NUNCA ESTAMOS ONDE QUEREMOS - Eliane Brum

Conto de fadas de Woody Allen discute os limites do presente

Depois de alguns minutos, o filme de Woody Allen – “Meia-Noite em Paris” – nos provoca um delicioso sorriso bobo, que permanece até o final. O diretor no presenteia com uma história de Cinderela para adultos. À meia-noite, o protagonista embarca em um calhambeque tinindo de novo e pronto, está onde sempre quis estar: na animada Paris dos Anos 20. Gil Pender, como boa parte de nós, acha o presente insuficiente. O passado era melhor. Não qualquer passado, mas o idealizado por ele. Como uma fada madrinha do nosso tempo, Woody Allen realiza, com essa varinha de condão que é o cinema, o desejo que é de todos. E por isso abrimos um sorriso encantado.
Me convenci a dar uma espiada para o lado e para trás e vi no público a mesma boca aberta de antecipação e deleite das crianças quando escutam um conto de fadas. Desde o surgimento do calhambeque, a gente já sabe o que vai acontecer. É porque queremos muito que aconteça que é tão prazeroso. Como as crianças que pedem para repetir mil vezes a mesma história, a gente tem vontade de gritar: “De novo! De novo!”.

A identificação com o protagonista é imediata. O ator Owen Wilson vive Gil Pender, mas, ao mesmo tempo, encarna Woody Allen com tanta competência, que às vezes enxergamos o próprio. No filme, ele é um roteirista de Hollywood que tenta escrever um romance enquanto visita Paris com uma noiva mimada e um casal de sogros tão digestivos quanto óleo de rícino. Os personagens são todos estereotipados como num bom conto de fadas.

A noiva é uma típica menina rica, fútil e ambiciosa, mais preocupada com a aparência da vida e dela mesma do que com a vida em si. Os sogros são americanos bem sucedidos, republicanos do Tea Party, com todos aqueles valores que conhecemos melhor ao acompanharmos a trajetória de Sarah Palin. Ao chegarem a Paris, a noiva encontra um casal de amigos. Ele, um homem pelo qual já foi apaixonada, é também um personagem comum do nosso tempo: um especialista em tudo, de vinhos a Rodin. E, desde o início do filme, o detestamos como se deve fazer com um bom vilão que não causa mais mal do que abusar da nossa paciência e da de Gil com seu pedantismo e seu conhecimento de Wikipedia, programado para impressionar um certo tipo de moça. Já Gil, nosso herói, é doce, sensível e com aquele ar meio perdido de quem quer muito ir, mas não sabe direito para onde. Também um personagem clichê da nossa época.
Nesta escolha dos personagens, há algo interessante que podemos pensar. Esses dois estereótipos masculinos representam em parte a confusão do que significa ser homem hoje em dia. Ambos inseguros depois do naufrágio do papel masculino definido por uma tradição que já não existe. Mas com respostas diferentes para a questão. E, como a mulher deste milênio, a noiva também oscila entre esses dois homens sem saber bem se quer aquele que sabe tudo sem saber (e que jamais saberá qualquer coisa porque não tem planos de parar de fingir) – ou deseja aquele que admite que não sabe, mas um dia talvez possa descobrir porque procura.

Esta não é a questão principal do filme, mas Woody Allen sempre foi hábil em falar da (bendita) confusão dos papéis masculinos (e femininos) de nossos dias – e seu conto de fadas não poderia ser diferente. O dilema central de nosso Cinderelo é que ele queria viver onde não vive.

Gil Pender desembarca na cidade dos seus sonhos – e Woody Allen também nos dá, desde o início, uma Paris de cartão postal, com direito a própria Carla Bruni interpretando uma guia turística. Mas Gil está acompanhado pela noiva fútil, os sogros fúteis, o casal de amigos fúteis e fazendo coisas fúteis com todos eles. Preso, portanto, a um presente que não quer, mas que não tem forças para mudar. Como acontece com boa parte de nós aqui, em nossa vida cotidiana – e também em férias idealizadas das quais voltamos com fotos em que estamos sorridentes, sobre as quais contamos maravilhas para os amigos e parentes, mas secretamente sabemos que não foram tão perfeitas assim.

Então, à meia-noite, num determinado lugar, a carruagem passa e o carrega para a Paris que deseja. E Gil Pender encontra, entre outros personagens fascinantes que se reuniram em Paris nos Anos 20, Zelda e Scott Fitzgerald, Cole Porter, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel. E consegue dar seu romance para a própria Gertrude Stein avaliar. Todos esses personagens reais que fizeram a efervescência e a lenda dos (pelo menos para nós e para Gil Pender) gloriosos Anos 20 estão lá não como são – mas como nosso Cinderelo os vê. É o passado idealizado por ele – não o passado como foi para quem o viveu. Só assim, afinal, é possível ter um conto de fadas.

Posso contar tudo isso aqui porque, como nas fábulas, não importa o que acontece, importa que tenhamos certeza que acontece. Por isso as crianças querem ouvir a história tantas vezes e viver seus medos protegidas pela segurança do enredo conhecido. Depois dos primeiros 15 minutos de filme, sabemos o que Woody Allen vai nos dar. E então é só a delícia de assistir ao desenrolar dos fatos que já antecipamos.

Mas Woody Allen nos trai com uma personagem clandestina, que não faz parte do roteiro das fábulas – a mulher comum. Aquela que esteve na história, mas não foi registrada nela. Aquela que não sobreviveu à morte como memória. É a partir das inquietações dela, que em determinado momento torna-se o espelho dele, que Gil Pender tem de fazer uma opção que é a de todos nós: entre o tempo que não há e o tempo que há. Ele precisa fazê-la na prática. Nós temos de fazê-la dentro de nós, como uma escolha interna que determina todo o enredo da história que é nossa.

Gil Pender, nosso Cinderelo, coloca o impasse entre a idealização da vida e a vida como ela é com uma das sacadas geniais que fazem Woody Allen ser quem é: “Você se dá conta que esses caras vivem sem anestesia nem antibiótico?”. A frase é bem melhor do que esta, mas eu não tinha nenhum bloquinho para anotar. É quando o homem que procura encontra algo – e descobre que precisa fazer uma escolha se quiser viver onde está – não importa se na Paris dos Anos 20, na Paris da Belle Époque ou na Paris de hoje. Para quem o viveu, o passado era presente.

Assim como não há passado, só presente – não há vida idealizada, só vida. É com essa vida, no presente, que temos de fazer o melhor que pudermos, mesmo que sempre nos pareça insuficiente. Para, quando chegar ao final que sempre chega, termos a chance de concluir: “Que pena que acabou. Mas vivi, não tudo o que quis, mas o melhor que pude”. E só dá para ter certeza de que fizemos o melhor possível com nossa vida imperfeita quando temos a coragem de fazer escolhas. Que, inclusive, podem dar errado – e muitas vezes dão. Mas também podem dar certo, ou dar errado dando certo de um jeito que não sabíamos que existia.

