A GRANDE PIADA CÓSMICA POR TRÁS DA ILUMINAÇÃO - Tales Luciano Duarte

A grande piada cósmica é que você é o que está procurando

Essa é a grande piada do universo. Andamos tanto, buscamos tanto, imaginamos tanto, fazemos tantos e tantos planos, queremos conhecer tanto os mistérios do universo, mistérios da vida, mistérios da morte……

Toda a busca religiosa e espiritual neste planeta acabará por onde você começou. Se isso não é uma piada fantástica vale uma boa gargalhada.

Nós todos olhamos para a felicidade, paz e satisfação nas coisas do mundo, mas atrás de todas estas coisas está nossa própria natureza – nosso próprio ser.

Alguns mestres de meditação e místicos ao longo da história tem explicado sobre essa piada cósmica. Um deles é o mestre Zen Thich Nhat Hanh que diz:

thich-nhat-hanh-zen-master
Eu rio quando penso como procurava o paraíso fora do mundo do nascimento e morte. E é o no mundo de nascimento e morte que a verdade milagrosa é revelada. Mas este não é o riso de alguém que de repente adquire uma grande fortuna; nem é o riso de quem teve uma grande vitória. É, antes, o riso de quem; depois de uma desgastante procura por algo por um longo tempo, encontra esse algo no bolso de seu casaco.

Temos levado a iluminação como algo muito a sério?

Buda percebeu que todas as condições do mundo são temporárias e levar qualquer coisa muito a sério cria sofrimento, é a lei da impermanência.

Tudo irá se modificar, a tentativa de se apegar a qualquer coisa, situação, pessoa ou objeto é a base de todo sofrimento.

Outro praticante budista, Longchenpa, percebeu a verdade da lei da impermanência e concluiu:

Uma vez que tudo é apenas uma aparição, não tendo nada a ver com bom ou mau, de aceitação ou de rejeição, podemos muito bem dar uma gargalhada de tudo.

O recados de mestres espirituais é que cada coisa que você imagina ser, é na realidade uma mentira inteligente construída por um mecanismo de defesa psicológica na sua mente contra a verdade existencial da transitoriedade.


Em outras palavras você não é quem você pensa que é. Isso é muito engraçado, não é? No entanto, só rindo sobre isso e não levando a sério já é um ótimo mecanismo de enfrentamento maravilhoso para ser capaz de digerir “verdades” aparentemente duras.

Como diz Longchenpa, você pode também começar a rir, ou como um outro mestre Zen moderno Adyashanti explica:

Nós percebemos, muitas vezes, de repente, que o nosso senso de auto-centramento, que foi formado e construído a partir de nossas idéias, crenças e imagens, não é realmente o que somos. Esse senso não nos define, não há centro.
Adyashanti


Grandes professores espirituais têm um traço comum – eles riem muito.

Diziam que para saber se um importante lama da tradição budista tibetana Gelugpa estava chegando no templo era só ouvir as risadas que ele disparava.

Outro professor espiritual foi o inglês Alan Watts a quem você não pode ouvir por 5 minutos sem chegar a ouvir sua gargalhada contagiante.

Alan-Watts

As pessoas sofrem só porque eles levam a sério o que os deuses fizeram para se divertir – Alan Watss.

Comediantes muitas vezes apontam para a discrepância entre a forma como pensamos e as coisas como elas realmente são, bem melhor do que os “sérios” da sociedade

Bill Hicks e George Carlin disseram: O tolo iluminado é aquele que vê as viagens do ego da sociedade e ainda é possível encontrar alegria e riso em seu meio.

O tolo é muitas vezes o iluminado, aquele com sabedoria louca, com risos e piadas como sua arma, eles cortam a conformidade mundana e traz à luz a criança latente borbulhando de felicidade logo abaixo da superfície de toda a seriedade.

O tolo possui uma sabedoria que está fora do alcance do conformista. A atitude lúdica em contato com uma enorme quantidade de criatividade.

