6 de jul. de 2020

O TEU RISO - Poesia - Pablo Neruda


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
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O MEDO DA FELICIDADE – Flávio Gikovate

Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.

Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.

Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.

Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.

O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.

O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!

Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.

Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.

Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.

Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank. Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.

A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.

Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.

Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade. Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.

A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.

Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente. Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.

Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado. Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!
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TALES DE MILETO - Frases


“Toma para ti o conselho que dá aos outros”.

“Ajuda teu semelhante a levantar sua carga, mas não a carregues “.

“Espera do teu filho o mesmo que fizeste a teu pai”.

"Nunca faças o que te desagrada ver fazer a outros."

"A esperança é o único bem comum a todos os homens; aqueles que nada mais têm - ainda a possuem."

"Muitas palavras não indicam necessariamente muita sabedoria."

"O rico nem sempre é sábio, mas o sábio é sempre rico."

“O que há mais difícil neste mundo é o homem conhecer a si mesmo”.

"A felicidade do corpo funda-se na saúde; a da razão no saber. "

" Não há coisa mais funesta que a maldade, que chega a ferir até o homem honrado a quem toca. "

" Não há coisa mais veloz do que a mente que, em qualquer instante, está onde quer. "

" Não tenhamos apenas as mãos limpas; tenhamos também o espírito. "

"Procure sempre uma ocupação; quando o tiver não pense em outra coisa além de procurar fazê-lo bem feito."

DONA DOIDA - Poesia -Adélia Prado


Uma vez, quando eu era menina, 
choveu grosso com trovoadas e clarões, 
exatamente como chove agora. 
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.
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JEAN-JACQUES ROUSSEAU – SOBRE A PREGUIÇA


É inconcebível a que ponto o homem é naturalmente preguiçoso. Dir-se-ia que ele só vive para dormir, vegetar, ficar imóvel; ele mal consegue se dispor a fazer os movimentos necessários para se impedir de morrer de fome.

Nada mantém tanto os selvagens no amor do seu estado que essa deliciosa indolência. As paixões que tornam o homem inquieto, previdente, ativo, só nascem na sociedade. Nada fazer é a primeira e a mais forte paixão do homem, depois da de se conservar. 

Olhando-se bem, vê-se que, mesmo entre nós, é para chegar ao repouso que cada qual trabalha; é a própria preguiça que nos torna laboriosos.
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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...