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AS VIDAS QUE DEIXAMOS DE VIVER - Gontardo Calligaris

Quase sempre, quando encontramos alguém que nos encanta, começamos por lhe contar nossa vida e expor nossos projetos --pois é possível que, para um casal, compartilhar planos seja mais importante do que cada um conhecer e entender o passado do outro.

Em suma, a gente se apresenta ao outro como numa entrevista de emprego, dizendo o que fizemos e o que esperamos. Afinal, somos uma mistura da vida vivida com o futuro sonhado, não é?

Acabo de ler o último livro de Adam Phillips, psicanalista inglês que é um dos autores que mais me estimulam a pensar: "Missing out: In Praise of the Unlived Life", (Farrar, Straus and Giroux) (perder: elogio da vida não vivida --"missing out" é perder no sentido em que você chega atrasado na festa e pergunta: perdi alguma coisa?).

Justamente, à história passada e aos sonhos Phillips acrescenta mais um ingrediente que nos define: o conjunto das vidas que deixamos de viver --porque não foi possível, porque alguém nos impediu, porque ficamos com medo, porque escolhemos outro caminho, porque a sorte não quis.

Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.

Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).

Também, mais dolorosamente, as vidas não vividas são caminhos pelos quais não ousamos nos enveredar (na inscrição para o vestibular, na decisão de voltar de um lugar onde teríamos começado outra vida, nos conformismos de cada dia).

Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.

Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.

Aqui, um conselho: é útil frequentar as vidas não vividas de nossos parceiros (para evitar surpresas desnecessárias, como a chegada de personagens que não fazem parte nem do passado nem dos sonhos do outro, mas das vidas às quais ele achava ter renunciado).

Agora, as vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas crianças.

Uma das razões pelas quais as vidas não vividas condenarão as crianças de hoje à sensação de desperdício é a popularidade do mito do potencial. Alguém não está se tornando tudo o que esperávamos? Que pena, com o potencial que ele tinha...

De onde vem a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?

O potencial das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem esforço algum da parte da criança.

Nossos rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência, estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos, as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial". Há uma cumplicidade de todos ao redor dessa ideia.

Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do "potencial").

Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.

Quanto aos filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora, inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu "potencial").

AS MENTIRAS QUE A GENTE CONTA E OUVE - Mônica El Bayeh

Mentira é tudo igual? 
Não, mentira é como o vinho. 
Há as suaves e as rascantes.
Há mentiras quase piedosas. Os cabelos de sua amiga, que antes eram louros, agora surgem mais negros do que as asas da graúna. Ficou horrível. Para bruxa, só falta a vassoura. Quando ela pergunta se você gostou – e oferece o endereço do salão – você diz o quê?
Sua mais nova paixão vai estar em determinado lugar. Você dá um jeito de aparecer, fingindo coincidência. Mentira desse tipo pode? Veja bem: mal não fez…
Algumas mentiras funcionam quase como um silicone entre você e o outro. Uma camada protetora no contato. Evita maiores atritos e possíveis queimaduras doloridas. Nesse caso, mentiras silicone são pecado?
Chove muito. Você está de pijama, em casa, vendo O filme. Aquele que você esperou meses para ver na televisão. Pipoca, refri, cobertor. Nada faria você largar o feliz aconchego do seu lar.
Mas… o celular toca. Seu amigo – que briga dia sim, dia não com a namorada – quer desabafar. Hoje é o dia sim. Justo hoje.
Seu filme rolando, amigo falando. Você repete pela milésima vez os mesmos conselhos de sempre. Não há novidade no caso, é crônico.
E seu filme no ápice. Vão matar o mocinho, o que você faz? Mente para o amigo, que no dia seguinte estará certamente de novo feliz ao lado da mesma namorada? Prioriza o filme, afinal, o mocinho está lá sofrendo tanto, também merece sua atenção. Mentir para o amigo pode? É pecado? Escolha sua opção.
Se falar a verdade, vamos combinar, vai melar a situação. Não se dispor a escutar um amigo na hora do sofrimento? Que feio! Que amigo é você? Uma mentira silicone pode ser salvadora em horas de agonia.
E omissão? Vale como mentira também? Já encontrei mais pessoas do que gostaria em condições bem embaraçosas. É constrangedor! Eu finjo que nada vi, olho para o outro lado, saio de fininho. Nunca toco no assunto com nenhuma das partes interessadas. Sou falsa, eu? Nem vi nada.
O que fazer com a mentira?  Questiona, imprensa, vai a fundo e tira a limpo? Ou faz cara de paisagem, deixa passar com um ar de quem nem percebeu, dá um sorrisinho, finge que acreditou, engole esse sapo e deixa seguir o barco?
Muitas mentiras ferem não por serem mentiras em si. Mas pelo que trazem de significação quando são decifradas.
O sujeito aparece online na rede social. Você, apaixonada, chega a ter palpitação. Dedos aflitos para dizer oi. Mas, para você, ele só envia mensagem três horas depois. Ou seja, quando todo mundo já foi dormir e você foi a única que sobrou. Dói? Muito. Você digita pedindo explicação? Ele pode alegar sinal ruim, fora da área de cobertura, qualquer coisa do tipo.
O importante não é o que ele justifica. O que dói é perceber que, em termos de lista de prioridade, o seu nome não vem entre os 100 primeiros. Vale aceitar a mentira e continuar investindo?
Vale o que você resolver. Em termos de amores, vale o que cada um consegue resolver e bancar.
No geral, enfrentamentos são gastos desnecessários de energia. Dizer para um mentiroso que é mentira o que ele diz é enxugar gelo. Se ele sabe que mentiu e você sabe que é mentira, esse assunto já não está resolvido?
Meias verdades também valem como mentira? Claro que não estamos falando de situações graves de dolo, de pessoas sendo prejudicadas, tripudiadas ou humilhadas. Numa comparação grosseira, não estamos pensando em casos de casos de grandes cortes, sangue, sutura. Mas, de arranhões onde um simples band aid resolve.
Só tome cuidado com uma coisa: não trate como pão fresquinho quem te trata como migalha dormida, raspas e restos. Porque, às vezes, no vazio da carência, as pessoas se encolhem, fazem uma promoção afetiva, tipo saldão de balanço, para não ficar sozinhas. E o risco é acabarem achando que só valem aquilo mesmo, que não merecem ou não conseguem nada melhor. Um grande perigo. As pessoas acabam valendo o preço que acham que tem.

FERNANDA TORRES – Macumba

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.

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