CARNAVAL 2017 - Agenda Completa - Blocos, Bandas, Bailes, Desfiles e todos os eventos.

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MARCELO CRIVELLA CHUTOU A ALMA CARIOCA – Edmir Silveira

Para todo cargo público, existe uma coisa chamada cerimonial. No exercício de seu mandato, em todas as cerimônias inerentes ao cargo, a presença do eleito está representando o povo, não a ele próprio.

Goste ou não de carnaval, todo carioca sabe da importância dessa festa, de repercussão mundial, para a cidade. É sinônimo de Rio de Janeiro e da celebração do espírito carioca.

É, também, o período de maior faturamento turístico, trazendo aumento de receita para a cidade como um todo. Mais necessários ainda nesses tempos de economia falida. Resumindo, o carnaval não é só uma tradição carioca, representa um evento importante para a arrecadação pública e desenvolvimento da atividade turística da cidade. É o evento popular mais importante do País. É conhecida internacionalmente como a maior festa popular do mundo.

Pois bem, hoje, sexta-feira, dia da abertura oficial do carnaval carioca, o Rei Momo, suas rainhas, representantes da velha guarda de todas as escolas de samba e outras figuras tradicionais do carnaval, tiveram a maior decepção de suas vidas. Foram feitos de palhaço pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivela.

Ele não cumpriu seu papel, inerente ao cargo que ocupa, de entregar as chaves da cidade ao Rei Momo. Não enviou representante ou mesmo emitiu uma nota oficial sobre o motivo dessa enorme falta de respeito e consideração com a cidade do Rio de Janeiro e seu povo.  

A tradicional cerimônia de entrega das chaves da cidade pelo prefeito ao Rei Momo e sua corte não aconteceu. Na hora prevista, todos os personagens da festa estavam em seus lugares. A cerimônia estava pronta. Mas, ele não deu as caras. Deu um perdido na galera.

O evento não aconteceu, nem mereceu, por parte da prefeitura, nenhum comentário ou justificativa. Nenhuma declaração ou nota oficial, nem bilhete em papel de pão rolou. 

Crivella deixou no ar um recado claro, tipo: “não tenho o menor respeito por vocês!” Numa atitude semelhante a do pastor que chutou a padroeira do Brasil no dia dela. 
Não sei que repercussão terá na mídia. Mas, é muito grave.

No carnaval de 2017, Marcelo Crivella chutou a alma carioca.

*Mais de duas horas e meia após a hora marcada e depois da grande repercussão negativa do fato nas mídias sociais, Crivella mandou uma secretária municipal representá-lo e mandou dizer que sua esposa estava resfriada e, por isso, ele não foi. 
Aconteceu, então, uma cerimônia constrangedora sem a menor graça ou alegria. 
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O QUE HÁ POR TRÁS DA IRRITAÇÃO FREQÜENTE?

Por trás de toda irritação há algum grau de frustração. Nós nos irritamos porque nos sentimos incapazes de controlar alguma situação ou pessoa. Isso é claro. Também é claro que todos nós, absolutamente todos, temos momentos de mau humor de vez em quando. Pequenas explosões de caráter que podem ser muito saudáveis quando são originadas por uma causa razoável.

Mas o que acontece quando a irritação não acaba? Quando permanecemos quase todo o tempo com a testa franzida, os olhos entreabertos e procurando alguma briga? Será que pertencemos a esse grupo de “resmungões por natureza” ou há algo mais aí?

A resposta é uma só: por trás de uma irritação frequente, há mais do que uma frustração passageira; o que se esconde é uma depressão encoberta.

A irritação crônica
Em algumas ocasiões, o mau humor não é algo de momento, mas se estende por semanas, meses ou anos. Às vezes, o incomum não é que tenhamos esses incêndios repentinos em nosso caráter, mas sim que consigamos manter a serenidade. A irritação vai se transformando em nossa maneira normal de ser diante da vida. Tudo nos incomoda, ficamos irritáveis e perder a calma é o que acontece com mais frequência.

Nesse caso, a irritação não está direcionada contra uma pessoa ou uma situação em particular. A pessoa simplesmente sente tudo o tempo todo, experimentando intolerância, aborrecimento e tédio.

Por sua vez, expressa-se por meio das atitudes clássicas: gritar, permanecer inquieto, tenso, ter sempre à mão um comentário de auto-desqualificação ou de crítica para os demais. Fisicamente, manifesta-se por meio do cenho franzido permanentemente, problemas digestivos e, muito provavelmente, dificuldades para dormir adequadamente.