Do contrário, vamos ficar fingindo que conhecemos o enredo, como o chato da história, e ninguém encontra nada sem se arriscar ao vazio e às perguntas difíceis, com respostas às vezes indigestas. Não há final feliz – o final é sempre a morte, como nos repetiram tantos poetas. O que temos é o presente possível para experimentar por tentativa e erro.
As grandes questões da existência, afinal, são sempre as mesmas – e é para nos lembrar disso que servem os contos de fadas. “Meia-noite em Paris” é um dos bons.

AMIGOS PARA SEMPRE - Márcia Tiburi

A filosofia, cuja etimologia implica a palavra grega Philia que significa amizade, nasceu da amizade entre os homens que, por sua vez, tinham amizade pela sabedoria. Como o amor, a amizade é uma espécie de desejo, mas um desejo diferente da posse. Quando os filósofos falam da amizade entre seres humanos estão dizendo algo muito parecido ao “desejo de saber”, literalmente melhor traduzido por “amizade pela sabedoria” que anima sua atividade. Amigos não eram aqueles que se reuniam em torno da economia, nem em torno da cosmética, da ginástica, nem em torno da culinária ou da retórica. Que laço era este que unia alguns entre si em nome de algo tão complexo como a sabedoria? Qual a forma da relação a que chamamos até hoje amizade se ela é um desejo sem posse? Quando amamos alguém desejando seu bem sem que este seja o nosso próprio bem?

Pessoas de bem
Sócrates defendia que a amizade só acontecia entre pessoas de bem não ocorrendo entre pessoas más e incapazes de amar o outro. Para seguir este raciocínio socrático precisamos nos perguntar se nos encaixamos na definição de uma “pessoa de bem”. Pensava ele que as pessoas totalmente de bem são auto-suficientes, não se pode dizer delas que “precisem” de amigos. Mas todos precisamos e, somos apenas humanos, não somos deuses auto-suficientes. Por isso, concluirá Sócrates no diálogo Lísis de Platão, que para se ter amigos é preciso ser alguém que sabe o que é o mal, mas deseja o bem. Desejar o bem (a alguém ou à sabedoria) é a definição mais perfeita da amizade. Amigo é, portanto, aquela pessoa na qual se acredita que os bens parciais da vida podem se agregar na realização do Bem - com letra maiúscula - que equivalia ao Bem superior, uma espécie de Bem Geral, Bem de todos, para todos, em relação a tudo o que existe. Como se fosse possível falar de um Bem do Cosmos, uma harmonia total no universo que, mesmo sendo uma utopia, é a idéia que deveria nortear as ações das pessoas de bem.

A amizade é uma virtude
Aristóteles, discípulo de Platão, herdou questões de seus antecessores. Para Aristóteles, a amizade é uma virtude. Sendo virtude ela significa a excelência de algo. O modo mais perfeito em que algo como a relação entre seres humanos pode se dar. Ela é, além disso, o objetivo último da vida moral, aquilo que define o ápice de uma vida corretamente vivida. Saber ser amigo equivale a ser ético. É amigo aquele que realiza em si e junto dos outros a excelência moral, ou seja, ele quer o bem das pessoas que ama.
Como virtude, para Aristóteles, a amizade é tanto necessária quanto desejável. Diz ele em seu principal livro sobre as questões morais - a Ética a Nicômaco - que, mesmo alguém que possuísse todos os bens, não gostaria de viver sem amigos. A amizade será até mesmo superior à justiça: quando as pessoas são amigas não é necessária a justiça, mas havendo a justiça ainda precisaremos da amizade.
Aristóteles fala de formas diferentes de amizades: a acidental comum entre idosos e jovens que precisam de amigos úteis que facilitem pensamentos, ações e os apóiem em suas fragilidades, e da amizade perfeita que é aquela que une os homens de bem e que são semelhantes em suas virtudes. A amizade perfeita é rara e incomum, tanto quanto é raro e incomum. Há certa exclusividade na amizade. Quem leva a sério a amizade costuma dizer que tem poucos amigos. O que não quer dizer que não se possa agradar muitos, ao mesmo tempo, oferecendo-lhes bens e vantagens ou simplesmente coisas úteis e agradáveis. Um amigo verdadeiro merece mais que isso.

Querer bem é ser responsável pelo outro
A amizade é uma palavra que se aplica às pessoas das quais se quer o bem enquanto delas pode-se esperar certa reciprocidade. Amigo é aquele que desejamos ver feliz e que quer nos ver do mesmo modo. Muitas pessoas demonstram não ser amigas tanto nos momentos difíceis quanto nos momentos alegres da vida de seus conhecidos. Para ser amigo é preciso alegrar-se com a alegria de outro e ajudá-lo em suas tristezas. Diz Aristóteles que “quando há reciprocidade, a boa intenção é a amizade”. Levando em conta que a amizade é um sentimento que obedece aos limites dos laços humanos, ela exige sempre reciprocidade. Não é, neste caso, apenas um sentimento, mas uma construção de laço com o que há de responsabilidade para sua sustentação. 

O laço que os une é o desejo do bem. Neste caso ela não é um simples sentimento, mas um sentimento complexo que envolve uma noção de liberdade do outro a ser preservada.

Amizade é, sobretudo, desejar o bem de quem se ama, não desejar seus bens, nem proveitos, nem os prazeres que advém de seus bens. Não há amizade que se sustente por interesses, nem pelo status de se ter muitos amigos. Amigo é quem tem que valer por ele mesmo, pelo que é, e não pelo que possui em termos materiais ou pragmáticos. O amigo, como pessoa, não pode ser um meio pelo qual se pode alcançar um outro fim, mas deve ser um fim ele mesmo, o objetivo da amizade.

A amizade não pode ser uma máscara. Por isso, sua noção envolve sempre a verdade da relação para que seja algo excelente. Só é amizade se for verdadeira. Descobrir que um amigo não era verdadeiramente amigo é uma dor que pode ser maior que a perda de um amor. A um amigo, não basta, ser agradável ou útil, mas ter caráter. Nele não está em jogo a paixão que nos torna cegos e, por isso, por ser a amizade uma escolha com forte carga de racionalidade e consciência, sofremos tanto quando somos enganados. A rigor, podíamos ver e saber tudo e nos percebemos traídos por nós mesmos.

VOCÊ SE ARREPENDE DE QUÊ? - Paula Rocha

Pesquisas apontam os principais arrependimentos de homens e mulheres e especialistas ensinam como lidar com esse sentimento indesejado.