Humor também é extremamente curativo, todos dizem que o riso é o melhor remédio e é verdade. Ele também pode aliviar o stress e a tensão da vida diária, reduzir o tédio no trabalho e unir pessoas de diferentes origens.

A Iluminação

A maioria das pessoas pensa que iluminação é a pessoa “iluminada” ser perfeita. Virtude perfeita, amor perfeito, perfeito conhecimento.

Este ideal da pessoa perfeita é uma piada e não existe na realidade. São criados cultos de adoração em torno de pessoas que são vistas como perfeitas e apenas sublinha o resto de nós com culpa por não viver de acordo com essas fantasias idealistas.

Então onde a piada cósmica pode nos levar?

Voltar para onde começamos; para a alegria pura não adulterada de apenas estar vivo – rindo sem motivo e sorrindo como um chapeleiro louco. A vida é uma dança cósmica sobre a cabeça da agulha da eternidade.
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JÁ FOMOS ENGANADOS POR TEMPO DEMAIS – Edmir Silveira

No Brasil os princípios estão mortos só existem os fins.

As declarações das maiores autoridades do congresso nacional demonstram que eles perderam completamente a noção de por quem e com que finalidade foram eleitos. 

Parece que todos esqueceram que estão em cargos eletivos, que representam pessoas que acreditaram que seus interesses e princípios iriam ser representados por aquele cidadão que se propôs a isso. Muito mais do que isso, foi o político que pediu pelo amor de Deus para que acreditassem e votassem nele. 

Isso parece, e é o BÊÁBÁ da democracia representativa.

Mas, num país onde a educação é das piores do mundo, vemos que os eleitos também não se prepararam como deviam. Talvez por isso, ou por pura arrogância e crença na impunidade, temos ouvido dos congressistas barbaridades como:

- “Essa casa não vai ceder à pressão popular...”
- “Quem quiser que se eleja e venha legislar...”
- “Não quero nem saber... não me interessa”.
-“Aqui, quem decide somos nós excelências, não admitimos pressão...”

Seria cômico se não fosse realmente muito trágico. Eles perderam completamente a noção do que estão fazendo lá.

Agora vemos que sempre foi muito fácil nos enganar antes dessa era conectada pela internet, onde acompanhamos os fatos em tempo real.
Tudo fotografado e gravado em áudio e vídeo. Agora temos certeza que eles estão debochando da gente. Passando na cara.

Eles estão lá apenas para defender os próprios interesses, que basicamente são dois: roubar dinheiro público e criar leis que os protejam das punições a esses crimes.

Simples assim.

Já fomos enganados por tempo demais. E, agora, ainda estamos tendo que pagar a conta do banquete deles.

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.
Abraham Lincoln
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MENTIRA: UM FARDO PESADO DEMAIS

 Mesmo que você não conheça o termo “mitomania“,
certamente já ouviu falar dos mentirosos patológicos ou compulsivos.

Provavelmente venha na memória algum filme ou livro onde o personagem tinha este problema e contava inúmeras mentiras. Estes filmes, às vezes, são catalogados no gênero de comédia; contudo, longe de ser uma coisa divertida, é algo realmente cruel e dramático para as pessoas que o vivem e para as pessoas que atravessam o seu caminho.

É um problema muito sério que tem consequências penosas, tanto para a pessoa que mente patológica e compulsivamente como para as pessoas que se relacionam com ela. Além disso, é especialmente difícil para as pessoas que confiaram cegamente no outro e jamais esperariam o que vieram a descobrir com o tempo.

As mentiras brancas precisam ser eventuais, não habituais

Mentir é um ato comum na sociedade em que vivemos. As chamadas “mentiras brancas” nada mais são do que um último recurso que às vezes utilizamos para sair de um situação que nos traz algum conflito. Às vezes são usadas para nos defendermos dos outros ou para protegermos a nossa própria dignidade.