Se esse é o seu caso, o mais provável é que não esteja irritado com o mundo: na realidade, está irritado consigo mesmo.

As razões que lhe impulsionaram a criar inimizade internamente com o que você é certamente tem a ver com os modelos mentais que gerencia inconscientemente. Há parâmetros que você escolheu para avaliar a si mesmo, sem ter muito claro o porquê, e que só estão servindo para reprovar a si mesmo mais uma vez. Também há experiências não resolvidas em seu passado. Por isso você se irrita, mas não sabe.

O fogo e a chama
Não é o caso de entrar e analisar aqui todas as possíveis razões pelas quais você decidiu se transformar em um dos seus piores inimigos. Está na profundidade da sua mente, no mais remoto da sua história. Mas o que, sim, podemos esboçar é pelo menos uma pergunta “por que são tão válidas as razões que o levam a manter-se irritado?”

Esqueça os demais, porque eles nunca vão se comportar exatamente como você quer ou pensa que devem se comportar. Os outros são somente uma desculpa que você utilizou para poder expressar a sua irritação. Não são as suas falhas, nem a crise econômica, nem a tensão bélica na Coréia que lhe deixam irritado.

Simplesmente, você tem uma ideia do “dever ser” na vida e não consegue se ajustar a ela. Isso faz com que se sinta terrivelmente mal; você não só se julga severamente, mas também se culpa e se atormenta. Paradoxalmente, seu ego gigantesco não o permite que se compreenda, nem que se perdoe.

A ira é como um fogo interno que arde. Um elemento capaz de dar calor ou de arrastar o que se encontre pelo seu caminho. Essa raiva indefinida é também uma força interna da qual não conseguiu se apropriar. Pode ser o motor de grandes ações, mas também a brasa onde se consomem os melhores momentos da sua vida.

Há um assunto que está pendente com você mesmo, não com os demais. Você deve resolvê-lo e, provavelmente, precisará de ajuda para isso. O que está esperando?
Fonte: A mente maravilhosa.
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5 COISAS QUE OS FILHOS JAMAIS ESQUECERÃO SOBRE SEUS PAIS – Edith Casal

 Todos os pais querem ter filhos maravilhosos. Querem que eles sejam afáveis enquanto crianças e, quando crescerem, se comportem como pessoas responsáveis e úteis para a sociedade. No entanto, eles se esforçam muito mais em pensar no amanhã do que em semear suas bases durante o presente em que caminhamos. Alguns pais pensam que quando seus filhos são pequenos, eles só devem obedecer e que a criação é apenas isso.

O resultado é que temos cada vez mais crianças inconformadas e adultos infelizes. Quando não há critério para a criação consistente, lógica e estável, a probabilidade de que os filhos mostrem comportamentos rebeldes e/ou herméticos aumenta. Talvez caprichosos, talvez autoritários e, em todos os casos, instáveis. Eles não conseguem estabelecer um vínculo afetivo e próximo com seus pais, pelo contrário, eles vivem em uma guerra indireta ou aberta com eles.

“O problema com a aprendizagem de ser pais é que os filhos são os professores.”
-Robert Braul-

Uma das partes mais importantes de nossa vida é a infância. É onde se constroem os alicerces de uma mente saudável e de um coração limpo. Desta forma, algumas atitudes dos pais deixam uma marca para sempre: às vezes positiva, às vezes negativa, mas na maioria das vezes profunda. Aqui estão cinco destas condutas que os filhos poucas vezes esquecem.

Os filhos jamais esquecem os maus-tratos
Nenhuma relação é perfeita, e muito menos uma tão intensa como a dos pais com seus filhos. Sempre haverá momentos de contradição ou de conflito, e isso é algo perfeitamente normal. O que muda é a maneira de superar essas dificuldades e, lamentavelmente, muitos pais assumem erroneamente que os maus-tratos são uma ferramenta para educar.

Pode ser que, com os maus-tratos, o pai ou a mãe consiga intimidar o filho para que ele faça exatamente o que ele/a quer. Mas esses maus-tratos também irão se transformar no gérmen da falta de autoestima e em uma fonte de rancor. Eles colocam o filho em uma situação muito complexa: ele ama e odeia ao mesmo tempo, e também aprende a temer. O coração de um filho é muito sensível, e se for ferido de forma constante, com o tempo ele irá se transformar em uma pessoa insensível.
  