Embora Édith Piaf (1915–1963) tenha cantado, já perto do fim da vida, que não se arrependia de nada – na canção “Non, Je ne Regrette Rien” –, poucos são capazes de dizer isso com tamanha segurança. Ao longo de nossa existência, é certo que a maioria de nós terá algum tipo de arrependimento, mesmo que secreto. Uma palavra dita de forma ríspida, uma declaração de amor nunca revelada ou mesmo uma escolha profissional impensada podem desencadear crises desse sentimento indesejado, mas tão comum. O que nem todos sabem, no entanto, é que os motivos que mais geram arrependimentos são diferentes para homens e mulheres. Pelo menos é o que indica um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Illinois e Northwestern, nos Estados Unidos. Ao analisarem as respostas de 400 americanos, os pesquisadores concluíram que os homens guardavam mais arrependimentos ligados à vida acadêmica ou profissional – como não ter feito uma faculdade, por exemplo –, enquanto as mulheres confessaram se arrepender mais de questões relacionadas à vida amorosa ou familiar – como não ter se declarado para a pessoa amada. Considerando os dados gerais, contudo, as questões amorosas ficaram em primeiro lugar.

Outra conclusão da pesquisa revelou que, a princípio, tendemos a nos arrepender mais daquilo que julgamos ter feito errado do que das oportunidades que deixamos passar. Com o tempo, porém, as chances perdidas começam a pesar mais. “
Quando repassamos a vida, realizamos uma revisão do passado e a culpa pela falta de iniciativa parece ganhar intensidade”, diz Ana Bock, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O peso das oportunidades desperdiçadas foi o que motivou a enfermeira australiana Bronnie Ware a escrever o livro “The Top Five Regrets of the Dying” (“Os cinco principais arrependimentos das pessoas no leito de morte”, em tradução livre). Especialista em cuidados paliativos com doentes terminais, Bronnie identificou que a maioria de seus pacientes se arrependia de não ter tomado certas atitudes no passado. “O principal arrependimento foi não ter tido a coragem de fazer o que realmente queriam e sim aquilo que os outros esperavam”, disse.

A paulistana Amélia Miranda, 45 anos, é uma arrependida contumaz. Após viver 17 anos em um casamento em que ela e o marido estavam “separados, mas morando na mesma casa”, como ela diz, Amélia conheceu no ano passado um italiano também divorciado em uma viagem de férias. Apaixonados, chegaram a morar juntos por dois meses, até que ela resolveu, de repente, voltar ao País. “Fiquei com medo de me envolver demais e me decepcionar, então pensei que fugindo poderia esquecê-lo”, afirma. Não deu certo.

“Agora me arrependo de não ter levado o romance adiante.” Já o empresário Gustavo Fernandes, 34 anos, afirma pecar pelo contrário. “Me arrependo mais das ações que tomei do que das que não tomei”, diz. Hoje sócio de uma bem-sucedida rede de escolas no Rio de Janeiro, Fernandes revela que se arrepende de ter aberto negócios que não deram certo e o levaram a amargar prejuízos financeiros no passado. “Mas hoje consigo entender que mesmo as experiências ruins podem trazer algo de bom.”

Para a psicóloga Léa Michaan, aprender com as experiências e com os erros do passado só é possível quando encaramos o arrependimento sem lamentações. “É preciso entender que naquela época você era outra pessoa e fez o que era possível naquela situação”, diz. Opinião reforçada pela também psicóloga Eliete Matielo. “Não adianta nada se fazer de vítima. Se você errou e se arrependeu, enxergue isso como um alerta para não insistir nos mesmos erros”, diz. Mudar atitudes e a forma como lidamos com o arrependimento, porém, não é uma tarefa fácil. “É mais comum encontrar um sujeito ruminando um fato de que se arrepende do que pessoas que percebem na ideia de arrependimento um trampolim para uma mudança de comportamento”, afirma Paulo Mestriner, terapeuta cognitivo comportamental.

Seja por motivos familiares ou profissionais, os arrependimentos fazem parte da humanidade. “Algumas pessoas tentam viver a vida sem arrependimentos, mas acho que isso é injusto com nossa condição humana”, diz Neal Roese, da Universidade de Northwestern, que coordenou o estudo sobre arrependimentos. Afinal, como escreveu Voltaire (1694-1778), “Deus fez do arrependimento a virtude dos mortais”.


O QUE VOCÊ MUDARIA NA SUA VIDA?

Ter mais dinheiro, viajar mais... 
Pesquisa mostra o que os brasileiros
desejam mudar em suas vidas.


Eu te amo:
45% dos brasileiros gostariam de ter dito “eu te amo”.
Tatiane confessa que está precisando muito de dinheiro. “Mas daria tudo que tivesse para ter meu irmão de volta”, revela a jovem de 23 anos, moradora de Iguatu (CE). Ela e o irmão eram muito apegados, desde crianças, mas se distanciaram quando Tatiane se casou. Só se reaproximaram três anos depois, após a separação dela. “Eu criava minha filha, hoje com 6 anos, sozinha. E ele era o meu apoio. Gostaria de ter dito a ele o quanto o amava.” O irmão de Tatiane, Fernando, morreu num acidente de moto há dois anos, deixando uma filha recém-nascida. “Só depois do acidente percebi o quanto ele era importante para mim.”
Assim como Tatiane, 45% dos brasileiros gostariam de ter dito “eu te amo” mais vezes a alguém. Esta descoberta foi feita por Seleções ao receber as respostas de 5.587 pessoas de todo o país numa pesquisa em que perguntamos o que elas gostariam de mudar em sua vida se tivessem essa possibilidade. Os dados revelam um panorama dos anseios dos brasileiros e do que nós acreditamos que pode nos trazer mais felicidade. E uma constatação: se você deseja uma mudança, não está nem de longe sozinho – 96%* de nós também querem mudar algo, seja a aparência física, o emprego, ou mesmo a frequência com que faz sexo.

Ter mais dinheiro:
83% dos brasileiros querem ter mais dinheiro.
Não chega a ser surpresa que 83% dos brasileiros gostariam de ter mais dinheiro no bolso (mas é surpreendente que 17% estejam aparentemente felizes com sua conta bancária). A insatisfação é maior em pessoas com menos de 55 anos. Mas é entre os homens solteiros, de 30 a 34 anos, que se encontra o típico personagem insatisfeito. Para Antônio Carlos Onofre dos Santos, 33, quem diz não precisar de mais dinheiro “só pode ser político”. Funcionário de uma empresa de manutenção predial em Salvador (BA), ele gostaria de ter mais recursos para terminar a casa que constrói há quatro anos. “Ela não está nem na metade”, diz. “Gostaria de mais dinheiro para pagar minhas dívidas também. O salário cobre, mas é bem apertado, viu?”, conta ele, sem perder o bom humor.
Julia Cheiricatii Fonseca, 26 anos, é funcionária da prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Como muitos que responderam à pesquisa, ela quer ter mais dinheiro, não para esbanjar, mas para realizar um sonho: comprar uma casa. “Já entrei com um pedido de financiamento e estou aguardando a aprovação. Mas não sei se meu salário vai ser suficiente para arcar com as prestações de uma casa como a que eu e meu marido queremos.”