Desde o conceito de “não posso ficar com você porque estou ocupada a tarde toda” quando na verdade a tarde está livre, mas não estamos com vontade de sair de casa; até o “sim, você está muito bonita, esse vestido fica lindo” quando na verdade não é isso que pensamos. No primeiro caso, não queremos dizer para a outra pessoa que existe alguma coisa que nos agrada mais do que a sua companhia – dizemos simplesmente “não posso” em vez de “não quero” – no segundo caso não queremos causar um desgosto à outra pessoa dizendo que ela fez uma má aquisição quanto ao vestido.

“Não é o fato de você ter mentido para mim, e sim o fato de que já não posso mais acreditar em você, que me apavora.”
-Friedrich Nietzsche-

Que sejam “brancas” não implica que seja necessário recorrer a elas de forma constante, já que perdemos autenticidade com nós mesmos e com os outros. Se realmente não queremos sair de casa, temos todo o direito de não ter vontade e de expressá-lo assim para a outra pessoa.

Ganhamos em honestidade e autenticidade cada vez que dizemos a verdade

“Me perdoe, mas hoje estou cansada e não sinto vontade de sair. Que tal se fizermos isso outro dia?” Com esta simples frase ganhamos mais um pouquinho de sinceridade com a outra pessoa e com nós mesmos. Contudo, estas “mentirinhas”, como costuma-se dizer, não são sinônimo de gravidade ou transtorno, mas sim um tipo de subterfúgio que aprendemos desde crianças para sair de alguns conflitos rápida e facilmente sem ferir sentimentos alheios.

“Uma mentira não teria sentido se a verdade não fosse vista como perigosa.”
-Alfred Adler-

Sentimentos que, mentindo ou não, não depende de nós que sejam feridos, mas depende da pessoa com a qual interagimos. Se meu amigo fica chateado porque hoje eu não tenho vontade de sair de casa porque estou cansado, não é a minha responsabilidade; mas é minha responsabilidade se eu mentir ou não para ele.

A mitomania: um transtorno psicológico onde a mentira é protagonista

As mentiras patológicas vão muito além de tudo isso. Implicam um salto em gravidade que não deveria passar despercebido para ninguém. Estas pessoas inventam experiências que não tiveram, mentem sobre a sua idade, sua profissão, sua vida passada, seus méritos acadêmicos ou profissionais, os lugares onde viveram… Mentem também sobre as pessoas que as rodeiam.

De alguma forma procuram preencher um vazio com estas mentiras e a sua justificativa é algo como: se eu detesto a minha vida e a minha pessoa, posso inventar um personagem com quem acontece tudo que eu sempre desejei. Isto faz com que os outros admirem a vida desta pessoa, e ela imediatamente se sente estimulada por isso; então, continuará mentindo já que descobriu que a priori não existem consequências negativas para ela, e sim que tudo são “vantagens”. Vantagens que se transformarão em veneno para a sua vida e para as dos que a rodeiam.

Esta forma de mentir vai gerando outro tipo de mentiras: as compulsivas. A pessoa já mente de forma automática. Evita o conflito interior e exterior sistematicamente e isso acaba transformando-se em um estilo de comportamento totalmente arraigado e perfeitamente estruturado. Evito, me valendo da mentira, aquilo que me cria conflito.

Quando são descobertos, ficam bravos e se protegem atacando

Quando o mentiroso é descoberto, costuma cobrir “a mentira” com outras mentiras. Se percebe que a pessoa não acreditou nele com facilidade e continua questionando, costuma se mostrar na defensiva e se protege atacando. Isto acaba prejudicando as relações, já que não dá para entender este comportamento visto de fora.

Isso acaba gerando desconfiança, e as pessoas que o rodeiam começam a viver em um estado de alerta constante, já que sentem que precisam encontrar a verdade a qualquer custo para poder confiar novamente.

“O castigo do trapaceiro é não ser crível, mesmo quando diz a verdade”
-Aristóteles-

A pessoa que mente sistematicamente e sem perceber precisa se dar a oportunidade de receber ajuda psicológica. Pense que com suas mentiras a única coisa que faz é tentar tapar um buraco que não para de crescer, e o faz sendo cúmplice da falsidade e da imaginação.