A forma como os pais tratam um ao outro
A relação entre o pai e a mãe é o padrão que a criança terá para formar uma atitude perante os relacionamentos amorosos. É muito provável que, quando for adulto, ele repita com sua parceira de forma consciente ou inconsciente o que viu em casa entre seus pais. Antes disso, ele provavelmente irá repetir com as pessoas que ama.

Pense que os conflitos entre os pais geram angústia no filho. Uma das possíveis consequências será que ele irá se envolver em problemas simplesmente para atrair a atenção de um dos pais, que não ligam para ele porque estão centrados no conflito em que estão envolvidos. Além disso, ele irá apreciar ou não os relacionamentos amorosos com base nesses padrões aprendidos.

Os momentos em que se sentiram protegidos
Os medos das crianças são maiores e mais insidiosos do que os dos adultos. Os pequenos não conseguem distinguir bem a fronteira entre a realidade e a imaginação. Os pais são as pessoas em quem eles mais confiam para obter a sensação de segurança de que precisam para aprender e explorar o desconhecido. Assim, se são os pais os que causam este medo, eles vão se sentir totalmente desprotegidos.

Os pais devem escutar com atenção esses medos, sem criticá-los nem minimizá-los. Eles devem fazer com que os filhos entendam que não estão em perigo. Isto irá aumentar o sentimento de segurança dos filhos e irá fortalecer muito mais o vínculo de amor e de respeito com os pais.

A falta de atenção
Para um filho, o amor que os pais lhes dão está intimamente relacionado à atenção que recebem deles. Para os filhos não existem expressões de afeto como trabalhar horas extras para poder lhe pagar um colégio caro. Eles não irão acreditar que você os ama se você não passar tempo com eles para os conhecer e estar presente no mundo deles.

Os filhos nunca esquecem que o pai e a mãe deram uma camisa verde de presente, quando haviam dito até enjoar que queriam uma roxa, ou que prometeram algo que jamais cumpriram. Eles encaram isso como uma forma de abandono, como uma mensagem que diz: “você não é importante o suficiente”. Por isso ficará uma marca de dor em seus corações.

A valorização da família
Os filhos vão sempre lembrar que seu pai ou sua mãe foram capazes de colocar a família como prioridade em diversas circunstâncias. As crianças precisam e gostam das celebrações, não importa se é com mais ou menos presentes. Também é muito importante para eles que o pai e a mãe levem o Natal a sério.

Se os pais colocam a família acima de tudo, o filho irá aprender o valor da lealdade e do afeto. Quando for adulto, ele também será capaz de deixar de lado outros compromissos para ir ver seus pais quando precisarem dele. Ele se sentirá compensado e terá uma maior capacidade para dar e receber afeto.

Todas essas marcas deixadas durante a infância nos acompanham pelo resto de nossas vidas. Muitas vezes elas representam a diferença entre ter uma vida saudável mentalmente e uma vida cheia de conflitos. Uma criação repleta de amor e de carinho é o melhor presente que um ser humano pode dar a outro.
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ZUENIR VENTURA - O Dia em que eu morri

O presidente Lula tinha acabado de discursar quando recebi a notícia de minha morte. Eu estava na cerimônia de inauguração do Instituto Moreira Salles e vi Marcos Sá Corrêa vindo em minha direção com o cabelo molhado de quem saiu do banho às pressas e a cara de quem estava vendo fantasma. De fato, eram as duas coisas. Viera correndo de casa, ali perto, para me avisar que infelizmente eu tinha morrido.

Acho que cheguei a esboçar um ar compungido ao ouvir o relato e devo ter dito que o falecido era um cara legal.

O boato fora divulgado na Internet, on-line, pela Agência Estado, que se baseara no telefonema que um repórter deu para um antigo número meu: 267-0415. Quem atendeu disse que eu morrera num desastre de carro na Lagoa. O próprio repórter me contou depois: “a mulher deve ser uma louca, porque me atendeu chorando, dando detalhes de sua morte e dizendo que trabalhava com a família há 14 anos; 'coitada da Mary, dos filhos', chegou a dizer”.

O equívoco correu redações, chamou de volta quem já estava em casa, ameaçou desarrumar páginas prontas, congestionou linhas telefônicas e chocou amigos e parentes. Meu filho, por exemplo, que custou a ser localizado, conviveu com o boato como se ele fosse verdade por mais de uma hora. Por ser irresponsável, a tal maluca do telefone com certeza não consegue imaginar o que uma brincadeira dessas pode causar.