Viajar e conhecer novos lugares:
58% dos brasileiros querem viajar mais.
“Navegar é preciso! Viver não é preciso!” Jefferson de Souza Bernardes, presidente da Associação Brasileira de Psicologia Social (Abrapso), evoca o antigo general romano Pompeu para explicar um dos resultados mais expressivos da pesquisa: 58% dos brasileiros afirmaram que gostariam de ter viajado mais. “O espírito aventureiro faz parte de nossa herança cultural”, explica Jefferson. A geografia do país também colabora para esse desejo (em pesquisa semelhante no Reino Unido, só 39% manifestaram atração pelas viagens). “Nosso modo de ser criativo impulsiona as pessoas na direção do que desconhecem”, salienta ele.

Correr Riscos:
41% dos entrevistados gostariam de ter corrido mais riscos na vida.
De certa forma, a vocação para a mudança pode explicar outro resultado interessante: 41% dos entrevistados gostariam de ter corrido mais riscos na vida. A pedagoga Maria da Luz Calegari, autora de Temperamento e carreira, lembra que a marca do brasileiro é o “movimento e a inovação”. “Isso explica um certo gosto pelo risco, que nos faz tão bons em automobilismo e nos esportes radicais.” A advogada Sueli Marques dos Santos, de São Paulo, por exemplo, acha que poderia ter arriscado uma carreira artística, vinte anos atrás. “Abandonei a peça de teatro que estava ensaiando por causa do vestibular para Direito. Abri mão de um sonho acreditando que teria mais oportunidades no mercado de trabalho. Mas concluí que em todas as profissões há desafios.” Hoje, aos 46 anos, Sueli vive dilema semelhante com a filha, que quer estudar música. “Apoio e respeito sua vocação.”
Por Dirley Fernandes
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KETUT LIYER, O Guru do livro(filme) COMER, REZAR E AMAR.

A sabedoria da felicidade

São três da tarde e estou sentada ao lado de um velhinho de olhos alegres, pele dourada e a boca quase sem dentes. É assim que a escritora Elizabeth Gilbert descreve Ketut Liyer, curandeiro indonésio de nona geração. Esta é a minha primeira visita a Ketut, e ele lê a minha mão. E me diz que encontrarei trabalho criativo pelo qual me apaixonarei. Também diz com certeza absoluta que acharei a minha alma gêmea. Logo, logo.

Elizabeth Gilbert está certa ao dizer que Ketut se parece com Yoda, personagem da série Guerra nas estrelas. Raramente o xamã encarquilhado sai do seu lar humilde em Ubud, na Ilha de Bali. Mas é provável que seu nome seja mais famoso agora, com o sucesso mundial da versão cinematográfica do livro de memórias de Elizabeth Gilbert, o best-seller Comer, rezar, amar, estrelada por Julia Roberts.

De acordo com a autora, Ketut é responsável pela previsão que mudou a sua vida. Foi a profecia dele que a levou a formular o conceito de Comer, rezar, amar – um ano de vida passado na Itália, na Índia e em Bali – e obter o adiantamento que permitiu tudo isso.

E a descrição encantadora de Ketut fez multidões de forasteiros baterem à porta dele. A vida antiga de obscuridade, a receitar remédios caseiros e rituais para os vizinhos, virou lembrança. Na minha visita mais recente, contei quase 20 pessoas – muitas levando o livro – que aguardavam com paciência que ele lesse as suas mãos.

Fato ou ficção?
Fui apresentada ao mundo de Ketut em uma livraria no aeroporto de Hong Kong. Era o início de 2008 e eu ia a Bali pela primeira vez. O livro era exibido com destaque, e imaginei que seria uma leitura inspiradora durante o voo de quatro horas até a “Ilha dos Deuses”.

Dê o nome que quiser: destino, providência, kismet ou apenas a velha, simples e burra sorte, mas, assim que achei minha poltrona e peguei o livro para ler, a senhora sentada ao meu lado puxou a câmera digital e, empolgada, começou a me mostrar fotografias de um balinês idoso de aspecto feliz. Entusiasmada, ela me informou que aquele era Ketut, o famoso curandeiro que ajudara Elizabeth Gilbert a sair da tristeza e encontrar o sucesso.

Curioso, mergulhei nas páginas do livro e decidi fazer uma visita ao adivinho. Será que ele estaria à altura das expectativas sobrenaturais criadas por Elizabeth Gilbert? Eu esperava que sim. Se ele realmente contribuíra com as aspirações dela de escritora, talvez conseguisse dar vida às minhas.

O curandeiro
Pedi ajuda a alguns colegas viajantes para encontrar o endereço de Ketut, e, num piscar de olhos, estamos a caminho de Ubud. Ao passar pelo portão da frente da casa, vimos um homem alegre, parecido com a descrição de Ketut, sentado na varanda exatamente como Elizabeth Gilbert escrevera. Lia a mão de duas australianas.

Ketut nos olha com um sorriso jovial e nos dá um aceno rápido e amistoso. Quando chega a nossa vez de nos sentarmos com ele, aquela sensação predominante de felicidade se mostra contagiosa. Embora fale um inglês muito básico, as palavras simples de Ketut são de entendimento universal e especialmente positivas.

É difícil descobrir detalhes exatos da sua vida. Parece que eles mudam um pouco depois de várias visitas. Sob a influência das reflexões de Elizabeth Gilbert, muita gente lhe pergunta a idade, mas o número continua a ser um mistério. Parece que, sinceramente, ele não se lembra do ano em que nasceu. Isso é muito comum entre os balineses, que acham que, na data do nascimento, o mais importante é o dia da semana.

Ketut começou a trabalhar como artista plástico e entalhador. Mais tarde, o avô lhe passou os conhecimentos e também o ofício de curandeiro, confiando-lhe pergaminhos sagrados com séculos de existência. Esses textos balineses antigos contêm muitas doutrinas diversas, com rituais sagrados e o tratamento de doenças comuns.

Voltei a Bali várias vezes depois daquela primeira visita. Em cada viagem, sempre visito Ketut. A fama de ter influenciado a hoje famosa Elizabeth Gilbert é que lhe dá o seu encanto. Muita gente quer reencenar a viagem da autora em Comer, rezar, amar, do mesmo modo que os mochileiros continuam a buscar na Tailândia A praia da adaptação do livro para o cinema, com Leonardo DiCaprio.

