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BEM NO FUNDO - Paulo Leminski


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

SÓ NO DICIONÁRIO - Danuza Leão

 
Tem sentido, hoje, dizer de alguém que tem excelente caráter? Que é sincera? Que nela dá para confiar?

Quais as qualidades mais valorizadas nos dias de hoje?

Bem, como tudo mudou, vou falar de algumas, as que dão mais ibope, e não pela ordem.

É preciso ser ligado, antenado e sobretudo bem informado; é aquele que presta atenção a tudo, a quem nada escapa.

Com esses predicados, é possível abrir as portas para uma carreira brilhante e um futuro promissor, e se tiver também alguma inteligência, o sucesso é garantido. Afinal, é por meio das boas informações que são feitos os grandes negócios e as tramas políticas acontecem.

Mas é preciso também ser esperto para usar essas informações na hora certa, com a pessoa certa.

Esperteza, essa sim, uma enorme qualidade. Quem tiver esse dom pode se tornar milionário e poderoso, o objetivo supremo de toda a humanidade -de quase toda, digamos.

Cultura já esteve mais em alta, mas tem sua vez em algumas rodas, e conhecer profundamente um assunto -mesmo só um- costuma deixar as pessoas de queixo caído.

Mas não se esqueça: seja ele qual for, vá fundo e mostre-se um expert. Que seja algo de original: a civilização egípcia, por exemplo. Como poucas pessoas viram uma múmia de perto, esse é um belíssimo tema para ser jogado num jantar de seis pessoas -elas vão babar de admiração, e você vai brilhar sozinho.

Os mistérios do fundo do mar e a vida sexual dos cangurus também podem agradar, mas fuja da astrologia e da psicanálise, que já deram tudo o que tinham para dar. Astronomia, quem sabe? Vinhos, melhor beber do que falar deles, e de viagens, nem pensar.

Outra qualidade muito valorizada é a dos que leem os jornais -bem. Todos os do Rio e de São Paulo, claro, e talvez de mais uns quatro Estados. Mas tem que ser falado a sério, para poderem dizer, como quem não quer nada, que concordam -ou discordam, isso não tem a menor importância- com a divisão dos royalties do pré-sal.

Saber esgrimar com as palavras também faz grande sucesso, mas é perigoso: sempre pode haver alguém mais talentoso e ferrar você de vez.

Mas quando quiser falar mal de alguém, seja irônico -é mais cruel, não compromete, não dá processo- e nunca diga nada que possa ser repetido: fale bem, mas usando tons de voz e sorrisinhos que vão arrasar, de vez, aqueles de quem você não gosta.

Mas um dia você se lembra de que há muito, muito tempo, existiam qualidades bem diferentes dessas, e que hoje não fazem o menor sucesso. Tem sentido, hoje em dia, dizer de uma pessoa que ela tem um excelente caráter? Que é sincera? Que nela você pode confiar? Se você gosta de verdade dela, é melhor ficar calado, pois pega até mal dizer essas coisas de um amigo.

E existem ainda outras de que não se ouve falar há tanto tempo, mas tanto, que já virou até coisa de época. Passa pela cabeça dizer que uma pessoa é sensível, terna, delicada, bem educada, que tem um grande coração? Pega até mal; e passa pela sua cabeça que uma pessoa é bondosa?

Procure lembrar há quantos anos você não ouve falar de um gesto de bondade, não recebe um olhar de bondade, não ouve nem pronuncia a palavra bondade -se é que isso ainda existe.

Se não souber do que se trata, procure no dicionário, e talvez encontre; talvez.

DO ACASO À NECESSIDADE - Ferreira Gullar

Vivo descobrindo coisas sem importância, mas que me instigam e me fazem refletir. Claro que não estou me referindo ao aroma de jasmim, que me atordoou, certa noite, quando saía do prédio onde mora Cláudia. Aquilo pertence à categoria dos espantos, donde, no meu caso, nascem os poemas. Mas é raro de acontecer.

Fora esses espantos, há descobertas menores, menos espantosas, que não geram poemas, mas de qualquer modo provocam certo barato. Nascem como pequenos sinais. No início sem importância, mas que deixam um rastro, um vinco, que mal percebo; depois, outra sensação diferente, um curto-circuito mínimo, um choque e já então me dou conta de que alguma coisa está se revelando.

E assim foi que, de repente, percebi que o poema, na verdade, quer nascer sem ter começo. Como assim? Se quer nascer sem ter começo, quer então ser uma espécie de revelação, algo mágico ou místico? Não, místico não, que eu de místico não tenho nada. Revelação pode ser, porque não implica milagre.