Lá pelas 9 horas da noite – eu tinha morrido às 16h – a imprensa descobriu que eu estava no IMS e não no IML. Do lado de fora, dezenas de repórteres e fotógrafos aguardavam atrás de um cordão de isolamento a saída do presidente. Veio então uma ordem das redações para que falassem comigo; não valia mais versão, eu tinha que ser ouvido ao vivo, se é que a expressão se aplicava ainda a mim.

Naquele momento, eu era mais importante do que o presidente, o governador, o prefeito e quem mais estivesse lá dentro. Afinal, não é todo dia que se vê alguém morrer e ressuscitar em cinco horas. O recorde era três dias, mas fora batido há muito tempo.

Lá fora os colegas apontavam suas armas para mim: microfones, gravadores, câmeras, canetas. Nunca tinha me sentido desse lado e aprendi o que é ficar na frente daquilo que a gente mesmo chama de "batalhão de jornalistas". Era uma entrevista coletiva inédita, de um ex-morto. Quando me perguntaram como é que eu estava me sentindo, quase respondi: “estava melhor no Além”.

Já de madrugada abri o computador e vi a descrição de minha morte; era tão precisa que não tive dúvida, devia ser verdade. Uma agência séria não colocaria no ar um boato desses. Seria muita irresponsabilidade. Uma falsa notícia de morte pode ter conseqüências desastrosas. Além do mais, o morto era figurinha fácil na cidade, de apuração rápida. Se a Agência resolvesse esperar um pouco, os repórteres conseguiriam desfazer o boato, como aliás desfizeram logo depois, só que aí eu já estava morto. Será que notícia em tempo real é isso, primeiro divulga e depois apura?

Não pode ser. A hipótese mais provável era a de que eu estava mesmo morto. Se um vivo é capaz de se imaginar morto, um morto pode muito bem se imaginar vivo lendo a notícia da própria morte. Era o que eu fazia ali, agora. Com material parecido, um outro defunto, o machadiano Brás Cubas, esse, genial, escreveu uma obra-prima. Com a ajuda do vinho que havia tomado para comemorar, passei a acreditar no que estava lendo. Leiam o que li:

“Morre o escritor Zuenir Ventura – Rio de Janeiro – A empregada do jornalista Zuenir Ventura, Maria Antônia, afirmou agora à noite que ele morreu hoje, após sofrer um acidente na Lagoa, na zona sul do Rio de Janeiro, por volta do meio-dia. Segundo a empregada, que há 14 anos trabalha com a família, Zuenir, autor de 1968 – o ano que não terminou, Cidade partida e Inveja faleceu às 16 horas. Ele era colunista do jornal O Globo, e sua última coluna vai ser publicada amanhã.”

Colegas dizem que nos Estados Unidos isso daria processo e indenização. No Brasil não deu nem pedido oficial de desculpas da Agência, muito menos flores para o enterro, sequer uns cravos de defunto.
Zuenir Ventura, Maio de 2010.
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ZYGMUNT BAUMAN - 30 anos de orgia consumista nos deixaram com a sensação de urgência sem fim.

 A frouxidão de nossa era está novamente sob escrutínio 
do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Criador do conceito de modernidade líquida, que acusa a fragilidade das relações atuais, ele se volta às angústias destes “dias de interregno”: quando os velhos jeitos de agir já não servem, mas os novos não foram inventados. “Trinta anos de orgia consumista resultaram em um estado de emergência sem fim”, diz – e indica uma saída: “O que pensávamos ser o futuro está em débito conosco. Para superar a crise, temos de ‘voltar ao passado’, a um modo de vida imprudentemente abandonado”

Zygmunt Bauman presenciou os principais acontecimentos do século 20 e na virada do milênio criou uma teoria que levaria seu nome para além do campo da sociologia e o tornaria um escritor best-seller – sobre a liquidez da sociedade, das relações, do nosso tempo. Um dos principais pensadores da modernidade, este polonês prestes a completar 91 anos não perde um debate, e tudo que o inquieta é transformado em livro. Ele está lançando agora Babel – Entre a Incerteza e a Esperança.