Ketut não é guru ou iogue, no sentido tradicional indiano. Não tenta penetrar nas profundezas da alma com olhos candentes para colaborar com a viagem rumo ao esclarecimento, nem parece aceitar alunos, como fez com Elizabeth Gilbert no livro. No entanto, cada visita é uma oportunidade de se banhar na aura de felicidade descomplicada que ele transmite.

Mais recentemente, acompanhando uma amiga, mencionei a Ketut que vira na Internet o trailer do filme Comer, rezar, amar, e na mesma hora ele me pediu que o passasse para ele. O filho Nyoman foi nos preparar uma xícara do forte café balinês (sempre servido sem filtrar, com o pó grosso enchendo o fundo da caneca) enquanto eu ia até uma lan house próxima carregar o trailer do filme no laptop.

Comer, rezar, amar
Ketut assistiu, com vivo interesse, ao começo do trailer, em que o ator que o representa faz a previsão para Julia Roberts: “Você viverá muito tempo [...] Perderá todo o seu dinheiro [...] Não se preocupe, vai recuperar tudo e retornará a Bali, e então vou lhe ensinar tudo o que sei.” O ator abre um sorriso amplo e quase desdentado bem parecido com o de Ketut.
Este me pede que repasse o trailer algumas vezes e observa: “Foram essas palavras mesmo que falei para a mulher de Nova York.” 

Ele quer dizer Elizabeth Gilbert, cujo nome nem sempre consegue lembrar, muito embora tenha passado meses com ela, e visitantes tenham lhe dado exemplares do livro em todas as traduções disponíveis.
Então, ele desvia a atenção da tela do computador e, com os olhos brilhantes, pergunta: “Por que não me usaram? Sou muito mais bonito.” Na verdade, a pergunta é séria.

Ketut, o mais longe possível de Hollywood, não entende direito por que não poderia ser ele ali na tela. Tentei explicar que ser ator é muito tedioso, tendo de repetir as mesmas frases várias vezes o dia inteiro; é um serviço muito diferente de ser “Homem Santo”. Também digo que, normalmente, as pessoas não representam a si mesmas no cinema, ressaltando que “a mulher de Nova York” era representada por Julia Roberts. Ketut ainda não está completamente convencido. Para ele, esse é literalmente o papel que nasceu para desempenhar.

A sabedoria da felicidade
O sol já está se pondo e esse homenzinho mágico lê a mão de duas senhoras americanas. Escuto-o descrever um futuro parecido com o que previu para Elizabeth Gilbert:
Agora você vai encontrar alguém para o resto da vida, que ficará muito feliz de estar com você, e não vai se divorciar de novo.” Os olhos delas brilham, do mesmo jeito que os meus devem ter brilhado durante a primeira visita.

O sucesso não traz necessariamente felicidade, mas a felicidade em si cria o sucesso. Acho que esse ditado é verdadeiro no caso de Ketut. A cada encontro, percebo que a maior parte das minhas expectativas originais, vindas das páginas de Comer, rezar, amar, era bastante equivocada. A alegria e o contentamento profundos de Ketut empolgam os visitantes e são como um estímulo para que busquemos concretizar as nossas aspirações, como fez a Elizabeth Gilbert.

A real magia de Ketut tem base em uma propriedade muito mais sutil e aparentemente humana: a sabedoria da felicidade.
Por Michael Pohorly

ARTHUR SCHOPENHAUER - Sobre o amor...

  • O amor é a compensação da morte.
  • O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.
  • A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.
  • O amor é como os fantasmas de que todos falam, mas que ninguém viu.
  • A compaixão pelos animais está intimamente ligada a bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.
  • O amor é o centro invisível de todos os atos e de todos os fatos.
  • A fé é como o amor: não pode ser obtida pela força.

O FLAGRANTE - Luís Fernando Veríssimo



José olha fundo nos olhos de Roberto. Os dois levantam suas taças.
A nós.
A nós.
Bebem, olhos nos olhos. Nisso, a porta do apartamento se abre e entra uma mulher.
Sueli! ― exclama José.
Arrá! ― diz Sueli.
Te peguei!― O que você está fazendo aqui?― Me enganando. E com outro homem!
Sueli, em primeiro lugar, você não me "pegou", porque nós não estávamos fazendo nada. Em segundo lugar, mesmo que estivéssemos fazendo alguma coisa, eu não estaria "enganando" você pela simples razão de que nós não somos mais casados. Nos divorciamos há muito tempo e eu não devo mais satisfação a você. Se você tem medo de ser enganada, preocupe― se com seu atual marido e...
Você quer ficar quieto, José? ― interrompe Sueli.
Não estou falando com você. Estou falando com ele.
José aponta para Roberto.
Com ele?
É. Meu atual marido.
Seu marido?!
Roberto está quieto. José, para Roberto:
Você não me disse que era casado!
Cala a boca, José ― ordena Sueli. Depois se dirige a Roberto.
E então, o que você me diz? Dois meses de casado e você já anda com um qualquer. Seu pilantra!
Um qualquer, não ― protesta José. Lembre-se de que eu já fui seu marido.
Sueli começa a chorar. Roberto se aproxima dela.
O que é isso, Sueli. Fique calma. Nem parece você. Vamos, Suelizinha...
Não chama de Suelizinha que ela não gosta ― instrui José. Tarde demais.
Não me chama de Suelizinha!
Deixa que eu sei fazer ― diz José, afastando Roberto e abraçando Sueli. ―Vamos, Su. Que bobagem.
José beija a orelha de Sueli e mostra para o outro.
A orelha é importante. Ó.
Morde ou só beija?
Pode dar uma mordidinha.
Deixa eu tentar. Roberto afasta José e abraça Sueli.
Começa a mordiscar sua orelha. Dá resultado. Sueli se acalma.
Mas agora José está enciumado.
Que foi? ― pergunta Roberto, notando a cara de José.
Nada.
Nada, não. Você está chateado.
Não é nada.
Faz cafuné nele ― diz Sueli.
O quê?― Faz cafuné que ele gosta. Em cima da cabeça.
Roberto começa a fazer cafuné em José. Ao mesmo tempo, mordisca a orelha de Sueli. Nisso a porta se abre e entra outra mulher.
Anita! ― exclama José.
Eu sabia. Segui você até aqui porque sabia que ia encontrar uma cena assim. Você não tem vergonha? Depois de todas as juras que fizemos
Anita, não é nada do que você está pensando ― diz José. Eu...
Quer ficar quieto, José?
Eu estou falando com ela.
José aponta para Sueli.
Com ela?!
Anita ― diz Sueli, vem cá.
Anita se junta ao grupo. Sueli a abraça.
Pronto, pronto ― diz Sueli.
Roça a nuca dela com o queixo ― instrui José.
Assim?
É.
Ficam os quatro de pé no meio da sala, Roberto mordiscando a orelha de Sueli, que roça a nunca de Anita com o queixo, e, fazendo cafuné em José, que, sem ter o que fazer, pergunta
O caso de vocês duas começou antes ou depois do nosso casamento?
Não é a hora, José ― diz Sueli.
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ENTREVISTA DE EMPREGO: NARCISISMO AJUDA OU ATRAPALHA? - Natasha Romanzoti


O narcisismo ajuda em alguma coisa? Na maioria das ocasiões, diríamos que não, que ser narcisista é um traço de personalidade negativo, senão insuportável.