É preciso aceitar o que somos, realizar o que queremos, sem ter que recorrer às mentiras. A única coisa que elas fazem é nos afastar do que realmente almejamos em nossas vidas.
Fonte: Science of US
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POR QUE REPETIMOS OS MESMOS ERROS? - Maria Maura Fadel

De novo, de novo e de novo...
Quando conteúdos recalcados irrompem como sintoma,
sobrevém o sofrimento, mas também o alívio.

Em seu novo livro, o psicanalista e psiquiatra J.-D. Nasio parte de um questionamento comum, aparentemente comum, que a maioria das pessoas já fez em algum momento. A banalidade, porém, é mesmo só aparente: o tema é profundo, relacionado à constituição do sujeito e da subjetividade, ao determinismo psíquico – e arraigados sofrimentos que levam as pessoas a acreditar que são vítimas de um princípio “demoníaco”, como escreveu Sigmund Freud.

Por que repetimos os mesmo erros parte da noção de inconsciente, essa “força soberana que nos confere identidade social e nos impele a escolher a mulher ou o homem com quem compartilhamos a vida, a escolher a profissão que exercemos, a cidade ou a casa onde moramos – escolhas que julgamos deliberadas ou fortuitas ao passo que, na verdade, nos foram sutilmente ditadas pelo inconsciente”.

É essa instância que nos impele a repetir tanto o que nos faz bem, de forma sadia, quanto comportamentos que nos prejudicam.

Nasio reflete sobre essa ambivalência psíquica tomando como ponto de partida casos que fazem parte de sua experiência clínica. Destaca três leis que regem o processo repetitivo:
1. lei do mesmo e do diferente (algo jamais se repete de maneira absolutamente idêntica, aparece sempre um pouco diverso);
2. lei da alternância da presença e da ausência (a repetição não acontece todo o tempo);
3. lei da intervenção de um observador que enumera a repetição (só existe o fenômeno porque o contabilizamos, nomeamos e apontamos o número de vezes que ele se reproduz).

Embora muitos se deem conta do quanto são presas fáceis de cenários de fracasso que se reeditam levemente modificados, nem toda repetição é, necessariamente, prejudicial. Um dos pontos destacados no livro é seu efeito benéfico, quando associada à autopreservação, ao desenvolvimento e à formação da própria identidade – e sem caráter compulsivo.

Segundo Nasio, que durante 30 anos lecionou na Universidade de Paris VII, do ponto de vista psíquico é possível destacar três pontos de retorno ao próprio passado: por meio da consciência (marcada por recordações na maioria das vezes visuais, mas também táteis, gustativas ou olfativas ao que esteve esquecido, como Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust); em atos sadios (retorno, por meio dos comportamentos, a um passado conturbado e recalcado); e em atos patológicos (retorno compulsivo a um passado traumático e recalcado por meio de comportamentos).

As duas primeiras situações são qualificadas como sadias. A última, entretanto, tem caráter patológico.

É justamente a volta ao trauma que incomoda as pessoas que buscam atendimento psicológico ao perceberem, no presente, a eclosão do sintoma ou da ação impulsiva, também chamada de passagem ao ato. Sigmund Freud escreveu: “Os abalos inconscientes não querem ser rememorados, mas aspiram a reproduzir-se; o doente quer agir suas paixões”.

Nasio se encarregou dos grifos, ao definir a repetição patológica como uma série de pelo menos três ocorrências, na qual “uma emoção infantil, violenta, forcluída e recalcada aparece, desaparece, reaparece e reaparece novamente alguns anos mais tarde, na idade adulta, sob a forma de uma experiência perturbadora cujos paradigmas são o sintoma e a passagem ao ato”.