Babel fala do interregno – termo usado por Bauman e pelo jornalista Ezio Mauro, seu interlocutor na obra – em que estamos vivendo. Um tempo entre o que não existe mais e o que não existe ainda. De incertezas e instabilidade. Para eles, não há, no momento, movimento político que ajude a minar o velho mundo e esteja preparado para herdá-lo. Um período em que testemunhamos uma guinada conservadora geral, a instalação do medo devido a ameaças terroristas constantes – a ponto de um grupo de espanhóis confundir uma flashmob com um ataque e entrar em pânico – e as crises diversas – econômica, política, migratória, e, sobretudo da democracia que, depois de muito esforço para derrotar ditaduras, ainda precisa lutar diariamente por sua supremacia e para provar sua legitimidade, como apontam os autores. […]

O interregno em que estamos vivendo e o que acontece depois

“Como medir a relativa excelência do nosso estilo de vida? Em que aspectos, por quais critérios? E quem são os “nós” cuja vida queremos analisar? Entre os diferentes setores da sociedade nem o ritmo e nem as direções tomadas são coordenadas (pense no fabuloso crescimento da renda e da riqueza dos 1% que estão no topo da hierarquia social frente à estagnação ou mesmo piora do nível de vida dos restantes 99%, e a outrora confiante classe média se juntando ao ‘proletariado’ ortodoxo para formar uma nova categoria, do ‘precariado’ – notória pela posição social frágil e suas perspectivas indefinidas). No geral, podemos dizer que 15 anos depois da publicação de Modernidade Líquida, a nova era, ainda incipiente e pouco percebida em meio a 30 anos de orgia consumista, de gastar dinheiro não ganho e de viver o pouco tempo que resta em novos bairros já moribundos está chegando à sua total fruição: estamos vivendo à sombra de suas consequências.

E isso significa incerteza existencial, medo do futuro, uma perpétua ansiedade e uma sensação de urgência sem fim, com a primeira geração do pós-guerra sentindo a queda do nível de bem-estar social conseguido por seus pais e, na vida pública, a perda total de confiança na capacidade dos governos cumprirem suas promessas e o dever de proteger os direitos dos cidadãos e atender aos seus interesses. O fim desta confiança engendra, por outro lado, um ambiente em que ‘ninguém assume o controle’, em que os assuntos do estado e seus sujeitos estão em queda livre, e prever com alguma certeza que caminho seguir, sem falar em controlar o curso dos acontecimentos, transcende a capacidade humana individual e coletiva. O ‘interregno’ significa que velhas maneiras de agir não dão mais resultado, contudo, as novas ainda precisam ser encontradas ou inventadas. Ou: tudo pode acontecer, mas nada pode ser feito e visto com certeza”. […]

Sobre a virada conservadora do mundo

“A probabilidade dos fenômenos foi sugerida – na verdade, inferida – pelos sintomas que se acumulam da cada vez mais ampla separação, beirando o divórcio, do poder (ou seja, a capacidade de realizar as coisas) e da política (a capacidade de decidir quais coisas necessitam ser feitas). Essas duas condições indispensáveis para uma ação efetiva até mais ou menos 50 anos atrás caminhavam de mãos dadas no Estado-nação, mas se separaram e seguiram destinos diferentes: enquanto o poder em grande medida ficou ‘globalizado’ – e se tornou ‘extraterritorial’, livre de controles, direção e orientação por instituições políticas – a política permaneceu como antes, local, confinada ao território do Estado e impotente diante da influência importante dos poderes que não se submetem a controles e que são os que importam na escala global.

Hoje, os poderes emancipados do monitoramento e da supervisão política enfrentam políticos pé no chão e sofrendo o contínuo, e até agora incurável, déficit de poder. Vivemos uma crise institucional permanente. Os instrumentos de ação coletiva herdados dos nossos ancestrais e cujo fim foi servir à causa da independência de estados territorialmente soberanos não são mais adequados nesta situação de interdependência mundial criada pela globalização do poder”. […]

A ameaça que enfrentamos e a origem da crise

“Uma advertência: ‘crise de democracia’ é uma abreviação, uma noção limitada. Em países com constituições democráticas, a crise de um Estado-nação territorialmente confinado, é culpa (afirmação fácil, mas não muito competente) de seus órgãos e características definidos constitucionalmente, com a divisão de poderes, liberdade de expressão, equilíbrio de poderes, direitos das minorias, para citar alguns. Mas se a democracia está ‘em crise’ é porque o Estado-nação territorialmente soberano (concebido em 1648 pelo Tratado de Westfalia e cuja fórmula é cuius regio eius religio – os súditos obedecem ao governante) está em crise, incapaz de atacar e enfrentar, sem falar em solucionar, problemas gerados pela nova interdependência da humanidade.