No entanto, um novo estudo descobriu que, em entrevista de empregos, o narcisismo compensa! Mas apenas no contexto de curto prazo de uma entrevista de emprego (ser contrato é uma coisa, continuar no emprego é outra).
Este é um cenário onde não há problema em dizer coisas boas sobre si mesmo. Na verdade, é esperado. Simplesmente, quem está acostumado com isso tende a fazer muito melhor do que os que não estão”, disse Peter Harms, professor de administração na Universidade de Nebraska-Lincoln e coautor do estudo.

O estudo examinou a eficácia dos tipos de comportamentos que os narcisistas apresentam — normalmente vistos como desajustados — no contexto restrito de uma entrevista de emprego.
Na primeira parte da pesquisa, 72 participantes foram filmados em um ambiente de trabalho simulado, preenchendo um formulário para uma vaga de emprego. Como esperado, os narcisistas foram mais propensos a se autopromover.

No entanto, foi quando entrevistadores experientes contestaram os entrevistados que os narcisistas demonstraram melhor seu comportamento. Enquanto indivíduos normais desistiram de táticas de autopromoção sabendo que seriam responsabilizados, os narcisistas aumentaram suas tentativas de parecerem os melhores.

Quando se sentem desafiados, eles tendem a aumentar sua confiança. É como se eles pensassem ‘você vai me desafiar? Então eu não sou apenas bom, eu sou fantástico’”, explicou Harms.
Neste contexto, essa atitude ajudou. Os narcisistas foram muito melhor nas entrevistas de emprego simuladas do que as pessoas não narcisistas.

Segundo os pesquisadores, isso tem a ver com a tendência inata dos narcisistas de promover-se, se envolver e falar longamente, o que implica confiança e experiência, coisas que foram consideradas mesmo quando eles foram entrevistados por pessoas realmente experientes.

Na segunda parte do estudo, 222 avaliadores examinaram os vídeos dos candidatos, que tinham habilidades de trabalho semelhantes e níveis variados de narcisismo.

Os avaliadores consistentemente gostaram dos autopromotores, que falavam rapidamente e de forma longa, e que usavam táticas como sorrir, gesticular e cumprimentar os outros. Sendo assim, os narcisistas foram avaliados mais positivamente, enquanto candidatos igualmente qualificados que tendiam a demonstrar modéstia foram menos bem avaliados.

Isso mostra que a vitória dos narcisistas está na apresentação”, disse Harms. Harms afirma que o estudo mostra como podemos ser falíveis quando fazendo julgamentos em entrevistas. “Nós não necessariamente queremos contratar narcisistas, mas podemos acabar fazendo isso porque eles parecem mais autoconfiantes e capazes”, disse.

Por isso, os entrevistadores deveriam tomar consciência das conclusões desse estudo sobre as táticas usadas pelos narcisistas, e, se necessário, evitar selecionar pessoas que se comportam dessa forma, usando autopromoção crônica e outros sinais narcisistas, a menos que esses comportamentos sejam apropriados para a posição.

No geral, não sabemos se os narcisistas são trabalhadores mais ou menos eficazes. Mas o que sabemos é que eles podem ser muito perturbadores e destrutivos quando lidam com outras pessoas regularmente. Se os outros candidatos têm as mesmas habilidades, provavelmente o melhor é contratá-los, em vez dos narcisistas”, conclui Harms.
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QUANDO DEUS APARECE - Martha Medeiros

Tenho amigas de fé. Muitas. Uma delas, que é como uma irmã, me escreveu um e-mail me contando a maravilha que foi o recital do pianista Nelson Freire no Theatro São Pedro, recentemente. Ela escreveu: “Nessas horas Deus aparece”.

Fiquei com essa frase retumbando na minha cabeça. Deus não está em promoção, se exibindo por aí. Ele escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente. Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós. Eu não sou uma católica praticante e ritualística - não vou à missa. Mas valorizo essas aparições como se fosse a chegada de uma visita ilustre, que me dá sossego à alma.

Quando Deus aparece pra você?

Pra mim, ele aparece sempre através da música, e nem precisa ser um Nelson Freire. Pode ser uma música popular, pode ser algo que toque no rádio, mas que me chega no momento exato em que preciso estar reconciliada comigo mesma. De forma inesperada, a música me transcende.

Deus me aparece nos livros, em parágrafos em que não acredito que possam ter sido escritos por um ser mundano: foram escritos por um ser mais que humano.

Deus me aparece - muito! - quando estou em frente ao mar. Tivemos um papo longo, cerca de um mês atrás, quando havia somente as ondas entre mim e ele. A gente se entende em meio ao azul, que seria a cor de Deus, se ele tivesse uma.

Deus me aparece - e não considere isso uma heresia - na hora do sexo, desde que feito com quem se ama. É completamente diferente do sexo casual, do sexo como válvula de escape. Diferente, preste atenção. Não quer dizer que qualquer sexo não seja bom.

Nesse exato instante em que escrevo, estou escutando My Sweet Lord cantado não pelo George Harrison (que Deus o tenha), mas por Billy Preston (que Deus o tenha também) e posso assegurar: a letra é um animado bate-papo com Ele, ritmado pelo rock'n'roll. Aleluia.

Deus aparece quando choro. Quando a fragilidade é tanta que parece que não vou conseguir me reerguer. Quando uma amiga me liga de um país distante e demonstra estar mais perto do que o vizinho do andar de cima. 

Deus aparece no sorriso do meu sobrinho e no abraço espontâneo das minhas filhas. E nas preocupações da minha mãe, que mãe é sempre um atestado da presença desse cara.

E quando eu o chamo de cara e ele não se aborrece, aí tenho certeza de que ele está mesmo comigo".

PARA VIVER UM GRANDE AMOR - Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. 

É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. 

Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. 