O autor destaca ainda duas formas básicas de repetição patológica: temporal e tópica. A temporal é facilmente detectada e o paciente sente que “faz parte dela”, é protagonista do sintoma, volta e meia se vê tragado por situações nas quais reconhece o sintoma. Já a repetição tópica ou espacial não é reconhecida pela pessoa, mas deduzida pelo analista.

Em Além do princípio do prazer, de 1920, Freud escreve que a criança nunca se cansa de repetir uma brincadeira ou ouvir uma história, é o adulto que lhe impõe o limite. Fica claro para qualquer um que tenha vivido diretamente ou presenciado esse tipo de situação que o prazer provocado pela repetição pode estar associado à compulsão pela gratificação. Mas quando conteúdos recalcados irrompem subitamente, transmutados em sintoma, o que sobrevém é o sofrimento. Ao mesmo tempo, porém, esse movimento permite uma descarga de tensão que, em algum nível, proporciona alívio.

Para dar conta dessa aparente contradição, Nasio recorre à teoria lacaniana, segundo a qual o gozo oferece dor e prazer, simultaneamente. O autor chama a atenção para o fato de que somos tanto atores quanto espectadores das repetições.

No momento em que retoma uma emoção traumática, a pessoa em análise é, simultaneamente, aquela que revive o trauma e que se observa revivendo essa experiência – e aí está uma porta possível para a ressignificação da repetição, da tentativa de controlar o que foi vivido passivamente. É um aspecto do que Nasio chama de “revivescência”, que se constitui ao longo de várias sessões psicanalíticas, indo muito além da rememoração.

O autor escreve: “Convém ao mesmo tempo sentir e ter consciência de sentir, dissociar-se entre aquele que revive o trauma e aquele que se vê revivendo o trauma”. Um processo árduo, delicado e em geral doloroso – mas felizmente possível e libertador.

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SINCRONICIDADE: A CIÊNCIA DAS COINCIDÊNCIAS

 “O mundo é um ovo” ou “Que mundo pequeno!” são expressões que certamente você já usou ou ouviu em algum momento. Essas expressões são usadas quando uma situação de coincidência acontece. Um encontro de surpresa com alguém que você conhece em uma cidade diferente da sua pode ser um exemplo de  coincidência. Mas o que aconteceria se soubéssemos que, na verdade, isso tem a ver com uma ciência chamada “sincronicidade”?

Mesma que pareça incrível, importantes pesquisadores estudaram e tentaram identificar as relações que podem existir entre dois fenômenos taxados como muito improváveis ou que parecem não ter conexão alguma. E não foram nomes muito desconhecidos os que tentaram dar alguma explicação para estes acontecimentos. Podemos falar de gente de renome, como Carl Jung, por exemplo, que inventou o termo “sincronicidade”.

“Uma vez é acidente, duas é coincidência, e três é ação do inimigo”.
– Ian Fleming –

O que é a sincronicidade?

Às vezes pensamos que o universo está nos enviando sinais quando acontecem coincidências que são muito surpreendentes. No entanto, para Jung, era simplesmente a sincronicidade, que poderia ser definida como a simultaneidade de diferentes eventos vinculados por um sentido que não é o da coincidência.

Ou seja, podemos resumir esta singular ciência em uma coincidência temporal de uma série de eventos (dois ou mais), que apesar de estarem relacionados entre si, não são influenciados um pelo outro. No entanto, existe uma relação de conteúdo.

Para tentar tornar isso mais fácil, imagine que você tem um bom amigo. Um dia, conversando com o seu pai, você fala para ele sobre essa amizade e comenta seu nome com ele, quem são seus familiares, etc. Assim, do nada, seu pai percebe que seu amigo tem uma relação familiar distante com a sua, porque o avô de seu amigo e a sua avó eram primos de segundo grau.

Observemos no exemplo que o fato de você e do seu amigo serem parentes distantes não tem nada a ver com a sua amizade e nem com como ela aconteceu. No entanto, há uma relação de conteúdo, mas não de coincidência.