Houvesse um governo autoritário ou ditatorial substituindo um regime democrático, os órgãos políticos resultantes não estariam livres da fragilidade dos órgãos de governos democráticos que ele substituiu e pela qual a democracia hoje é acusada. Quero acrescentar que o veredicto atribuído a Winston Churchill (“democracia é o pior dos sistemas políticos, à exceção de todos os outros”) continua verdadeiro até hoje. Para não dar confusão, acho que é aconselhável evitar atribuir responsabilidades pela impotência observada hoje dos Estados territorialmente soberanos e, em vez disso, analisar a incongruência fundamental do nosso tempo ansiando por uma revisão radical das ideias e uma reformulação das formas de coabitação da humanidade na Terra. Segundo Ulrich Beck, essa incongruência deriva do fato de que nós todos, gostemos ou não, já estamos inseridos numa situação cosmopolita, mas não nos preparamos seriamente para a tarefa extremamente urgente de desenvolver e assimilar a consciência cosmopolita”. […]

Sobre nossas utopias e a nossa capacidade de sonhar 

“Acho que uma mudança transcendental é provável. Ao sonharmos com uma sociedade mais acolhedora e uma vida decente e significativa, avançamos gradativamente da utopia (lugar ainda inexistente, mas à espera no futuro) para o que chamo de ‘retrotopia’ (‘volta ao passado’, ao modo de vida que foi exageradamente, irrefletidamente e imprudentemente abandonado). Trato disso no meu novo livro, Retrotopia, a ser publicado pela Polity Books em 2017. Podemos concluir que passado e futuro estão nesse quadro intercambiando suas respectivas virtudes e vícios. Agora é o futuro que parece ter chegado ao tempo de ser ridicularizado, sendo primeiro condenado pela falta de confiança e dificuldade de manejar e que está em débito. E agora o passado é o credor – um crédito merecido porque neste caso a escolha ainda é livre e o investimento é na esperança na qual ainda se acredita.

A esperança é mesmo imortal?

Procuro seguir o preceito de Antonio Gramsci: ser pessimista a curto prazo e otimista a longo prazo. Afinal, esta não é a primeira crise na história da humanidade. De alguma maneira, as pessoas encontraram meios para superá-las no passado. Eles podem (e é essa capacidade que nos torna humanos) repetir a façanha mais uma vez. A única preocupação é: quantas pessoas pagarão com suas vidas desperdiçadas e oportunidades perdidas até que isto ocorra?”.
Tradução de Terezinha Martino
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MUDAR É MUITO DIFÍCIL, MAS NÃO MUDAR É FATAL - Leandro Karnal

  
Independente da minha ação tudo muda.  Tudo muda a todo instante. Tudo muda.  É bom pensar nisso.  E tudo mudando eu posso ter duas opções: A mudança passa por mim ou a gerencio; ou eu faço ou ela fará por mim. Não importa, porque se eu ficar bem paradinho a mudança continua porque ela atinge até o que não tem consciência, como pedras e plantas. Esta é a mudança – precisa reconhecer isso – que pode ser um lema de vida. Mudar é difícil, não mudar é fatal. Mudar é muito difícil. Mudar hábitos, mudar relações, mudar propostas, mas não mudar é fatal.

Será que este ano você resolve aquele probleminha com o seu inglês?  Você vai resolver o fato de você ter problemas com o uso da crase?  Estude, faça exercícios, tente, mude. Não mudar é fatal. Usando o quadro de Matisse: Mudar, mudar-se. Mudar as coisas que nos cercam. Mudar e reinventar-se. Quem não se reinventa na amizade, no emprego ou no casamento esgota essa possibilidade rapidamente. A pessoa com quem se casou há vinte, dez, quinze, trinta anos não existe mais. Nem as células são as mesmas.  Infelizmente os neurônios são os mesmos, cada vez em menor quantidade. Mas as células se renovam constantemente.

A imagem da escultura americana Carlyle diz que o homem com consciência e ação está se esculpindo como a sua grande obra. Você se torna na sua própria obra, torna-se na pessoa que investe nisso. Este o momento de pensar nisso.  Fim de ano.  Há uma poesia de Antônio Machado, o espanhol – não o nosso Machado de Assis, mas o Machado espanhol – que é conhecida de todos: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”.