É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

RAQUEL DE QUEIROZ - Os dois bonitos e os dois feios

Nunca se sabe direito a razão de um amor. Contudo, a mais frequente é a beleza. Quero dizer, o costume é os feios amarem os belos e os belos se deixarem amar. Mas acontece que às vezes o bonito ama o bonito e o feio o feio, e tudo parece estar certo e segundo a vontade de Deus, mas é um engano. Pois o que se faz num caso é apurar a feiúra e no outro apurar a boniteza, o que não está certo, porque Deus Nosso Senhor não gosta de exageros; se Ele fez tanta variedade de homens e mulheres neste mundo é justamente para haver mistura e dosagem e não se abusar demais em sentido nenhum. Por isso também é pecado apurar muito a raça, branco só querendo branco e gente de cor só querendo os seus iguais — pois para que Deus os teria feito tão diferentes, se não fora para possibilitar as infinitas variedades das suas combinações?

O caso que vou contar é um exemplo: trata de dois feios e dois bonitos que se amavam cada um com o seu igual. E, se os dois bonitos se estimavam, os feios se amavam muito, quero dizer, o feio adorava a feia, como se ela é que fosse a linda. A feia, embalada com tanto amor, ficava numa ilusão de beleza e quase bela se sentia, porque na verdade a única coisa que nos torna bonitos aos nossos olhos é nos espelharmos nos olhos de quem nos ame.

Vocês já viram um vaqueiro encourado? É um traje extraordinariamente romântico e que, no corpo de um homem e delgado, faz milagres. É a espécie de réplica em couro de uma armadura de cavaleiro.

Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado, e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino. Aliás, falei que só assenta roupa de couro em homem magro e disse uma redundância, porque nunca vi vaqueiro gordo. Seria mesmo que um toureiro gordo, o que é impossível. Se o homem não for leve e enxuto de carnes, nunca poderá cortar caatinga atrás de boi, nem haverá cavalo daqui que o carregue.

Os dois heróis da minha história, tanto o feio como o bonito, eram vaqueiros do seu ofício. E as duas moças que eles amavam eram primas uma da outra — e apesar da diferença no grau de beleza, pareciam-se. Sendo que uma não digo que fosse a caricatura da outra, mas era, pelo menos, a sua edição mais grosseira. O rosto de índia, os olhos amendoados, a cor de azeitona rosada da bonita, repetidos na feia, lhe davam uma cara fugidia de bugra; tudo que na primeira era graça arisca na segunda se tornava feiúra sonsa.

De repente, não se sabe como, houve uma alteração. O bonito, inexplicavelmente, mudou. Deixou de procurar a sua bonita. Deu para rondar a casa da outra, a princípio fingindo um recado, depois nem mais esse cuidado ele tinha. Sabe-se lá o que vira. No fundo, talvez obedecesse àquela abençoada tendência que leva os homens bonitos em procura das suas contrárias; benza-os Deus por isso, senão o que seria de nós, as feiosas? Ou talvez fosse porque a bonita, conhecendo que o era, não fizesse força por sustentar o amor de ninguém. Enquanto a pobre da feia todos sabem como é — aquele costume do agrado e, com o uso da simpatia, descontar a ingratidão da natureza. E embora o seu feio fosse amante dedicado, quanto não invejaria a feia a beleza do outro, que a sua prima recebia como coisa tão natural, como o dia ser dia e a noite ser noite. Já a feia queria fazer o dia escuro e a noite clara — e o engraçado é que o conseguiu. Muito pode quem se esforça.

O feio logo sentiu a mudança e entendeu tudo. Passou a vigiar os dois. Se esta história fosse inventada poderia dizer que ele, se vendo traído, virou-se para a bonita e tudo se consertou. Mas na vida mesmo as pessoas não gostam de colaborar com a sorte. Fazem tudo para dificultar a solução dos problemas, que, às vezes, está na cara e elas não querem enxergar. Assim sendo, o feio ficou danado da vida, e nem se lembrou de procurar consolo junto da bonita desprezada; e esta, se sentindo de lado, interessou-se por um rapaz bodegueiro que não era bonito como o vaqueiro enganoso, mas tinha muito de seu e podia casar sem demora e sem condições.
Assim, ficaram em jogo só os três. O feio cada dia mais desesperado. A feia, essa andava nas nuvens, e toda vez que o "primo" (pois se tratavam de primos) lhe botava aqueles olhos verdes — eu falei que além de tudo ele ainda tinha os olhos verdes? — ela pensava que ia entrar de chão adentro, de tanta felicidade.
Mas o pior é que os dois vaqueiros ainda saíam todo o dia juntos para o campo, pois eram campeiros da mesma fazenda e se haviam habituado a trabalhar de parelha, como Cosme e Damião. Seria impossível se separarem sem que um dos dois partisse para longe, e, é claro, nenhum deles pretendia deixar o lugar vago ao outro.

Assim estava a intriga armada, quando a feia, certa noite, ao conversar na janela com o seu bonito que lá viera furtivo, colheu um cravo desabrochado no craveiro plantado numa panela de barro e posto numa forquilha bem encostada à janela (era uma das partes dela, ter todos esses dengues de mulher bonita) e enquanto o moço cheirava o cravo, ela entrefechou os olhos e lhe disse baixinho:
Você sabe que o outro já lhe jurou de morte?
(Vejo que esta história está ficando muito comprida — só deixando o resto para a semana que vem.)
Falei que o desprezado jurara de matar o traidor. Seria verdade? Quem sabe as coisas que é capaz de inventar uma mulher feia improvisada em bonita pelo amor de dois homens, querendo que o seu amor renda os juros mais altos de paixão?

O belo moço assustou. Gente bonita está habituada a receber da vida tudo a bem dizer de graça, sem luta nem inimizade, como seu direito natural, que os demais devem graciosamente reconhecer. As mulheres o queriam, os homens lhe abriam caminho. E não é só em coisas de amor: de pequenino, o menino bonito se habitua a encontrar facilidades, basta fazer um beiço de choro ou baixar um olho penoso, todo o mundo se comove, pede uni beijo, dá o que ele quer. Já o feio chora sem graça, a gente acha que é manha, mais fácil dar-lhe uns cascudos do que lhe fazer o gosto. Assim é o mundo, e se está errado, quem o fez foi outro que não nos dá satisfações.

Pois o bonito assustou. Deu para olhar o outro de revés, ele que antes vivia tão confiado, como se adiasse que a obrigação do coitado era lhe ceder a menina e ainda tirar o chapéu. Passou a ver mal em tudo. De manhã, ao montar a cavalo, examinava a cilha e os loros, os quatro cascos do animal. Ele, que só usava um canivete quando ia assinar criação, comprou ostensivamente uma faca, afiou-a na beira do açude, e só a tirava do cós para dormir. E quando saía a campo com o companheiro, em vez de irem os dois lado a lado, segundo o costume, marchava atrás, dez braças aquém do cavalo do outro.