Mais detalhes curiosos sobre a sincronicidade

Muitos autores estudaram ou falaram, inclusive sem saber, sobre essa peculiar ciência. Para Friedrich Schiller, por exemplo, o acaso surge de fontes profundas, por isso a coincidência não existe. No entanto, o surrealista André Bretón considerava a existência do acaso objetivo, quando seus desejos convergem com o que o mundo oferece.

Porém, de acordo com Jung, quando falamos de sincronicidade, nos referimos à união de acontecimentos internos e externos. Sendo assim, o indivíduo que vive determinados acontecimentos encontra sentido na unificação de ambos.

Apesar de acudirmos à metafísica para justificar estes acontecimentos, como pode ser o acaso ou a sorte, inclusive a magia, na realidade aconteceriam em forma de atração inconsciente. Uma atração inconsciente que faz com que as coisas aconteçam, pelo menos de acordo com o que Jung considera. Isso nos leva ao reconhecimento de padrões.

É por isso que esta teoria do autor, que nasce da psicanálise, choca-se com movimentos racionalistas e materialistas. Entretanto, o famoso psicólogo estabelecia épocas mais ou menos propícias para o aparecimento das sincronicidades..

O reconhecimento de padrões

Cabe destacar que Jung estabelecia a sincronicidade ou ocorrência como uma busca de padrões reconhecíveis. Por essa razão, segundo o psicanalista, fases após a morte de pessoas queridas ou mudanças no trabalho provocam uma maior energia para a coincidência. Tudo isso se deve às mudanças provocadas em nós após essas situações, que nos levam a buscar padrões reconhecíveis que deem sentido a nossa busca. Assim, este impulso de reconhecimento que parece que todos nós temos, é a base da sincronicidade.

De acordo com alguns estudos, em momentos de elevada quantidade de dopamina no cérebro, caso de situações estressantes ou de grande profundidade emocional, nós tendemos ao pensamento mágico. Porém, essa magia, que seria a coincidência, é na realidade a sincronicidade.

No entanto, não se deve desprezar a necessidade de busca por padrões. Isso é algo natural que temos na mente humana desde o tempo das cavernas. E mais, este tipo de pensamento está ligado à anedonia, cuja inexistência poderia provocar a incapacidade de sentir prazer. Ou seja, essa é, na realidade, uma habilidade que nos ajudou a sobreviver durante milhares de anos.

“Não acredito na coincidência nem na necessidade. Minha vontade é o destino”.
– John Milton

Então não pense na loucura da coincidência e do acidente. Somos propensos a procurar padrões e, em muitas ocasiões, nosso cérebro lida com essa informação de forma inconsciente. Entretanto, é um mecanismo valioso que nos ajuda a tomar decisões. Talvez a magia da coincidência não exista, mas pode ser bonito e útil pensar que sim.
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CARTA DE GEORGE ORWELL EXPLICANDO O LIVRO 1984

1984 é um dos romances mais influentes do século XX. Lançada poucos meses antes da morte de George Orwell, é uma obra magistral que ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder totalitário. Em 1944, três anos antes de escrever 1984 e cinco antes de sua publicação, George Orwell encaminhou a Noel Willmett uma carta em que detalhava a tese de seu grande romance. A seguir, leia a carta e conheça mais sobre o que pensava o autor de um dos clássicos modernos mais importantes da literatura mundial.

Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.
  
Para Noel Willmett
18 de maio de 1944
10a Mortimer Crescent NW 6
  
Caro Sr. Willmett,

Muito obrigado pela sua carta. O senhor pergunta se o totalitarismo, culto ao caudilho etc. estão em ascensão de fato, ressaltando que essas coisas, aparentemente, não registram crescimento aqui na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Insisto que acredito, ou temo, que quando se observa o mundo em sua totalidade, essas coisas estão aumentando. Claro, não restam dúvidas de que Hitler em breve será passado, mas somente às custas do fortalecimento de (a) Stálin, (b) dos milionários anglo-americanos e (c) de todo tipo de fuhrerzinho à la de Gaulle. Para onde quer que se olhe, todos os movimentos nacionalistas, mesmo os que surgiram como forma de resistência ao domínio alemão, parecem assumir formas não-democráticas, organizando-se em torno a algum tipo de fuhrer sobre-humano (Hitler, Stálin, Salazar, Franco, Gandhi, De Valera e vários outros modelos) e adotando a teoria dos fins que justificam os meios.