O problema de eu comprar o livro A cabeça de Steve Jobs é que ele não leu esse livro para fazer o que fez. O problema de pedir conselho é que quem venceu não pediu conselhos. É a velha história de Mozart que, perto de morrer, recebe a carta de um menino de 15 anos, de Praga, que pergunta a ele como fazer uma ópera. E Mozart responde: “E muito cedo para você fazer isso”. O menino responde na terceira carta entre os dois: “O senhor fez a primeira com nove anos”.  E Mozart responda na quarta carta: “É verdade, mas eu não perguntei a ninguém como se fazia”.

Essa é a diferença. Ouvir conselhos de pessoas que não os praticam. Têm uns casamentos destroçados, mas elas dão conselhos. Ouçam todo mundo. Segundo Hamlet: “A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio“. Em qualquer sentido. A todos ofereça o ouvido, ouçam o que as pessoas têm a dizer.  Nós estamos falando sempre delas. Façam isso. Tornem-se diferentes ou achem felicidade na repetição que também é possível.

Achem felicidade em ser comum. Achem felicidade na repetição do óbvio. Achem felicidade em fazer a felicidade de outro como minha avó que faz o menu do Natal há trinta anos, colocando os mesmos pratos nos mesmos lugares da mesa. Até o cheiro da casa é o mesmo. E ela era feliz assim. Achem a felicidade na repetição ou na renovação. E este é o momento, fim de ano, para fazer essa reflexão. A reflexão do quanto eu quero aprofundar, de que eu quero transformar o que está ao alcance da minha mão. Uma das coisas mais fascinantes da vida é isso.

Quando eu tinha dezoito anos, estava do meio para o fim da faculdade, em entrei muito cedo, eu fui fazer o primeiro estágio em sala de aula, na 5ª Série. Hoje não existe mais essa nomenclatura. Eu e uma colega vimos uma aula na 5ª Série. Eu saí de lá horrorizado. Eu disse: “Eu não quero isso, que horror. São uns demônios, eles gritam, estão possuídos por Satanás”. Aquilo era um horror. Eu saí de lá e disse para a minha colega: “Eu vou fazer tudo para acabar a minha faculdade, mas eu não quero dar aula para a 5ª Série”.  Acabei dando por algum tempo, mas eu queria escapar disso. Eu queria dar aula para adultos e não para crianças. Terminou a faculdade e eu me inscrevi para ser professor. Passados mais de 30 anos disso, esta mesma minha amiga estava dando aula para a 5ª Série.  Ela sempre disse que eu tive sorte.

Sorte é o nome que se dá para a pessoa que leva adiante o seu plano. Sorte é o nome que se dá a quem se empenha. Mas a minha sorte foi atravessar as madrugadas estudando. A minha sorte foi vir para São Paulo com uma mão na frente e outra atrás. A minha sorte foi um projeto longo, o custo do sacrifício em construir uma carreira. Essa foi a minha sorte que levei adiante.

Este é o momento para pensar na sorte ao invés de estar comendo lentilhas no Ano Novo. Não tem um pobre que não coma lentilhas. Rico não come lentilhas, é uma coisa fascinante. E o pobre continua comendo. No ano seguinte come de novo. Ao invés de investir na lentilha ou em alguma coisa assim, se preferir troque superstição por religião, mas pense num projeto para 2017, leve este projeto adiante. Nesse projeto faça tudo o que você possa fazer. O tempo linear é uma invenção nossa.  Mas como eu dizia antes, o tempo pode ser circular e, assim, pode ser um recomeço a qualquer instante, de qualquer ponto.

O tempo linear é uma invenção do Ocidente. E pode ser de fato, um Ano Novo. Pode ser, de fato, um novo momento. Basta uma ação de quem vai enfrentar o mundo. O mundo não vai querer,  vai nos obrigar a refazer a ação e insistir como tudo que é importante na vida tem que se insistir muito. Muitas vezes. A recompensa por essa escolha é a vida que vale a pena ser vivida.