Ocorre que essa percepção, de fazer um poema sem começo, surgiu, na verdade e confusamente, de outra descoberta: da quantidade de acaso que entra na realização de toda e qualquer obra de arte.

Essa descoberta já aparece como tema de alguns poemas de meu último livro ("Em Alguma Parte Alguma"), como na série que começa com o poema "Desordem" e prossegue com "Adendo ao Poema Desordem" e "Novo Adendo ao Poema Desordem".

Nesses poemas, está implícito, além do fator acaso, o fato de que a linguagem verbal não expressa plenamente a realidade, uma vez que, por ser um sistema, sua ordem não é a mesma que a ordem do mundo real, fora dela. Daí o poema "Fica o Não Dito por Dito", que abre o livro. Ou seja, como a linguagem só diz o que ela diz, não diz tudo, portanto. Por isso, porque não diz tudo, faço de conta que diz: fica o não dito por dito.

Além de o poema não dizer tudo o que o poeta deseja dizer, não sabe, ao começá-lo, o que vai dizer, porque, para sabê-lo, seria necessário que o poema já estivesse escrito. Assim, tudo o que há, então, é o desejo de dizer algo que o poeta não sabe o que será: está diante de uma página em branco e, portanto, aberto a todas as probabilidades.

Mas, ao escrever a primeira palavra, a probabilidade, que era quase infinita, diminui, porque essa primeira palavra já condicionará a seguinte, tornando-a, por assim dizer, necessária. E assim, palavra a palavra, o poema vai nascendo, num jogo de acaso e necessidade. Num jogo em que, à medida que o poema se constrói, haverá menos acaso, porque cada nova palavra ou verso, que a ele se acrescenta, é determinado pelo que já está escrito e ganhou sentido: o poeta já sabe, agora, o que quer dizer e, por isso, só entra nele o que for necessário.

Escrever, portanto, é vencer o acaso, tornar o fortuito necessário. Isso significa que o que não existia, que era apenas a aspiração de inventar do poeta, torna-se necessário ao poema e à nossa vida.

Qualquer poema que existe poderia não ter sido escrito, mas, uma vez escrito, pode tornar-se necessário por enriquecer-nos. Daí ter eu afirmado, certa vez, que a arte existe porque a vida não basta. E não basta porque tem de ser inventada.

E só então entendi porque, ao inventar de escrever o "Poema Sujo", queria, antes, vomitar toda a vida vivida, criando assim um magma de onde extrairia o poema. Era um modo de começá-lo sem começá-lo: ele já estaria todo ali, no que foi vomitado. Sucedeu que o vômito não saiu e, assim, tive de lançar mão de outro recurso, escrevendo estes versos que não se referem a nada precisamente: "Turvo, turvo / a turva mão do sopro contra o muro / Escuro / menos menos / menos que escuro...". O poema só começa - suponho eu - bem adiante, quando escrevo: "Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas...".



Assim como só então entendi que não queria "começar" o poema, só agora também percebi que ele acabou antes que eu decidisse. De repente, após meses ligadão nele, cessou o impulso e eu não sabia como seguir em frente. O final do poema foi inventado por mim, conscientemente, fora do barato em que o compunha, porque teria de dar-lhe um fecho. De modo que é assim: o poema, de fato, não tem começo nem fim.

QUE FIM LEVOU BO DEREK? - Martha Medeiros



Eu estava em plena adolescência quando assisti no cinema ao filme Mulher Nota 10 com uma estreante chamada Bo Derek. A comédia contava a história de um cantor que um dia viu uma loira espetacular vestida de noiva e ficou obcecado por ela. O que aquela mulher tinha de nota 10? Que eu lembre, apenas um tremendo corpaço. Mas foi o que bastou para eu e mais umas tantas meninas da minha idade desejarem ser 10 também.

Mal sabíamos que estava em curso uma revolução que iria nos exigir muito mais do que um corpaço: iria nos exigir independência financeira, atitude, cultura, talento, sucesso profissional, inteligência acima da média, um bom casamento, filhos notáveis, um farto círculo de amigos, um apartamento bem decorado, uma ótima mão para a cozinha, conhecimento sobre política, economia, artes plásticas, jardinagem e comércio exterior, muita feminilidade, um guarda-roupa de matar de inveja a editora da Vogue, um rosto lisinho, um cabelo lisinho, dotes sexuais de humilhar o Kama Sutra e, para aguentar o tranco, o tal corpaço de parar o trânsito, claro.