Por toda parte, o mundo parece convergir para economias centralizadas, que podem até “funcionar” no sentido econômico do termo, mas que não são democraticamente organizadas, possuindo o pendor a estabelecer um sistema de castas. Acrescente-se a isto o horror do nacionalismo exacerbado e uma tendência à descrença na existência das verdades objetivas, já que todos os fatos têm que se adequar às palavras e profecias de algum fuhrer infalível. Na verdade, em certo sentido, a história já deixou de existir, não havendo mais uma história contemporânea que possa ser universalmente aceita, e as ciências exatas também estarão ameaçadas tão logo não se precise mais do exército para manter a ordem. Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e se ele sobreviver, isso passará a ser a história oficial. 

Mas ele não pode dizer que dois mais dois são cinco, porque para os objetivos, digamos, da balística é preciso que essa soma continue sendo quatro. Mas se o tipo de mundo que eu temo vier a se tornar realidade, um mundo de dois ou três grandes super Estados incapazes de conquistar um ao outro, dois mais dois será cinco se o fuhrer assim o desejar. E é para aí, até onde posso enxergar, que estamos nos movendo de fato, embora, claro, esse processo seja reversível.

No que respeita à comparativa imunidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, digam o que disserem os pacifistas etc., ainda não trilhamos o caminho do totalitarismo, o que é um bom sinal. Eu acredito profundamente, o que expliquei em O leão e o unicórnio, no povo inglês e em sua capacidade de centralizar sua economia sem destruir a liberdade no processo. Mas é preciso recordar que a Inglaterra e os Estados Unidos não foram de fato postos à prova, nenhum deles sofreu uma derrota ou perda severa, e que há alguns maus sintomas que podem desequilibrar os bons. Comecemos com a falta de preocupação generalizada com a decadência da democracia. 

O senhor se dá conta, por exemplo, que na Inglaterra de hoje, ninguém com menos de 26 anos vota e que, pelo que se pode constatar, a grande maioria dos que estão nessa faixa etária não dá a mínima para isso? Acrescente-se que os intelectuais são mais propensos a soluções totalitárias que o vulgo. Os intelectuais ingleses, é verdade, se opuseram majoritariamente a Hitler, mas somente às expensas de aceitar Stálin. A maioria deles está perfeitamente pronta para os procedimentos ditatoriais — polícia secreta, falsificação sistemática da história etc. –, desde que a percepção deles indique que isso esteja “do nosso” lado. Na verdade, a afirmação de que não temos um movimento fascista na Inglaterra significa mais que os jovens, no momento, buscam seu fuhrer em outro lugar. 

Não é possível assegurar que isso não vá mudar, nem que a gente comum não vá daqui a dez anos pensar como os intelectuais ingleses pensam agora. Eu espero que não, eu chego a acreditar que não vão, mas se for assim, não será sem conflito. Simplesmente afirmar que tudo vai bem, sem identificar alguns sintomas sinistros, apenas ajuda a fazer do totalitarismo uma possibilidade mais próxima.

O senhor também me pergunta se, uma vez que julgo que o mundo está rumando em direção ao fascismo, por que então apoio a guerra. Trata-se de uma escolha entre dois males — creio que toda guerra o é. Eu conheço o imperialismo britânico o suficiente para não o apreciar, mas eu o apoiaria contra os imperialismos nazista e japonês, como o mal menor. Do mesmo modo, eu apoiaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas contra a Alemanha, por julgar que a URSS não pode, a um só tempo, fugir do seu passado e manter o suficiente dos ideais originais da Revolução Russa, o que faz dela um fenômeno mais esperançoso que o da Alemanha Nazista. 