O feio não falava nada. Fazia que não enxergava as novidades do colega. Como sempre andara armado, não careceu comprar faca para fazer par com a peixeira nova do rival. E, sendo do seu natural taciturno, continuou calado e fechado consigo.

E o outro — nós mulheres estamos habituadas a pensar que todo homem valente é bonito, mas a recíproca raramente é verdade, e nem todo bonito é valente. Este nosso era medroso. Era medroso mas amava, o que o punha numa situação penosa. Não amasse, ia embora, o mundo é grande, os caminhos correm para lá e para cá. Agora, porém, só lhe restava amar e ter medo. Ou defender-se. Mas como? O rival não fazia nada, ficava só naquela ameaça silenciosa; as juras de morte que fizera — se as fizera — de juras não tinham passado ainda. Meu Deus, e ele não era homem de briga, já não disse? Tinha a certeza de que se provocasse aquele alma fechada, morria.

Bem, as juras eram verdadeiras. O feio jurara de morte o bonito e não só de boca para fora, na presença da amada, mas nas noites de insônia, no escuro do quarto, sozinho no ódio do seu coração. Levava horas pensando em como o mataria — picado de faca, furado de tiro, moído de cacete. Só conseguia dormir quando já estava com o cadáver defronte dos olhos, bonito e branco, ah, bonito não, pois, quando o matava em sonhos, a primeira coisa que fazia era estragar aquela cara de calunga de loiça, pondo-a de tal modo feia que até os bichos da cova tivessem nojo dela. Mas como fazer? Não poderia começar a brigar, matá-lo, sem quê nem mais. Hoje em dia justiça piorou muito, não há patrão que proteja cabra que faz uma morte, nem a fuga é fácil, com tanto telégrafo, avião, automóvel. E de que servia matar, tendo depois que penar na prisão? 

Assim, quem acabaria pagando o malfeito haveria de ser ele mesmo. O outro talvez fosse para o purgatório, morrendo sem confissão, mas era ele que ficava no inferno, na cadeia. Aí então teve a idéia de uma armadilha. Botar uma espingarda com um cordão no gatilho... quando ele fosse abrindo a porta. Não dava certo, todo o mundo descobriria o autor da espera. Atacá-lo no mato e contar que fora uma onça... Qual, cadê onça que atacasse vaqueiro em pleno dia? E a chifrada de um touro? Difícil, porque teria que apresentar o touro, na hora e no lugar... Lembrou-se então de um caso acontecido muitos anos atrás, quase no pátio da fazenda. O velho Miranda corria atrás de uma novilha, a bicha se meteu por sob um galho baixo de mulungu, o cavalo acompanhou a novilha, e em cima do cavalo ia o vaqueiro: o pau o apanhou bem no meio
da testa, lá nele, e quando o cavalo saiu da sombra do mulungu, o velho já era morto... Poderia preparar uma armadilha semelhante? Como induzir o rival?... Levou quatro dias de pesquisa disfarçada para descobrir um pau a jeito. Afinal achou um cumaru à beira de uma vereda, onde o gado passava para ir beber na lagoa. O cumaru estirava horizontalmente um braço a dois metros do chão, cobrindo a vereda logo depois que ela dava uma curva. A qualquer hora passariam de novo os dois por ali. E como só um passava pela vereda estreita, bastaria ele ficar atrás, apertar de repente o passo, meter o chicote no cavalo da frente; o outro, assustado com o disparo do cavalo, se descuidava do pau — e era um homem morto.

Mas não deu certo. Isto é, deu certo do começo ao fim — só faltou o fim do fim. Pois logo no dia seguinte se encaminharam pela vereda, perseguindo um novilhote. O bonito na frente, o feio atrás, como previsto. 

Quando chegaram à curva que virava em procura do cumaru, o de trás ergueu o relho, bateu uma tacada terrível na garupa do cavalo da frente, que já era espantado do seu natural, e o animal desembestou. Mas o instinto do vaqueiro salvou-o no último instante. Sentiu um aviso, ergueu os olhos, viu o pau, deitou-se em cima da sela e deixou o cumaru para trás. Logo adiante acabava a caatinga e começava o aceiro da lagoa. O bonito sofreou afinal o cavalo. Podia ser medroso, mas não era burro, e uma raiva tão grande tomou conta dele, que até lhe destruiu o medo no coração. Sem dizer palavra, tirou a corda do laço debaixo da capa da sela, e ficou a girar na mão o relho torcido, como se quisesse laçar o novilho que também parará várias braças além, e ficara a enfrentá-los de longe. O companheiro espantou-se: será que aquele idiota esperava laçar o boi, a tal distância? Claro que não entendera como andara perto da morte... Mas o laço, riscando o ar, cortou-lhe o pensamento: em vez de se dirigir à cabeça do novilho, vinha na sua direção, cobriu-o, apertou-se em redor dele, prendeu-lhe os braços ao corpo e, se retesando num arranco, atirou-o de cavalo abaixo. Num instante o outro já estava por cima dele, com um riso de fera na cara bonita.


Pensou que me matava, seu cachorro... Açoitou o cavalo de propósito, crente que eu rebentava a cabeça no pau... Um de nós dois tinha de morrer, não era? Pois á assim mesmo... um de nós dois vai morrer. Enquanto falava, arquejando do esforço e da raiva, ia inquirindo na corda o homem aturdido da queda, fazendo dele um novelo de relho. Dai saiu para o mato, demorou-se um instante perdido entre as aves e voltou com o que queria — um galho de imburana da grossura do braço de um homem. Duas vezes malhou com o pau na testa do inimigo. Esperou um pouco para ver se o matara. E como lhe pareceu que o homem ainda tinha um resto de sopro, novamente bateu, sempre no mesmo lugar.

Chegou à fazenda, com o companheiro morto à sela do seu próprio cavalo, ele à garupa, segurando-o com o braço direito, abraçado como um irmão; com a mão esquerda puxava o cavalo sem cavaleiro.

Ninguém duvidou do acidente. Foi gente ao local, examinaram o galho assassino, estirado sobre a vereda como um pau de forca. Fincaram uma cruz no lugar.

E o bonito e a feia acabaram casando, pois o amor deles era sincero. Foram felizes. Ela nunca entendeu o que houvera, e remorso ele nunca teve, pois, como disse ao padre em confissão, matou para não morrer.
E a moral da história? A moral pode ser o velho ditado: faz o feio para o bonito comer. Ou então compõe-se um ditado novo: entre o feio e o bonito, agarre-se ao bonito. Deus traz os bonitos de baixo da Sua Mão.
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