Nem titubeamos. Parecia fácil. Daríamos conta. E demos, se abstrairmos o padrão cinematográfico das exigências.

Até que descobrimos que tínhamos tudo, menos a coisa mais importante do mundo: tempo. Deixamos de ser donas dos nossos dias, viramos escravas da perfeição, passamos a buscar a nota 10 em todos os quesitos, feito uma escola de samba, e ganhamos o quê? Um stress gigantesco e uma tremenda frustração por não conseguir manter tudo no topo: o casamento, a profissão, os seios. Nunca mais uma escapada de três dias num sítio, nunca mais pegar uma matinê num dia da semana, nunca mais passar a tarde conversando na casa de uma amiga, nunca mais deitar no sofá para ouvir nossa música preferida. Tic-tac, tic-tac. Proibido relaxar.

Trégua, por favor. Não estamos numa competição. Ninguém está contabilizando nossos recordes. A intenção não é virar uma campeã, e sim desfrutar a delícia de ser uma mulher divertida e desestressada. Por que isso precisa conflitar com a independência? Proponho uma pequena subversão: agrade si mesmo e a mais ninguém. E não brigue com o espelho, pois ter saúde é o único item de beleza indispensável, e isso só se enxerga por dentro. Trabalhe no que lhe dá gosto, aprenda a dizer não, invente sua própria maneira de ser quem é, e se for gorda, fumante, esquisita e sozinha, qual o problema? Aliás, sendo você mesma, dificilmente ficará sozinha.

Lembra das garotas nota 10 da sua sala de aula? Cá entre nós, umas chatas. Não aproveitavam a hora do recreio, não deixavam a blusa para fora da saia, não matavam as aulas de religião, só pensavam em ser exemplares. Pois tiveram o mesmo fim da Bo Derek: nunca mais se ouviu falar delas.

COÇA-COÇA - Luís Fernando Verissimo



Ele: - Me coça atrás?

Ela: - Aqui?

- Um pouco mais pra direita.

- Aqui?

- Para a direita. Para a direita!

- Calma. Aqui?

- Aí, aí. Um pouco mais pra cima.

- Assim?

- Aí!

- Pronto.

- Agora um centímetro pra baixo.

- Você acha que eu não tenho mais o que fazer?

- Benzinho, só mais um pouquinho.

- Tá bom... Assim?

- Pra cima!

- Não precisa gritar.

- Eu não estou gritando. É que você...Aí. Bem aí. Agora coça.

- Assim?

- Aaahn... Sim, sim...Maravilha...

- Chegou?

- Não. Mais um pouquinho.

- Chegou.

- Não para. Você não sabe que este é o momento de maior intimidade de um casal? Mais do que o sexo, mais do que tudo? A fêmea coçando as costas do macho. Não é bonito isso?

- E o macho coçando as costas da fêmea?

- Também é bonito. Menos comum, mas bonito. Não para! E tem sido assim desde sempre. Desde a pré-história. Nós ainda éramos macacos e um coçava as costas do outro. As fêmeas catavam piolhos no pelo dos machos - e comiam os piolhos! Não é lindo? Comiam os piolhos. Isso é que é amor. E você ainda se queixa porque eu só peço para você me coçar as costas. Não estou pedindo que cate piolhos. Coçar as costas do parceiro ou da parceira foi o primeiro gesto de solidariedade e empatia do mundo. A civilização partiu daí. Mais pra cima um pouquinho. Aí, aí! Deus não criou Eva para que Adão tivesse companhia no jantar e os dois eventualmente procriassem. Deis criou Eva para coçar as costas de Adão.

- Chega.

- Só mais um pouquinho. A estabilidade de um casamento pode depender da disposição da mulher para coçar as costas do marido. Para catar os seus piolhos, metaforicamente falando.

- Vem com essa...

- Você não acredita? Sei de homens que recorrem a amantes para coçar suas costas. Tem sexo com a mulher mas procuram uma intimidade maior com amantes que cocem as suas costas. Na prospecção de possíveis amantes, o que mais conta para o homem não é a beleza do rosto ou das formas, é o comprimento das unhas. Sabia? Não para! A recusa da mulher a coçar as costas do marido é motivo para divórcio em qualquer tribo ou sociedade avançada do pla... Mais para a direita!

- Sabe de uma coisa? Vá arranjar outra para coçar as suas costas. Pode arranjar. Só não traga para dentro de casa.

- Benzinho...

- Pra mim, chegou!

RACISTA: NÃO QUEREMOS VOCÊ AQUI!

RACISTA: NÃO QUEREMOS VOCÊ AQUI!

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