OUTRA MANEIRA DE VER AS COISAS - Ramiro Calle

Era um homem que sempre tivera boa sorte, mas certo dia começou a deparar-se com muitas contrariedades. Foi visitar um sábio e disse-lhe:

- Venerável sábio, estou à beira do desespero. Desde há um tempo, tudo me corre mal. A minha mulher adoeceu, os meus negócios dão prejuízo e o meu ânimo anda abatido.

- Assim são as coisas – disse o sábio. – A fortuna e o infortúnio alternam-se. É a lei da vida.

- Não, não – protestou o homem. – Alguém conjurou contra mim, garanto-lhe.

O homem estava obcecado com isso e os raciocínios do mestre de nada serviam. De repente, o mestre disse:

- Ainda bem que conservo o amuleto que o meu mestre me deixou e que é infalível nestes casos. Nunca falhou.

O sábio pôs um pequeno seixo do rio na mão do homem e disse-lhe:

- Não o percas. É muito poderoso. Pendura-o ao pescoço e todos os dias, durante um mês, reza-lhe uma prece. Foi benzido pelo meu mestre e pelo mestre do mestre do meu mestre.

Aliviado, o homem foi-se embora. Todos os dias rezava uma prece ao amuleto e o seu ânimo começou a restabelecer-se, os seus negócios começaram a correr melhor e a sua mulher começou a recuperar. Passado um mês, voltou a visitar o sábio e disse-lhe:

- Alma nobre, que relíquia maravilhosa! Aqui a tem, senhor, é muito valiosa! Grande poder o dela!

Mas o sábio ordenou-lhe:

-Deita-a fora! Desfaz-te dessa simples pedrinha. Não é um amuleto, apanhei-a um dia qualquer perto do rio.

O homem indignou-se visivelmente e perguntou:

- Está a fazer pouco de mim? Por que fez isso?

- Porque estavas tão obcecado que tive de usar a tua imaginação construtiva para refrear a tua imaginação destrutiva. É como quando um homem sonha que está a ser atacado por um leão mas encontra um revólver e o mata, ou seja, com um arma ilusória matou um leão ilusório.

O poder da imaginação é extraordinário, tanto na sua direção construtiva como destrutiva, criativa ou autodestrutiva. É uma energia que há que saber orientar. 

A imaginação descontrolada e neurótica faz-nos ver o que não é e induz-nos a falsas interpretações e a sentirmo-nos ameaçados por objetos, situações e circunstancias que não têm qualquer mal. 

Um sinal de sabedoria é poder manter a mente mais atenta ao aqui e agora e exercitá-la para que compreenda o que é, e não o que foi ou possa vir a ser. 
in “Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle.
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