Eu acredito, e é isso o que penso desde que a guerra eclodiu, por volta de 1936, que nossa causa é a melhor, mas que temos que continuar a fazer com que ela evolua, e isso implica um constante exercício crítico.

Sinceramente, seu,

Geo. Orwell


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To Noel Willmett
18 May 1944
10a Mortimer Crescent NW 6

Dear Mr Willmett,

Many thanks for your letter. You ask whether totalitarianism, leader-worship etc. are really on the up-grade and instance the fact that they are not apparently growing in this country and the USA.

I must say I believe, or fear, that taking the world as a whole these things are on the increase. Hitler, no doubt, will soon disappear, but only at the expense of strengthening (a) Stalin, (b) the Anglo-American millionaires and (c) all sorts of petty fuhrers° of the type of de Gaulle. All the national movements everywhere, even those that originate in resistance to German domination, seem to take non-democratic forms, to group themselves round some superhuman fuhrer (Hitler, Stalin, Salazar, Franco, Gandhi, De Valera are all varying examples) and to adopt the theory that the end justifies the means. Everywhere the world movement seems to be in the direction of centralised economies which can be made to ‘work’ in an economic sense but which are not democratically organised and which tend to establish a caste system. 

With this go the horrors of emotional nationalism and a tendency to disbelieve in the existence of objective truth because all the facts have to fit in with the words and prophecies of some infallible fuhrer. 

Already history has in a sense ceased to exist, ie. there is no such thing as a history of our own times which could be universally accepted, and the exact sciences are endangered as soon as military necessity ceases to keep people up to the mark. Hitler can say that the Jews started the war, and if he survives that will become official history. He can’t say that two and two are five, because for the purposes of, say, ballistics they have to make four. But if the sort of world that I am afraid of arrives, a world of two or three great superstates which are unable to conquer one another, two and two could become five if the fuhrer wished it.1 That, so far as I can see, is the direction in which we are actually moving, though, of course, the process is reversible.

As to the comparative immunity of Britain and the USA. Whatever the pacifists etc. may say, we have not gone totalitarian yet and this is a very hopeful symptom. I believe very deeply, as I explained in my book The Lion and the Unicorn, in the English people and in their capacity to centralise their economy without destroying freedom in doing so. But one must remember that Britain and the USA haven’t been really tried, they haven’t known defeat or severe suffering, and there are some bad symptoms to balance the good ones. To begin with there is the general indifference to the decay of democracy. Do you realise, for instance, that no one in England under 26 now has a vote and that so far as one can see the great mass of people of that age don’t give a damn for this? Secondly there is the fact that the intellectuals are more totalitarian in outlook than the common people. On the whole the English intelligentsia have opposed Hitler, but only at the price of accepting Stalin. Most of them are perfectly ready for dictatorial methods, secret police, systematic falsification of history2 etc. so long as they feel that it is on ‘our’ side. Indeed the statement that we haven’t a Fascist movement in England largely means that the young, at this moment, look for their fuhrer elsewhere. 

One can’t be sure that that won’t change, nor can one be sure that the common people won’t think ten years hence as the intellectuals do now. I hope3 they won’t, I even trust they won’t, but if so it will be at the cost of a struggle. If one simply proclaims that all is for the best and doesn’t point to the sinister symptoms, one is merely helping to bring totalitarianism nearer.

You also ask, if I think the world tendency is towards Fascism, why do I support the war. It is a choice of evils—I fancy nearly every war is that. I know enough of British imperialism not to like it, but I would support it against Nazism or Japanese imperialism, as the lesser evil. Similarly I would support the USSR against Germany because I think the USSR cannot altogether escape its past and retains enough of the original ideas of the Revolution to make it a more hopeful phenomenon than Nazi Germany. 

I think, and have thought ever since the war began, in 1936 or thereabouts, that our cause is the better, but we have to keep on making it the better, which involves constant criticism.

Yours sincerely,

Geo. Orwell
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