Perguntaram-me uma vez, num debate sobre felicidade, se eu era feliz. Eu respondi que o único objetivo que posso ter, a única ideia que eu posso ter é que eu já fui infeliz e hoje eu sou feliz. É a comparação. Ninguém pode saber se de fato é feliz. Mas eu já fui infeliz. E hoje o ponto maior da minha felicidade é saber que ela depende de mim. Exclusivamente de mim. Então, esta é a vida válida para mim. Nem sempre é fácil. Algumas coisas eu estou querendo abrir mão porque não adiantou insistir, minha energia não foi suficiente. Mas aquela que foi possível se tornou numa vida válida.  
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FOMOS DEIXANDO DE ESCUTAR – Mia Couto

Me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deixamos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixamos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficamos surdos pelo excesso de palavras, ficamos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer terá que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.

Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração esse que a literatura elegeu como sede das paixões, o coração é o primeiro órgão a formar-se na morfogênese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som, não que escutamos — nós já escutávamos outro coração, esse coração maior cuja presença reinventaremos durante toda a nossa existência —, mas é o primeiro som que produzimos. Antes da noção da Luz, o nosso corpo aprende a ideia do Tempo.

Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.
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O TEMPO E O TÉDIO – Thomas Mann

Com respeito à natureza do tédio encontram-se
 frequentemente conceitos errôneos.

Acredita-se em geral que a novidade e o caráter interessante do seu conteúdo "fazem passar mais rápido" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada.

Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam.

Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.

O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse fato também se baseia no hábito.

Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral.

Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo - seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante.

Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do momento, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se também novos, amplos e juvenis, mas somente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital - volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse de um sonho de uma noite.
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O VALOR DO TEMPO – Sêneca

Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta tão servil. Ambos os lados têm em vista a razão pela qual o tempo é solicitado e nenhum encara o tempo em si - como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado.

Estão a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intangível, não aberta à inspeção, e, portanto, considerada muito barata - de fato, quase sem qualquer valor.

As pessoas ficam encantadas por aceitar pensões e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou serviços. Mas ninguém percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.

Mas se a morte ameaça estas mesmas pessoas, vê-las-ás a recorrer aos seus médicos; se estiverem com medo do castigo capital, as verá preparadas para gastarem tudo o que têm para se manterem vivas. Tão inconsistentes são nos seus sentimentos!

Mas se cada um de nós pudesse ter um vislumbre dos seus anos futuros, como podemos fazer em relação aos anos passados, como ficariam alarmados os que só podem ver com alguns anos de antecedência e como seriam cuidadosos a utilizá-los! E, no entanto, é fácil organizar uma quantidade, por pequena que seja daquilo que nos está garantido; temos de ser mais cautelosos a preservar o que cessará num ponto desconhecido.

Mas não deves pensar que tais pessoas não sabem como é precioso o tempo.

Dizem com regularidade àqueles de quem são particularmente chegados que estão dispostos a dar-lhe alguns dos seus anos. E dão-lhos sem estarem conscientes dele; mas a dádiva é tal que eles próprios perdem sem acrescentar nada aos outros. Mas o que de fato não sabem é que estão a perder; assim, podem suportar a perda do que não sabem que se foi.
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O MAIS INFALÍVEL VENENO É O TEMPO – Ralph Waldo Emerson

Tabaco, café, álcool, ácido prússico, estricnina — todos não passam de poções diluídas: o mais infalível veneno é o tempo. Essa taça, que a natureza nos põe nos lábios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. 

Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperança, amor, ambição, ciência. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, força, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e delírio. 

Nós adiamos o nosso trabalho literário até que tenhamos maturidade e técnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento literário não passava de uma efervescência juvenil que perdemos.
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VERDADE E MENTIRA – Cormac McCarthy

Sei que há imensas coisas na história de uma família que são pura fantasia. Qualquer família. As histórias vão passando de geração em geração e a verdade vai-se perdendo. Quem conta um conto acrescenta um ponto, como se costuma dizer.

Alguns talvez achem que isto significa que a verdade não consegue competir com a mentira. Mas eu cá não acredito nisso. Cá para mim, depois de todas as mentiras terem sido contadas e esquecidas, a verdade perdura ainda. Não anda a fugir de um lado para o outro e não muda com o passar do tempo.

É impossível corrompê-la, assim como é impossível salgar o sal. É impossível corrompê-la porque é pura, sem adornos. É a matéria de que são feitas as nossas palavras. Já ouvi compará-la à rocha - talvez a bíblia - e não discordo dessa ideia.

Mas a verdade permanecerá, mesmo quando a rocha tiver desaparecido. Tenho a certeza que certas pessoas discordam isto. Bastante, aliás. Mas nunca cheguei a perceber em que é que nenhuma delas acredita.
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