histórias.

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16 de jan. de 2020

É ASSIM QUE TE QUERO AMOR - Pablo Neruda


É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas os cabelos
e como a tua boca sorri,
ágil como a água da fonte 
sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz ilumine,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão, luz e sombra és.

Chegastes à minha vida com o que trazias,
feita de luz, pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
do nosso amor verdadeiro.
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26 de nov. de 2019

JOSÉ SARAMAGO - Intimidade


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
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"As primeiras festinhas foram na AABB, Monte Líbano e Caiçaras, na Lagoa. As inesquecíveis foram no Clube Leblon e no Clube Campestre. Na saída bom era comer na Pizzaria Guanabara que tinha uma pizza calabreza deliciosa e vendia pedaços no balcão."

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